Fusão

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Um dia não vou gostar do meu aniversário

julho 29, 2026 0
Um dia não vou gostar do meu aniversário

 

            Assusta-me envelhecer. Assusta-me saber que o tempo é limitado. Perdemos os que amamos, ficamos com os que ganhámos. 

            Tenho medo de que um dia não vai estar alguém que me soube já tão bem. 

            Os aniversários que são agora sinónimo de independência, de juventude com promessas de um futuro à descoberta, eventualmente serão espelho do que está mais perto de acabar. E tenho medo.

            Não sabemos quando é o nosso último dia ou se o amanhã existirá para aquele “amo-te” que teima a nunca sair ou aquela conversa que precisamos e que a coragem teima a impedir. Somos os outros dos outros, o que implica que sejamos todos “um bicho da terra tão pequeno” como já dizia Camões.

            A vida pode ser tão efémera como longa, pode ser tão insignificante, como repleta de histórias, aventuras, pessoas. Não sei quanto a vocês, mas fascina-me a segunda opção.

            Confesso que não me atormenta apenas o fim, sobressalta-me, sobretudo, perceber que a autonomia se vai perdendo, que o que tomamos como garantido, se vai reduzindo, desvanecendo. A impotência de não poder mudar este desfecho, faz-me cair no pessimismo e na frustração. 

            Se hoje não correu bem, amanhã será melhor, amanhã resolvo, amanhã digo o que ficou por dizer. Mas para quê e porquê não dizer já? Não me tomem por impulsiva, mas no que toca ao melhor remédio para a incerteza do amanhã, eu diria que é fazer o que está ao nosso alcance para mudar o que foi hoje.

            Ficamos muitas vezes presos ao que foi mau, ao que podia ter sido diferente, ao que o destino não quis para nós, mas que teimamos a tentar compreender. O tempo segue e devemos seguir com ele, custe o que custar. O que for para ser será e, se foi como foi, alguma razão terá. Mas não confundamos aceitar com conformar.

            Mais fácil dito do que feito, tenho noção disso, mas a teoria só se testa na prática. 

            E é pela prática que chego à conclusão de que, na verdade, não tenho medo do envelhecimento. Tenho medo de envelhecer sem antes ter sido jovem. Se a juventude nos permite alguma coisa é ser audazes. Temos o futuro pela frente, certo? Ou o único futuro é o nosso presente?

             Tenho um amigo que me disse que vai precisar de mim quando tiver a sua “crise de meia-idade”. Se calhar vamos ser os dois a precisar um do outro, mas se estamos um para o outro agora: liga-me agora, desabafa comigo agora e, se não falarmos, pelo menos que estejamos juntos no silêncio da incerteza. E, no dia em que não nos lembrarmos de tudo, tenho a certeza de que se eu perguntar o teu nome, choras, mas sabes dizê-lo. O tempo não nos mudou, só nos trocou a cor do cabelo.

            Só conhece a morte quem a vê de perto. Para conhecermos a vida, há que vivê-la por completo. Se um dia não gostar do meu aniversário, é porque falhei. É porque serve apenas para me lembrar dos anos que podia ter vivido, mas só contei.

Catarina Encarnação


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Um caos modernizado

julho 23, 2026 0
 Um caos modernizado


 

Um caos modernizado

Neste verão chegaram temperaturas sufocantes por toda a Europa, mas, de certo, que Portugal tinha de se destacar comparativamente aos restantes países europeus, uma vez que o calor não foi o único a proporcionar um sufoco nunca antes visto.
A época de exames é uma altura stressante: notas por todos os lados de matérias que já nem tocávamos há um ano e exercícios atrás de exercícios na tentativa de “limpar todos os exames” na plataforma do IAVE (Rest in peace). A nossa vida é decidida por uns momentos à frente de folhas de papel que nos faziam decorar até a validade do nosso cartão de cidadão e de uma artilharia de material, como canetas, lápis e borrachas que se faziam acompanhar por réplicas, porque “vai que a caneta falha no meio do exame”. No entanto, maior é a pressão para quem ainda tem exames cuja nota não foi atingida na primeira vez que os fez ou que pretende anular disciplinas. Mas, para isso, não se preocupem que o EduQa está aqui para vos ajudar (supostamente). Comecemos, então, pela mudança das folhas de resposta anunciada no mês de maio! Aparentemente linhas já eram demasiado démodé para um país que se quer modernizar (mas que fica sempre no querer por incrível que pareça). Por um lado, implantamos o sistema Volta para aumentar a reciclagem de garrafas, por outro, podemos claramente usar despropositadamente mais folhas do que habitual com respostas repartidas (ou “de continuação” para ser mais chique).
Isto tudo para, no final, alunos perderem mais tempo a pintar bolinhas do que propriamente a responder às perguntas com potencial de anulação como foi suspeitado que se faria com o texto de português que se assemelhava a um de um livro de exercícios.
Já depois de todos os exames feitos podíamos lançar os foguetes, mas por causa do São João mesmo, visto que houve atrasos na digitalização das provas, elemento essencial para a correção pelo sistema implementado, deveras inovador (supostamente, outra vez). Claramente os digitalizadores também estavam fartos do trabalho a eles atribuído, uma vez que uma carreira de DJ lhes passou ao lado de tantas remixagens de prova fizeram: a Maria tem a folha de continuação do João, o Alberto a da Maria e por aí em diante. Ademais, não acredito que muitos professores vigilantes ficaram muito orgulhosos com o trabalho de certos alunos, visto que até agrafaram folhas sobre o Qr code (no lado direito do caderno) para que não fosse possível ver as respostas dadas... ou, pelo menos, foi o que o nosso Ministro da Educação decidiu dizer para justificar os atrasos.
Falando neste senhor tenho de admitir que é de se admirar como uma pessoa consegue colocar as culpas em tudo e todos, menos no único responsável por este caos. Foram os agrafos, os professores, as escolas e, daqui a pouco, até a minha gata que está a dormir descansada. E, por falar em descanso, vamos falar de quem não o teve: os verdadeiros heróis da nossa história, os professores, tanto que até quem está a descansar eternamente foi convocado. Estes sim trabalharam incansavelmente para que os alunos tivessem as notas o mais rápido possível.
Mesmo com sistemas em baixo, atrasos na receção das provas, provas trocadas, folhas a desaparecer, mesmo depois de corrigidas etc., eles perceberam a urgência e fizeram de tudo para que, no final, os exames fossem entregues.
Admitimos, no entanto, que este caos fez uma boa competição em termos de atenção e união comparativamente com o Mundial, mesmo que tenhamos perdido o Primeiro-Ministro pelo caminho que fazia questão de cumprimentar pessoalmente os jogadores portugueses na América do Norte. Mas é “imprudência” que os encarregados de educação marquem férias fora do país para uma altura que não haja exames, ou que não deveria haver, segundo o nosso Ministro da Educação depois de adiar os exames da segunda fase para mais tarde. Além disso, mesmo com
essa alteração, foi tudo tão bem organizado que houve alunos a ter dois exames que precisavam de fazer no mesmo dia, à mesma hora.
Agora que acalmou este caos, podemos começar um novo, por que não? Notas saem; promessas que sexta-feira será o dia, até que... não é. Outra vez têm os heróis da nossa história que fazer o trabalho extra (não remunerado, claro, porque este país anda à base de promessas e rezas) de ficar o fim de semana com os administrativos a afixá-las, para que estivessem disponíveis na segunda-feira seguinte. E, mesmo depois de tudo, conseguimos arranjar o laço perfeito para amarrar este presente: alunos olham para as suas notas e elas não existem. Mas não se esqueçam: têm dois dias para pensar se querem ir à segunda fase! Assinado: Fernando Alexandre, Ministro da Educação.
Brincadeiras à parte, isto foi uma excelente demonstração de como um dos pilares principais de um país, a educação, pode ser erodido por pura negligência. A muitos isto não afetará: estamos na universidade, a maioria de nós não tem filhos, já passamos desta fase. Mas mesmo sendo filhos de comentadores de sofás, não havíamos de ignorar uma coisa tão importante, pois toda uma geração de futuros estudantes está a ser afetada a troco de incompetência de quem devia zelar por nós. Contudo, espero, ao menos, que retirem o pagamento de vinte e cinco euros da reapreciação dos exames, uma vez que é inevitável que as pessoas não desconfiem que as coisas estejam mal corrigidas (mesmo que apelar por bom senso seja uma tarefa árdua). Assim, questiono: será que é assim tão importante “modernizar” estes processos? Talvez sim, mas não é escolhendo um método que já se tinha provado ineficaz ao corrigir a prova de filosofia do ano passado e que não tem as escolas preparadas para a sua implementação.
Concluo, assim, com um agradecimento aos nossos verdadeiros salvadores da pátria: a comunidade educativa que fez das tripas coração para que os sonhos dos nossos futuros caloirinhos fossem realizados. No entanto, também deixo uma nota de repúdio à negligência deste governo face esta crise, em especial, ao Ministro da Educação, Fernando Alexandre. Já houve ministros despedidos por muito menos!
Vemo-nos na segunda fase!
                                                                                                                                            Tiago Gens

