Fusão

terça-feira, 26 de maio de 2026

Décadas que passam, Vozes que ficam

maio 26, 2026 0
Décadas que passam, Vozes que ficam


 

Décadas que passam, Vozes que ficam

Desde os primórdios da humanidade que o ser humano procura fazer-se ouvir. No entanto, as sinfonias não apareceram até bem mais tarde. Porque, como com tudo, a música começou de forma simples. Imitavam-se os sons da natureza: o canto dos pássaros, os assobios do vento, o correr da água das nascentes. Batiam-se palmas, e tão depressa se ouviam sussurros como gritos. Trauteavam-se curtas melodias dantes ouvidas em jeito de sinal. Porque, antes de ser arte, a música era sobrevivência.

No entanto, rapidamente as vozes deixaram de ser suficientes, e surgiu a necessidade de encontrar novas formas de criar e moldar sons. Pouco a pouco, tudo o que os rodeava tinha potencial para se tornar num instrumento: flautas esculpidas em osso, tambores feitos com peles de animais caçados, chocalhos nascidos de pequenas pedras encerradas em cascas ocas. E, rapidamente, o mundo começou a ganhar novas ‘vozes’.

Com o passar do tempo, estes conjuntos de sons foram ganhando forma e estrutura, mas sem nunca perder a sua natureza fluida. Assim, os batuques, os ritmos e as melodias evoluíram para canções, que evoluíram até o que conhecemos hoje como música, e que, certamente, continuarão a fazê-lo.

A vontade de não perder as melodias outrora cantadas pelos nossos avós, e pelos avós deles, passadas de ouvido em ouvido e cantadas de boca em boca, levou a que começassem a ser escritas. E, tal como a música em si, o método de a guardar e recordar também cresceu muito até chegar ao que conhecemos hoje em dia. Desde Neumas, até Guido de Arezzo, e às pautas em pentagrama da atualidade, tudo nos permite preservar e garantir que os séculos de música que nos antecederam não ficam esquecidos.

Complicam-se os tempos, complicam-se os pensamentos. E a música acompanha-os. Tal como a arquitetura do período barroco surgiu com todo o seu grandor, marcada por edifícios ornamentados e exuberantes, a música recusou-se a ficar para trás. Inevitavelmente, as composições ganharam uma nova complexidade, uma certa riqueza, um toque de ouro e grandor, que refletiam perfeitamente a sua sociedade contemporânea.

Cada época deixou a sua marca através da música, mas foi, igualmente, por ela moldada. E cada região, cada ponto do mapa por onde ela passou, também ficou com pegadas, fundas e imóveis; fósseis de um tempo que passou mas deixou vestígios.

Trovas de amor, nos tempos em que nada era declaração mais romântica do que uma canção. Gritos de guerra, traçados com sangue, suor e lágrimas, ou cantigas num momento de paz que podia muito bem ser o último. Um conforto, que, embora por vezes trouxesse memórias desconfortáveis, nunca conseguimos verdadeiramente largar. 

Porque, por mais independente e livre que a música nos pareça e nos faça sentir, é e sempre será algo inerentemente agregado ao tempo que a forjou. 

E saber o que é a música é muito mais do que conhecer todas as sinfonias de Bach. É sentir, é deixarmo-nos levar pelo que entra por um ouvido, e em vez de sair pelo outro, rodopiar dentro da nossa cabeça até nos tirar os pés do chão. É ganhar asas para subir, e perdê-las de repente numa descida a pique. É ter algo que nos acompanha pela montanha-russa da vida.

É, também, ter algo que começa e que impulsiona. Um pequeno prelúdio do que está por vir. Algo que toca no rádio e que leva multidões à rua, e que acorda a coragem onde antes reinava o silêncio e a censura. 

A Cultura Portuguesa também está intrinsecamente ligada a esta que é a primeira das Artes Clássicas. De fados, a desgarradas, e até a música pimba, é um traço inconfundível da nossa essência e da alma portuguesa. E, felizmente, há quem não a deixe esquecer.

Do convívio, da tradição e do amor a esta arte, surgiram as Tunas Académicas, que a continuam a propagar - de jovens para jovens, para (meninas) velhinhas à janela, que reveem um pouco da sua infância em cada trinado, para visitantes, que vêm ao nosso país pelo pastel de nata e saem de cá com um verdadeiro cheirinho a Portugal.

Desde 2009, a C’a Tuna aos Saltos - Tuna Médica Feminina da Universidade da Beira Interior tem sido um marco na comunidade estudantil e tunante, nunca perdendo o foco na partilha de momentos, e no que é verdadeiramente a essência da música: aproximar pessoas.

Deste mesmo desejo de partilha, nasceu o Medicalis - Festival de Tunas Femininas da Universidade da Beira Interior. Ao longo dos anos tem vindo a contar com inúmeras edições, aproximando-se a décima segunda. E, este ano, reflete sobre tudo o que nos permitiu chegar até aqui. Retrata um verdadeiro encontro entre épocas, uma viagem no tempo centrada nos dias 29, 30 e 31 de maio, no Teatro Municipal da Covilhã, onde celebramos.

Há quem diga que a falar é que nos entendemos, mas eu discordo. A música atravessa barreiras linguísticas, penetra pensamentos, quebra muros e destranca portas. Por isso, mudemos a frase: a cantar a gente entende-se.

                                                                                                                           Maria Ferreirinha


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Uma última fita de despedida

maio 18, 2026 0
Uma última fita de despedida

 

 

Ah, o dia da bênção das pastas! Um dia tão aguardado para muitos dos nossos colegas. Um dia tão especial que merece ficar registado e não há melhor maneira de o fazer do que pela escrita. No entanto, não quero que este texto seja um texto formal ou científico… Quero que simbolize o que os nossos finalistas viveram. Quero que seja mais uma fita para os nossos finalistas levarem com eles. E, por isso, vou começar de novo:

 

Querido(a) finalista, 

É com muito orgulho de todos nós que te vemos cumprir mais uma fase do teu percurso. A universidade é, sem dúvida, um tempo maravilhoso da nossa vida. Claro que tem os seus desafios, mas tudo o que vale a pena os tem.

