novembro 2024 - Fusão

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Saúde Feminina: Um estigma por desconstruir

novembro 25, 2024 0
Saúde Feminina: Um estigma por desconstruir

 



Hoje, “800 mulheres morrem todos os dias ao dar à luz, (...) e quase uma em cada 10 mulheres não pode tomar as suas próprias decisões sobre contraceção”. Assim se lê no relatório sobre a Situação da População Mundial em 2024, publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA). A prevalência desta precariedade destaca-se no continente africano, onde as mulheres têm uma probabilidade cerca de 130 vezes maior do que as vizinhas europeias de morrer por complicações na gravidez e no parto.[1] E isto é dizer mais ainda, quando até em alguns países do famigerado 1º mundo a mortalidade materna retrocedeu. Talvez por ser tão normal receber a notícia de que estavam “oito serviços de urgência de ginecologia e obstetrícia encerrados no fim-de-semana” numa vulgar tarde de agosto do corrente ano de 2024, e que a situação piorou de tal forma que as grávidas em Leiria tinham de ir até ao Porto se entrassem em trabalho de parto.[2] Para algumas mulheres, foi mais acessível ir ao santuário pedir à Nossa Senhora uma melhoria nos cuidados obstétricos duas vezes por dia do que ter condições para parir o próprio filho. Daqui a uns anos, não só não existirá Leiria como não existirão crianças naturais de lá. 


De facto, se qualquer pessoa com um cérebro está sujeita a patologias neurológicas, qualquer pessoa com um útero está sujeita a patologias ginecológicas. Mas a incidência destas patologias mostra-se excessiva quando comparada à frequência com que são mencionadas. Por exemplo, cerca de 1 em cada 10 pessoas com útero em idade reprodutiva sofre de Endometriose - uma doença que provoca inflamação e fibrose do endométrio, com episódios de dor incapacitante, a qual não tem cura.[3] Já a Síndrome do Ovário Poliquístico (PCOS) afeta entre 8 a 13% do mesmo grupo, das quais cerca de 70% permanecem sem um diagnóstico, com sequelas como a infertilidade, excesso de peso e pelo facial derivados de distúrbios hormonais, e que constitui grupo de risco para uma panóplia de doenças tais como a diabetes tipo II e a hipertensão.[4] No tratamento destas doenças, o impacto que uma abordagem desleixada e impessoal tem num doente ginecológico é desumanizante. E vai muito para além do que conseguimos observar.


No entanto, nem só das patologias vive o homem. Ter um sistema reprodutor feminino é sinónimo de passar por um conjunto de transições, algo que compreende o seu nível de cuidado e atenção. Mas para as mulheres na menopausa, nem sempre é esse o caso. As alterações hormonais que compreendem este período arrecadam um conjunto de sintomas que impactam desde a saúde física à saúde mental - tanto a suscetibilidade para a ansiedade e depressão, como as ondas de calor, alterações de peso e dos padrões de memória. Acresce-se ainda a perceção social de que a menopausa significa a entrada na velhice - o que altera certamente a imagem que a mulher constitui de si própria.[5]

Sendo uma transição que exige muito de quem a enfrenta, a menopausa é também um mar de desconhecimento para a maioria das mulheres. Desde as adaptações do estilo de vida à Terapia Hormonal de Substituição (THS), o acompanhamento desta etapa deve ser feito de forma adequada a cada pessoa. Ainda assim, a falta de informação, aliada à falta de disponibilidade do sistema de saúde, resultam numa gestão da saúde feminina que deixa muito a desejar 


Segundo uma estimativa do Fórum Económico Mundial, “corrigir as desigualdades ligadas à endometriose e à menopausa – que há muito são consideradas pouco estudadas – poderia significar uma contribuição de 130 mil milhões de dólares (119,8 mil milhões de euros) para o produto interno bruto (PIB) mundial até 2040”.[6]

Então, porque será que há tão pouca informação relativa à saúde das mulheres? Sabemos hoje que “são diagnosticadas mais tarde que os homens em relação a 700 doenças diferentes”.[6] Sabemos, ainda, que muitas permanecem por diagnosticar, e que mesmo aquelas que já o são, com o avanço dos cuidados de saúde e da tecnologia, pouco ou nada são informadas sobre aquilo que se passa com o seu próprio corpo. 

Como qualquer doença que influencie o equilíbrio hormonal, uma patologia ou circunstância ginecológica como as acima mencionadas oferecem um leque de manifestações sintomáticas que põem em causa a autoestima e que exigem adaptações físicas e psicológicas de grande impacto. Seria o dever de qualquer profissional de saúde expor e aconselhar sobre as implicações da doença em questão. No entanto, o tratamento proporcionado a estas pessoas fica muito aquém do expectável, questionando a dignidade de quem exige um direito fundamental.


Hoje, dia 25 de novembro, realiza-se uma marcha para a eliminação da violência contra as mulheres, organizada pela CooLabora. Esta marcha tem início às 18h, no Jardim Público, e conta com várias entidades, entre as quais a Comissão para a Igualdade da UBI, a Covilhã a Marchar, a Academia Sénior e a AAUBI. Até agora, foram também elaborados os cartazes, bandeiras e faixas, com a colaboração do MedUBI, o Museu dos Lanifícios, a AAUBI e o NELA-UBI, bem como uma sessão solene no passado dia 22, na qual foram apresentados os dados da violência de género na Covilhã, e o trabalho da rede Violência O.