domingo, 19 de julho de 2026

11 contra 11?

julho 19, 2026 0
 11 contra 11?


 

11 contra 11?

    É verão, e melhor que isso, é ano de mundial. Saudades da boa vida, já há 8 anos que não tínhamos um mundial durante o verão, evento que deveria ocorrer de 4 em 4 anos, mas alguém achou boa ideia colocar o mundial no Catar. Bem, o passado é passado, e neste momento é tempo de aproveitar. Ir ao café com amigos, desfrutar de uma boa tarde a ver futebol enquanto se petisca e cria memórias para a vida…. Ahhh, espera, os jogos são a que horas mesmo????? Meia-noite? Uma da manhã? Duas da manhã? CINCO DA MANHÃ?????? Mas quem é que teve esta brilhante ideia? Vou fazer o quê? Ver os jogos na discoteca? (Não ironicamente, foi mesmo isto que aconteceu) Bem, ao menos há sempre algum jogo a horas minimamente decentes, haja alguma vantagem de ser o mundial com maior número de seleções de sempre. Isso, e as grandes surpresas que foram surgindo.

    Agora falando de problemas sérios, esta história de ter 48 seleções em vez das típicas 32 deu-me fortes dores de cabeça, afinal agora existem 16-avos de final, e com isto eu acho sempre que estamos uma eliminatória à frente do que aquilo em que realmente se está. Eram os 16-avos de final, achava que eram os oitavos, nos oitavos achava que eram os quartos, e por aí em diante. Depois alguém veio com a brilhante ideia das pausas para hidratação, não que não perceba, mas tornaram-se ridículas, perde-se cerca de 3 minutos por cada pausa, o jogo quebra, e ainda temos de gramar com mais uma leva de anúncios. Tenho cara de americano para querer ver anúncios em vez do desporto que fui ver? Pior que isso só quererem transportar estas pausas para a europa, sim, faz todo o sentido uma pausa para hidratação quando o campo parece um lamaçal de tanto que chove.

    Mas nem tudo pode ser mau, afinal desta vez temos três anfitriões, Canadá, México, e Estados Unidos. Bem, se calhar é melhor ignorar o último, afinal depois de Rússia em 2018, e Catar em 2022, agora temos os Estados Unidos. Obviamente a FIFA irá manter o seu critério e retirar das suas competições um país que iniciou uma guerra, como fez com a Rússia, certo? Errado, mas ponderaram excluir o Irão, país que independentemente da opinião que possamos ter, foi a vítima neste caso.

    Pontos positivos, o mítico estádio Azteca faz parte dos estádios selecionados para este mundial. Pontos negativos, não foi o estádio escolhido para acolher a final. Pessoalmente, independentemente de tudo aquilo que possam dizer sobre os estádios americanos, seja de bom ou de mau, um estádio como o Azteca tinha sempre de ser o estádio escolhido para a grande final. Um estádio que transborda de história, mística e tradição, valores de extrema importância no futebol, símbolos que ficam imortalizados, momentos para nunca mais serem esquecidos, e acima de tudo, o ambiente único e impossível de recriar em qualquer outro lugar. É disso que vive o futebol, é disso que ele precisa, mas infelizmente, ao dia de hoje o futebol, aquele que em tempos foi o desporto do povo, vive refém de uma elite que o usa para seu proveito e para satisfazer os seus caprichos. Como tal, em vez de termos um estádio mítico a receber a final, temos um estádio comercial, pior que isto, só mesmo aqueles que decidem destruir os seus templos para os substituírem por estas modernices, apagando assim anos de história, mística, tradição e o sofrimento de muitos, que deram o seu sangue, suor e lágrimas para que esses mesmos templos fossem erguidos.

    Mudando um pouco o assunto, acho que o melhor é animar quem quer que se sinta para baixo ou deprimido, em especial se estiverem a sentir-se inúteis, ou que não têm valor, as minhas palavras podem não ser a melhor ajuda, mas pensem, a FIFA tem um comité de ética. Sabiam? Se não, é normal, eu mesmo tive de pesquisar para confirmar este facto extraordinário, afinal temos um árbitro escolhido pela FIFA para arbitrar durante o mundial, e o mesmo é impedido de entrar num dos países anfitriões, devido a isso não pode desempenhar as suas funções e acaba excluído do mundial. Vale ressaltar que existiam mais dois países a receber este mundial, e nem foi equacionada a opção de o mesmo arbitrar jogos nesses países. Em seguida temos um país que está em guerra com um dos anfitriões, guerra essa começada pelo anfitrião. Qual a decisão da FIFA? Colocar os jogos desse país a serem realizados num dos outros dois anfitriões? Não, colocá-los a jogar no país com quem estão em guerra, resultado, não podem permanecer nesse país sendo obrigados a entrarem apenas para os jogos, e saírem assim que os mesmos terminassem. Para os que possam perceber um pouco menos de futebol e do efeito das viagens nos jogadores, isto pô-los numa situação de clara desvantagem.