 

Sem dúvida é uma experiência como nenhuma outra e, por isso, esperamos que nunca te esqueças dela. Que não te esqueças de todos os jantares loucos que tiveste com os teus amigos ou da tua primeira serenata. Que leves contigo todas as tuas conquistas, todas as histórias e as incríveis pessoas que conheceste. Sabemos que houve momentos menos bons, noites mal passadas a estudar, professores que te deixaram doido e, até mesmo, as alturas em que não conseguiste conter as lágrimas. Apesar de não serem os tempos mais fáceis ou bonitos, foram eles que te permitiram crescer e que te tornasses na pessoa que és hoje. Por isso fazem, também, parte da tua jornada. Jornada essa que inclui outras tantas histórias, outras tantas pessoas. 

 

O espírito académico também agora reside em ti. Os jantares de curso com aquela sangria duvidosa, todo o sábio conhecimento e dicas de sobrevivência passadas à geração mais nova, a primeira vez de traje e, se fizeste como muitos, toda a experiência da praxe. Definitivamente, estes momentos marcam-nos e moldam-nos.

 

Hoje, sabes que não sais daqui a mesma pessoa que chegaste. E ainda bem, porque aqui cresceste, aprendeste, fizeste amizades para a vida… e viveste. 

 

A Covilhã podia até parecer um nome estranho no início. Apenas mais uma cidade no mapa, mas, agora, um sítio que te orgulhas de chamar casa. É um lugar onde cada esquina tem uma história e cada rua uma memória que te faz sorrir sem dares por isso. É daqueles lugares que, independentemente de onde fores, nunca sairá do teu coração, assim como tu nunca sairás do dela, porque, tal como ela foi importante para ti, também tu deixaste a tua marca.

 

Sei que esta nova etapa pode parecer aterrorizante e pensar na partida pode trazer sentimentos mistos, mas nunca te esqueças de que aqui terás sempre um lugar ao qual chamar casa e pessoas de família.

 

Desejamos-te toda a sorte do mundo nesta nova fase e deixamos o nosso obrigado por tudo o que deixaste e ensinaste. 

 

Antes de terminar, quero, também, deixar uma mensagem mais pessoal aos meus amigos finalistas: estarei sempre aqui para vós. A vossa partida deixará saudades. 

 

Gostaríamos de acabar, assim, esta fita com um último pedido: que esta experiência incrível não seja a nossa última e que, no futuro, continuem a criar memórias incríveis. Além disso, não se esqueçam de deixar a vossa marca por onde quer que passem, como a que deixaram aqui. Usem o vosso curso para tornar este mundo um lugar melhor e o vosso coração para poderem senti-lo.


Muito sucesso a todos,

Dos vossos amigos”



Mónica Pereira ✩

 



sexta-feira, 15 de maio de 2026

The brain is not a liver

maio 15, 2026 0
 The brain is not a liver



 “The brain is not a liver”

Durante décadas, os psicadélicos conseguiram algo impressionante: toda a gente tinha uma opinião sobre eles, mas quase ninguém sabia realmente do que se estava a falar. Ou eram definidos como substâncias perigosíssimas ou então como respostas para todo o sofrimento existencial. Possivelmente porque sempre foi mais fácil julgar do que ter uma opinião cientificamente sustentada. 

Talvez seja aí que está o mais interessante: criou-se um medo coletivo enorme em torno destas substâncias muito antes de existir espaço para uma discussão verdadeiramente científica sobre aquilo que realmente são, os seus riscos e o potencial que podem ou não ter.

O “Heal Forum 2026 - Holistic Entheogen and Learning Forum” surgiu neste contexto com o objetivo de transmitir à comunidade fontes de informação científica, histórica e clínica fidedignas. Sem estigma, sem desinformação, sem tabus. 

“The brain is not a liver” 

Esta foi uma das frases que mais me marcou. Mas porquê?

Durante muito tempo, a saúde mental era tratada como quem trata uma hipercolesterolemia ou hipertensão arterial. Algo não está bem? Receita-se um antidepressivo, corrige-se quimicamente e pronto. Mas o cérebro humano é muito menos organizado do que gostaríamos. Mistura memórias, traumas, emoções, stress, relações, ansiedade existencial e provavelmente aquela vergonha que ainda sentimos às 2 da manhã por algo que dissemos em 2016.

Não funciona como um órgão isolado. E talvez seja por isso que a investigação sobre psicadélicos voltou a ganhar atenção.

Nos últimos anos, diversas universidades voltaram a estudar substâncias como psilocibina, ketamina e MDMA em doentes com depressão resistente ao tratamento, PTSD e perturbação depressiva major. Os resultados começaram a criar uma pergunta desconfortável para a medicina moderna: e se tivermos passado décadas a ignorar ferramentas potencialmente úteis com base no estigma social?

No entanto, isto não significa que psicadélicos sejam inofensivos ou milagrosos. O “Heal Forum” deixou isso bastante claro. Em contextos errados, sem acompanhamento adequado, podem ser perigosos e profundamente destabilizadores. 

O mais interessante foi ver cientistas, médicos, investigadores, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais a concluírem, por diferentes caminhos:

O cérebro não se deixa reduzir a explicações simples.

Não se trata de escolher entre medo ou entusiasmo, nem de procurar respostas definitivas num tema que ainda está a ser estudado em tempo real. Trata-se antes de aceitar que há fenómenos na medicina e na neurociência que exigem mais rigor do que certezas, e mais curiosidade do que posições fechadas.

