sexta-feira, 10 de julho de 2026
No Limbo: o problema de diagnosticarmos a arte do Viver
sexta-feira, 26 de junho de 2026
Entrevista Póstuma
Há pessoas que continuam a ensinar mesmo depois de morrerem. Numa Faculdade de Medicina, isto não é apenas uma metáfora escolhida a dedo para abrir um artigo de forma exuberante... Prometo.
O silêncio era ensurdecedor. Não a quietude familiar, pontilhada por ansiedades quanto ao PEM da semana seguinte ou às inevitáveis sobreposições da LAC. Era um sossego inexplicável, acometido apenas pelo som gélido de metal contra metal e pelo fingido hábito de quem ainda não o possuía. No centro da sala, o meu entrevistado aguardava tranquilamente, com a paciência que só os ausentes conhecem.
- Está confortável para começarmos? - continuei, num impulso maquinal, enquanto abria o meu bloco de notas. O cadáver manteve-se taciturno. Achei profissional da parte dele.
- Como foi o seu dia? – prossegui.
- Estranho... Entraram vinte pessoas nervosas e supuseram que eu era apenas feito de fáscia e tecido conjuntivo. Este é o segundo grupo... - julguei ter ouvido tal consternado desabafo, mas a musculatura facial do meu pálido defunto não se movia, indiferente ao mundo que teimava em continuar.
Os estudantes locomoviam-se à volta da mesa com uma precisão artificiosa, quiçá para encobrirem a insegurança de quem aprendia a habitar um limiar que os manuais nunca ensinam de verdade. Havia quem evitasse pousar o olhar sobre um rosto que carregava agora as marcas inexoráveis da finitude, como se olhar demasiado tornasse o atípico mais real do que o suportável. E, no entanto, era precisamente o rosto que denunciava a sala: não o do cadáver, mas o dos vivos. Uns inédita e absurdamente concentrados no professor, outros a disfarçar o desconforto, outros ainda num torpor dormente. Em todos, a mesma dúvida: onde nos situamos nesta fronteira inusitada entre a ciência e o respeito?
- Os estudantes mudam ao longo do ano? – indaguei, tentando preencher o silêncio que acometia aquela sala.
- No início, pedem desculpa ou licença antes de tocar....- julguei ouvir. - Depois discutem o jantar, enquanto analisam as minhas inserções musculares...
Os alunos fitavam-no escrupulosamente. Mas ninguém naquela sala o observava com tanto escrutínio quanto ele a eles. Já perscrutara centenas antes de nós. Sabia quem ia desmaiar, quem simulava confiança com torpeza e quem ainda não aprendera a coexistir com a morte, porque antes de aprenderem a salvar vidas, os estudantes de Medicina aprendem, inevitavelmente, a sentar-se com a inexorável finitude.
Era exatamente isso que me intrigava: a forma como, paulatinamente, o olhar se transforma. No início, há hesitação, um cuidado instintivo, em que cada gesto pede desculpa. Contudo, com o fluir do tempo, esta cautela molda-se, torna-se mais técnica, mais distante. Não por frieza, mas por necessidade.
Ninguém consegue dissecar o mundo inteiro e conhecer-lhe os meandros, sem desenvolver, em algum momento, a capacidade de dele se separar. Como se a proximidade constante com a morte obrigasse os vivos a renegociarem a forma como estão presentes. Não era apenas Anatomia que ali se praticava. Aprendia-se uma linguagem nova, a da distância controlada: a quantidade exata de separação emocional necessária para abrir um corpo humano, o mapa de uma vida fecunda, honrando a história ali esculpida, sem colapsar juntamente com ela.
- É curioso - continuou o nosso anfitrião de feições imperturbáveis - Conhecem o meu corpo ao detalhe. Mas já não me conhecem a mim...
Finalmente olhei para o rosto do meu entrevistado. Parecia cansado. Fechei o bloco de notas. É bizarro como a Medicina ensina cada minuciosidade do corpo humano e vai, ao mesmo tempo, apagando discretamente a pessoa que existia dentro dele. Aos poucos, os corpos, santuários de uma vida recheada, deixam de ter histórias e passam a ser estrutura: o coração já não pertence a alguém, passa apenas a conter patologias e particularidades que devemos diagnosticar.
Entre o cheiro a formaldeído e os apontamentos apressados, o extraordinário tornava-se rotina e era fácil esquecer que aquele corpo tivera um nome, uma vida, gostos e memórias. Antes de ser cadáver, fora alguém, uma biografia inteira que um dia ocupara espaço no nosso mundo. A humanidade não desaparece com o fim do batimento cardíaco.
Regresso sempre à mesma pergunta: quantas vezes é preciso olhar para um corpo até deixar de o ver como alguém? Não sei responder. Talvez este seja um dos paradoxos da Medicina que nunca irá ter resposta. Apenas sei que temos de dispor de empatia para cuidar e de distanciamento para suportar, e que essa duplicidade não é simples. Acredito que nunca será. Aprende-se lentamente, e custa, como tudo o que vale a pena. Este equilíbrio é construído. Aprende-se com os casos que correm bem, claro. Mas sobretudo com os que se cicatrizam em nós. Um doente que não se salva. Um corredor silencioso depois de más notícias que já não podem ser desditas.
Os atlas estão incompletos: falta um capítulo sobre como continuar funcional sem perder o que nos faz Humanos. Todavia, apercebo-me, com o tempo, que o distanciamento não é ausência total de empatia, mas apenas uma forma de a tornar sustentável: nunca será sobre sentir ou respeitar menos, mas sim sobre não permitirmos que o sofrimento que vemos e sentimos diariamente nos consuma.