    Obviamente, isto não seria o suficiente para considerar o comité de ética da FIFA um órgão completamente obsoleto. Ainda temos o brilhante caso em que um jogador dos Estados Unidos é expulso, e vale referir, muito bem expulso, o que lhe conferia um jogo de suspensão. Para evitar tal situação desvantajosa para a seleção americana o Mr. President of the great United States of America, liga ao presidente da FIFA para que o castigo seja revertido, e como tal, dito e feito. Como este mundial claramente nunca girou em torno do dinheiro, os preços dos bilhetes foram completamente pornográficos, e o regime de exclusividade dos patrocinadores foi estritamente cumprido, sendo dadas ordens para tapar qualquer alusão a outras marcas. Como no Levi’s Stadium, que teve o seu nome alterado uma vez que a marca não é patrocinadora oficial do mundial, e todos os logotipos visíveis foram censurados. O que torna tudo um bocado caricato, pois apesar de a marca não patrocinar o mundial, a mesma paga os direitos de nome do estádio para que este tenha o seu nome, o que na minha humilde opinião é entrar num conflito de interesses, pois quando o estádio foi selecionado, já se sabia que aquele era o seu nome. Mas como tudo isto aconteceu na terra da liberdade e do capitalismo, provavelmente não deve existir qualquer problema. Mais digo, outros estádios sofreram com o mesmo, fossem os logos a serem censurados, nomes alterados, ou a própria transmissão a não ter permissão para mostrar certas partes do estádio. Por falar na transmissão, não sei quem é que estava a cargo de tratar da mesma, mas a realização deixou muito a desejar.

    Bem, chega de polémicas, afinal o mundial já está quase a terminar, e excluindo essas mesmas polémicas, o futebol tem sido na sua maioria de excelência (excluindo Portugal), jogos emocionantes, reviravoltas e surpresas, para além, de como muitos dizem, este foi o mundial dos grandes jogadores e dos guarda-redes. Mas como tudo, o mundial também tem o seu fim, e esse está marcado para hoje, dia 19/07/2026, e o começo do fim dar-se-á às 20:00, a partir dessa mesma hora é aproveitar cada minuto e cada segundo do jogo, pois no final, além de um novo campeão mundial (apesar de vir a ser uma seleção que já tenha vencido o troféu) terá terminado o Campeonato do mundo de 2026 e o próximo só ocorrerá em 2030, e até lá temos muitos anos pela frente.

    Pontos positivos a realçar sobre 2030, será o mundial ibérico, bem, pelo menos devia ser, mas Marrocos meteu-se pelo meio, para além de alguns jogos que serão disputados na Argentina, Uruguai, e Paraguai, de modo a comemorar os 100 anos desde a primeira edição do torneio. Transformando assim um mundial ibérico, num mundial intercontinental, disputado na Europa, África, e América do Sul. O que de acordo com as regras da FIFA obriga a que o mundial de 2034 seja sediado num país da confederação Asiática, tendo já a Arábia Saudita demonstrado forte interesse em receber esse mesmo mundial, o que provavelmente irá acontecer, e claramente tudo isto não levanta qualquer tipo de suspeitas…

    Bem, vou me calar antes que seja eu o investigado (pois estes garantidamente não o serão). Aproveitem a grande final de logo à noite, e que ganhe o melhor (por exclusão de partes, FORÇA ESPANHA!!!!)!

Tiago Santos


sexta-feira, 10 de julho de 2026

No Limbo: o problema de diagnosticarmos a arte do Viver

julho 10, 2026 0
No Limbo: o problema de diagnosticarmos a arte do Viver

No Limbo: o problema de diagnosticarmos a arte do Viver 
     Raiva. Prazer. Repulsa. Surpresa. Medo. Felicidade. Somos o que sentimos. As nossas emoções moldam o nosso dia a dia, influenciam as nossas decisões e são ditadoras da forma como nos conectamos, uns aos outros e com o que nos rodeia. “Cogito, ergo sum?” Talvez. Não obstante, proveniente das profundezas do sistema límbico, do córtex, da medula espinal e dos nervos periféricos, a experiência afetiva, o “sinto, logo existo”, é o que nos torna mais do que Homo sapiens. Para além de “primatas sábios”, somos feitos de Saudade. Tristeza. Alegria. Manifestações legítimas da nossa existência. Sem elas, nada somos. 
     Em abono da verdade, a Medicina Moderna procura ser ambiciosa. Perfecionista. Superdotada. Talvez por isso, por vezes, transforma o sofrimento inerente à condição humana em patologia, anulando a autonomia e a resiliência do Homem, passando a ver estas experiências através de um óculo onde toda a emoção dita negativa é pura disfunção biológica, apenas tratável com terapêutica biomédica, como resposta imediata ao sofrimento. A Medicina possui uma eterna predileção por considerar estas experiências afetivas, não como prova da nossa simples existência, mas sim como sintomas patológicos, que exigem imediato diagnóstico e imperativa intervenção. A literatura sublinha fortemente: ao ser priorizada uma lógica biomédica, outras abordagens psicossociais e comunitárias, como a terapia ou os grupos de entreajuda, acabam por ser desvalorizadas. Ignoradas. Esquecidas. Talvez assim seja para que tudo regresse a um estado de funcionamento rápido, quase automático; um cenário onde a própria normalidade é redesenhada, a ideia de doença se expande e se dilui, e a performance é imposta como a régua inflexível e silenciosa do que significa estarmos bem. 
     Cada cultura guarda, com os seus próprios ritmos e conceitos, formas de sofrer, de curar e até de morrer. Hoje, porém, permanece a questão de saber se a Medicina Moderna, ao querer nomear tudo, como investigadora indomável, acaba por apagar estes saberes silenciosos transmitidos como quem aprendeu a habitar a dor. Entre o sofrimento existencial, esse sentimento profundamente humano que se manifesta na tristeza, na ansiedade ou no desânimo passageiros perante perdas e frustrações, sinais de vida em movimento mais do que de doença, e a patologia clínica, persistente e invasiva, comprometedora do funcionamento global do indivíduo para além do que a vida explicaria, abre-se um território frágil. Um espaço onde nem toda a dor é doença, mas onde toda a dor pede escuta ativa. 
     Relembro, nunca devemos atravessar a dor em solidão, como se o sofrimento fosse um caminho vexatório e intransmissível. Há um valor profundo em procurar a comunidade, em encontrar na palavra partilhada um espaço de ressonância onde o que nos pesa no trapézio ganha perspetiva e sentido. Os fármacos não são neutros, muito menos apenas simbólicos, constituem intervenções sérias que alteram uma fisiologia que, por vezes, apenas é sintoma de possuirmos batimento cardíaco. Nem toda a tristeza é doença, nem toda a ansiedade é disfunção, porque os sentimentos, por natureza, são transitórios. Atravessam-nos. Transformam-se. Por vezes, estão longe de ser estados crónicos ou definitivos. Ainda assim, reconhecer esta fluidez que nos torna humanos não diminui a importância da Saúde Mental. Antes a reforça. Cuidar da mente é também saber distinguir o que precisa de presença e escuta do que exige intervenção clínica. Ser humano reside exatamente nesse equilíbrio delicado entre não reduzir as múltiplas facetas da vida a rótulos e não relegar o sofrimento ao silêncio. 
     O apoio clínico é essencial e muitas vezes insubstituível, oferecendo ajuda, tratamento e acompanhamento. Contudo, quando se torna excessivo ou desproporcionado, abre também espaço a riscos. Subtis a olho nu? Talvez, mas muito reais. Um deles é a supressão da autonomia, em que a pessoa perde gradualmente a confiança na sua própria capacidade de compreender e ultrapassar dificuldades inerentes à Vida, passando a depender de respostas externas e, em alguns casos, da polifarmácia como solução quase automática para o sofrimento. Outro reside na descontextualização completa do mal-estar, quando a atenção é fixa exclusivamente no indivíduo e no nível biológico, esquecendo que a dor também nasce de condições sociais, culturais e ambientais que moldam toda a experiência humana e não são tratadas com o simples recurso de um comprimido. Assim, aquilo que deveria ser cuidado pode, em excesso, restringir a nossa leitura do que é existir, transformando o que é complexo em algo demasiado simplificado, facilmente tratado com recurso a benzodiazepinas, e o que é humano em algo apenas clínico.      Talvez a verdadeira sabedoria esteja em não escolher extremos, mas em aprender a habitar o intervalo. Entre sentir e tratar. Entre compreender e medicar. Entre acolher e intervir. Porque a existência humana não se reduz, nem se esgota no diagnóstico. 
     É precisamente neste eterno antagonismo imperfeito entre a dor que nos constitui e o sofrimento patológico, que urge por terapêutica, que se revela, silenciosamente, aquilo que significa estarmos verdadeiramente vivos. 
                                                                                                                     Mariana Santos da Silva