No fundo, falar de psicadélicos de forma séria não é defendê-los nem condená-los.

É simplesmente deixá-los finalmente entrar na conversa certa!

Alice Andrade


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Dia Internacional da Dança

abril 29, 2026 0
 Dia Internacional da Dança


Dança, uma das mais antigas formas de comunicação da história. Há relatos de que, desde a época da pré-história, os seres humanos já usavam uma série de movimentos que, com o tempo, formariam ritmos e sequências, criando uma certa harmonia, um certo tipo de dança. 

A dança continuou connosco durante o nosso percurso. Os egípcios utilizavam-na nos seus rituais, ao som de pandeiretas e castanholas. A dança também teve a sua importância na antiga Grécia, não só nos seus rituais e eventos religiosos, mas também numa vertente de entretenimento, onde se inseriu a dança no mundo do teatro. Muitos filósofos gregos apoiavam a dança, como é o caso de Platão que acreditava que a dança era uma forma de conseguir ligar o nosso corpo à alma, dando-lhe um aspeto moral e educativo. Já os romanos continuaram a integrá-la na sua sociedade, pondo-a um pouco de lado em celebrações religiosas, mas continuando a dar-lhe importância como entretenimento. 

Apesar de permanecer sempre connosco, também teve os seus períodos menos bons, como durante a Idade Média. A influência da Igreja pôs um travão na maneira como as pessoas se expressavam e viviam e a dança não foi uma exceção. Aparecem dois tipos diferentes de danças: as danças populares, mais movimentadas e cantadas e as danças da corte, mais sofisticadas e coordenadas, sendo a primeira vez que aparecem as danças a pares. Esta época também ficou marcada por momentos posteriormente denominados episódios de coreomania, ou Epidemia da Dança. Estes consistiam em pessoas que se juntavam num local público e começavam a dançar incansavelmente, durante dias, até à exaustão ou, em casos mais graves, à morte.  

Após ser considerada uma atividade em segundo plano durante muito tempo, a chegada do Renascimento traz-lhe uma nova vida.  Começando na corte italiana e, depois, pelo mundo, a dança ganha uma forma mais estruturada. Desenvolvem-se os primeiros livros de regras e esta começa a ser ensinada pelas classes mais nobres, constituindo um sinal de status. Entre vários tipos de dança, destaca-se a Pavana. Originalmente de raiz italiana, foi posteriormente levada para a corte francesa, onde foi desenvolvida, contribuindo para a formação do ballet. 

Assim, como grande figura do ballet francês, destaca-se o rei D. Luís XIV, onde, na sua corte, este estilo de dança era muito apreciado, tendo este mesmo feito inúmeros espetáculos nos seus sapatos altos vermelhos característicos. Surge, também, nesta altura a renomada Académie Royale de Danse, em 1661, mas foi apenas no século XIX que este estilo de dança atingiu o seu auge técnico e artístico com o surgimento da vertente russa. Neste período foram aprimoradas as famosas sapatilhas de pontas, destacaram-se figuras como o bailarino Marius Petipa e o compositor Piotr Tchaikovski. 

A partir do séc. XX, ocorreu uma grande revolução no mundo da dança. Os bailarinos e bailarinas decidem afastar-se das rígidas regras do ballet clássico e experimentar novos passos que lhes proporcionem mais liberdade de movimento. Assim, surgem novos estilos de dança, como a dança moderna e a contemporânea, destacando-se figuras como Isadora Duncan e Martha Graham e estilos como jazz, danças sociais (entre elas tango, salsa e rumba) e danças urbanas, como o hip hop. 

Em Portugal, a dança assenta numa forte tradição popular, incluindo estilos como o vira, o corridinho, o bailinho e os pauliteiros de Miranda. Ainda assim, o país também desenvolveu a vertente da dança clássica, tendo sido criada no século XX a Companhia Nacional de Bailado. Mais recentemente, a dança contemporânea tem ganho destaque, com nomes como Vera Mantero. 

Todo este percurso da dança permitiu-nos chegar aos dias de hoje, onde esta é vista como uma arte, dando, àqueles que a praticam, a liberdade e a possibilidade de expressar sentimentos e emoções através do movimento, quando as palavras não são suficientes.  Desta forma, a UNESCO decidiu criar o Dia Internacional da dança, em 1982 e escolheu o dia 29 de abril por ser o dia do nascimento de Jean-Georges Noverre, considerado o pai do ballet moderno, permitindo, assim, celebrar todos os estilos de dança e promovê-la como arte universal e considerando-a uma parte importante da cultura humana. 

Queria, por fim, deixar uma nota pessoal e o motivo de querer escrever sobre este tópico. A dança sempre foi, para mim, uma parte essencial da minha vida. Sinto que a dançar podemos expressar o que sentimos, quando tudo o resto falha. Outro ponto que adoro na dança é saber que todos o podemos fazer e que cada um de nós o fará na sua própria maneira especial e única. 

Já Marta Graham dizia “a dança é a linguagem escondida da alma” e eu não poderia estar mais de acordo. Dançar é contar uma história, é expor quem nós somos e, apesar da vulnerabilidade que isso acarreta, também é nesse momento que conseguimos realmente sentir e demonstrar aos outros o que sentimos. Dança é expressão. Dançar é sentir. Dançar é viver sob as nossas próprias normas.