O meu entrevistado despediu-se da vida há vários anos. Ainda assim, continua a ensinar todos os dias. Após se ter descartado todo o material, os alunos saíram. A quietude permaneceu. O cadáver ficou. Como sempre.
- Mariana Santos da Silva
terça-feira, 23 de junho de 2026
Sem tempo
Zás, lá se vai mais uma vida. Curta, frágil, imprevisível. A vida é assim. Num piscar de olhos, passamos de um dia aparentemente normal, para o caixão.
A nossa vida é tão instável, tão imprevisível, tão… curta, e, no entanto, passamos o tempo em discussões, em quezílias, em tudo e mais não sei quê, esquecendo-nos daquilo que realmente é importante: aproveitar o tempo com quem mais gostamos e tentar tirar o máximo proveito de tudo… Mas não! Em vez disso, vivemos num mundo cada vez mais apressado, mais material, mais impessoal, em que ninguém quer saber de nada que não sejam eles mesmos. Qual o sentido de uma vida assim? É assim tão mais importante ter bens materiais, riqueza ou dinheiro, do que uma família? Alguém que se irá lembrar de nós? Alguém que terá boas memórias, que viverá de acordo com o que fizemos, com o que dissemos?
A mim parece-me óbvio. Claro que quero deixar a minha marca no mundo, claro que quero ser lembrado por aquilo que fiz, mas prefiro muito mais ter uma família. Pessoas que estarão lá nos meus bons e maus momentos, quem me apoie, a quem passar os meus conhecimentos, alguém para o qual estarei lá, verei crescer, viverei com, e no final, lá estará para me apoiar.
A vida é muito mais que um curto espaço de tempo em que estamos neste planeta, em que criamos coisas, em que vivemos, ou até em que nos reproduzimos. A vida é tudo isso, mas também é a arte do desenvolvimento, da mudança, do crescimento, da aprendizagem, de momentos completamente fúteis, mas divertidos e enriquecedores da nossa curta passagem por este mundo. Passamos a vida numa correria desenfreada, esquecemo-nos dos sonhos, perdemos de vista o que importa, tudo pela ilusão de um amanhã melhor, mas que surge sempre igual.
No início dos tempos, sobreviver era algo difícil em comparação aos dias de hoje, pelo menos para nós humanos, no entanto, a vida era simples, nascíamos, crescíamos, sobrevivíamos, reproduzíamo-nos e morríamos. Com o avançar dos tempos, sobreviver foi sendo facilitado, e com o desenvolver da cultura, demos ênfase ao aproveitar a vida, a fazer algo mais do que só viver num simples ciclo, aprendemos que podíamos deixar a nossa marca para gerações futuras, e com isso começou o foco na família, nas tradições, no aprender com os mais velhos. Apesar dos animais também o poderem fazer, nenhum desenvolveu um senso de consciência como o nosso, daí sermos únicos. No entanto, os anos foram passando, e chegamos aos dias de hoje, onde o conceito de família foi sendo desenvolvido e adaptado aos tempos modernos. Pelo contrário, o nosso tempo para o aplicarmos foi reduzido, o mundo acelerou, todos nós tivemos do acompanhar, e com isso perdemos a nossa essência. Somos animais como qualquer outro, não somos máquinas, temos as nossas relações pessoais, mas estas têm de ser desenvolvidas, e, num mundo com cada vez menos tempo, com mais pressa, e mais ligação aos bens materiais do que aos emocionais, essas mesmas ligações vão se perdendo, não porque nós não gostemos das nossas relações emocionais, mas sim porque não temos tempo para as mesmas.
Vejamos isto de outra forma. Para sobreviver, o que é que precisamos neste mundo? Dinheiro, é simples, sem dinheiro não conseguimos ter casa, ter comida, ter cuidados de saúde, constituir família, existir. Sendo assim, o que precisamos de fazer para ter dinheiro? Trabalhar, teoricamente, quanto mais trabalharmos, mais recebemos. Todos sabemos que não é assim, mas esta é a premissa que nos vendem, e, é a partir dela que vivemos, ou seja, mais trabalho, mais dinheiro. Com isso os salários reduzem, os preços aumentam, e logicamente temos a necessidade de trabalhar cada vez mais. Então, quando é que temos tempo para construir as nossas relações pessoais? A nossa família? O nosso lugar no mundo? A resposta é simples, não temos, é isto que está a acontecer à maioria da população, em especial nos países mais desenvolvidos, não existe tempo. Qualquer dia a reprodução será apenas um ato para manter a espécie, ou manter a existência de uma certa cultura ou país.
E daqui, surge a nossa aderência aos bens materiais, se não temos tempo para acompanhar relações que estão em constante mudança, como as interpessoais, então acompanhamos relações estáticas, ou seja, apegamo-nos aos bens materiais. Estes não exigem tempo, nem esforço para serem mantidos, não é preciso passar horas a pensar como os fazer felizes, ou o que fizemos de mal para eles estarem de mau-humor. É simples, eles estão lá, cumprem a sua função, e em caso de estarmos fartos, é só mandar fora e arranjar um novo.
Como tal deixo para reflexão, que mundo queremos nós? No que é que nos estamos a tornar? E como poderemos remediar o mal que fizemos?
Tiago Santos
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Afinal, o que é o Projeto Sophia?
A Lightsource bp, que é a promotora do projeto, diz o seguinte sobre o Parque Solar Sophia no seu site: “O projeto Sophia foi concebido para produzir energia solar de forma responsável e eficiente, com uma configuração que privilegia a preservação e a valorização da biodiversidade e da paisagem rural onde se insere. Situado nos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, o projeto promove investimento regional, apoio a cadeias de fornecimento locais e criação de emprego nas fases de construção e exploração, conciliando a atividade económica com os interesses das comunidades A produção de eletricidade de origem renovável do Parque Solar Sophia contribui para a redução das emissões de gases de efeito de estufa (GEE) e para os objetivos do Plano Nacional de Energia e Clima”. Isto soa super bem certo? Quem ficar por aqui não tem como entender o porquê de se ter criado tamanha polémica sobre este assunto. Pois bem, a verdade é que por mais profundo e deserto que seja o interior, não se pode nunca esperar construir uma infraestrutura que ocupe mais de 400 hectares de paisagem, sem ouvir a opinião dos que aqui vivem.
