Todos os DIas, desde O início do curso, ou mesmo desde o início da vida, que nos perGuntamos sObre o que torna um médico num bom médico. Todos eles ou, pelo menos, quase todos, querem ser bons. Querem cuidar de PessoAs, querem salvar vidas e querem, no fundo, fazer do mundo um lugar melhor. Mas Isso é muito difícil. Requer conhecimento, simpatia, empatia e até, por vezes, um pouco de sorte.
O mundo evolui todos os dias. É difícil acompanhar a atualização científica. Todos os dias surgem doenças e fármacos novos. Os princípios da saúde pública de hoje não são os mesmos de há 50 anos. Alguns médicos mais velhos (e alguns bem novos) possuem os seus próprios estigmas contra determinadas populações e patologias, e nem sempre estão abertos à atualização e ao conhecimento.
Os portugueses são burros? Em nenhuma circunstância generalizar é um sinal de inteligência. Por eXemplo, a ideia de que “só determinada faixa da populaçÃO é que «apanha» HIV”[1] ainda é Muito presente nA cabeça de alguns médicos, Refletindo um preconceito disfarçado, e uma forma de homofobia internalizada QUE ignora o impacto da pandemia entre diferenteS grupos e assume, de forma simplista e errada, que o HIV afeta apenas certas pessoas. No entanto, um bom médico sabe que a saúde pública procura proteger toda a população, e não apenas aqueles que passam por um suposto “teste de moralidade” - ninguém merece menos acesso aos cuidados de saúde. Pois, se fôssemos por este “teste de moralidade” o que tornaria moral tratar fumadores com cancro do pulmão? Um bom médico sabe que a PrEP é custo-efetiva e que, no fundo, poupa “dinheiro dos contribuintes”[2], não sendo apenas útil para o “gangue do arco-íris”[3].
Outro tema que passa por esse estigma é o tema de “matar fetos”[4]. Alguns médicos ainda consideram que quem pratica a interrupção voluntária da gravidez (IVG) se está a aproveitar de “uma alternativa aceitável de contraceção, ao invés de uma alternativa de última linha para situações muito específicas.”[5] Um bom médico sabe que o aborto não é um método contracetivo, e tratá-lo assim é desinformado e desrespeitoso. Um bom médico sabe das decisões complexas que envolvem uma gravidez não planeada e das realidades emocionais e físicas de quem passa por essa experiência. A verdade é que ninguém quer que o aborto seja método contracetivo. Nem nunca ninguém quis. Já numa velhinha circular normativa da DGS de 2007 pode-se ler: “Na consulta prévia, deverá ser discutida a questão do uso de contracepção (...) promovendo-se a escolha de um método contraceptivo adequado a iniciar, mais precocemente possível, após a interrupção da gravidez.”[6] Um bom médico sabe disto e, até pode não concordar com a IVG, tornando-se objetor de consciência, mas um bom médico sabe que tem sempre de oferecer o melhor tratamento ao seu paciente, e que, quando não concorda com a abordagem pretendida, deve encaminhá-lo para um colega adequado. Apesar de ser bastante contraditório se o médico em questão havia declarado que “o Juramento de Hipócrates já não se utiliza há muito tempo”[7].
Um bom médico é um médico de todos. É um médico da comunidade. Comunidade esta que vai desde “o português, que acha normal que uma certa e determinada etnia viva acima da lei e ataque quem bem quiser, sem qualquer tipo de consequência”[8] até ao português que é dessa etnia. É um médico que trata todos e que não faz generalizações infundadas, não estigmatiza e não marginaliza populações inteiras. É um médico que percebe as dificuldades de integração de determinados segmentos sociais, e que procura ter um papel ativo na sua inclusão.
Um bom médico percebe que se um paciente vai ao serviço de urgência e “nem a própria medicação sabe”[9] é porque talvez alguém não lhe tenha explicado a importância de saber os medicamentos que toma. Ou percebe que talvez o paciente não tenha literacia suficiente para conseguir decorar os medicamentos, já que eles têm nomes que até para os próprios médicos são difíceis. Um bom médico tenta perceber os motivos que movem aqueles que trata.
Um bom médico sabe que obesidade não é apenas “IMC>35”[10]. Um bom médico sabe que o IMC já não é uma medida tão globalmente aceite e sabe que a obesidade é uma doença multifatorial e que deve ser tratada sem julgamento.
Acima de tudo, um bom médico não impõe a sua ideologia social e política no exercício da sua função, uma vez jurado o máximo respeito pela vida humana (o que inclui humanos com qualquer cor de cabelo e restrição alimentar). E um bom médico, com a premissa de ser um bom cidadão, não disfarça o extremismo com peles de cordeiro e demagogia, nem abusa do seu tempo de antena para apelar ao ódio.
Um bom médico pode expressar a sua opinião. Todos têm o direito de expressar opiniões, e o problema nunca será a liberdade de expressão em si, mas sim a responsabilidade de quem, por meio da sua profissão, influencia e impacta vidas.
Ser bom médico é tratar sem julgar. É perceber o lado do paciente. É tratar todos por igual. É ter respeito. É ser bem melhor do que uma pérola, até porque já ninguém usa pérolas, não são vegan.
P.S.: “37,5ºC não é febre”[11] é um conceito mais do que ultrapassado e cientificamente incorreto. Percebemos o que quer dizer, mas já chega.
Referências:
1 - 5, 7 - 11. @perolasdaurgencia [Instagram]
6. Direcção-Geral da Saúde, Circular Normativa. Ministério da Saúde. 2007. https://www.spdc.pt/files/legix/11270_3.pdf
Restantes referências foram denunciadas por discurso de ódio
Carolina Troia
Inês Lima
Renato Martins

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