Mónica Pereira


sábado, 25 de abril de 2026

Nasci Abril

abril 25, 2026 0
Nasci Abril

 


E Abril funde-se naquilo que nos permite viver os dias de hoje tal como os conhecemos. Viver com a Liberdade de 1974. Liberdade frágil e quebradiça, por quem a memória do passado se transforma em fita cola da resistência. Há 52 anos, uma das ditaduras mais longas da Europa, com 40 anos de opressão, tem o seu fim, e vem levantar o véu da esperança, onde o desabrochar da democracia se alia à sede da simples possibilidade de sonhar. Ouvimos os nossos avós falar deste tempo com a mesma rebeldia jovem que sentiam quando viviam no monocromático, quando ousavam amar sem dimensão, ler sem sermão ou cantar Godinho e Zeca na escuridão. Não vou escrever para rimar. O caminho não foi, nem será tão linear como a rima. Mas há que salientar que foi a rima que deu azo à eventualidade deste texto que leem. Podemos dizer que o introduziu. E a introdução foi de Paulo de Carvalho. 

Avistava-se o fim da guerra colonial, o fim dos investimentos loucos para armamento, num regime onde a educação e a saúde não alcançavam a maioria. Regime onde se definhava de fome. Regime de seu nome Estado Novo. 

Num mundo onde a arte é símbolo e expressão, como não se ser um Portugal cinzento antes do Cravo na Rua? Portugal virou a página e construiu-se, socialmente, politicamente, culturalmente. Conseguimos nós, geração neta ou até bisneta de Abril, imaginar uma dimensão onde o pensamento, que tropeça agilmente com o pensamento seguinte, e o terceiro, e o que de este último nasce, não é livre de sair do ínfimo de cada um de nós? 

E o teatro? Claro que uma mulher pode ser atriz, pode ser casada. Pode ter o pai, o marido ou a mulher, os filhos, a aplaudi-la em pé, aplaudir a sua arte, o seu grito de elevação, que entretém, enche salas, comove e acende gargalhadas. Sim, claro que pode. Hoje pode. É Abril. 

E a música? Tão facilmente escrevemos uma canção, compomos, produzimos, gravamos e deixamos a sorte dos media ditar o alcance de quem vibra ou de quem passa para a próxima estação. Claro que podemos ser músicos. A música chega para todos, não é censura, não é amarrada a sete chaves e muito menos limitada. A música é Abril. 

E o desenho, a pintura e a escultura? Ser filha de artistas plásticos é ser filha da paixão, do manifesto, da sensibilidade . É nascer na casa da imaginação. É ser arte e crítica no seu cru. Não é ser mais pequeno, nem miserável. É ter cor. É ser Abril. 

E a literatura? Somos a geração que lê, suga cada letra, cada palavra e cada frase. Livros que não vivem só nas rodas das bibliotecas itinerantes. Estão nas físicas, nas virtuais, nas portuguesas, nas internacionais. Podemos dizer nas bibliotecas infinitas? Podemos. É Abril. 

E a dança? De calções, de calças, de saia, de mini saia, de biquíni, quem sabe. A dança não é mais promiscuidade. A dança é língua e comunicação e mil e uma formas de expressão. Podemos dançar na relva, no pátio da avó, ou nos palcos. Quem disse? Eu sei quem disse. Disse Abril. 

Filha da liberdade, também eu nasci com a prontidão de poder ser tudo e mais alguma coisa. Nasci mulher. Nasci e tenho direito à educação. Nasci e posso votar. Nasci e vou a concertos, teatros e exposições. Nasci e passeio à beira-mar, sozinha. Nasci e posso sair do meu país sem ter de pedir autorização a qualquer ponta de homem. Nasci e posso dizer não aos ditadores, à guerra e ao genocídio. Nasci e posso sonhar. Sou filha do ramo verde e da pétala vermelha. Tenho sim o direito e dever da consciência. Consciente do que está à minha volta, do que depende de mim e, do que não dependendo, poderei mudar para melhor. Se há 52 anos, a Dona Liberdade não saísse à rua, eu não era Abril. Sou Abril em força. É curioso, podem não acreditar, mas sou também Abril de apelido. Quem sabe, destinada a honrar a Revolução dos Cravos. Quem sabe, através de um simples texto como este, que pode ser partilhado e criticado, barafustado e argumentado. Por quem? Já sabem por quem. Por quem é pessoa filha, neta e bisneta da Dona Liberdade. Por quem é Abril. 


Francisca Ferro Abril Monteiro





segunda-feira, 20 de abril de 2026

Erasmus e a FCS-UBI

abril 20, 2026 0
Erasmus e a FCS-UBI


Acredito que todo o ser humano possui dentro de si um bichinho que o incentiva a viajar e a descobrir coisas novas em locais diferentes. Enquanto estudantes universitários é-nos apresentada uma oportunidade de saciar esse bichinho através de Erasmus. No entanto, acho que em medicina estes são muito pouco divulgados, havendo muitas dúvidas por parte dos alunos, desmotivando muitas vezes a participação dos mesmos. Assim, viajei pelos corredores da Faculdade de Ciências da Saúde à procura de jovens estudantes que se aventuraram e seguiram viagem neste processo de Erasmus. Assim, entrevistou-se um aluno da FCS-UBI que realizou Erasmus em Pavia, Itália, no primeiro semestre do 4º ano, Diogo Bodião, Martina Ciccone, estudante de medicina na  University of L’Aquila em Itália que realizou ERASMUS na FCS-UBI no primeiro semestre do seu sexto ano e Francisco Camus Revuelta, estudante medicina na Universidade de Cantábria em Espanha que realizou ERASMUS na FCS-UBI no seu quinto ano.


  1. Como foi a receção no país onde realizaste Erasmus?

Diogo: Eu decidi fazer Erasmus em Pavia, Itália, uma pequena cidade mais ou menos do tamanho da Covilhã que fica a 30 minutos de Milão. Fui muito bem recebido, as sessões de introdução foram esclarecedoras, as pessoas coordenadoras de mobilidade mostravam-se felizes por nos receber, a ESN (Erasmus Student Network) fez um trabalho muito bom na organização de eventos sociais, a administração da residência onde fiquei foi simpática- tudo correu bem. No entanto, é importante saber pelo menos o básico de italiano porque algumas pessoas, mesmo aquelas em funções de administração, falam muito pouco inglês. Felizmente, tal como o nosso "portunhol", o "portaliano" acaba por, com alguma dificuldade, funcionar.