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Entrevista Póstuma

junho 26, 2026 0
Entrevista Póstuma



Há pessoas que continuam a ensinar mesmo depois de morrerem. Numa Faculdade de Medicina, isto não é apenas uma metáfora escolhida a dedo para abrir um artigo de forma exuberante... Prometo. 

O silêncio era ensurdecedor. Não a quietude familiar, pontilhada por ansiedades quanto ao PEM da semana seguinte ou às inevitáveis sobreposições da LAC. Era um sossego inexplicável, acometido apenas pelo som gélido de metal contra metal e pelo fingido hábito de quem ainda não o possuía. No centro da sala, o meu entrevistado aguardava tranquilamente, com a paciência que só os ausentes conhecem. 

- Está confortável para começarmos? - continuei, num impulso maquinal, enquanto abria o meu bloco de notas. O cadáver manteve-se taciturno. Achei profissional da parte dele. 

- Como foi o seu dia? – prossegui. 

 - Estranho... Entraram vinte pessoas nervosas e supuseram que eu era apenas feito de fáscia e tecido conjuntivo. Este é o segundo grupo... - julguei ter ouvido tal consternado desabafo, mas a musculatura facial do meu pálido defunto não se movia, indiferente ao mundo que teimava em continuar. 

Os estudantes locomoviam-se à volta da mesa com uma precisão artificiosa, quiçá para encobrirem a insegurança de quem aprendia a habitar um limiar que os manuais nunca ensinam de verdade. Havia quem evitasse pousar o olhar sobre um rosto que carregava agora as marcas inexoráveis da finitude, como se olhar demasiado tornasse o atípico mais real do que o suportável. E, no entanto, era precisamente o rosto que denunciava a sala: não o do cadáver, mas o dos vivos. Uns inédita e absurdamente concentrados no professor, outros a disfarçar o desconforto, outros ainda num torpor dormente. Em todos, a mesma dúvida: onde nos situamos nesta fronteira inusitada entre a ciência e o respeito? 

- Os estudantes mudam ao longo do ano? – indaguei, tentando preencher o silêncio que acometia aquela sala. 

- No início, pedem desculpa ou licença antes de tocar....- julguei ouvir. - Depois discutem o jantar, enquanto analisam as minhas inserções musculares... 

Os alunos fitavam-no escrupulosamente. Mas ninguém naquela sala o observava com tanto escrutínio quanto ele a eles. Já perscrutara centenas antes de nós. Sabia quem ia desmaiar, quem simulava confiança com torpeza e quem ainda não aprendera a coexistir com a morte, porque antes de aprenderem a salvar vidas, os estudantes de Medicina aprendem, inevitavelmente, a sentar-se com a inexorável finitude. 

Era exatamente isso que me intrigava: a forma como, paulatinamente, o olhar se transforma. No início, há hesitação, um cuidado instintivo, em que cada gesto pede desculpa. Contudo, com o fluir do tempo, esta cautela molda-se, torna-se mais técnica, mais distante. Não por frieza, mas por necessidade. 

Ninguém consegue dissecar o mundo inteiro e conhecer-lhe os meandros, sem desenvolver, em algum momento, a capacidade de dele se separar. Como se a proximidade constante com a morte obrigasse os vivos a renegociarem a forma como estão presentes. Não era apenas Anatomia que ali se praticava. Aprendia-se uma linguagem nova, a da distância controlada: a quantidade exata de separação emocional necessária para abrir um corpo humano, o mapa de uma vida fecunda, honrando a história ali esculpida, sem colapsar juntamente com ela. 

- É curioso - continuou o nosso anfitrião de feições imperturbáveis - Conhecem o meu corpo ao detalhe. Mas já não me conhecem a mim... 

Finalmente olhei para o rosto do meu entrevistado. Parecia cansado. Fechei o bloco de notas. É bizarro como a Medicina ensina cada minuciosidade do corpo humano e vai, ao mesmo tempo, apagando discretamente a pessoa que existia dentro dele. Aos poucos, os corpos, santuários de uma vida recheada, deixam de ter histórias e passam a ser estrutura: o coração já não pertence a alguém, passa apenas a conter patologias e particularidades que devemos diagnosticar. 

Entre o cheiro a formaldeído e os apontamentos apressados, o extraordinário tornava-se rotina e era fácil esquecer que aquele corpo tivera um nome, uma vida, gostos e memórias. Antes de ser cadáver, fora alguém, uma biografia inteira que um dia ocupara espaço no nosso mundo. A humanidade não desaparece com o fim do batimento cardíaco. 

Regresso sempre à mesma pergunta: quantas vezes é preciso olhar para um corpo até deixar de o ver como alguém? Não sei responder. Talvez este seja um dos paradoxos da Medicina que nunca irá ter resposta. Apenas sei que temos de dispor de empatia para cuidar e de distanciamento para suportar, e que essa duplicidade não é simples. Acredito que nunca será. Aprende-se lentamente, e custa, como tudo o que vale a pena. Este equilíbrio é construído. Aprende-se com os casos que correm bem, claro. Mas sobretudo com os que se cicatrizam em nós. Um doente que não se salva. Um corredor silencioso depois de más notícias que já não podem ser desditas. 


Os atlas estão incompletos: falta um capítulo sobre como continuar funcional sem perder o que nos faz Humanos. Todavia, apercebo-me, com o tempo, que o distanciamento não é ausência total de empatia, mas apenas uma forma de a tornar sustentável: nunca será sobre sentir ou respeitar menos, mas sim sobre não permitirmos que o sofrimento que vemos e sentimos diariamente nos consuma. 

