A Lightsource bp, que é a promotora do projeto, diz o seguinte sobre o Parque Solar Sophia no seu site: “O projeto Sophia foi concebido para produzir energia solar de forma responsável e eficiente, com uma configuração que privilegia a preservação e a valorização da biodiversidade e da paisagem rural onde se insere. Situado nos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, o projeto promove investimento regional, apoio a cadeias de fornecimento locais e criação de emprego nas fases de construção e exploração, conciliando a atividade económica com os interesses das comunidades A produção de eletricidade de origem renovável do Parque Solar Sophia contribui para a redução das emissões de gases de efeito de estufa (GEE) e para os objetivos do Plano Nacional de Energia e Clima”. Isto soa super bem certo? Quem ficar por aqui não tem como entender o porquê de se ter criado tamanha polémica sobre este assunto. Pois bem, a verdade é que por mais profundo e deserto que seja o interior, não se pode nunca esperar construir uma infraestrutura que ocupe mais de 400 hectares de paisagem, sem ouvir a opinião dos que aqui vivem.
Podem parecer poucas e dispersas as aldeias que rodeiam as maiores cidades e vilas aqui das Beiras, até porque já essas são escassas, e ficam muito aquém da capital, mas somos mais do que parecemos, e culturalmente, como bons portugueses, também adoramos usar a nossa voz para fazer frente ao que achamos estar incorreto. E ao que parece, a oposição de muitos habitantes não é só teimosia, não é só medo da mudança, nem falta de informação.
A Central Solar Fotovoltaica Sophia abrange os municípios do Fundão, Idanha-a-Nova e Penamacor, no distrito de Castelo Branco, e representa um investimento de 590 milhões de euros, para uma capacidade instalada de 867 MWp. Está previsto que 390 hectares sejam ocupados pelos painéis fotovoltaicos, e que com o resto das estruturas, o número chegue aos 435, com um total de 1.734 hectares de área vedada. Ao imaginarmos 400 campos de futebol cobertos por painéis solares, numa paisagem perto de nós, podemos começar a perceber a verdadeira seriedade do assunto. Suponho que ninguém se diga contra a procura de soluções que visem diminuir a pegada ambiental da produção de energia, que atualmente ainda assenta maioritariamente em combustíveis fósseis. Ninguém à partida, quer ter de gastar recursos que não tem, e transpondo essa filosofia para a escala mundial, é do interesse de todos que cada vez mais alternativas sejam criadas, e que as que já existem evoluam para serem mais eficientes a nível de praticidade e custos financeiros. No entanto por mais que qualquer um de nós se interesse por este tema, pesquise sobre ele, e desenvolva as suas próprias conclusões, quer sobre qual a melhor energia renovável, quer sobre se a paisagem fica mais ou menos bonita cheia de painéis, existem verdadeiros especialistas na área, que sabem ser imparciais, objetivos. Vejamos o que eles têm a dizer…
No início deste ano a Agência Portuguesa do Ambiente concluiu no seu parecer que o projeto apresenta impactos negativos "muito significativos" tanto no uso do solo como na paisagem. Autarcas, a Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa e associações ambientalistas como a Quercus manifestaram uma forte oposição, ao apontar danos irreversíveis à biodiversidade, ao turismo e aos projetos da comunidade. Devido ao impacto ambiental e à forte oposição pública durante a consulta pública, o projeto encontra-se ainda em reformulação.
Da parte do público a contestação pode não soar tão formal, mas baseou-se em receios reais, e que devem ser tidos em conta de igual modo. As pessoas estão preocupadas, não só com o impacto visual do projeto, que é comentado e debatido por todos a cada passagem na autoestrada mais próxima, como também receiam o impacto que este “parque solar” pode ter na flora e fauna local. “Será que vai afetar negativamente as espécies autóctones?” “Será que os animais que por ali andam, por mais pequenos insetos que sejam, vão perder o seu habitat?” Para algumas pessoas que exploram projetos agrícolas e de turismo rural perto da zona, a pergunta chega a ser mesmo, “Será que vou conseguir continuar o meu negócio se as pessoas não quiserem vir ver um monte de painéis”? Se profissionais entendidos da área consideraram que o projeto não era assim tão espetacular do ponto de vista ambiental quanto parecia, e se a essas opiniões se juntou tanta contestação do povo, entende-se que o projeto esteja ainda a ser reformulado.