Há muitas melhorias em vista, e espaço para o fazer. É urgente agir de forma mais rápida e eficaz. Não há vergonha em ser mulher, nem deve havê-la em tratar uma. E os padrões por que se rege a sociedade são construídos por cada um de nós.



Referências:

  1. UNFPA: milhões de mulheres continuam sem acesso a cuidados de saúde sexual e reprodutiva. ONU Portugal. 2024. https://unric.org/pt/unfpa-milhoes-de-mulheres-continuam-sem-acesso-a-cuidados-de-saude-sexual-e-reprodutiva/ 

  2. Agência Lusa, Oito serviços de urgência de ginecologia e obstetrícia encerrados no fim-de-semana. RTP. 2024. https://www.rtp.pt/noticias/pais/oito-servicos-de-urgencia-de-ginecologia-e-obstetricia-encerrados-no-fim-de-semana_n1590580 

  3. Bastos, Cristina, Endometriose - A doença invisível aos olhos. News@FMUL. 2021; 110.  https://www.medicina.ulisboa.pt/newsfmul-artigo/110/endometriose-doenca-invisivel-aos-olhos 

  4. Polycystic ovary syndrome. World Health Organization. 2023. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/polycystic-ovary-syndrome 

  5. Valente, Ana Carina, Cada mulher vive a menopausa de uma forma única. Público. 2024. https://www.publico.pt/2024/07/09/impar/opiniao/mulher-vive-menopausa-forma-unica-2096886 

  6. Agência Lusa, Diferença de atenção dada à saúde de mulheres e homens custa 920 mil milhões de euros por ano, segundo relatório. Observador. 2024. https://observador.pt/2024/01/17/diferenca-de-atencao-dada-a-saude-de-mulheres-e-homens-custa-920-mil-milhoes-de-euros-por-ano-segundo-relatorio/ 



Artigo de: Carolina Troia

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Residências Universitárias, a vergonha de Portugal!

novembro 21, 2024 0
Residências Universitárias, a vergonha de Portugal!

 


Portugal, meu doce Portugal! O que te estão a fazer ? Qualquer dia fica mais caro ter quarto numa residência universitária do que ir à lua! 

Contextualizando um pouco a situação, tudo começa no dia em que saem as colocações para o Ensino Superior. Entrei, não entrei? Eia! Fui parar ao outro lado de Portugal! E assim surge a mais macabra das aventuras de um caloiro: procurar um quarto para passar os próximos 10 meses.

Ora liga para aqui, ora liga para ali. Ora entra num grupo do facebook, ora vê um anúncio na OLX, e aos poucos reduzem-se as opções, até que, finalmente, depois desta demanda louca, aparece o tal, o único, o verdadeiro: o quarto “ideal”. E, assim, lançados vão para os melhores anos das suas vidas.

Há quem tenha sorte de realmente ficar em excelentes condições (dentro de um preço considerado “acessível” à carteira dos papás), os outros, os nómadas, nunca ficam contentes com o que têm e todos os anos mudam de quarto.

Mas, a realidade é que muitas vezes essas mudanças não são por picuinhice, são por necessidade! Torna-se uma procura incessante: a busca pelo melhor e o mais barato possível. 

Alugar quartos a estudantes está a tornar-se cada vez mais um negócio.  A ganância é tanta que muitas das vezes pedem balúrdios de dinheiro por um cubículo mal amparados a 3 horas da faculdade! Ou então retiram todo o conforto e lazer aos pobres estudantes transformando as salas de estar em quartos. E assim acabaram-se as tardes a ver jogos de futebol com os amigos e umas minis ou os derradeiros jantares que se prolongam noite fora.


Infelizmente, hoje em dia o negócio imobiliário está tão caro que muitos estudantes são obrigados a optar por alugar um quarto numa residência. Quer dizer, depende, há residências universitárias privadas, que têm um mundo lá dentro: desde ginásio a sala de cinema passando ainda pelo mini mercado onde se pode comprar papel higiénico (tão essencial nas desagradáveis “emergências”). E aí sim! Vale a pena ter um quarto numa residência. Mas não é esse o ponto.

No caso das residências públicas, chegam a morar duas pessoas num quarto e por vezes têm, no máximo, uma casa de banho com chuveiros para um andar inteiro. Custa a crer que, por vezes, nem forno têm, o que me faz refletir sobre as míseras condições em que algumas pessoas vivem: sem privacidade, conforto ou condições mínimas.

Mas mesmo que não proporcionem o top de qualidade, estas residências são a única opção que muitos estudantes têm para virem estudar de modo a progredirem na vida! 

É muito triste perceber que a maior barreira que um estudante enfrenta são os preços elevadíssimos de algo considerado um bem essencial: um teto para descansar! Por vezes, a possibilidade de frequentar uma residência pública está interligada com as bolsas de estudo e já me deparei com casos de estudantes que perderam as bolsas (e posteriormente acesso a um quarto numa residência) por terem feito uns biscates no verão, sendo obrigados a desistirem de um sonho por não terem condições financeiras para alugar um quarto. É realmente decepcionante!