O meu entrevistado despediu-se da vida há vários anos. Ainda assim, continua a ensinar todos os dias. Após se ter descartado todo o material, os alunos saíram. A quietude permaneceu. O cadáver ficou. Como sempre. 

- Mariana Santos da Silva

terça-feira, 23 de junho de 2026

Sem tempo

junho 23, 2026 0
Sem tempo



 

Sem tempo

 Zás, lá se vai mais uma vida. Curta, frágil, imprevisível. A vida é assim. Num piscar de olhos, passamos de um dia aparentemente normal, para o caixão.

A nossa vida é tão instável, tão imprevisível, tão… curta, e, no entanto, passamos o tempo em discussões, em quezílias, em tudo e mais não sei quê, esquecendo-nos daquilo que realmente é importante: aproveitar o tempo com quem mais gostamos e tentar tirar o máximo proveito de tudo… Mas não! Em vez disso, vivemos num mundo cada vez mais apressado, mais material, mais impessoal, em que ninguém quer saber de nada que não sejam eles mesmos. Qual o sentido de uma vida assim? É assim tão mais importante ter bens materiais, riqueza ou dinheiro, do que uma família? Alguém que se irá lembrar de nós? Alguém que terá boas memórias, que viverá de acordo com o que fizemos, com o que dissemos?

A mim parece-me óbvio. Claro que quero deixar a minha marca no mundo, claro que quero ser lembrado por aquilo que fiz, mas prefiro muito mais ter uma família. Pessoas que estarão lá nos meus bons e maus momentos, quem me apoie, a quem passar os meus conhecimentos, alguém para o qual estarei lá, verei crescer, viverei com, e no final, lá estará para me apoiar.

A vida é muito mais que um curto espaço de tempo em que estamos neste planeta, em que criamos coisas, em que vivemos, ou até em que nos reproduzimos. A vida é tudo isso, mas também é a arte do desenvolvimento, da mudança, do crescimento, da aprendizagem, de momentos completamente fúteis, mas divertidos e enriquecedores da nossa curta passagem por este mundo. Passamos a vida numa correria desenfreada, esquecemo-nos dos sonhos, perdemos de vista o que importa, tudo pela ilusão de um amanhã melhor, mas que surge sempre igual.

 No início dos tempos, sobreviver era algo difícil em comparação aos dias de hoje, pelo menos para nós humanos, no entanto, a vida era simples, nascíamos, crescíamos, sobrevivíamos, reproduzíamo-nos e morríamos. Com o avançar dos tempos, sobreviver foi sendo facilitado, e com o desenvolver da cultura, demos ênfase ao aproveitar a vida, a fazer algo mais do que só viver num simples ciclo, aprendemos que podíamos deixar a nossa marca para gerações futuras, e com isso começou o foco na família, nas tradições, no aprender com os mais velhos. Apesar dos animais também o poderem fazer, nenhum desenvolveu um senso de consciência como o nosso, daí sermos únicos. No entanto, os anos foram passando, e chegamos aos dias de hoje, onde o conceito de família foi sendo desenvolvido e adaptado aos tempos modernos. Pelo contrário, o nosso tempo para o aplicarmos foi reduzido, o mundo acelerou, todos nós tivemos do acompanhar, e com isso perdemos a nossa essência. Somos animais como qualquer outro, não somos máquinas, temos as nossas relações pessoais, mas estas têm de ser desenvolvidas, e, num mundo com cada vez menos tempo, com mais pressa, e mais ligação aos bens materiais do que aos emocionais, essas mesmas ligações vão se perdendo, não porque nós não gostemos das nossas relações emocionais, mas sim porque não temos tempo para as mesmas.

Vejamos isto de outra forma. Para sobreviver, o que é que precisamos neste mundo? Dinheiro, é simples, sem dinheiro não conseguimos ter casa, ter comida, ter cuidados de saúde, constituir família, existir. Sendo assim, o que precisamos de fazer para ter dinheiro? Trabalhar, teoricamente, quanto mais trabalharmos, mais recebemos. Todos sabemos que não é assim, mas esta é a premissa que nos vendem, e, é a partir dela que vivemos, ou seja, mais trabalho, mais dinheiro. Com isso os salários reduzem, os preços aumentam, e logicamente temos a necessidade de trabalhar cada vez mais. Então, quando é que temos tempo para construir as nossas relações pessoais? A nossa família? O nosso lugar no mundo? A resposta é simples, não temos, é isto que está a acontecer à maioria da população, em especial nos países mais desenvolvidos, não existe tempo. Qualquer dia a reprodução será apenas um ato para manter a espécie, ou manter a existência de uma certa cultura ou país.

E daqui, surge a nossa aderência aos bens materiais, se não temos tempo para acompanhar relações que estão em constante mudança, como as interpessoais, então acompanhamos relações estáticas, ou seja, apegamo-nos aos bens materiais. Estes não exigem tempo, nem esforço para serem mantidos, não é preciso passar horas a pensar como os fazer felizes, ou o que fizemos de mal para eles estarem de mau-humor. É simples, eles estão lá, cumprem a sua função, e em caso de estarmos fartos, é só mandar fora e arranjar um novo.

Como tal deixo para reflexão, que mundo queremos nós? No que é que nos estamos a tornar? E como poderemos remediar o mal que fizemos?


                                                    Tiago Santos

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Afinal, o que é o Projeto Sophia?

junho 17, 2026 0
Afinal, o que é o Projeto Sophia?

 


     A Lightsource bp, que é a promotora do projeto, diz o seguinte sobre o Parque Solar Sophia no seu site: “O projeto Sophia foi concebido para produzir energia solar de forma responsável e eficiente, com uma configuração que privilegia a preservação e a valorização da biodiversidade e da paisagem rural onde se insere. Situado nos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, o projeto promove investimento regional, apoio a cadeias de fornecimento locais e criação de emprego nas fases de construção e exploração, conciliando a atividade económica com os interesses das comunidades A produção de eletricidade de origem renovável do Parque Solar Sophia contribui para a redução das emissões de gases de efeito de estufa (GEE) e para os objetivos do Plano Nacional de Energia e Clima”. Isto soa super bem certo? Quem ficar por aqui não tem como entender o porquê de se ter criado tamanha polémica sobre este assunto. Pois bem, a verdade é que por mais profundo e deserto que seja o interior, não se pode nunca esperar construir uma infraestrutura que ocupe mais de 400 hectares de paisagem, sem ouvir a opinião dos que aqui vivem.

 

     Podem parecer poucas e dispersas as aldeias que rodeiam as maiores cidades e vilas aqui das Beiras, até porque já essas são escassas, e ficam muito aquém da capital, mas somos mais do que parecemos, e culturalmente, como bons portugueses, também adoramos usar a nossa voz para fazer frente ao que achamos estar incorreto. E ao que parece, a oposição de muitos habitantes não é só teimosia, não é só medo da mudança, nem falta de informação.