Podem parecer poucas e dispersas as aldeias que rodeiam as maiores cidades e vilas aqui das Beiras, até porque já essas são escassas, e ficam muito aquém da capital, mas somos mais do que parecemos, e culturalmente, como bons portugueses, também adoramos usar a nossa voz para fazer frente ao que achamos estar incorreto. E ao que parece, a oposição de muitos habitantes não é só teimosia, não é só medo da mudança, nem falta de informação.
A Central Solar Fotovoltaica Sophia abrange os municípios do Fundão, Idanha-a-Nova e Penamacor, no distrito de Castelo Branco, e representa um investimento de 590 milhões de euros, para uma capacidade instalada de 867 MWp. Está previsto que 390 hectares sejam ocupados pelos painéis fotovoltaicos, e que com o resto das estruturas, o número chegue aos 435, com um total de 1.734 hectares de área vedada. Ao imaginarmos 400 campos de futebol cobertos por painéis solares, numa paisagem perto de nós, podemos começar a perceber a verdadeira seriedade do assunto. Suponho que ninguém se diga contra a procura de soluções que visem diminuir a pegada ambiental da produção de energia, que atualmente ainda assenta maioritariamente em combustíveis fósseis. Ninguém à partida, quer ter de gastar recursos que não tem, e transpondo essa filosofia para a escala mundial, é do interesse de todos que cada vez mais alternativas sejam criadas, e que as que já existem evoluam para serem mais eficientes a nível de praticidade e custos financeiros. No entanto por mais que qualquer um de nós se interesse por este tema, pesquise sobre ele, e desenvolva as suas próprias conclusões, quer sobre qual a melhor energia renovável, quer sobre se a paisagem fica mais ou menos bonita cheia de painéis, existem verdadeiros especialistas na área, que sabem ser imparciais, objetivos. Vejamos o que eles têm a dizer…
No início deste ano a Agência Portuguesa do Ambiente concluiu no seu parecer que o projeto apresenta impactos negativos "muito significativos" tanto no uso do solo como na paisagem. Autarcas, a Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa e associações ambientalistas como a Quercus manifestaram uma forte oposição, ao apontar danos irreversíveis à biodiversidade, ao turismo e aos projetos da comunidade. Devido ao impacto ambiental e à forte oposição pública durante a consulta pública, o projeto encontra-se ainda em reformulação.
Da parte do público a contestação pode não soar tão formal, mas baseou-se em receios reais, e que devem ser tidos em conta de igual modo. As pessoas estão preocupadas, não só com o impacto visual do projeto, que é comentado e debatido por todos a cada passagem na autoestrada mais próxima, como também receiam o impacto que este “parque solar” pode ter na flora e fauna local. “Será que vai afetar negativamente as espécies autóctones?” “Será que os animais que por ali andam, por mais pequenos insetos que sejam, vão perder o seu habitat?” Para algumas pessoas que exploram projetos agrícolas e de turismo rural perto da zona, a pergunta chega a ser mesmo, “Será que vou conseguir continuar o meu negócio se as pessoas não quiserem vir ver um monte de painéis”? Se profissionais entendidos da área consideraram que o projeto não era assim tão espetacular do ponto de vista ambiental quanto parecia, e se a essas opiniões se juntou tanta contestação do povo, entende-se que o projeto esteja ainda a ser reformulado.
Diz-se que possíveis reformulações do plano passem pelo fornecimento de meios, por parte dos promotores do projeto Sophia, para a plantação de árvores autóctones na Beira Baixa, como forma de combate à plantação de eucaliptos em demasia. Assim como mecanismos para a promoção de pastagens e de apicultura em coexistência com a produção de energia solar. Soluções a que a Lightsource bp chama de “Plano de Compensação de Desflorestação”. Pergunto-me, se temos de desflorestar a esta escala para obter uma alternativa eficaz à produção de energia por combustíveis fósseis, para posteriormente “compensar”, será que estamos a escolher o plano certo? Por outro lado, e correndo o risco de ser “advogada do diabo”, quantos de nós sabem como era a nossa “terra natal”, ou rua onde crescemos, antes de ter casas? Antes de ser a nossa rua, com as nossas histórias, antes de ter passeios por vezes esburacados e outras vezes por varrer, como era, antes do ser humano? Será que numa Beira Baixa tão grande e bonita, com tantas paisagens, alguém alguma vez olhou para o sítio onde o projeto Sophia está a ser desenvolvido e pensou, “Aqui…isto é que é mesmo bonito, esta vista, não podem mesmo tapar…”?
A verdade, é que temos montes de novas urbanizações a serem construídas por todo o lado, em sítios antes desertos de humanos, ocupados apenas pela natureza, e muitos de nós agradecem esse fenómeno pois acreditamos que mais oferta de casas pode ajudar a combater a crise de habitação em que vivemos. Parece que não nos impacta tanto ver uma paisagem coberta por casas, como nos impacta ver uma montanha cheia de azul escuro… Porém também pergunto, será que se cada novo prédio ou casa a ser edificado tivesse o seu telhado coberto de painéis, conseguiríamos compensar a falta de um grande “parque solar”? Será que a solução para a produção de eletricidade está mesmo na energia solar?