Pedi a um amigo, Rui Ferreira, recém-formado em Medicina, que me desse o sua opinião sobre este assunto:

“ Ao longo dos meus anos enquanto estudante deslocado na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra passei por diferentes alojamentos, tendo contactado com diferentes senhorios, diferentes colegas de casa e também diferentes condições de alojamento.

Como acontece com a maioria dos estudantes de Coimbra e de outras cidades, quando ingressei no Ensino Superior em 2017, vi-me na obrigação de arrendar um quarto. Na altura, deparei-me com várias opções: de preços mais caros aos mais acessíveis, com mais ou menos pessoas por apartamento, com melhores ou piores condições, com mais restrições (como arrendamento apenas a raparigas) ou menos restritos.

Quando andei à procura do meu primeiro quarto, não tive dificuldade em encontrar um a um preço acessível, bem localizado e com condições que me agradaram na altura. Desde aí mudei duas vezes de quarto por diferentes circunstâncias. A realidade da maioria dos estudantes nesta situação passa muito por procurar melhores condições ou preços mais acessíveis, mas atualmente a busca por algum destes requisitos torna-se cada vez mais difícil.

Sei, por anúncios que vou encontrando e conversas que vou tendo com colegas e amigos, que a oferta no mercado imobiliário, e em específico no que toca arrendamento de quartos para estudantes, está muito diferente do que era há sete anos.

Ao comparar a oferta disponível atualmente com a que encontrei no meu primeiro ano de faculdade, existe uma grande diferença, que é o preço. O aumento drástico de preços que observamos para arrendar um quarto não condiz muitas vezes com as condições da casa ou com o salário do arrendatário. São vários os casos, e que inclusive já experienciei, em que os arrendadores transformam divisões como salas de estar, dispensas ou até mesmo halls de entrada em quartos, com o objetivo de alojar mais uma pessoa e receber mais uma renda, não pensando se as restantes divisões, como cozinha ou casas de banho, conseguem oferecer condições suficientes para o bem-estar das pessoas que estão lá alojadas. Em troca, o que observamos é um aumento significativo da relação renda/salário, ocupando assim esta despesa uma parcela cada vez mais significativa dos ganhos das famílias em Portugal.

A realidade que há uns anos apenas se observava em grandes cidades como Lisboa ou Porto está a agravar-se e a alastrar-se a todos os cantos do país. Com isto, torna-se urgente resolver a crise que se verifica no setor imobiliário, através de medidas que promovam o arrendamento mais acessível, apoiando tanto arrendatários, com aumento da oferta de habitação, como proprietários, através de incentivos para a redução do aluguer para valores abaixo do preço de mercado, e finalmente, regular o mercado de arrendamento para evitar aumentos abusivos de preços como se tem vindo a observar nos últimos anos.”


Ao ler o testemunho do Rui despertou-me a curiosidade e fui tentar perceber como evoluiu o mercado imobiliário ao longo dos últimos anos. De acordo com o site Idealista, nos últimos 9 anos, em Coimbra, Porto e Lisboa ocorreu um aumento significativo do preço de arrendamento por metro quadrado. Comparando com o ano de 2015, Lisboa teve um aumento de  14,6 euros, no Porto aumentou 10,7 euros e Coimbra sofreu um aumento de 6,1 euros. Se considerarmos que arrendar um quarto com 12 metros quadrados em 2015 custava 200 euros, hoje em dia, em teoria, esse mesmo quarto em Lisboa custaria 375,2 euros, no Porto custaria 328,4 e em Coimbra custaria 275,6 euros. No entanto, na realidade, em média, arrendar um quarto em Lisboa custa cerca de 450/500 euros, no Porto 350/ 400 euros e em Coimbra 280/320 euros. 

Em suma, e fazendo as palavras do Rui, minhas: se isto continuar assim acabamos a dormir todos no chão da faculdade!

  

Filipe Gaspar


Referências

https://www.idealista.pt/media/relatorios-preco-habitacao/arrendamento/


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

A arte é bué de cenas: I who have never known men

novembro 15, 2024 0
A arte é bué de cenas: I who have never known men





Numa altura em que a revolta (justificada) contra os homens tomou as redes sociais, um mundo sem conhecer homens parece uma utopia. Trago-vos algo diferente. Uma distopia de uma mulheres, não para mulheres, mas para qualquer um. (Spoiler alert: sensível para ansiosos que gostam de compreender tudo à primeira.) Trago-vos um livro maravilhoso sobre relações humanas, existencialismos, sofrimento, liberdade e camaradagem, escrito por uma mulher belga que queria ser médica. Um livro publicado em 1995 sobre morte, intimidade, feminilidade. Uma apologia ao absurdismo de Camus. Pretensioso?