 

   A Central Solar Fotovoltaica Sophia abrange os municípios do Fundão, Idanha-a-Nova e Penamacor, no distrito de Castelo Branco, e representa um investimento de 590 milhões de euros, para uma capacidade instalada de 867 MWp. Está previsto que 390 hectares sejam ocupados pelos painéis fotovoltaicos, e que com o resto das estruturas, o número chegue aos 435, com um total de 1.734 hectares de área vedada. Ao imaginarmos 400 campos de futebol cobertos por painéis solares, numa paisagem perto de nós, podemos começar a perceber a verdadeira seriedade do assunto. Suponho que ninguém se diga contra a procura de soluções que visem diminuir a pegada ambiental da produção de energia, que atualmente ainda assenta maioritariamente em combustíveis fósseis. Ninguém à partida, quer ter de gastar recursos que não tem, e transpondo essa filosofia para a escala mundial, é do interesse de todos que cada vez mais alternativas sejam criadas, e que as que já existem evoluam para serem mais eficientes a nível de praticidade e custos financeiros. No entanto por mais que qualquer um de nós se interesse por este tema, pesquise sobre ele, e desenvolva as suas próprias conclusões, quer sobre qual a melhor energia renovável, quer sobre se a paisagem fica mais ou menos bonita cheia de painéis, existem verdadeiros especialistas na área, que sabem ser imparciais, objetivos. Vejamos o que eles têm a dizer…

 

     No início deste ano a Agência Portuguesa do Ambiente concluiu no seu parecer que o projeto apresenta impactos negativos "muito significativos" tanto no uso do solo como na paisagem. Autarcas, a Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa e associações ambientalistas como a Quercus manifestaram uma forte oposição, ao apontar danos irreversíveis à biodiversidade, ao turismo e aos projetos da comunidade. Devido ao impacto ambiental e à forte oposição pública durante a consulta pública, o projeto encontra-se ainda em reformulação.

 

     Da parte do público a contestação pode não soar tão formal, mas baseou-se em receios reais, e que devem ser tidos em conta de igual modo. As pessoas estão preocupadas, não só com o impacto visual do projeto, que é comentado e debatido por todos a cada passagem na autoestrada mais próxima, como também receiam o impacto que este “parque solar” pode ter na flora e fauna local. “Será que vai afetar negativamente as espécies autóctones?” “Será que os animais que por ali andam, por mais pequenos insetos que sejam, vão perder o seu habitat?” Para algumas pessoas que exploram projetos agrícolas e de turismo rural perto da zona, a pergunta chega a ser mesmo, “Será que vou conseguir continuar o meu negócio se as pessoas não quiserem vir ver um monte de painéis”? Se profissionais entendidos da área consideraram que o projeto não era assim tão espetacular do ponto de vista ambiental quanto parecia, e se a essas opiniões se juntou tanta contestação do povo, entende-se que o projeto esteja ainda a ser reformulado.

 

     Diz-se que possíveis reformulações do plano passem pelo fornecimento de meios, por parte dos promotores do projeto Sophia, para a plantação de árvores autóctones na Beira Baixa, como forma de combate à plantação de eucaliptos em demasia. Assim como mecanismos para a promoção de pastagens e de apicultura em coexistência com a produção de energia solar. Soluções a que a Lightsource bp chama de “Plano de Compensação de Desflorestação”. Pergunto-me, se temos de desflorestar a esta escala para obter uma alternativa eficaz à produção de energia por combustíveis fósseis, para posteriormente “compensar”, será que estamos a escolher o plano certo? Por outro lado, e correndo o risco de ser “advogada do diabo”, quantos de nós sabem como era a nossa “terra natal”, ou rua onde crescemos, antes de ter casas? Antes de ser a nossa rua, com as nossas histórias, antes de ter passeios por vezes esburacados e outras vezes por varrer, como era, antes do ser humano? Será que numa Beira Baixa tão grande e bonita, com tantas paisagens, alguém alguma vez olhou para o sítio onde o projeto Sophia está a ser desenvolvido e pensou, “Aqui…isto é que é mesmo bonito, esta vista, não podem mesmo tapar…”?

 

     A verdade, é que temos montes de novas urbanizações a serem construídas por todo o lado, em sítios antes desertos de humanos, ocupados apenas pela natureza, e muitos de nós agradecem esse fenómeno pois acreditamos que mais oferta de casas pode ajudar a combater a crise de habitação em que vivemos. Parece que não nos impacta tanto ver uma paisagem coberta por casas, como nos impacta ver uma montanha cheia de azul escuro… Porém também pergunto, será que se cada novo prédio ou casa a ser edificado tivesse o seu telhado coberto de painéis, conseguiríamos compensar a falta de um grande “parque solar”? Será que a solução para a produção de eletricidade está mesmo na energia solar?

 

     Eu não sou profissional sobre o tema. Ao pesquisar sobre ele, entendi que produzir energia em mega centrais torna o custo por megawatt-hora mais baixo do que ao espalhar painéis por milhões de telhados, e que ligar uma única central de grande porte à rede é logisticamente mais simples do que gerir uma produção hiper-fragmentada. Mas desflorestar por desflorestar, ao construir casas com painéis solares em cima, sempre dá para a gente viver, ao cobrir uma paisagem de painéis, parece que só dá para criar polémica…

 

     Não podia deixar de referir que sabemos que tudo o que produzimos e que não encontramos naturalmente no planeta, como a eletricidade e os próprios painéis fotovoltaicos, tem um custo ambiental. Quer seja na manufatura, durante o uso, ou no fim de vida em que têm de ser descartados de alguma forma. Se queremos continuar a viver num mundo em que existem carros e frigoríficos, temos de aceitar que de uma forma geral, nunca vai haver nenhuma solução perfeita para a produção de eletricidade. Portugal é um país com grandes apostas e alto potencial no que toca às energias renováveis, outros países escolhem apostar em centrais nucleares, e outros continuam quase completamente reféns de fósseis. Mas no fim das contas, a resposta às questões relacionadas com qual a forma mais sustentável de produzir o que quer que seja que tenha de ser produzido, será sempre encontrar o mal menor, e não a solução sem males nenhuns.

 

     O projeto Sophia é massivo, não pode avançar sem estarem esclarecidas todas as preocupações do povo, nem sem se encontrarem alternativas para os grandes receios dos profissionais do ambiente. Por enquanto ainda não há conclusões sobre como irá terminar o processo de reformulação, apesar de uma resposta estar em atraso. No entanto, teremos de manter sempre em mente, que muitos bons planos não são perfeitos, não agradam a todos, e que mesmo assim, são bons. Já Aristóteles defendia que “no meio é que está a virtude”, a meio caminho entre dois extremos. Talvez todas as polémicas deste país nos devessem fazer lembrar do velho ditado, antes de partirmos para o destilamento de ódio baseado num instinto muito português de querer imitar o velho do Restelo.

 
                                                                                                                                Maria Constança Leitão

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Desabafo

junho 10, 2026 0
Desabafo


    
                                                                

 Desabafo

    Ó Luís, Fernando, Zé, Eça meu caro, e Gil, seu entusiasta, fora tantos outros cujos nomes, não sei, não me lembro ou simplesmente isto ficaria demasiado longo. Venham e vejam este vosso país, este nosso país, e digam-me o que acham. Será mesmo que tudo vale a pena? Não terão sido aquelas lágrimas em vão? Todos aqueles que por entre as pedras foram esmagados e esquecidos, as memórias perdidas por entre o pó e o mofo das casas. No meio disto tudo, acho que o Parvo foi quem melhor se manteve ao longo dos anos.

