Sem tempo
Zás, lá se vai mais uma vida. Curta, frágil, imprevisível. A vida é assim. Num piscar de olhos, passamos de um dia aparentemente normal, para o caixão.
A nossa vida é tão instável, tão imprevisível, tão… curta, e, no entanto, passamos o tempo em discussões, em quezílias, em tudo e mais não sei quê, esquecendo-nos daquilo que realmente é importante: aproveitar o tempo com quem mais gostamos e tentar tirar o máximo proveito de tudo… Mas não! Em vez disso, vivemos num mundo cada vez mais apressado, mais material, mais impessoal, em que ninguém quer saber de nada que não sejam eles mesmos. Qual o sentido de uma vida assim? É assim tão mais importante ter bens materiais, riqueza ou dinheiro, do que uma família? Alguém que se irá lembrar de nós? Alguém que terá boas memórias, que viverá de acordo com o que fizemos, com o que dissemos?
A mim parece-me óbvio. Claro que quero deixar a minha marca no mundo, claro que quero ser lembrado por aquilo que fiz, mas prefiro muito mais ter uma família. Pessoas que estarão lá nos meus bons e maus momentos, quem me apoie, a quem passar os meus conhecimentos, alguém para o qual estarei lá, verei crescer, viverei com, e no final, lá estará para me apoiar.
A vida é muito mais que um curto espaço de tempo em que estamos neste planeta, em que criamos coisas, em que vivemos, ou até em que nos reproduzimos. A vida é tudo isso, mas também é a arte do desenvolvimento, da mudança, do crescimento, da aprendizagem, de momentos completamente fúteis, mas divertidos e enriquecedores da nossa curta passagem por este mundo. Passamos a vida numa correria desenfreada, esquecemo-nos dos sonhos, perdemos de vista o que importa, tudo pela ilusão de um amanhã melhor, mas que surge sempre igual.
No início dos tempos, sobreviver era algo difícil em comparação aos dias de hoje, pelo menos para nós humanos, no entanto, a vida era simples, nascíamos, crescíamos, sobrevivíamos, reproduzíamo-nos e morríamos. Com o avançar dos tempos, sobreviver foi sendo facilitado, e com o desenvolver da cultura, demos ênfase ao aproveitar a vida, a fazer algo mais do que só viver num simples ciclo, aprendemos que podíamos deixar a nossa marca para gerações futuras, e com isso começou o foco na família, nas tradições, no aprender com os mais velhos. Apesar dos animais também o poderem fazer, nenhum desenvolveu um senso de consciência como o nosso, daí sermos únicos. No entanto, os anos foram passando, e chegamos aos dias de hoje, onde o conceito de família foi sendo desenvolvido e adaptado aos tempos modernos. Pelo contrário, o nosso tempo para o aplicarmos foi reduzido, o mundo acelerou, todos nós tivemos do acompanhar, e com isso perdemos a nossa essência. Somos animais como qualquer outro, não somos máquinas, temos as nossas relações pessoais, mas estas têm de ser desenvolvidas, e, num mundo com cada vez menos tempo, com mais pressa, e mais ligação aos bens materiais do que aos emocionais, essas mesmas ligações vão se perdendo, não porque nós não gostemos das nossas relações emocionais, mas sim porque não temos tempo para as mesmas.
Vejamos isto de outra forma. Para sobreviver, o que é que precisamos neste mundo? Dinheiro, é simples, sem dinheiro não conseguimos ter casa, ter comida, ter cuidados de saúde, constituir família, existir. Sendo assim, o que precisamos de fazer para ter dinheiro? Trabalhar, teoricamente, quanto mais trabalharmos, mais recebemos. Todos sabemos que não é assim, mas esta é a premissa que nos vendem, e, é a partir dela que vivemos, ou seja, mais trabalho, mais dinheiro. Com isso os salários reduzem, os preços aumentam, e logicamente temos a necessidade de trabalhar cada vez mais. Então, quando é que temos tempo para construir as nossas relações pessoais? A nossa família? O nosso lugar no mundo? A resposta é simples, não temos, é isto que está a acontecer à maioria da população, em especial nos países mais desenvolvidos, não existe tempo. Qualquer dia a reprodução será apenas um ato para manter a espécie, ou manter a existência de uma certa cultura ou país.
E daqui, surge a nossa aderência aos bens materiais, se não temos tempo para acompanhar relações que estão em constante mudança, como as interpessoais, então acompanhamos relações estáticas, ou seja, apegamo-nos aos bens materiais. Estes não exigem tempo, nem esforço para serem mantidos, não é preciso passar horas a pensar como os fazer felizes, ou o que fizemos de mal para eles estarem de mau-humor. É simples, eles estão lá, cumprem a sua função, e em caso de estarmos fartos, é só mandar fora e arranjar um novo.
Como tal deixo para reflexão, que mundo queremos nós? No que é que nos estamos a tornar? E como poderemos remediar o mal que fizemos?
Tiago Santos
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