Esta história acompanha uma de 39 mulheres prisioneiras num bunker subterrâneo. Nenhuma delas sabe como chegou ali nem o motivo de estarem presas. Guardas, homens, patrulham o bunker em silêncio, e as mulheres são vigiadas 24 horas por dia. A protagonista é a mais jovem do grupo e, ao contrário das suas colegas mais velhas, não tem memória da sua vida antes de chegar ao bunker


“As far back as I can recall, I have been in the bunker. Is that what they mean by memories?”


Frequentemente, sente-se alienada e precisa das parceiras para obter qualquer informação sobre o mundo exterior, pois elas são sua única conexão com o que existe além daquelas paredes. Um dia, tudo muda quando um evento inesperado permite que as mulheres escapem do cativeiro. Agora, deparam-se com um mundo novo e estranho e precisam de encontrar o seu lugar nele. A história segue o grupo enquanto exploram uma natureza selvagem desconhecida, num mundo sem a presença de homens, ou de qualquer ser humano para além delas.


Mas afinal, o que torna este livro especial, diferente das distopias “clássicas”? Geralmente (e não querendo correr o risco de generalizações, tão perigosas na sociedade atual, portanto, desde já, perdoem-me) essas histórias são críticas sociais, mostrando como certas ideologias, políticas ou avanços tecnológicos, levados ao extremo, podem limitar a liberdade, eliminar a individualidade e destruir a ética humana. Temas comuns como a vigilância constante, a manipulação da verdade, a perda da identidade pessoal e o impacto do conformismo são costume. 


I who have never known men” não foge totalmente à regra, com a exceção de ser, de uma certa perspetiva, esperançoso, de enaltecer o sentido de pertença a uma comunidade e um profundo desejo humano por civilização. A verdade é que em 188 páginas (mais coisa, menos coisa, depende sempre das versões) a autora mantém-nos agarrados a conceitos que só podemos tentar compreender, dá-nos um nó no cérebro e faz-nos questionar, como, porquê.


A autora não está particularmente interessada em fornecer respostas fáceis para a situação dessas mulheres; mas sim explorar como as personagens que criou reagem ao ambiente peculiar em que foram lançadas, em vez de se concentrar nos eventos em si mesmos. Assim, onde ela realmente se destaca é ao colocar o leitor na mesma posição que essas mulheres – o desejo inicial por respostas, seguido da conclusão inevitável de que uma explicação simples provavelmente não virá, levando, por fim, à aceitação gradual dessas circunstâncias, por mais irreais que possam parecer.


I was forced to acknowledge too late, much too late, that I too had loved, that I was capable of suffering, and that I was human after all.


A verdade é que o ambiente que rodeia a personagem principal até pode ser desolado e estéril, mas o seu espírito permanece vibrante - chegamos ao final e a única certeza que temos enquanto leitores, é que não se pode dizer que a sua vida, por mais incomum e restrita que fosse, não valeu a pena ser vivida. 


Não pretendo convencer-vos a ler o livro, mas deixo-vos com uma questão: num mundo de nada, terá lugar o saber? 


“This bizarre world that I inhabited was kind enough to add a few more questions to my list of unanswered ones.”


Maria Monteiro





quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O que faz um médico valer mais que uma pérola

novembro 13, 2024 0
O que faz um médico valer mais que uma pérola


Todos os DIas, desde O início do curso, ou mesmo desde o início da vida, que nos perGuntamos sObre o que torna um médico num bom médico. Todos eles ou, pelo menos, quase todos, querem ser bons. Querem cuidar de PessoAs, querem salvar vidas e querem, no fundo, fazer do mundo um lugar melhor. Mas Isso é muito difícil. Requer conhecimento, simpatia, empatia e até, por vezes, um pouco de sorte.


O mundo evolui todos os dias. É difícil acompanhar a atualização científica. Todos os dias surgem doenças e fármacos novos. Os princípios da saúde pública de hoje não são os mesmos de há 50 anos. Alguns médicos mais velhos (e alguns bem novos) possuem os seus próprios estigmas contra determinadas populações e patologias, e nem sempre estão abertos à atualização e ao conhecimento. 

Os portugueses são burros? Em nenhuma circunstância generalizar é um sinal de inteligência. Por eXemplo, a ideia de que “só determinada faixa da populaçÃO é que «apanha» HIV”[1] ainda é Muito presente nA cabeça de alguns médicos, Refletindo um preconceito disfarçado, e uma forma de homofobia internalizada QUE ignora o impacto da pandemia entre diferenteS grupos e assume, de forma simplista e errada, que o HIV afeta apenas certas pessoas. No entanto, um bom médico sabe que a saúde pública procura proteger toda a população, e não apenas aqueles que passam por um suposto “teste de moralidade” - ninguém merece menos acesso aos cuidados de saúde. Pois, se fôssemos por este “teste de moralidade” o que tornaria moral tratar fumadores com cancro do pulmão? Um bom médico sabe que a PrEP é custo-efetiva e que, no fundo, poupa “dinheiro dos contribuintes”[2], não sendo apenas útil para o “gangue do arco-íris”[3].