Eu não sou profissional sobre o tema. Ao pesquisar sobre ele, entendi que produzir energia em mega centrais torna o custo por megawatt-hora mais baixo do que ao espalhar painéis por milhões de telhados, e que ligar uma única central de grande porte à rede é logisticamente mais simples do que gerir uma produção hiper-fragmentada. Mas desflorestar por desflorestar, ao construir casas com painéis solares em cima, sempre dá para a gente viver, ao cobrir uma paisagem de painéis, parece que só dá para criar polémica…
Não podia deixar de referir que sabemos que tudo o que produzimos e que não encontramos naturalmente no planeta, como a eletricidade e os próprios painéis fotovoltaicos, tem um custo ambiental. Quer seja na manufatura, durante o uso, ou no fim de vida em que têm de ser descartados de alguma forma. Se queremos continuar a viver num mundo em que existem carros e frigoríficos, temos de aceitar que de uma forma geral, nunca vai haver nenhuma solução perfeita para a produção de eletricidade. Portugal é um país com grandes apostas e alto potencial no que toca às energias renováveis, outros países escolhem apostar em centrais nucleares, e outros continuam quase completamente reféns de fósseis. Mas no fim das contas, a resposta às questões relacionadas com qual a forma mais sustentável de produzir o que quer que seja que tenha de ser produzido, será sempre encontrar o mal menor, e não a solução sem males nenhuns.
O projeto Sophia é massivo, não pode avançar sem estarem esclarecidas todas as preocupações do povo, nem sem se encontrarem alternativas para os grandes receios dos profissionais do ambiente. Por enquanto ainda não há conclusões sobre como irá terminar o processo de reformulação, apesar de uma resposta estar em atraso. No entanto, teremos de manter sempre em mente, que muitos bons planos não são perfeitos, não agradam a todos, e que mesmo assim, são bons. Já Aristóteles defendia que “no meio é que está a virtude”, a meio caminho entre dois extremos. Talvez todas as polémicas deste país nos devessem fazer lembrar do velho ditado, antes de partirmos para o destilamento de ódio baseado num instinto muito português de querer imitar o velho do Restelo.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Desabafo
Ó Luís, Fernando, Zé, Eça meu caro, e Gil, seu entusiasta, fora tantos outros cujos nomes, não sei, não me lembro ou simplesmente isto ficaria demasiado longo. Venham e vejam este vosso país, este nosso país, e digam-me o que acham. Será mesmo que tudo vale a pena? Não terão sido aquelas lágrimas em vão? Todos aqueles que por entre as pedras foram esmagados e esquecidos, as memórias perdidas por entre o pó e o mofo das casas. No meio disto tudo, acho que o Parvo foi quem melhor se manteve ao longo dos anos.
De que adianta os sucessivos avisos, ou relembrar como fomos vitoriosos, se quem nos governa tende sempre a perder-se no cinzento nevoeiro. Ó Gil, de entre muitos, tu foste dos primeiros a alertar para os vícios do nosso povo, para a forma como pecamos insaciavelmente, e para a nossa notável estupidez e ganância. Luís, enalteceste todos os nossos feitos, não quiseste que a memória se perdesse, nem o método para a vitória, mas em Alcácer tudo desvaneceu. Eça, tu viste a nossa sociedade como ninguém, a podridão que se instalou, e descreveste como ninguém mais ousou. Fernando, uma mensagem não bastou, escrever em país de cego, é como falar em reino de surdos, os únicos que se deram ao trabalho de a ler, já há muito que descansam no sono eterno. E por fim, Zé, é sempre uma alegria ouvir as tuas histórias, conversar contigo nem que seja por um breve momento, pena que vivemos num país que, embora cada vez mais envelhecido, cada vez mais despreza os nossos idosos, como tal, peço-te, perdoa-os por tal desprezo, por não te darem o tempo devido, deixarem-te num canto à espera da derradeira hora.
Olhar para o que este país se tornou, ver aquilo que já foi, ou pensar no que poderia ser. Qual destas a mais dolorosa, qual destas mais desgosto causa? Quanto a vós não sei, pessoalmente, só vejo tristeza em cada uma delas, seja pelos caminhos que percorro a ver o mal que por cá se instalou, seja a folhear as páginas douradas da nossa história, e ver como o tempo tudo levou. Seja a encarar os destinos que se abrem, as portas que esperam por ser cruzadas, e o abismo para que todos caminhamos…
Como dizia Afonso da Maia em Os Maias, estamos “num país em que a ocupação geral é estar doente…”, e a doença que assola todo este país, tem de nome comodismo. Contentamo-nos com pouco, não procuramos mais, não queremos melhor. Sentamo-nos à beira-mar, abrimos uma mini, comemos uns tremoços, e ao sabor do vento, com o cheiro da maresia, deixamos as nossas preocupações fugirem. Fogem as preocupações, foge o tempo, as oportunidades, e tudo nos passa pelas mãos como se grãos de areia se tratasse.
Urge a necessidade de tratar este mal que há tanto tempo nos assombra, esta neblina que nos tira a vista. E mais uma vez parafraseando Afonso da Maia, “num país em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é saber curar.” Como tal suplico, a todos aqueles em que o dom da cura reside, por favor, usem-no para o bem do meu país, para o bem do vosso país, para o bem do nosso país. Eu sei que não é fácil, curar a surdez de muitos parece tarefa herculana, a cegues de outros tantos? Acho que só pedindo ajuda a Hécate*, pode ser que dessa forma consigam ter um vislumbre daquilo que podemos almejar. Mas o maior mal que nos persegue, esse, só pode ser combatido por nós. Não há deuses, mitos, lendas ou heróis que nos venham trazer uma solução simples, só existe uma forma de nos curarmos desta doença. Enfrentando-a, fazendo as nossas vozes serem ouvidas, deixemo-nos de ser mudos, de nos acomodar, de fingir indiferença. Olhem para a frente, para aquilo que somos, que podemos ser. Está na hora de abrir os olhos a quem os mantém fechados, de nos expressarmos até que os surdos nos ouçam, de cumprir o que falta cumprir.
