Desabafo
Ó Luís, Fernando, Zé, Eça meu caro, e Gil, seu entusiasta, fora tantos outros cujos nomes, não sei, não me lembro ou simplesmente isto ficaria demasiado longo. Venham e vejam este vosso país, este nosso país, e digam-me o que acham. Será mesmo que tudo vale a pena? Não terão sido aquelas lágrimas em vão? Todos aqueles que por entre as pedras foram esmagados e esquecidos, as memórias perdidas por entre o pó e o mofo das casas. No meio disto tudo, acho que o Parvo foi quem melhor se manteve ao longo dos anos.
De que adianta os sucessivos avisos, ou relembrar como fomos vitoriosos, se quem nos governa tende sempre a perder-se no cinzento nevoeiro. Ó Gil, de entre muitos, tu foste dos primeiros a alertar para os vícios do nosso povo, para a forma como pecamos insaciavelmente, e para a nossa notável estupidez e ganância. Luís, enalteceste todos os nossos feitos, não quiseste que a memória se perdesse, nem o método para a vitória, mas em Alcácer tudo desvaneceu. Eça, tu viste a nossa sociedade como ninguém, a podridão que se instalou, e descreveste como ninguém mais ousou. Fernando, uma mensagem não bastou, escrever em país de cego, é como falar em reino de surdos, os únicos que se deram ao trabalho de a ler, já há muito que descansam no sono eterno. E por fim, Zé, é sempre uma alegria ouvir as tuas histórias, conversar contigo nem que seja por um breve momento, pena que vivemos num país que, embora cada vez mais envelhecido, cada vez mais despreza os nossos idosos, como tal, peço-te, perdoa-os por tal desprezo, por não te darem o tempo devido, deixarem-te num canto à espera da derradeira hora.
Olhar para o que este país se tornou, ver aquilo que já foi, ou pensar no que poderia ser. Qual destas a mais dolorosa, qual destas mais desgosto causa? Quanto a vós não sei, pessoalmente, só vejo tristeza em cada uma delas, seja pelos caminhos que percorro a ver o mal que por cá se instalou, seja a folhear as páginas douradas da nossa história, e ver como o tempo tudo levou. Seja a encarar os destinos que se abrem, as portas que esperam por ser cruzadas, e o abismo para que todos caminhamos…
Como dizia Afonso da Maia em Os Maias, estamos “num país em que a ocupação geral é estar doente…”, e a doença que assola todo este país, tem de nome comodismo. Contentamo-nos com pouco, não procuramos mais, não queremos melhor. Sentamo-nos à beira-mar, abrimos uma mini, comemos uns tremoços, e ao sabor do vento, com o cheiro da maresia, deixamos as nossas preocupações fugirem. Fogem as preocupações, foge o tempo, as oportunidades, e tudo nos passa pelas mãos como se grãos de areia se tratasse.
Urge a necessidade de tratar este mal que há tanto tempo nos assombra, esta neblina que nos tira a vista. E mais uma vez parafraseando Afonso da Maia, “num país em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é saber curar.” Como tal suplico, a todos aqueles em que o dom da cura reside, por favor, usem-no para o bem do meu país, para o bem do vosso país, para o bem do nosso país. Eu sei que não é fácil, curar a surdez de muitos parece tarefa herculana, a cegues de outros tantos? Acho que só pedindo ajuda a Hécate*, pode ser que dessa forma consigam ter um vislumbre daquilo que podemos almejar. Mas o maior mal que nos persegue, esse, só pode ser combatido por nós. Não há deuses, mitos, lendas ou heróis que nos venham trazer uma solução simples, só existe uma forma de nos curarmos desta doença. Enfrentando-a, fazendo as nossas vozes serem ouvidas, deixemo-nos de ser mudos, de nos acomodar, de fingir indiferença. Olhem para a frente, para aquilo que somos, que podemos ser. Está na hora de abrir os olhos a quem os mantém fechados, de nos expressarmos até que os surdos nos ouçam, de cumprir o que falta cumprir.
E assim peço a todos vós, estejam onde estiverem, pensem o que pensarem, se gostam deste país, se têm o mínimo de orgulho em serem portugueses, em serem luso descendentes, se gostam desta nossa maravilhosa língua pela qual me expresso, se têm o mínimo dos interesses pelo bem deste país. Façam frente a este comodismo que vive como um parasita nos nossos genes. Revejam o que foi feito ao longo da história, deleitem-se com os contos que o nosso grande Zé deixou, neles podemos encontrar muitos pontos por onde melhorar. Leiam a mensagem do nosso querido Fernando, por lá podemos encontrar esperança. Detetem de onde vem aquele cheiro a mofo e bafiento do qual o Eça se queixava. Relembrem os caminhos que nos levaram à vitória, foi para isso que o Luís arriscou a vida para que um mero livro retornasse seco à costa. E por fim, oiçam o Gil, e não deixem que os vícios vos consumam, que a ganância vos corrompa.
Os escritores vão-se, mas as histórias ficam, a sua luta nunca foi em vão, mas sim à espera que chegue o dia em que alguém os irá compreender, por isso, é que mesmo com séculos de diferença todos eles disseram o mesmo, todos eles lutaram pelo mesmo. Eles e tantos outros. E agora? Agora é a nossa vez. Por isso, deixo um último apelo, neste meu desabafo para os grandes, e com pedidos a todos. Para um Portugal diferente, todos temos de fazer a diferença. Basta uma pequena pedra começar a rolar, para outras a seguirem.
*Nota: Hécate é uma deusa da mitologia grega, referenciada como a senhora da magia, das encruzilhadas, dos limites e da noite. É representada como uma deusa de três corpos ou três cabeças, que simbolizam a sua capacidade de ver o passado, presente e futuro.
Tiago Santos
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