A arte é bué de cenas
“A arte é bué de cenas” é um espaço para falar e explorar um pouco sobre todas as formas de arte, numa viagem ao subjetivo e ao abstrato artístico. É ainda um convite à criação da “arte dentro da arte”, em que cada um se expressa, através da escrita, a partir do que viu, leu, ou escutou. E, como a arte é bué de cenas, pode também surgir em qualquer lugar, e em qualquer altura, tanto dentro como fora dos espaços culturais que conhecemos. É uma rubrica movida por curiosidade, liberdade, e amor à cultura.
Mensagem
- Carta da mulher do médico ao seu marido –
Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago
Querido marido,
Escrevo-te esta carta. Não sei se se poderá chamar carta a uma mensagem escrita no verso de um mapa da cidade, esse que encontrámos quando fomos libertados, e que aí nos guiou por uma cidade estranha, desconhecida.
Escrevo-te enquanto vejo. Enquanto ainda conheço os contornos às coisas, enquanto ainda sei o nome das palavras – e esse manto invisível não se instalou sobre mim. A verdade, é que não sei quanto mais tempo irei aguentar, antes de ficar também eu cega. No sentido literal e verbal da palavra, cegar, não, ainda não ceguei. Ainda vejo os vossos rostos, ainda conheço os caminhos, ainda vejo a luz dos dias, a escuridão das noites. Mas, à medida que o tempo vai passando, sinto-me cegando, dia após dia, noite após noite.
Cego, porque me perdi dos dias – não sei se se passaram semanas, meses, ou até anos desde o princípio da epidemia. Agora, só sei que o rapazinho estrábico não chama mais pela mãe, talvez se tenha esquecido do significado dessa palavra tanto tempo ausente, se tenha cansado de conversar sem receber resposta, ou tenha aceitado não mais voltar a ouvir a sua voz.
Cego, precisamente por isso, porque sei que se passou muito tempo – que se passou demasiado tempo.
Demasiado tempo para também eu não cegar como vós. Tratei-vos o melhor que pude, enquanto nos mantiveram fechados, por sermos diferentes – ou talvez, por a eles não sermos semelhantes. E depois, quando todos iguais ficámos, porque esta cegueira, não a escura de que muitos dos teus antigos pacientes padeciam, guiados por bengalas e pelos contrapontos urbanos, mas sim a cegueira clara, essa invisibilidade luminosa, esse mar de leite, acabou por chegar a todos.
Eu, também ceguei. Ceguei porque cometi um crime. Poder-me-ás dizer que, se não esse crime, ainda estaríamos no hospício, comandados pelos outros cegos. Poder-me-ás dizer que também eles cometeram crimes, e que esses crimes também trespassaram os corpos, também os feriram e também deixarão as suas cicatrizes, que, apesar de não serem visíveis aos nossos olhos, só o tempo dirá se desaparecerão, ou se permanecerão no interior dos corpos de cada um.
Ceguei, porque fomos guiados para a podridão, para a miséria. Ceguei, porque vi a decadência, a hipocrisia, pela primeira vez. Antes, também se cometeram crimes. Também se roubaram objetos, também se pilharam casas e vidas. Também se batalhava por um pedaço de pão duro, por um metro de chão para dormir. Mas só agora, cega por tudo o que não pude fazer, vi.
As ruas estão sujas, desertas, restos e matérias viscerais deitadas no chão, apodrecem, mas custam a desaparecer, a sucumbir ao passar do tempo – se alguma vez, as ruas voltarão a estar limpas.
De vez a vez, os cegos vêm em grupo. Passeiam-se juntos, como cães em matilha, porque só assim é mais fácil encontrar algum resquício de matéria tragável, no meio da podridão.
Só o nosso cão anda sozinho. Sai, procura um pedaço que lhe chegue para alimentar o dia, e volta, para nos aconchegar as lágrimas que teimam em cair, mesmo estando os olhos cegos.
Só eu ando sozinha. Vou por esses mercados tomados de assalto, vezes e vezes sem conta. Por essas lojas com arrecadações nas caves, por essas mercearias abandonadas, que agora já nada têm para vender. As casas também foram apilhadas. As portas, outrora fechadas, ou estão abertas de par em par, ou permanecem fechadas – ou por medo, ou por ausência, que, para mim, também são formas de cegueira.
E, por isso, também eu ceguei.
As palavras perderam os seus significados. A palavra casa, deixou de ser um lar, uma comunhão, um matrimónio. Agora, é um teto, um abrigo da chuva e da cidade sombria que não vemos, onde comemos, quando assim há comida, onde nos lavamos quando assim a chuva cai dos céus longínquos, – porque as torneiras já não vertem água – onde nos aquecemos quando ainda há cobertores e toalhas, e enquanto o calor dos corpos não nos faltar, - porque os fósforos para já nada nos servem acesos.
A palavra mãe, passou a ser um eco longínquo e perdido, uma memória de um cheiro, de um toque. A palavra comida, tornou-se veneno. O amor, onde o havia, haver-se-á tornado em ódio. Mas isto, isto não o posso dizer em voz alta. Porque sei que, quando esta palavra deixar de existir, aí cegarei completamente, por fim.
Os nomes deixaram de ser nomes. Passaram a ser vozes, toques indiferenciados tateando aqui e ali, procurando algo, suplicas de dor, gritos de náusea, de socorro, de abismo.
Ceguei, porque vi tudo isto. E porque nada pude fazer para evitar este incêndio desastroso de luz branca, a segregação de uma cegueira coletiva, que surgiu inexplicavelmente, sem conhecimento da medicina, se contaminou por vetores e móveis desconhecidos, e cuja cura, se a houver, ainda terá de ser inventada.
Mas, quero-te enfim dizer. Que ainda tenho esperança. Digo – ainda à esperança. E assim o escrevo, não pela perda da palavra escrita, mas porque ainda existe futuro. Persistimos até aqui. A comida poderá acabar. Os corpos poderão sucumbir enfim, sem nunca terem visto a escuridão de novo. Outra guerra poderá começar, sem que antes esta tenha acabado. Poderemos não voltar a acordar deste sono, Oh Meu Deus, deste sono eterno! Eu, poderei cegar.
Mas também poderemos voltar a recuperar a visão, a retomar o que ficou esquecido. A enterrar e a chorar os nossos mortos, a lamentar as suas perdas. A condenar os crimes cometidos, para que os mesmos não voltem a suceder. A cuidar dos nossos doentes. A procurar os desaparecidos. A limpar as ruas, a abrir as janelas. A derrubar os muros que foram levantados. A remediar o que foi feito, a emendar o que está errado.
E por isso, meu marido, o digo, um ainda à esperança. Porque ela ainda não está perdida. Porque, devido à esperança, acredito que ainda não ceguei.
E, por isso, digo – um ainda ao amor. Porque, sem amor, estaríamos cegos durante toda a eternidade. Sem compaixão, não veríamos outro mar que esse leite com que todos os dias acordamos e nos deitamos.
Escrevo-te, porque não sei o que o dia seguinte trará. Escrevo-te o que não sei se alguma vez teria coragem de te dizer.
Despeço-me de ti, e de vós, e de quem algum dia poderá ler esta mensagem – o espaço para escrever está a acabar. Já corremos todas as ruas da cidade, a travessia aproximar-se-á do fim.
Da sempre tua,
Com todo o amor.
Artigo de: Alice M. Pereira


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