  1. Expectativas que tinhas ao iniciar o processo? Quais se mostraram verdadeiras e qual aquela que mais se distanciou da realidade. 

Martina: No início, esperava que o Erasmus viesse a ser uma experiência importante, positiva para o meu crescimento, e  esperava conhecer muita gente nova de diferentes países, o que se concretizou. Conheci pessoas de zonas muito distintas da Europa, inclusive de países muito distantes de Itália, com culturas e hábitos diferentes. A maior diferença em relação às minhas expectativas foi o facto de eu achar que tudo seria divertido e fácil ao princípio, mas, no começo, foi um pouco difícil adaptar-me.

  Francisco: Quando iniciei o processo de Erasmus, esperava ganhar mais independência, conhecer pessoas de diferentes países e experienciar um sistema académico distinto. Todas estas expectativas se confirmaram. O que ficou mais longe da realidade foi a rapidez com que tudo passou a parecer normal, uma vez que achei que demoraria muito mais tempo a adaptar-me, mas, passadas poucas semanas, já me sentia confortável.


  1. Quais as maiores dificuldades, para além da diferença da língua falada, com que te deparaste e qual o apoio que a faculdade forneceu?

Diogo: A Universitá di Pavia (UniPv) honestamente funcionou muito bem e prestou um contínuo e excelente apoio. Diria que a maior dificuldade foi encontrar um bom equilíbrio entre vida social, acadêmica e descansar - isto é, ir a eventos, viajar, aproveitar a cidade - mas sem descurar que não podemos ir a tudo, é preciso descansar e é preciso não deixar acumular matéria em demasia. Em  Erasmus, isto mostrou-se particularmente difícil porque há mil coisas para ver e fazer. Além disso, lidas com centenas de pessoas que têm os seus próprios equilíbrios e há uma tendência a alinhar-nos com os nossos pares em vez de encontrar o nosso próprio.

Francisco:  A receção foi muito boa e acolhedora. Tanto os estudantes locais como os de Erasmus foram muito prestáveis, e a universidade tornou o processo de chegada bastante simples. No entanto, notei uma diferença cultural ao nível da interação social. Vindo de um intercâmbio recente no México, onde as pessoas tendem a ser extremamente abertas e extrovertidas (semelhante ao que vivemos em Espanha), aqui as interações pareceram um pouco mais reservadas, especialmente no ambiente médico. No entanto, todos foram sempre muito educados e respeitosos e, no geral, a experiência foi muito positiva.


  1. Quais as principais diferenças entre os sistemas de ensino entre as faculdades?

Diogo: Em Pavia, eles têm muitas aulas teóricas. Sendo uma faculdade mais antiga e clássica há muitas aulas que são o clássico de um professor a ler slides para 100 alunos, mas felizmente não há presença obrigatória para Erasmus. Podes escolher só estudar em casa. Além disso, a esmagadora maioria das avaliações finais são por exame oral, algo que me chocou um pouco mas de que gostei. É preciso estudar de uma forma completamente diferente, sendo a própria filosofia de estudo diferente.


  1. Quais as principais diferenças no sistema de saúde dos dois países?

Diogo: Depois de voltar valorizo um pouco mais o nosso sistema. Acho que há muitas diferenças mas a principal tem que ver com "registos". Primeiramente, os próprios médicos usam muito papel ainda: agendas físicas para marcar consultas, fazer requerimentos, etc. Além disso, os próprios pacientes tinham também toda a sua informação em papel - foi chocante ver todos os idosos a trazer consigo dossiês enormes para as consultas. O sistema informático tinha muitas limitações e as comparticipações tinham um funcionamento que até hoje não entendi…

Martina:  Do ponto de vista de um estudante de medicina, posso dizer que os sistemas de saúde em Itália e em Portugal são bastante semelhantes. Durante o meu Erasmus, fiz um estágio no serviço de urgência e notei que muitos aspetos são iguais. Por exemplo, também há muita burocracia em Portugal e os médicos queixam-se frequentemente disso, tal como em Itália. No geral, a organização e os desafios do sistema são muito parecidos, ainda que existam algumas pequenas diferenças.

Francisco: Uma diferença que notei prende-se com os tempos de espera para consultas médicas. Venho de Santander, uma cidade espanhola relativamente populosa, onde as listas de espera para certas consultas podem ser bastante longas e, por vezes, sofrer atrasos significativos. Na Covilhã, que é uma cidade muito mais pequena, não observei o mesmo nível de pressão sobre o sistema de saúde nem os mesmos problemas de tempo de espera. No entanto, isto também pode estar relacionado com a dimensão da cidade, e seria provavelmente necessário comparar com cidades maiores em Portugal, como Lisboa, para ver se existem desafios semelhantes.


  1. Uma pergunta que surge sempre a quem pensa fazer Erasmus é acerca da possibilidade de visitar o país e manter boas notas. O que podes dizer sobre o assunto?

Francisco: Pela minha experiência, é perfeitamente possível viajar e manter boas notas ao mesmo tempo. Notei que os professores são, muitas vezes, muito amáveis e dão apoio aos estudantes de Erasmus, embora os critérios de avaliação sejam os mesmos para todos. Durante o meu Erasmus em Portugal, consegui viajar bastante — por exemplo, visitei o México duas vezes e também viajei para o Porto e para Lisboa. Ao mesmo tempo, estudei honestamente muito menos do que costumo estudar em Espanha. Contudo, isto não significa que seja fácil para todos. Também tenho amigos de Erasmus aqui em Portugal que chumbaram a exames e que não viajaram tanto como eu. Penso que depende muito da pessoa, da forma como te adaptas e do nível de exigência académica da universidade. 