E assim peço a todos vós, estejam onde estiverem, pensem o que pensarem, se gostam deste país, se têm o mínimo de orgulho em serem portugueses, em serem luso descendentes, se gostam desta nossa maravilhosa língua pela qual me expresso, se têm o mínimo dos interesses pelo bem deste país. Façam frente a este comodismo que vive como um parasita nos nossos genes. Revejam o que foi feito ao longo da história, deleitem-se com os contos que o nosso grande Zé deixou, neles podemos encontrar muitos pontos por onde melhorar. Leiam a mensagem do nosso querido Fernando, por lá podemos encontrar esperança. Detetem de onde vem aquele cheiro a mofo e bafiento do qual o Eça se queixava. Relembrem os caminhos que nos levaram à vitória, foi para isso que o Luís arriscou a vida para que um mero livro retornasse seco à costa. E por fim, oiçam o Gil, e não deixem que os vícios vos consumam, que a ganância vos corrompa.
Os escritores vão-se, mas as histórias ficam, a sua luta nunca foi em vão, mas sim à espera que chegue o dia em que alguém os irá compreender, por isso, é que mesmo com séculos de diferença todos eles disseram o mesmo, todos eles lutaram pelo mesmo. Eles e tantos outros. E agora? Agora é a nossa vez. Por isso, deixo um último apelo, neste meu desabafo para os grandes, e com pedidos a todos. Para um Portugal diferente, todos temos de fazer a diferença. Basta uma pequena pedra começar a rolar, para outras a seguirem.
*Nota: Hécate é uma deusa da mitologia grega, referenciada como a senhora da magia, das encruzilhadas, dos limites e da noite. É representada como uma deusa de três corpos ou três cabeças, que simbolizam a sua capacidade de ver o passado, presente e futuro.
Tiago Santos
terça-feira, 26 de maio de 2026
Décadas que passam, Vozes que ficam
Décadas que passam, Vozes que ficam
Desde os primórdios da humanidade que o ser humano procura fazer-se ouvir. No entanto, as sinfonias não apareceram até bem mais tarde. Porque, como com tudo, a música começou de forma simples. Imitavam-se os sons da natureza: o canto dos pássaros, os assobios do vento, o correr da água das nascentes. Batiam-se palmas, e tão depressa se ouviam sussurros como gritos. Trauteavam-se curtas melodias dantes ouvidas em jeito de sinal. Porque, antes de ser arte, a música era sobrevivência.
No entanto, rapidamente as vozes deixaram de ser suficientes, e surgiu a necessidade de encontrar novas formas de criar e moldar sons. Pouco a pouco, tudo o que os rodeava tinha potencial para se tornar num instrumento: flautas esculpidas em osso, tambores feitos com peles de animais caçados, chocalhos nascidos de pequenas pedras encerradas em cascas ocas. E, rapidamente, o mundo começou a ganhar novas ‘vozes’.
Com o passar do tempo, estes conjuntos de sons foram ganhando forma e estrutura, mas sem nunca perder a sua natureza fluida. Assim, os batuques, os ritmos e as melodias evoluíram para canções, que evoluíram até o que conhecemos hoje como música, e que, certamente, continuarão a fazê-lo.
A vontade de não perder as melodias outrora cantadas pelos nossos avós, e pelos avós deles, passadas de ouvido em ouvido e cantadas de boca em boca, levou a que começassem a ser escritas. E, tal como a música em si, o método de a guardar e recordar também cresceu muito até chegar ao que conhecemos hoje em dia. Desde Neumas, até Guido de Arezzo, e às pautas em pentagrama da atualidade, tudo nos permite preservar e garantir que os séculos de música que nos antecederam não ficam esquecidos.
Complicam-se os tempos, complicam-se os pensamentos. E a música acompanha-os. Tal como a arquitetura do período barroco surgiu com todo o seu grandor, marcada por edifícios ornamentados e exuberantes, a música recusou-se a ficar para trás. Inevitavelmente, as composições ganharam uma nova complexidade, uma certa riqueza, um toque de ouro e grandor, que refletiam perfeitamente a sua sociedade contemporânea.
Cada época deixou a sua marca através da música, mas foi, igualmente, por ela moldada. E cada região, cada ponto do mapa por onde ela passou, também ficou com pegadas, fundas e imóveis; fósseis de um tempo que passou mas deixou vestígios.
Trovas de amor, nos tempos em que nada era declaração mais romântica do que uma canção. Gritos de guerra, traçados com sangue, suor e lágrimas, ou cantigas num momento de paz que podia muito bem ser o último. Um conforto, que, embora por vezes trouxesse memórias desconfortáveis, nunca conseguimos verdadeiramente largar.
Porque, por mais independente e livre que a música nos pareça e nos faça sentir, é e sempre será algo inerentemente agregado ao tempo que a forjou.
E saber o que é a música é muito mais do que conhecer todas as sinfonias de Bach. É sentir, é deixarmo-nos levar pelo que entra por um ouvido, e em vez de sair pelo outro, rodopiar dentro da nossa cabeça até nos tirar os pés do chão. É ganhar asas para subir, e perdê-las de repente numa descida a pique. É ter algo que nos acompanha pela montanha-russa da vida.
É, também, ter algo que começa e que impulsiona. Um pequeno prelúdio do que está por vir. Algo que toca no rádio e que leva multidões à rua, e que acorda a coragem onde antes reinava o silêncio e a censura.