    De que adianta os sucessivos avisos, ou relembrar como fomos vitoriosos, se quem nos governa tende sempre a perder-se no cinzento nevoeiro. Ó Gil, de entre muitos, tu foste dos primeiros a alertar para os vícios do nosso povo, para a forma como pecamos insaciavelmente, e para a nossa notável estupidez e ganância. Luís, enalteceste todos os nossos feitos, não quiseste que a memória se perdesse, nem o método para a vitória, mas em Alcácer tudo desvaneceu. Eça, tu viste a nossa sociedade como ninguém, a podridão que se instalou, e descreveste como ninguém mais ousou. Fernando, uma mensagem não bastou, escrever em país de cego, é como falar em reino de surdos, os únicos que se deram ao trabalho de a ler, já há muito que descansam no sono eterno. E por fim, Zé, é sempre uma alegria ouvir as tuas histórias, conversar contigo nem que seja por um breve momento, pena que vivemos num país que, embora cada vez mais envelhecido, cada vez mais despreza os nossos idosos, como tal, peço-te, perdoa-os por tal desprezo, por não te darem o tempo devido, deixarem-te num canto à espera da derradeira hora.

    Olhar para o que este país se tornou, ver aquilo que já foi, ou pensar no que poderia ser. Qual destas a mais dolorosa, qual destas mais desgosto causa? Quanto a vós não sei, pessoalmente, só vejo tristeza em cada uma delas, seja pelos caminhos que percorro a ver o mal que por cá se instalou, seja a folhear as páginas douradas da nossa história, e ver como o tempo tudo levou. Seja a encarar os destinos que se abrem, as portas que esperam por ser cruzadas, e o abismo para que todos caminhamos…

    Como dizia Afonso da Maia em Os Maias, estamos “num país em que a ocupação geral é estar doente…”, e a doença que assola todo este país, tem de nome comodismo. Contentamo-nos com pouco, não procuramos mais, não queremos melhor. Sentamo-nos à beira-mar, abrimos uma mini, comemos uns tremoços, e ao sabor do vento, com o cheiro da maresia, deixamos as nossas preocupações fugirem. Fogem as preocupações, foge o tempo, as oportunidades, e tudo nos passa pelas mãos como se grãos de areia se tratasse.

    Urge a necessidade de tratar este mal que há tanto tempo nos assombra, esta neblina que nos tira a vista. E mais uma vez parafraseando Afonso da Maia, “num país em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é saber curar.” Como tal suplico, a todos aqueles em que o dom da cura reside, por favor, usem-no para o bem do meu país, para o bem do vosso país, para o bem do nosso país. Eu sei que não é fácil, curar a surdez de muitos parece tarefa herculana, a cegues de outros tantos? Acho que só pedindo ajuda a Hécate*, pode ser que dessa forma consigam ter um vislumbre daquilo que podemos almejar. Mas o maior mal que nos persegue, esse, só pode ser combatido por nós. Não há deuses, mitos, lendas ou heróis que nos venham trazer uma solução simples, só existe uma forma de nos curarmos desta doença. Enfrentando-a, fazendo as nossas vozes serem ouvidas, deixemo-nos de ser mudos, de nos acomodar, de fingir indiferença. Olhem para a frente, para aquilo que somos, que podemos ser. Está na hora de abrir os olhos a quem os mantém fechados, de nos expressarmos até que os surdos nos ouçam, de cumprir o que falta cumprir.

    E assim peço a todos vós, estejam onde estiverem, pensem o que pensarem, se gostam deste país, se têm o mínimo de orgulho em serem portugueses, em serem luso descendentes, se gostam desta nossa maravilhosa língua pela qual me expresso, se têm o mínimo dos interesses pelo bem deste país. Façam frente a este comodismo que vive como um parasita nos nossos genes. Revejam o que foi feito ao longo da história, deleitem-se com os contos que o nosso grande Zé deixou, neles podemos encontrar muitos pontos por onde melhorar. Leiam a mensagem do nosso querido Fernando, por lá podemos encontrar esperança. Detetem de onde vem aquele cheiro a mofo e bafiento do qual o Eça se queixava. Relembrem os caminhos que nos levaram à vitória, foi para isso que o Luís arriscou a vida para que um mero livro retornasse seco à costa. E por fim, oiçam o Gil, e não deixem que os vícios vos consumam, que a ganância vos corrompa.

     Os escritores vão-se, mas as histórias ficam, a sua luta nunca foi em vão, mas sim à espera que chegue o dia em que alguém os irá compreender, por isso, é que mesmo com séculos de diferença todos eles disseram o mesmo, todos eles lutaram pelo mesmo. Eles e tantos outros. E agora? Agora é a nossa vez. Por isso, deixo um último apelo, neste meu desabafo para os grandes, e com pedidos a todos. Para um Portugal diferente, todos temos de fazer a diferença. Basta uma pequena pedra começar a rolar, para outras a seguirem.


*Nota: Hécate é uma deusa da mitologia grega, referenciada como a senhora da magia, das encruzilhadas, dos limites e da noite. É representada como uma deusa de três corpos ou três cabeças, que simbolizam a sua capacidade de ver o passado, presente e futuro.


Tiago Santos


terça-feira, 26 de maio de 2026

Décadas que passam, Vozes que ficam

maio 26, 2026 0
Décadas que passam, Vozes que ficam


 

Décadas que passam, Vozes que ficam

Desde os primórdios da humanidade que o ser humano procura fazer-se ouvir. No entanto, as sinfonias não apareceram até bem mais tarde. Porque, como com tudo, a música começou de forma simples. Imitavam-se os sons da natureza: o canto dos pássaros, os assobios do vento, o correr da água das nascentes. Batiam-se palmas, e tão depressa se ouviam sussurros como gritos. Trauteavam-se curtas melodias dantes ouvidas em jeito de sinal. Porque, antes de ser arte, a música era sobrevivência.

No entanto, rapidamente as vozes deixaram de ser suficientes, e surgiu a necessidade de encontrar novas formas de criar e moldar sons. Pouco a pouco, tudo o que os rodeava tinha potencial para se tornar num instrumento: flautas esculpidas em osso, tambores feitos com peles de animais caçados, chocalhos nascidos de pequenas pedras encerradas em cascas ocas. E, rapidamente, o mundo começou a ganhar novas ‘vozes’.

Com o passar do tempo, estes conjuntos de sons foram ganhando forma e estrutura, mas sem nunca perder a sua natureza fluida. Assim, os batuques, os ritmos e as melodias evoluíram para canções, que evoluíram até o que conhecemos hoje como música, e que, certamente, continuarão a fazê-lo.

