Assusta-me envelhecer. Assusta-me saber que o tempo é limitado. Perdemos os que amamos, ficamos com os que ganhámos.
Tenho medo de que um dia não vai estar alguém que me soube já tão bem.
Os aniversários que são agora sinónimo de independência, de juventude com promessas de um futuro à descoberta, eventualmente serão espelho do que está mais perto de acabar. E tenho medo.
Não sabemos quando é o nosso último dia ou se o amanhã existirá para aquele “amo-te” que teima a nunca sair ou aquela conversa que precisamos e que a coragem teima a impedir. Somos os outros dos outros, o que implica que sejamos todos “um bicho da terra tão pequeno” como já dizia Camões.
A vida pode ser tão efémera como longa, pode ser tão insignificante, como repleta de histórias, aventuras, pessoas. Não sei quanto a vocês, mas fascina-me a segunda opção.
Confesso que não me atormenta apenas o fim, sobressalta-me, sobretudo, perceber que a autonomia se vai perdendo, que o que tomamos como garantido, se vai reduzindo, desvanecendo. A impotência de não poder mudar este desfecho, faz-me cair no pessimismo e na frustração.
Se hoje não correu bem, amanhã será melhor, amanhã resolvo, amanhã digo o que ficou por dizer. Mas para quê e porquê não dizer já? Não me tomem por impulsiva, mas no que toca ao melhor remédio para a incerteza do amanhã, eu diria que é fazer o que está ao nosso alcance para mudar o que foi hoje.
Ficamos muitas vezes presos ao que foi mau, ao que podia ter sido diferente, ao que o destino não quis para nós, mas que teimamos a tentar compreender. O tempo segue e devemos seguir com ele, custe o que custar. O que for para ser será e, se foi como foi, alguma razão terá. Mas não confundamos aceitar com conformar.
Mais fácil dito do que feito, tenho noção disso, mas a teoria só se testa na prática.
E é pela prática que chego à conclusão de que, na verdade, não tenho medo do envelhecimento. Tenho medo de envelhecer sem antes ter sido jovem. Se a juventude nos permite alguma coisa é ser audazes. Temos o futuro pela frente, certo? Ou o único futuro é o nosso presente?
Tenho um amigo que me disse que vai precisar de mim quando tiver a sua “crise de meia-idade”. Se calhar vamos ser os dois a precisar um do outro, mas se estamos um para o outro agora: liga-me agora, desabafa comigo agora e, se não falarmos, pelo menos que estejamos juntos no silêncio da incerteza. E, no dia em que não nos lembrarmos de tudo, tenho a certeza de que se eu perguntar o teu nome, choras, mas sabes dizê-lo. O tempo não nos mudou, só nos trocou a cor do cabelo.
Só conhece a morte quem a vê de
perto. Para conhecermos a vida, há que vivê-la por completo. Se um dia não
gostar do meu aniversário, é porque falhei. É porque serve apenas para me
lembrar dos anos que podia ter vivido, mas só contei.
Catarina Encarnação