Outro tema que passa por esse estigma é o tema de “matar fetos”[4]. Alguns médicos ainda consideram que quem pratica a interrupção voluntária da gravidez (IVG) se está a aproveitar de “uma alternativa aceitável de contraceção, ao invés de uma alternativa de última linha para situações muito específicas.”[5] Um bom médico sabe que o aborto não é um método contracetivo, e tratá-lo assim é desinformado e desrespeitoso. Um bom médico sabe das decisões complexas que envolvem uma gravidez não planeada e das realidades emocionais e físicas de quem passa por essa experiência. A verdade é que ninguém quer que o aborto seja método contracetivo. Nem nunca ninguém quis. Já numa velhinha circular normativa da DGS de 2007 pode-se ler: “Na consulta prévia, deverá ser discutida a questão do uso de contracepção (...) promovendo-se a escolha de um método contraceptivo adequado a iniciar, mais precocemente possível, após a interrupção da gravidez.”[6]  Um bom médico sabe disto e, até pode não concordar com a IVG, tornando-se objetor de consciência, mas um bom médico sabe que tem sempre de oferecer o melhor tratamento ao seu paciente, e que, quando não concorda com a abordagem pretendida, deve encaminhá-lo para um colega adequado. Apesar de ser bastante contraditório se o médico em questão havia declarado que “o Juramento de Hipócrates já não se utiliza há muito tempo”[7].


Um bom médico é um médico de todos. É um médico da comunidade. Comunidade esta que vai desde “o português, que acha normal que uma certa e determinada etnia viva acima da lei e ataque quem bem quiser, sem qualquer tipo de consequência”[8] até ao português que é dessa etnia. É um médico que trata todos e que não faz generalizações infundadas, não estigmatiza e não marginaliza populações inteiras. É um médico que percebe as dificuldades de integração de determinados segmentos sociais, e que procura ter um papel ativo na sua inclusão.

Um bom médico percebe que se um paciente vai ao serviço de urgência e “nem a própria medicação sabe”[9] é porque talvez alguém não lhe tenha explicado a importância de saber os medicamentos que toma. Ou percebe que talvez o paciente não tenha literacia suficiente para conseguir decorar os medicamentos, já que eles têm nomes que até para os próprios médicos são difíceis. Um bom médico tenta perceber os motivos que movem aqueles que trata. 

Um bom médico sabe que obesidade não é apenas “IMC>35”[10]. Um bom médico sabe que o IMC já não é uma medida tão globalmente aceite e sabe que a obesidade é uma doença multifatorial e que deve ser tratada sem julgamento. 

Acima de tudo, um bom médico não impõe a sua ideologia social e política no exercício da sua função, uma vez jurado o máximo respeito pela vida humana (o que inclui humanos com qualquer cor de cabelo e restrição alimentar). E um bom médico, com a premissa de ser um bom cidadão, não disfarça o extremismo com peles de cordeiro e demagogia, nem abusa do seu tempo de antena para apelar ao ódio. 


Um bom médico pode expressar a sua opinião. Todos têm o direito de expressar opiniões, e o problema nunca será a liberdade de expressão em si, mas sim a responsabilidade de quem, por meio da sua profissão, influencia e impacta vidas.

Ser bom médico é tratar sem julgar. É perceber o lado do paciente. É tratar todos por igual. É ter respeito. É ser bem melhor do que uma pérola, até porque já ninguém usa pérolas, não são vegan. 




P.S.: “37,5ºC não é febre”[11] é um conceito mais do que ultrapassado e cientificamente incorreto. Percebemos o que quer dizer, mas já chega. 


Referências:

1 - 5, 7 - 11. @perolasdaurgencia [Instagram]

6. Direcção-Geral da Saúde, Circular Normativa. Ministério da Saúde. 2007. https://www.spdc.pt/files/legix/11270_3.pdf 

Restantes referências foram denunciadas por discurso de ódio



Carolina Troia

Inês Lima

Renato Martins


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A arte é bué de cenas: Mensagem

novembro 11, 2024 0
A arte é bué de cenas: Mensagem

 


A arte é bué de cenas

“A arte é bué de cenas” é um espaço para falar e explorar um pouco sobre todas as formas de arte, numa viagem ao subjetivo e ao abstrato artístico. É ainda um convite à criação da “arte dentro da arte”, em que cada um se expressa, através da escrita, a partir do que viu, leu, ou escutou. E, como a arte é bué de cenas, pode também surgir em qualquer lugar, e em qualquer altura, tanto dentro como fora dos espaços culturais que conhecemos. É uma rubrica movida por curiosidade, liberdade, e amor à cultura. 


Mensagem

- Carta da mulher do médico ao seu marido –

Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago


Querido marido,

Escrevo-te esta carta. Não sei se se poderá chamar carta a uma mensagem escrita no verso de um mapa da cidade, esse que encontrámos quando fomos libertados, e que aí nos guiou por uma cidade estranha, desconhecida.

Escrevo-te enquanto vejo. Enquanto ainda conheço os contornos às coisas, enquanto ainda sei o nome das palavras – e esse manto invisível não se instalou sobre mim. A verdade, é que não sei quanto mais tempo irei aguentar, antes de ficar também eu cega. No sentido literal e verbal da palavra, cegar, não, ainda não ceguei. Ainda vejo os vossos rostos, ainda conheço os caminhos, ainda vejo a luz dos dias, a escuridão das noites. Mas, à medida que o tempo vai passando, sinto-me cegando, dia após dia, noite após noite.