  1. Mensagem para quem pensa em fazer Erasmus no futuro.

Diogo: Fazer Erasmus enquanto aluno da FCS-UBI não é fácil. Não vale a pena dizer que é tudo bom - somos um dos cursos de Medicina que há menos tempo aderiu a este projeto - muitos dos nossos colegas de outras faculdades têm o terreno já está desbravado enquanto que um estudante da FCS tem quase sempre de criar um plano do zero, o que pode ser um processo cansativo. Mas no fim de contas é possível e terminar a aventura com boas notas e com memórias que vão durar toda uma vida. Sinto que muitas pessoas do nosso curso fogem de Erasmus porque é visto como "perder um semestre" ou "ficar para trás", mas a grande beleza do Erasmus é que ele pode ser o que tu quiseres, é uma experiência incrível personalizada por ti em que podes ter e ser o que quiseres.

Martina:  O meu conselho é: não tenhas medo e vive esta experiência. É uma excelente oportunidade para aprender, conhecer pessoas novas e crescer, mesmo que possa ser um pouco assustador no início. Mantém o espírito aberto e aproveita cada momento.

Francisco: Se tiveres a oportunidade de fazer Erasmus, recomendo. É uma experiência que te ajuda a crescer pessoal e academicamente, a conhecer pessoas novas e a ver a tua profissão sob uma perspetiva diferente. Eu próprio vou repetir a experiência! Vou estudar para o México durante o meu sexto ano.

                                                                                                                                                Sara Castro

terça-feira, 10 de março de 2026

Reações de Fusão

março 10, 2026 0
Reações de Fusão


    Alguns nascem para bailar, uns para cantar, muitos de nós para doar tempo e presença ao próximo, outros para inovar e há quem nasça para desafiar o dia-a-dia mundano. O Fusão é o projeto que, como o próprio nome indica, nasce para fundir todas estas formas de expressão. Parte de um lugar de partilha, reflexão e criatividade dentro da comunidade de estudantes de medicina e procura cada vez mais inspirar o seu público a ser mais do que futuros(as) médicos(as) pois “um médico que só sabe medicina, nem medicina sabe”. Aqui procura-se ser mais e melhor, primar pelo autoconhecimento, acolher a diferença, questionar a vida que nos rodeia, fomentar amizades, partilhar ideias - o estímulo energético duradouro e resistente que vai além de passatempos passivos com scrolls infinitos e nocivos através de um ecrã.
     Qual reação de fusão nuclear, também este projeto académico une pequenos e leves núcleos atómicos (os diferentes departamentos - revista, podcast, edição e reportagem) que sob temperaturas extremas (subentendidas como reuniões gerais e intra-departamento) se fundem para formar elementos mais pesados (material de leitura e visualização inéditos), libertando energia. De facto, esta libertação de energia que sai do trabalho de cada um dos seus colaboradores tanto é fonte de realização pessoal, como fonte de crítica e inspiração para o seu público. Assim se formam estrelas, sejam elas reais ou imaginárias. 
    Uma das principais vertentes deste projeto é a revista Fusão, para a qual orgulhosamente contribuí com diversos textos, e que funciona como uma plataforma de escrita e, a certo ponto, extensão dos próprios escritores. Através da revista, os estudantes têm a oportunidade de publicar textos de opinião, experiências pessoais no percurso académico, inquietações, ou até dissertar sobre temas académicos, culturais e humanísticos relacionados com saúde. Este pequeno grande núcleo promove não só a comunicação científica, mas também o pensamento crítico, a criatividade e, fundamentalmente, a capacidade de expressão escrita - uma bela arte que, se não nos mantivermos atentos, cai no obsoleto. 
    A título pessoal, a Revista deu-me, em variadas ocasiões, palco onde expressar partes de mim que de outra fariam ficariam para sempre retidas no caderno de linhas, mas também momentos de desafio com o chamado “writer's block” a assombrar-me. Não obstante, o percurso foi gratificante e tê-lo-ia prolongado não fosse uma tal de obrigação laboral que se aproxima - classe operária médica, dizem eles. Também de uma forma geral, o Fusão deu-me a oportunidade de poder fazer parte de um projeto coletivo, em que entreajuda é palavra de ordem, e de ver como outras mentes brilhantes operam. 
    Posto isto, querido(a) leitor(a), participar no Fusão não é apenas mais uma linha que poderás acrescentar ao currículo, é uma história que vais contar e que vai ficar na tua memória e na dos que se venham a juntar a esta casa na Beira Interior. Apesar de ainda recente, com apenas 3 anos, o Fusão aproxima a medicina de outras áreas, contribuindo para o potencial criativo de todos nós. Aqui tens a oportunidade para expressares as tuas ideias, desenvolveres competências de escrita, comunicação verbal ou edição, e juntares-te a uma constelação de estrelas, livre de julgamentos. Mais do que um simples projeto, o Fusão representa um espaço onde a medicina se encontra com a reflexão, a cultura e a partilha de ideias. Vem brilhar connosco!

Bruna Machado

segunda-feira, 2 de março de 2026

PNA na Cidade Neve

março 02, 2026 0
PNA na Cidade Neve


Como todos os estudantes de medicina sabem, a Prova Nacional de Acesso (PNA) é uma prova de ordenação de candidatos integrada no procedimento concursal de ingresso no Internato Médico que visa o acesso à Formação Especializada.

Também sabemos, igualmente, que a PNA se realizou no dia 26 de novembro de 2025 nas seguintes zonas: Santa Maria da Feira (Europarque), Coimbra (Caves de Coimbra), Lisboa (FIL), Ponta Delgada (Auditório do Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada) e Funchal (Hotel Vidamar).