A Cultura Portuguesa também está intrinsecamente ligada a esta que é a primeira das Artes Clássicas. De fados, a desgarradas, e até a música pimba, é um traço inconfundível da nossa essência e da alma portuguesa. E, felizmente, há quem não a deixe esquecer.
Do convívio, da tradição e do amor a esta arte, surgiram as Tunas Académicas, que a continuam a propagar - de jovens para jovens, para (meninas) velhinhas à janela, que reveem um pouco da sua infância em cada trinado, para visitantes, que vêm ao nosso país pelo pastel de nata e saem de cá com um verdadeiro cheirinho a Portugal.
Desde 2009, a C’a Tuna aos Saltos - Tuna Médica Feminina da Universidade da Beira Interior tem sido um marco na comunidade estudantil e tunante, nunca perdendo o foco na partilha de momentos, e no que é verdadeiramente a essência da música: aproximar pessoas.
Deste mesmo desejo de partilha, nasceu o Medicalis - Festival de Tunas Femininas da Universidade da Beira Interior. Ao longo dos anos tem vindo a contar com inúmeras edições, aproximando-se a décima segunda. E, este ano, reflete sobre tudo o que nos permitiu chegar até aqui. Retrata um verdadeiro encontro entre épocas, uma viagem no tempo centrada nos dias 29, 30 e 31 de maio, no Teatro Municipal da Covilhã, onde celebramos.
Há quem diga que a falar é que nos entendemos, mas eu discordo. A música atravessa barreiras linguísticas, penetra pensamentos, quebra muros e destranca portas. Por isso, mudemos a frase: a cantar a gente entende-se.
Maria Ferreirinha
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Ah, o dia da bênção das pastas! Um dia tão aguardado para muitos dos nossos colegas. Um dia tão especial que merece ficar registado e não há melhor maneira de o fazer do que pela escrita. No entanto, não quero que este texto seja um texto formal ou científico… Quero que simbolize o que os nossos finalistas viveram. Quero que seja mais uma fita para os nossos finalistas levarem com eles. E, por isso, vou começar de novo:
“ Querido(a) finalista,
É com muito orgulho de todos nós que te vemos cumprir mais uma fase do teu percurso. A universidade é, sem dúvida, um tempo maravilhoso da nossa vida. Claro que tem os seus desafios, mas tudo o que vale a pena os tem.
Sem dúvida é uma experiência como nenhuma outra e, por isso, esperamos que nunca te esqueças dela. Que não te esqueças de todos os jantares loucos que tiveste com os teus amigos ou da tua primeira serenata. Que leves contigo todas as tuas conquistas, todas as histórias e as incríveis pessoas que conheceste. Sabemos que houve momentos menos bons, noites mal passadas a estudar, professores que te deixaram doido e, até mesmo, as alturas em que não conseguiste conter as lágrimas. Apesar de não serem os tempos mais fáceis ou bonitos, foram eles que te permitiram crescer e que te tornasses na pessoa que és hoje. Por isso fazem, também, parte da tua jornada. Jornada essa que inclui outras tantas histórias, outras tantas pessoas.
O espírito académico também agora reside em ti. Os jantares de curso com aquela sangria duvidosa, todo o sábio conhecimento e dicas de sobrevivência passadas à geração mais nova, a primeira vez de traje e, se fizeste como muitos, toda a experiência da praxe. Definitivamente, estes momentos marcam-nos e moldam-nos.
Hoje, sabes que não sais daqui a mesma pessoa que chegaste. E ainda bem, porque aqui cresceste, aprendeste, fizeste amizades para a vida… e viveste.
A Covilhã podia até parecer um nome estranho no início. Apenas mais uma cidade no mapa, mas, agora, um sítio que te orgulhas de chamar casa. É um lugar onde cada esquina tem uma história e cada rua uma memória que te faz sorrir sem dares por isso. É daqueles lugares que, independentemente de onde fores, nunca sairá do teu coração, assim como tu nunca sairás do dela, porque, tal como ela foi importante para ti, também tu deixaste a tua marca.
Sei que esta nova etapa pode parecer aterrorizante e pensar na partida pode trazer sentimentos mistos, mas nunca te esqueças de que aqui terás sempre um lugar ao qual chamar casa e pessoas de família.
Desejamos-te toda a sorte do mundo nesta nova fase e deixamos o nosso obrigado por tudo o que deixaste e ensinaste.
Antes de terminar, quero, também, deixar uma mensagem mais pessoal aos meus amigos finalistas: estarei sempre aqui para vós. A vossa partida deixará saudades.
Gostaríamos de acabar, assim, esta fita com um último pedido: que esta experiência incrível não seja a nossa última e que, no futuro, continuem a criar memórias incríveis. Além disso, não se esqueçam de deixar a vossa marca por onde quer que passem, como a que deixaram aqui. Usem o vosso curso para tornar este mundo um lugar melhor e o vosso coração para poderem senti-lo.
Muito sucesso a todos,
Dos vossos amigos”
Mónica Pereira ✩
sexta-feira, 15 de maio de 2026
“The brain is not a liver”
Durante décadas, os psicadélicos conseguiram algo impressionante: toda a gente tinha uma opinião sobre eles, mas quase ninguém sabia realmente do que se estava a falar. Ou eram definidos como substâncias perigosíssimas ou então como respostas para todo o sofrimento existencial. Possivelmente porque sempre foi mais fácil julgar do que ter uma opinião cientificamente sustentada.
Talvez seja aí que está o mais interessante: criou-se um medo coletivo enorme em torno destas substâncias muito antes de existir espaço para uma discussão verdadeiramente científica sobre aquilo que realmente são, os seus riscos e o potencial que podem ou não ter.