Cego, porque me perdi dos dias – não sei se se passaram semanas, meses, ou até anos desde o princípio da epidemia. Agora, só sei que o rapazinho estrábico não chama mais pela mãe, talvez se tenha esquecido do significado dessa palavra tanto tempo ausente, se tenha cansado de conversar sem receber resposta, ou tenha aceitado não mais voltar a ouvir a sua voz.

Cego, precisamente por isso, porque sei que se passou muito tempo – que se passou demasiado tempo.

Demasiado tempo para também eu não cegar como vós. Tratei-vos o melhor que pude, enquanto nos mantiveram fechados, por sermos diferentes – ou talvez, por a eles não sermos semelhantes. E depois, quando todos iguais ficámos, porque esta cegueira, não a escura de que muitos dos teus antigos pacientes padeciam, guiados por bengalas e pelos contrapontos urbanos, mas sim a cegueira clara, essa invisibilidade luminosa, esse mar de leite, acabou por chegar a todos.

Eu, também ceguei. Ceguei porque cometi um crime. Poder-me-ás dizer que, se não esse crime, ainda estaríamos no hospício, comandados pelos outros cegos. Poder-me-ás dizer que também eles cometeram crimes, e que esses crimes também trespassaram os corpos, também os feriram e também deixarão as suas cicatrizes, que, apesar de não serem visíveis aos nossos olhos, só o tempo dirá se desaparecerão, ou se permanecerão no interior dos corpos de cada um.

Ceguei, porque fomos guiados para a podridão, para a miséria. Ceguei, porque vi a decadência, a hipocrisia, pela primeira vez. Antes, também se cometeram crimes. Também se roubaram objetos, também se pilharam casas e vidas. Também se batalhava por um pedaço de pão duro, por um metro de chão para dormir. Mas só agora, cega por tudo o que não pude fazer, vi.

As ruas estão sujas, desertas, restos e matérias viscerais deitadas no chão, apodrecem, mas custam a desaparecer, a sucumbir ao passar do tempo – se alguma vez, as ruas voltarão a estar limpas.

De vez a vez, os cegos vêm em grupo. Passeiam-se juntos, como cães em matilha, porque só assim é mais fácil encontrar algum resquício de matéria tragável, no meio da podridão.

Só o nosso cão anda sozinho. Sai, procura um pedaço que lhe chegue para alimentar o dia, e volta, para nos aconchegar as lágrimas que teimam em cair, mesmo estando os olhos cegos.

Só eu ando sozinha. Vou por esses mercados tomados de assalto, vezes e vezes sem conta. Por essas lojas com arrecadações nas caves, por essas mercearias abandonadas, que agora já nada têm para vender. As casas também foram apilhadas. As portas, outrora fechadas, ou estão abertas de par em par, ou permanecem fechadas – ou por medo, ou por ausência, que, para mim, também são formas de cegueira.

E, por isso, também eu ceguei.

As palavras perderam os seus significados. A palavra casa, deixou de ser um lar, uma comunhão, um matrimónio. Agora, é um teto, um abrigo da chuva e da cidade sombria que não vemos, onde comemos, quando assim há comida, onde nos lavamos quando assim a chuva cai dos céus longínquos, – porque as torneiras já não vertem água – onde nos aquecemos quando ainda há cobertores e toalhas, e enquanto o calor dos corpos não nos faltar, - porque os fósforos para já nada nos servem acesos.

A palavra mãe, passou a ser um eco longínquo e perdido, uma memória de um cheiro, de um toque. A palavra comida, tornou-se veneno. O amor, onde o havia, haver-se-á tornado em ódio. Mas isto, isto não o posso dizer em voz alta. Porque sei que, quando esta palavra deixar de existir, aí cegarei completamente, por fim.

Os nomes deixaram de ser nomes. Passaram a ser vozes, toques indiferenciados tateando aqui e ali, procurando algo, suplicas de dor, gritos de náusea, de socorro, de abismo.

Ceguei, porque vi tudo isto. E porque nada pude fazer para evitar este incêndio desastroso de luz branca, a segregação de uma cegueira coletiva, que surgiu inexplicavelmente, sem conhecimento da medicina, se contaminou por vetores e móveis desconhecidos, e cuja cura, se a houver, ainda terá de ser inventada.

Mas, quero-te enfim dizer. Que ainda tenho esperança. Digo – ainda à esperança. E assim o escrevo, não pela perda da palavra escrita, mas porque ainda existe futuro. Persistimos até aqui. A comida poderá acabar. Os corpos poderão sucumbir enfim, sem nunca terem visto a escuridão de novo. Outra guerra poderá começar, sem que antes esta tenha acabado. Poderemos não voltar a acordar deste sono, Oh Meu Deus, deste sono eterno! Eu, poderei cegar.

Mas também poderemos voltar a recuperar a visão, a retomar o que ficou esquecido. A enterrar e a chorar os nossos mortos, a lamentar as suas perdas. A condenar os crimes cometidos, para que os mesmos não voltem a suceder. A cuidar dos nossos doentes. A procurar os desaparecidos. A limpar as ruas, a abrir as janelas. A derrubar os muros que foram levantados. A remediar o que foi feito, a emendar o que está errado.