A vontade de não perder as melodias outrora cantadas pelos nossos avós, e pelos avós deles, passadas de ouvido em ouvido e cantadas de boca em boca, levou a que começassem a ser escritas. E, tal como a música em si, o método de a guardar e recordar também cresceu muito até chegar ao que conhecemos hoje em dia. Desde Neumas, até Guido de Arezzo, e às pautas em pentagrama da atualidade, tudo nos permite preservar e garantir que os séculos de música que nos antecederam não ficam esquecidos.

Complicam-se os tempos, complicam-se os pensamentos. E a música acompanha-os. Tal como a arquitetura do período barroco surgiu com todo o seu grandor, marcada por edifícios ornamentados e exuberantes, a música recusou-se a ficar para trás. Inevitavelmente, as composições ganharam uma nova complexidade, uma certa riqueza, um toque de ouro e grandor, que refletiam perfeitamente a sua sociedade contemporânea.

Cada época deixou a sua marca através da música, mas foi, igualmente, por ela moldada. E cada região, cada ponto do mapa por onde ela passou, também ficou com pegadas, fundas e imóveis; fósseis de um tempo que passou mas deixou vestígios.

Trovas de amor, nos tempos em que nada era declaração mais romântica do que uma canção. Gritos de guerra, traçados com sangue, suor e lágrimas, ou cantigas num momento de paz que podia muito bem ser o último. Um conforto, que, embora por vezes trouxesse memórias desconfortáveis, nunca conseguimos verdadeiramente largar. 

Porque, por mais independente e livre que a música nos pareça e nos faça sentir, é e sempre será algo inerentemente agregado ao tempo que a forjou. 

E saber o que é a música é muito mais do que conhecer todas as sinfonias de Bach. É sentir, é deixarmo-nos levar pelo que entra por um ouvido, e em vez de sair pelo outro, rodopiar dentro da nossa cabeça até nos tirar os pés do chão. É ganhar asas para subir, e perdê-las de repente numa descida a pique. É ter algo que nos acompanha pela montanha-russa da vida.

É, também, ter algo que começa e que impulsiona. Um pequeno prelúdio do que está por vir. Algo que toca no rádio e que leva multidões à rua, e que acorda a coragem onde antes reinava o silêncio e a censura. 

A Cultura Portuguesa também está intrinsecamente ligada a esta que é a primeira das Artes Clássicas. De fados, a desgarradas, e até a música pimba, é um traço inconfundível da nossa essência e da alma portuguesa. E, felizmente, há quem não a deixe esquecer.

Do convívio, da tradição e do amor a esta arte, surgiram as Tunas Académicas, que a continuam a propagar - de jovens para jovens, para (meninas) velhinhas à janela, que reveem um pouco da sua infância em cada trinado, para visitantes, que vêm ao nosso país pelo pastel de nata e saem de cá com um verdadeiro cheirinho a Portugal.

Desde 2009, a C’a Tuna aos Saltos - Tuna Médica Feminina da Universidade da Beira Interior tem sido um marco na comunidade estudantil e tunante, nunca perdendo o foco na partilha de momentos, e no que é verdadeiramente a essência da música: aproximar pessoas.

Deste mesmo desejo de partilha, nasceu o Medicalis - Festival de Tunas Femininas da Universidade da Beira Interior. Ao longo dos anos tem vindo a contar com inúmeras edições, aproximando-se a décima segunda. E, este ano, reflete sobre tudo o que nos permitiu chegar até aqui. Retrata um verdadeiro encontro entre épocas, uma viagem no tempo centrada nos dias 29, 30 e 31 de maio, no Teatro Municipal da Covilhã, onde celebramos.

Há quem diga que a falar é que nos entendemos, mas eu discordo. A música atravessa barreiras linguísticas, penetra pensamentos, quebra muros e destranca portas. Por isso, mudemos a frase: a cantar a gente entende-se.

                                                                                                                           Maria Ferreirinha


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Uma última fita de despedida

maio 18, 2026 0
Uma última fita de despedida

 

 

Ah, o dia da bênção das pastas! Um dia tão aguardado para muitos dos nossos colegas. Um dia tão especial que merece ficar registado e não há melhor maneira de o fazer do que pela escrita. No entanto, não quero que este texto seja um texto formal ou científico… Quero que simbolize o que os nossos finalistas viveram. Quero que seja mais uma fita para os nossos finalistas levarem com eles. E, por isso, vou começar de novo:

 

Querido(a) finalista, 

É com muito orgulho de todos nós que te vemos cumprir mais uma fase do teu percurso. A universidade é, sem dúvida, um tempo maravilhoso da nossa vida. Claro que tem os seus desafios, mas tudo o que vale a pena os tem.

 

Sem dúvida é uma experiência como nenhuma outra e, por isso, esperamos que nunca te esqueças dela. Que não te esqueças de todos os jantares loucos que tiveste com os teus amigos ou da tua primeira serenata. Que leves contigo todas as tuas conquistas, todas as histórias e as incríveis pessoas que conheceste. Sabemos que houve momentos menos bons, noites mal passadas a estudar, professores que te deixaram doido e, até mesmo, as alturas em que não conseguiste conter as lágrimas. Apesar de não serem os tempos mais fáceis ou bonitos, foram eles que te permitiram crescer e que te tornasses na pessoa que és hoje. Por isso fazem, também, parte da tua jornada. Jornada essa que inclui outras tantas histórias, outras tantas pessoas. 

 

O espírito académico também agora reside em ti. Os jantares de curso com aquela sangria duvidosa, todo o sábio conhecimento e dicas de sobrevivência passadas à geração mais nova, a primeira vez de traje e, se fizeste como muitos, toda a experiência da praxe. Definitivamente, estes momentos marcam-nos e moldam-nos.

 

Hoje, sabes que não sais daqui a mesma pessoa que chegaste. E ainda bem, porque aqui cresceste, aprendeste, fizeste amizades para a vida… e viveste. 

 

A Covilhã podia até parecer um nome estranho no início. Apenas mais uma cidade no mapa, mas, agora, um sítio que te orgulhas de chamar casa. É um lugar onde cada esquina tem uma história e cada rua uma memória que te faz sorrir sem dares por isso. É daqueles lugares que, independentemente de onde fores, nunca sairá do teu coração, assim como tu nunca sairás do dela, porque, tal como ela foi importante para ti, também tu deixaste a tua marca.

 

Sei que esta nova etapa pode parecer aterrorizante e pensar na partida pode trazer sentimentos mistos, mas nunca te esqueças de que aqui terás sempre um lugar ao qual chamar casa e pessoas de família.

 

Desejamos-te toda a sorte do mundo nesta nova fase e deixamos o nosso obrigado por tudo o que deixaste e ensinaste. 

 

Antes de terminar, quero, também, deixar uma mensagem mais pessoal aos meus amigos finalistas: estarei sempre aqui para vós. A vossa partida deixará saudades. 

 

Gostaríamos de acabar, assim, esta fita com um último pedido: que esta experiência incrível não seja a nossa última e que, no futuro, continuem a criar memórias incríveis. Além disso, não se esqueçam de deixar a vossa marca por onde quer que passem, como a que deixaram aqui. Usem o vosso curso para tornar este mundo um lugar melhor e o vosso coração para poderem senti-lo.


Muito sucesso a todos,

Dos vossos amigos”



Mónica Pereira ✩