Diz-se que possíveis reformulações do plano passem pelo fornecimento de meios, por parte dos promotores do projeto Sophia, para a plantação de árvores autóctones na Beira Baixa, como forma de combate à plantação de eucaliptos em demasia. Assim como mecanismos para a promoção de pastagens e de apicultura em coexistência com a produção de energia solar. Soluções a que a Lightsource bp chama de “Plano de Compensação de Desflorestação”. Pergunto-me, se temos de desflorestar a esta escala para obter uma alternativa eficaz à produção de energia por combustíveis fósseis, para posteriormente “compensar”, será que estamos a escolher o plano certo? Por outro lado, e correndo o risco de ser “advogada do diabo”, quantos de nós sabem como era a nossa “terra natal”, ou rua onde crescemos, antes de ter casas? Antes de ser a nossa rua, com as nossas histórias, antes de ter passeios por vezes esburacados e outras vezes por varrer, como era, antes do ser humano? Será que numa Beira Baixa tão grande e bonita, com tantas paisagens, alguém alguma vez olhou para o sítio onde o projeto Sophia está a ser desenvolvido e pensou, “Aqui…isto é que é mesmo bonito, esta vista, não podem mesmo tapar…”?
A verdade, é que temos montes de novas urbanizações a serem construídas por todo o lado, em sítios antes desertos de humanos, ocupados apenas pela natureza, e muitos de nós agradecem esse fenómeno pois acreditamos que mais oferta de casas pode ajudar a combater a crise de habitação em que vivemos. Parece que não nos impacta tanto ver uma paisagem coberta por casas, como nos impacta ver uma montanha cheia de azul escuro… Porém também pergunto, será que se cada novo prédio ou casa a ser edificado tivesse o seu telhado coberto de painéis, conseguiríamos compensar a falta de um grande “parque solar”? Será que a solução para a produção de eletricidade está mesmo na energia solar?
Eu não sou profissional sobre o tema. Ao pesquisar sobre ele, entendi que produzir energia em mega centrais torna o custo por megawatt-hora mais baixo do que ao espalhar painéis por milhões de telhados, e que ligar uma única central de grande porte à rede é logisticamente mais simples do que gerir uma produção hiper-fragmentada. Mas desflorestar por desflorestar, ao construir casas com painéis solares em cima, sempre dá para a gente viver, ao cobrir uma paisagem de painéis, parece que só dá para criar polémica…
Não podia deixar de referir que sabemos que tudo o que produzimos e que não encontramos naturalmente no planeta, como a eletricidade e os próprios painéis fotovoltaicos, tem um custo ambiental. Quer seja na manufatura, durante o uso, ou no fim de vida em que têm de ser descartados de alguma forma. Se queremos continuar a viver num mundo em que existem carros e frigoríficos, temos de aceitar que de uma forma geral, nunca vai haver nenhuma solução perfeita para a produção de eletricidade. Portugal é um país com grandes apostas e alto potencial no que toca às energias renováveis, outros países escolhem apostar em centrais nucleares, e outros continuam quase completamente reféns de fósseis. Mas no fim das contas, a resposta às questões relacionadas com qual a forma mais sustentável de produzir o que quer que seja que tenha de ser produzido, será sempre encontrar o mal menor, e não a solução sem males nenhuns.
O projeto Sophia é massivo, não pode avançar sem estarem esclarecidas todas as preocupações do povo, nem sem se encontrarem alternativas para os grandes receios dos profissionais do ambiente. Por enquanto ainda não há conclusões sobre como irá terminar o processo de reformulação, apesar de uma resposta estar em atraso. No entanto, teremos de manter sempre em mente, que muitos bons planos não são perfeitos, não agradam a todos, e que mesmo assim, são bons. Já Aristóteles defendia que “no meio é que está a virtude”, a meio caminho entre dois extremos. Talvez todas as polémicas deste país nos devessem fazer lembrar do velho ditado, antes de partirmos para o destilamento de ódio baseado num instinto muito português de querer imitar o velho do Restelo.
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