E por isso, meu marido, o digo, um ainda à esperança. Porque ela ainda não está perdida. Porque, devido à esperança, acredito que ainda não ceguei.

E, por isso, digo – um ainda ao amor. Porque, sem amor, estaríamos cegos durante toda a eternidade. Sem compaixão, não veríamos outro mar que esse leite com que todos os dias acordamos e nos deitamos.

Escrevo-te, porque não sei o que o dia seguinte trará. Escrevo-te o que não sei se alguma vez teria coragem de te dizer.

Despeço-me de ti, e de vós, e de quem algum dia poderá ler esta mensagem – o espaço para escrever está a acabar. Já corremos todas as ruas da cidade, a travessia aproximar-se-á do fim.

Da sempre tua,


Com todo o amor.


Artigo de: Alice M. Pereira

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Hora do Fusão: Fantasma da Ópera

novembro 07, 2024 0
Hora do Fusão: Fantasma da Ópera

 

                 De 15 a 27 de outubro Portugal recebeu a produção da Broadway e West End "The Phantom of the Opera", no campo pequeno. Tive o privilégio de ver esta produção dia 19, e foi absolutamente memorável.

               Inicialmente, confesso que estava um pouco apreensiva devido à dimensão massiva da peça. Como é que eles iriam adaptar algo de tal grandeza a uma produção noutro país, com outras condições? Como é que iriam trazer todos os cenários, cenas memoráveis e a história que é amada por tantos para um palco relativamente mais pequeno? Mas confesso que não fiquei minimamente desiludida, acabando por me surpreender imenso. A produção conseguiu trazer cenários de enormes dimensões com uma organização extremamente fantástica. Para quem não conhece a história, esta passa-se na Ópera de Paris. A jovem Christine Daaé tem lições de música de um misterioso “Anjo da Música”, o Fantasma da Ópera, que fica furioso e possessivo após o Visconde Raoul, amigo de infância de Christine, apresentar interesse romântico por ela. Ver finalmente a história que tão bem conhecia desenrolar-se num palco português com um cast extremamente talentoso foi fascinante. A emoção que cada um deles comunicava enquanto cantava e atuava contribuiu para o ambiente já mágico da peça. Esta, em inglês, apresentava a tradução em vários ecrãs para aqueles que necessitassem de a acompanhar, o que foi um detalhe interessante. Algumas pessoas queixaram-se do facto de as cadeiras serem desconfortáveis, outras pessoas do calor e outras da visibilidade, mas tal parecem-me ser problemas relacionados com a disposição do espaço e não com o trabalho efetuado pela companhia. Na minha opinião, este foi perfeito.

               Relativamente ao sucesso que o musical fez em Portugal, esgotando todos os dias, esperemos que tal signifique que mais produções semelhantes estejam dispostas a apresentarem-se no nosso país. Desde produções famosas como “Moulin Rouge!”, “Hamilton”, “Six”, “Jekyll & Hyde”, “Cats”, “Chicago”, “Wicked”, “Heathers”, “Beetlejuice”, “The Great Gatsby”, entre outros, a independentes ainda sem a promessa de passarem para um grande palco, como “EPIC”, não é possível negar que este tipo de espetáculo é cada vez mais apreciado no nosso país e em todo o mundo, pelo sucesso das suas músicas e pela quantidade de pessoas disposta a pagar para as poderem ver, mesmo em formato digital. Em Portugal, “Querido Evan Hansen”, a adaptação portuguesa do musical “Dear Evan Hansen”, está em cena no Teatro Maria Matos. Portanto, o Fantasma da Ópera ter esgotado em todos os dias que esteve em cena não deveria ser um sucesso pontual, mas sim um incentivo para que um maior número destas obras seja futuramente adaptado para os nossos palcos.

               Concluindo, foi extremamente memorável, uma experiência única que maravilhou todos aqueles que conseguiram ir. Assim, esperemos que esta sirva como incentivo para que mais produções deste género venham ao nosso país.


Margarida Reis

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Em Novembro, até os santos dançam…

novembro 05, 2024 0
Em Novembro, até os santos dançam…

 


Pois é, não são só os santos populares que dançam… Aparentemente, os santos que estão no aclamado céu das almas também dançam connosco uma vez por ano. Mas será que esta dança é recebida pelas pessoas da mesma forma em todo o mundo? Decidimos analisar as tradições e costumes associados a esta celebração, não só no nosso Portugal, bem como um pouco pelo mundo mexicano e japonês.