O “Heal Forum 2026 - Holistic Entheogen and Learning Forum” surgiu neste contexto com o objetivo de transmitir à comunidade fontes de informação científica, histórica e clínica fidedignas. Sem estigma, sem desinformação, sem tabus.
“The brain is not a liver”
Esta foi uma das frases que mais me marcou. Mas porquê?
Durante muito tempo, a saúde mental era tratada como quem trata uma hipercolesterolemia ou hipertensão arterial. Algo não está bem? Receita-se um antidepressivo, corrige-se quimicamente e pronto. Mas o cérebro humano é muito menos organizado do que gostaríamos. Mistura memórias, traumas, emoções, stress, relações, ansiedade existencial e provavelmente aquela vergonha que ainda sentimos às 2 da manhã por algo que dissemos em 2016.
Não funciona como um órgão isolado. E talvez seja por isso que a investigação sobre psicadélicos voltou a ganhar atenção.
Nos últimos anos, diversas universidades voltaram a estudar substâncias como psilocibina, ketamina e MDMA em doentes com depressão resistente ao tratamento, PTSD e perturbação depressiva major. Os resultados começaram a criar uma pergunta desconfortável para a medicina moderna: e se tivermos passado décadas a ignorar ferramentas potencialmente úteis com base no estigma social?
No entanto, isto não significa que psicadélicos sejam inofensivos ou milagrosos. O “Heal Forum” deixou isso bastante claro. Em contextos errados, sem acompanhamento adequado, podem ser perigosos e profundamente destabilizadores.
O mais interessante foi ver cientistas, médicos, investigadores, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais a concluírem, por diferentes caminhos:
O cérebro não se deixa reduzir a explicações simples.
Não se trata de escolher entre medo ou entusiasmo, nem de procurar respostas definitivas num tema que ainda está a ser estudado em tempo real. Trata-se antes de aceitar que há fenómenos na medicina e na neurociência que exigem mais rigor do que certezas, e mais curiosidade do que posições fechadas.
No fundo, falar de psicadélicos de forma séria não é defendê-los nem condená-los.
É simplesmente deixá-los finalmente entrar na conversa certa!
Alice Andrade
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Dança, uma das mais antigas formas de comunicação da história. Há relatos de que, desde a época da pré-história, os seres humanos já usavam uma série de movimentos que, com o tempo, formariam ritmos e sequências, criando uma certa harmonia, um certo tipo de dança.
A dança continuou connosco durante o nosso percurso. Os egípcios utilizavam-na nos seus rituais, ao som de pandeiretas e castanholas. A dança também teve a sua importância na antiga Grécia, não só nos seus rituais e eventos religiosos, mas também numa vertente de entretenimento, onde se inseriu a dança no mundo do teatro. Muitos filósofos gregos apoiavam a dança, como é o caso de Platão que acreditava que a dança era uma forma de conseguir ligar o nosso corpo à alma, dando-lhe um aspeto moral e educativo. Já os romanos continuaram a integrá-la na sua sociedade, pondo-a um pouco de lado em celebrações religiosas, mas continuando a dar-lhe importância como entretenimento.
Apesar de permanecer sempre connosco, também teve os seus períodos menos bons, como durante a Idade Média. A influência da Igreja pôs um travão na maneira como as pessoas se expressavam e viviam e a dança não foi uma exceção. Aparecem dois tipos diferentes de danças: as danças populares, mais movimentadas e cantadas e as danças da corte, mais sofisticadas e coordenadas, sendo a primeira vez que aparecem as danças a pares. Esta época também ficou marcada por momentos posteriormente denominados episódios de coreomania, ou Epidemia da Dança. Estes consistiam em pessoas que se juntavam num local público e começavam a dançar incansavelmente, durante dias, até à exaustão ou, em casos mais graves, à morte.
Após ser considerada uma atividade em segundo plano durante muito tempo, a chegada do Renascimento traz-lhe uma nova vida. Começando na corte italiana e, depois, pelo mundo, a dança ganha uma forma mais estruturada. Desenvolvem-se os primeiros livros de regras e esta começa a ser ensinada pelas classes mais nobres, constituindo um sinal de status. Entre vários tipos de dança, destaca-se a Pavana. Originalmente de raiz italiana, foi posteriormente levada para a corte francesa, onde foi desenvolvida, contribuindo para a formação do ballet.
Assim, como grande figura do ballet francês, destaca-se o rei D. Luís XIV, onde, na sua corte, este estilo de dança era muito apreciado, tendo este mesmo feito inúmeros espetáculos nos seus sapatos altos vermelhos característicos. Surge, também, nesta altura a renomada Académie Royale de Danse, em 1661, mas foi apenas no século XIX que este estilo de dança atingiu o seu auge técnico e artístico com o surgimento da vertente russa. Neste período foram aprimoradas as famosas sapatilhas de pontas, destacaram-se figuras como o bailarino Marius Petipa e o compositor Piotr Tchaikovski.
A partir do séc. XX, ocorreu uma grande revolução no mundo da dança. Os bailarinos e bailarinas decidem afastar-se das rígidas regras do ballet clássico e experimentar novos passos que lhes proporcionem mais liberdade de movimento. Assim, surgem novos estilos de dança, como a dança moderna e a contemporânea, destacando-se figuras como Isadora Duncan e Martha Graham e estilos como jazz, danças sociais (entre elas tango, salsa e rumba) e danças urbanas, como o hip hop.
Em Portugal, a dança assenta numa forte tradição popular, incluindo estilos como o vira, o corridinho, o bailinho e os pauliteiros de Miranda. Ainda assim, o país também desenvolveu a vertente da dança clássica, tendo sido criada no século XX a Companhia Nacional de Bailado. Mais recentemente, a dança contemporânea tem ganho destaque, com nomes como Vera Mantero.