Das zonas referidas, a mais próxima é Coimbra - a aproximadamente duas horas de distância de carro - num dia normal. No entanto, saliento que não se trata, nem nunca se tratará, de um dia normal. Com o trânsito, inquietações e todo o movimento que a prova engloba, é relevante apontarmos para tudo aquilo que pode correr mal e, consequentemente, para os atrasos que podem surgir. Adicionalmente, nem toda a gente se deslocará de carro, o que implica ainda mais tempo perdido e, consequentemente, ainda mais desgaste físico e emocional.

Uma resposta óbvia para este problema é pernoitar em hotéis. Contudo, refiro que esta solução não só exige gastos adicionais, como altera o ambiente em que nos encontramos. Como tanta gente afirma, “não é dia de mudanças nem de se inventar coisas novas”. Desta forma, modificar as condições de sono não se trata de uma mudança relevante? Não é uma alteração que pode condicionar o sucesso? É um fator fora do nosso controlo e de igual modo que tentamos controlar os restantes, a localização não deveria ser uma questão tão marcada e prejudicial para os alunos do interior.

Assim, numa prova em que se preza a uniformidade de condições e os devidos cuidados para que todos os alunos tenham acesso justo e digno para a sua realização, é importante realçar os gastos monetários e a exigência física e psicológica de quem se desloca para aquele que é dos momentos mais importantes da nossa vida a nível profissional, e que definirá a nossa carreira enquanto futuros médicos.

Até 2019, os alunos da FCS podiam realizar o exame na Covilhã sendo que, devido à pandemia e reorganização logística, a ACSS decidiu concentrar a prova em grandes pavilhões. É agora tempo de serem definidas condições de prova que permitam à Covilhã fornecer espaços aos alunos com as mesmas.

Com o recente apelo da Câmara Municipal da Covilhã para que a prova se realize mais uma vez no interior, é de extrema importância que continuemos a debater este tema e, um dia, acredito que conseguiremos voltar a atingir esta grande vitória para o interior.

Margarida Reis

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

As resoluções que ficaram nas uvas

fevereiro 23, 2026 0
As resoluções que ficaram nas uvas

 


3 ... 2 ... 1 … Feliz Ano Novo! E entramos em 2026 a comer as tradicionais 12 uvas e com várias resoluções para que o novo ano seja melhor que o que passou. Mas o decorrer de uns minutos não apaga tudo o que se passou, os momentos infelizes, as guerras e as atrocidades do ano anterior. No entanto, entre abraços, foguetes e uvas, o ambiente é de mudança, e que para a frente é só positividade. 


Contudo, chega o segundo de janeiro, onde a roupa velha já acabou e são poucos os restos dos doces tradicionais no frigorífico, e começa-se a ouvir: “Ai, janeiro é o mês que mais demora a passar… Nunca mais acaba”. Mas, mesmo assim, sente-se ainda a emoção de alcançar o que se desejou e se acordou com as uvas.


Agora, o mês que não se lhe via o fim terminou. E é aí que começamos a pensar se de facto algo verdadeiramente se alterou, e se alguma das nossas promessas secretas que contamos às uvas foi já cumprida ou sequer iniciada, ou mesmo se o será no futuro. Mas aqui, agora, pensamos numa ordem mais individualista como as resoluções mais comuns como, por exemplo, de ir mais vezes ao ginásio, reduzir o tempo de ecrã, entre tantas outras. Porém, a novidade do novo ano terminou e com ela cai o véu que amenizava os acontecimentos do ano que passou, e percebemos que mantemos a mesma rotina acelerada e centrada no “eu” e as mudanças que explicamos às uvas que iriamos implementar ainda andam perdidas entre o espaço vazio que separa a ideia da ação. 


E é com esta perceção de que janeiro termina como um mês “fracassado”, mas tal como o passar de uns pequenos segundos ao mudar o ano não apaga o que passou, não são os primeiros 31 dias que definem a impossibilidade de cumprir o que se projetou nas uvas. Afinal, as resoluções baseiam-se em hábitos, e hábitos demoram tempo a ser adquiridos ou mudados. É aqui que se devem fazer as questões mais importantes: “O que é que quero mesmo mudar? Quem quero ser?” São as respostas a estas perguntas que quando descobertas nos conduzem e nos motivam e, infelizmente, não são perguntas tipo PEM às quais se tivéssemos sorte encontraríamos a resposta na compilação do ano anterior. São perguntas cuja resposta não é direta, está dentro de nós e cabe a cada um revelá-la. “Quem sou eu agora, e quem quero ser no futuro?” seguindo esta reflexão, viveremos consoante os princípios que queremos que nos definam, tomaremos decisões com base nas crenças que nos pertencem e tudo isto levará, se bem feito, às verdadeiras resoluções que devíamos ter falado às uvas. E todas as promessas supérfluas que repetem ano após ano e não contribuem para a nossa realização pessoal perderão a sua importância.


Assim, com janeiro terminado, são onze os meses em que ainda podemos encontrar as respostas a estas perguntas e descobrir a verdadeira mudança que queremos ver em nós. Resoluções não são só no ano novo, nem estão vinculadas às uvas. Podem surgir agora, e com as respostas que encontramos em nós, e com o passar do tempo alcançaremos cada vez mais aquilo que verdadeiramente desejamos para nós e para o mundo em que vivemos.


Sara Castro e Margarida Reis



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Notas de um Amante Cénico - “Sempre Alguém”

fevereiro 11, 2026 0
Notas de um Amante Cénico - “Sempre Alguém”


Menos de um mês depois, é ainda com as emoções ao rubro que urge dissertar sobre o IX Sarau Cultural do MedUBI "Sempre Alguém".

Não obstante o viés de quem assiste aos espetáculos deste cariz apresentados sob temas diversos há 6 anos, o "Sempre Alguém" surpreendeu. Suscitou algo mais do que entusiasmo e divertimento.