Portugal, o país dos 4 F's: Fado, Futebol, Fátima e Finados. E a verdade é que o bom povo português enche uma casa de fados, um estádio em dia de jogo, uma missa em Fátima e um cemitério no dia 2 de novembro, o Dia dos Finados. No nosso país, esta prática implica que uma pessoa se desloque ao cemitério da sua terra natal e enfeite a campa do seu antepassado querido com flores discretas e sóbrias, invariavelmente brancas com um verde a acompanhar, e uma vela a dizer “pessoa X, deixaste o meu coração repleto de boas recordações e grande saudade”. Este dia implica uma mobilização de várias pessoas: as deslocadas que regressam à terra natal, as conterrâneas, as floristas e as vendedoras de velas, os padres responsáveis por celebrar a missa, os acólitos e, até, os próprios mortos. Será que nos conseguem ouvir de lá do alto infinito? Será que recebem de braços abertos os nossos desabafos, será que acompanham as nossas alegrias? Será que só nos ouvem no dia 2 de novembro? Para estas perguntas, não há respostas. 

No entanto, podemos sempre escrutinar as nossas próprias tradições: o perpetuar deste ritual ao longo dos anos teve, com certeza, espaço para mudanças. A verdade é que já não associamos o cemitério somente a um lugar de medo que torna presente a inevitabilidade da morte, mas também a esperança, a expectativa sobre o que nos reserva o futuro, inspiração para mudar certos aspetos da nossa vida e até felicidade de reunião com os antepassados. O sentido de dever de prestar homenagem neste dia em específico para com “os nossos mortos” e de abandonar mundos e fundos é, muitas vezes, uma ideia controversa. A verdade é que o processo de luto é contínuo, distribuído pelo tempo e espaço, não existindo um lugar ou momento específico que o faça desaparecer. Por isso, lembrem-se que também é válido não cumprir escrupulosamente esta tradição, e criar as nossas próprias.

Viajando, agora, para o outro lado do planeta, as tradições japonesas são um quanto diferentes do que estamos habituados: o povo japonês não festeja o Dia dos Mortos ou o Halloween, mas sim o Obon ou “Festival das Lanternas”. Resumidamente, o Obon, uma das mais importantes festividades religiosas do Japão, ocorre no mês de agosto (entre o décimo terceiro e décimo quinto dia), no qual as famílias se reúnem após o sol se pôr celebrando os seus antepassados e o dom da vida. Durante esses 3 dias, são realizadas diversas celebrações, como o lançamento de lanternas de papel ao rio, a preparação de altares com oferendas (com frutas, doces, incenso e flores), danças tradicionais, entre outras… É fascinante perceber o quão distintas são as tradições deste povo tão longínquo, mas que na sua essência celebra o mesmo que nós, os seus ancestrais e as suas memórias.

Ora no México, não existe a palavra "finados", pelo que se vive o "Día de los Muertos", uma celebração emblemática que ocorre anualmente também no dia 2 de novembro. E não se trata de mais uma visita ao cemitério ou um hiato de silêncio, que, vamos ser honestos, ninguém cumpre, porque toda a família tem o seu "grilo falante", mas sim de uma celebração "arco-íris" que mistura tradições pré-hispânicas com o cristianismo introduzido pelos colonizadores espanhóis.

O ambiente em homenagem aos "difuntos" é tudo menos mórbido ou depressivo, e não se foca na perda, mas na celebração dos finados. E, assim como em Portugal, onde há a mobilização de floristas, vendedores de velas e padres, o México faz a sua própria edição "à la mexicana". Em vez de padres e acólitos, traz: artesãos e escultores que trocam o incenso por papel machê, criando as famosas calacas -  esqueletos bem-humorados, vestidos de forma extravagante, que desdramatizam a morte; os confeiteiros entram em cena, confecionando caveiras de açúcar, personalizadas com o nome dos mortos, para serem oferecidas às crianças e como parte das oferendas nos altares; e traz floristas que preparam crisântemos, girassóis e rosas, que são como uma banda de mariachi, cheios de cor e alegria, contrastando com Portugal, onde as flores só lembram uma serenata; e, por fim, decoradores que arquitetam arcos conhecidos como os portais dos mortos, por onde as almas podem visitar o mundo dos vivos.

Importa, ainda,  mencionar o "altar de muertos" , tão icónico e visível no filme “Coco”, que educou gerações sobre essa tradição. Este altar é composto por até sete níveis com significados espirituais, incluindo uma cruz, fotografias dos falecidos e respetivas comidas favoritas, pan de muerto, sal para purificação, e a imagem do santo da família; e, por fim, La Catrina, conseguida como uma crítica social, que representa a igualdade diante da morte: ricos ou pobres, têm todos o mesmo destino.

Agora, que já é dia 4 de novembro e aquele familiar que nos acompanha ao cemitério já não está a dar o seu parecer, talvez seja a hora perfeita para ficarmos introspetivos com esta avalanche de informações. Será que os astecas e outras culturas pré-hispânicas tinham uma abordagem mais saudável à morte? Ou será que estamos a perder um pouco da profundidade espiritual que é essencial para refletir sobre a vida e a morte? No final, quem sabe se o melhor não é termos uma mixórdia das quatro tradições: o melhor do Japão, o melhor do México, o melhor de Portugal e, claro, o melhor dos mortos! Afinal, o que é que os santos mortos prefeririam? Uma dança de lanternas, uma maratona de salsa ou um bom fadinho?

 

Catarina Silva

Inês Lima

Filipe Gaspar



Referências:

https://ensinarhistoria.com.br/dia-de-los-muertos-mexico/ 

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Obon