Todo este percurso da dança permitiu-nos chegar aos dias de hoje, onde esta é vista como uma arte, dando, àqueles que a praticam, a liberdade e a possibilidade de expressar sentimentos e emoções através do movimento, quando as palavras não são suficientes. Desta forma, a UNESCO decidiu criar o Dia Internacional da dança, em 1982 e escolheu o dia 29 de abril por ser o dia do nascimento de Jean-Georges Noverre, considerado o pai do ballet moderno, permitindo, assim, celebrar todos os estilos de dança e promovê-la como arte universal e considerando-a uma parte importante da cultura humana.
Queria, por fim, deixar uma nota pessoal e o motivo de querer escrever sobre este tópico. A dança sempre foi, para mim, uma parte essencial da minha vida. Sinto que a dançar podemos expressar o que sentimos, quando tudo o resto falha. Outro ponto que adoro na dança é saber que todos o podemos fazer e que cada um de nós o fará na sua própria maneira especial e única.
Já Marta Graham dizia “a dança é a linguagem escondida da alma” e eu não poderia estar mais de acordo. Dançar é contar uma história, é expor quem nós somos e, apesar da vulnerabilidade que isso acarreta, também é nesse momento que conseguimos realmente sentir e demonstrar aos outros o que sentimos. Dança é expressão. Dançar é sentir. Dançar é viver sob as nossas próprias normas.
Mónica Pereira
sábado, 25 de abril de 2026
E Abril funde-se naquilo que nos permite viver os dias de hoje tal como os conhecemos. Viver com a Liberdade de 1974. Liberdade frágil e quebradiça, por quem a memória do passado se transforma em fita cola da resistência. Há 52 anos, uma das ditaduras mais longas da Europa, com 40 anos de opressão, tem o seu fim, e vem levantar o véu da esperança, onde o desabrochar da democracia se alia à sede da simples possibilidade de sonhar. Ouvimos os nossos avós falar deste tempo com a mesma rebeldia jovem que sentiam quando viviam no monocromático, quando ousavam amar sem dimensão, ler sem sermão ou cantar Godinho e Zeca na escuridão. Não vou escrever para rimar. O caminho não foi, nem será tão linear como a rima. Mas há que salientar que foi a rima que deu azo à eventualidade deste texto que leem. Podemos dizer que o introduziu. E a introdução foi de Paulo de Carvalho.
Avistava-se o fim da guerra colonial, o fim dos investimentos loucos para armamento, num regime onde a educação e a saúde não alcançavam a maioria. Regime onde se definhava de fome. Regime de seu nome Estado Novo.
Num mundo onde a arte é símbolo e expressão, como não se ser um Portugal cinzento antes do Cravo na Rua? Portugal virou a página e construiu-se, socialmente, politicamente, culturalmente. Conseguimos nós, geração neta ou até bisneta de Abril, imaginar uma dimensão onde o pensamento, que tropeça agilmente com o pensamento seguinte, e o terceiro, e o que de este último nasce, não é livre de sair do ínfimo de cada um de nós?
E o teatro? Claro que uma mulher pode ser atriz, pode ser casada. Pode ter o pai, o marido ou a mulher, os filhos, a aplaudi-la em pé, aplaudir a sua arte, o seu grito de elevação, que entretém, enche salas, comove e acende gargalhadas. Sim, claro que pode. Hoje pode. É Abril.
E a música? Tão facilmente escrevemos uma canção, compomos, produzimos, gravamos e deixamos a sorte dos media ditar o alcance de quem vibra ou de quem passa para a próxima estação. Claro que podemos ser músicos. A música chega para todos, não é censura, não é amarrada a sete chaves e muito menos limitada. A música é Abril.
E o desenho, a pintura e a escultura? Ser filha de artistas plásticos é ser filha da paixão, do manifesto, da sensibilidade . É nascer na casa da imaginação. É ser arte e crítica no seu cru. Não é ser mais pequeno, nem miserável. É ter cor. É ser Abril.
E a literatura? Somos a geração que lê, suga cada letra, cada palavra e cada frase. Livros que não vivem só nas rodas das bibliotecas itinerantes. Estão nas físicas, nas virtuais, nas portuguesas, nas internacionais. Podemos dizer nas bibliotecas infinitas? Podemos. É Abril.
E a dança? De calções, de calças, de saia, de mini saia, de biquíni, quem sabe. A dança não é mais promiscuidade. A dança é língua e comunicação e mil e uma formas de expressão. Podemos dançar na relva, no pátio da avó, ou nos palcos. Quem disse? Eu sei quem disse. Disse Abril.
Filha da liberdade, também eu nasci com a prontidão de poder ser tudo e mais alguma coisa. Nasci mulher. Nasci e tenho direito à educação. Nasci e posso votar. Nasci e vou a concertos, teatros e exposições. Nasci e passeio à beira-mar, sozinha. Nasci e posso sair do meu país sem ter de pedir autorização a qualquer ponta de homem. Nasci e posso dizer não aos ditadores, à guerra e ao genocídio. Nasci e posso sonhar. Sou filha do ramo verde e da pétala vermelha. Tenho sim o direito e dever da consciência. Consciente do que está à minha volta, do que depende de mim e, do que não dependendo, poderei mudar para melhor. Se há 52 anos, a Dona Liberdade não saísse à rua, eu não era Abril. Sou Abril em força. É curioso, podem não acreditar, mas sou também Abril de apelido. Quem sabe, destinada a honrar a Revolução dos Cravos. Quem sabe, através de um simples texto como este, que pode ser partilhado e criticado, barafustado e argumentado. Por quem? Já sabem por quem. Por quem é pessoa filha, neta e bisneta da Dona Liberdade. Por quem é Abril.
Francisca Ferro Abril Monteiro