 

Meses antes da apresentação do estado de arte, rumores surgiam de que este ano não seria tão encorpado como o anterior, que não seria para qualquer gosto dado o foco central numa só especialidade médica. Certezas eram dadas de que teria menos momentos musicais e nos era esperado um ritmo pausado. Pois, para espanto dos mais céticos, não só o corpo artístico foi aumentando gradualmente desde então em figurinos, músicos e bailarinos, como a duração da peça excedeu as três horas sem que alma-viva se tenha apercebido.

 

Qual tragédia clássica, o crescendo foi-se formando, começando com a tradicional apresentação demorada das personagens, que conquistaram o público com enredos peculiares. Desde os diagnósticos mais comuns como a depressão, a dependência do álcool e a psicose às mais tradicionais Perturbação Afetiva Bipolar e Esquizofrenia, a história encarregou-se de trazer a palco traços de todas elas inclusive os raros delírio de Cotard, a personalidade narcísica e a outrora apelidada histeria. Ademais, dado o contexto histórico da época, não deixou de ser interessante a forma como foi introduzida a homossexualidade patológica refletida no afeto caricato partilhado entre os dois aspirantes a psiquiatras. Escusado será dizer também que a lobectomia praticada na ainda tenra Zezinha apelou aos sentimentos mais viscerais do público - as expressões de pesar nos seus rostos e no do Dr. Delfim notavam o ceifar de vidas a que muitos foram sujeitos em prol da evolução científica. E, por fim, a peça culminou num inédito clímax triplo - o assassinato do Dr. Delfim, a despedida eterna da alucinação auditiva Prazeres e a revelação da doce Zezinha.

 

Numa outra esfera, intercalaram-se momentos musicais de exímia coordenação sonográfica, dos quais destaco “Telepatia” e “O Pastor”, com arranjo de Bernardo Marques e Bárbara Azevedo, que simultaneamente lhes deu vida com a sua voz quente e imponente. De facto, não havia melhor forma de ler o turbilhão de pensamentos e vozes que pairavam na mente da Nazaré senão como uma “barca da fantasia” que “ao largo ainda arde”. Além disso, não esquecendo a forte influência que a religião tinha no Portugal dos anos 50 (Deus, Pátria e Família), foi de suprema mestria a introdução da textura sonora de “Amaté Adea”, sob a direção musical de Sarah Dias com todo o seu background erudito e considerável quota parte na autoria da peça. A música invocou a atenção dos que se encontravam no auditório, de repente pequeno demais para o que ali estava a ser feito, e os calafrios emocionais que ainda hoje recordo tornaram-se inevitáveis. Pudesse eu ouvir e reouvir os quatro minutos de pura serenidade devota novamente… deixaria de ter pertencido aos 400 ouvintes privilegiados.

 

E como ignorar os bailados? Faria todo o sentido uma tipologia de dança  contemporânea, ou não se tratasse de um espetáculo que convidava a enfrentar sentimentos e emoções. Como tal, foi entregue isso mesmo. Aproveitou-se a versatilidade artística da atriz principal, Mariana Pinheiro, para iniciar o bailado a solo em “O Pastor”, que rapidamente foi acompanhado e intensificado por outros pares que pudessem representar todos os seus pensamentos inquietantes e que a conduziam à frustração interna. Ademais, a dança de salão, nomeadamente o tango, foi meticulosamente apresentada ao som de “Telepatia”, o que seria congruente com a erotomania nitidamente expressa pela apaixonada Prazeres. Contudo, nenhum dos sentimentos suscitados por estas coreografias poéticas poderia ter tido o alcance e a eficácia pretendida sem o notável trabalho multidisciplinar. Não sem razão, todo o processo criativo tem um propósito, desde o guião até ao passo final.

 

 

Sob o olhar clínico, a certo ponto tornava-se complexa a distinção entre causa e consequência. Seria o défice intelectual da Zezinha apenas consequência da lobectomia ou haveria a priori um défice de aprendizagem? Teria Nazaré realmente uma Perturbação de Personalidade Borderline que a sujeitasse à intervenção do marido no seu internamento compulsivo ou seria meramente vítima do ambiente político repressor de então? Teria o hospício convertido-a momentaneamente em doente psiquiátrica? Seria o infanticídio de Rosário uma consequência da sua depressão ou psicose pós-parto ou a sua depressão major resultado de um infeliz acidente?

 

Estas e muitas outras questões prendem-se nas mentes dos curiosos que mergulharam na história daquela noite. A verdade é que, a real obra prima a que assistimos deve-se, acima de tudo, aos seus autores, únicos capazes de desvendar as inquietações que dela resultaram. Tiago Ramos e Sarah Dias, o resultado de duas mentes pensantes, que se uniram e assumiram, pela última vez nesta casa, a coragem de criar um mundo onde os doentes nem sempre são doentes e os lúcidos podem ser os reais doentes.

 

Neste mundo onde as insólitas crenças ainda predominavam, a capacidade de envolver o público no próprio espetáculo tornou-se abismal - prova disso foram as reações de espanto em uníssono, as exaltações fora de tempo e a ovação final interminável. Mas, para lá do ruído da plateia, impõe-se uma questão mais silenciosa que atravessa a narrativa de fio a pavio: afinal, quem é esse “alguém” de que tanto falavam?

De facto, houve um Dr. Delfim que auxiliou na fuga da Nazaré, uma Nazaré que defendeu todas as colegas de clausura, uma Rosário que compreendeu o Padre Abel, um Padre Abel que questionou a postura do Dr. Antero, uma Prazeres que encorajou a Nazaré.

E houve Sempre Alguém que, naquele dia, sentiu a partir de dentro a história que se contou.

 

Bruna Machado