Amor à Camisola - A cultura do futebol em Portugal - Fusão

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Amor à Camisola - A cultura do futebol em Portugal

 



Desde o último mês, até à derrota nos quartos de final, o país inteiro manteve o seu olhar atento sob o Euro 2024. Sabemos o que significa para tantos a possibilidade de vencer um torneio desta dimensão e influência, e a importância deste desporto na nossa identidade cultural. Continuamos a ser o país dos 3 Fs: Fado, Fátima e Futebol. 

Esta expressão, que surge do plano de António de Oliveira Salazar de alimentar a pacificação e a alienação da população é, ainda hoje, usada para caracterizar a falta de envolvimento popular nos assuntos da sociedade. Tendo debates eleitorais com um tempo de antena de 30 minutos, e debates futebolísticos com o dobro do tempo, no mínimo, não há dúvida de que as prioridades nacionais se mantêm tão atuais como as de há 50 anos. 

Hoje, centrando o foco neste último F, abordamos um pouco do “como” e do “porquê” de se manter um pilar inquestionável da cultura portuguesa. 


Para abordar o papel do futebol, precisamos do contexto em que este se introduziu na nossa cultura. O desporto, como atividade abrangente que é, constitui uma forma de transmissão de valores, opiniões, conhecimentos e normas que teve o seu destaque inicial nas transformações subsequentes da Revolução Industrial na Europa, entre os séculos XVIII e XIX. O aumento do tempo de lazer, combinado com a divulgação do desporto no meio operário, despoletou uma expansão mundial de popularidade como nenhum fenómeno social fez até então. E isto provém, nomeadamente, da estrutura tão bem conseguida com que se apresenta: uma ação social institucionalizada, sujeita a regras que se desenvolvem numa base lúdica com o objetivo da competição - dependente da habilidade e estratégia dos participantes.[1] É um paradigma quase infalível, porque apela a um dos instintos mais ancestrais do ser humano. E funciona. 

Já o futebol parece ser uma das subespécies de desporto mais bem conseguidas para a cultura portuguesa. E é irrefutável só por observação direta que se tenha tornado, e que se mantenha ainda, um fator de caracterização cultural tão grande no nosso país. 

Tendo demonstrado ser uma veículo de interação, partilhar preferências de clube e perspetivas semelhantes ajuda a criar laços interpessoais que se provam muito fortes - é um tópico de conversa transversal a quase todas as circunstâncias, e que, por norma, é de conhecimento geral. [2]


A verdade é que, apesar de grande parte das pessoas não terem um interesse ou conhecimento muito aprofundado sobre o jogo, é muito difícil ficar indiferente. Em alturas como a do Euro, algo que nos faça lembrar de onde somos, aonde sentimos que pertencemos - e que está a representar um papel a nível internacional - tem um impacto que vai além do futebol em si. Envolve todo o ritual do dia de jogo: a escolha do melhor local, a t-shirt da seleção que estava há 2 anos perdida no fundo da gaveta, uma desculpa para uns finos e, mais do que tudo, a companhia a que damos realmente valor. Porque o cerne da nossa interação social, como portugueses, é uma combinação muito simples e eficaz de pessoas, comida, bebida, e um bom tema de conversa que dure o resto da noite. E, nisto, mesmo quem reduz o futebol a uma futilidade sem interesse não pode discordar. Mas fica a sugestão de que fazer planos para assistir a um debate das legislativas tem quase o mesmo efeito, com o bónus da estimulação intelectual.


Não podemos prever se daqui a 50 anos vamos continuar a juntar-nos à frente de um ecrã em cada dia de jogo, ou se os interesses da nação estarão dispersos por outras formas mais evoluídas de lazer. Mas podemos constatar que, nos dias que correm, continua a haver pouca coisa que nos mobilize tanto como um grupo de homens de calções que correm atrás de uma bola.


Autora: Carolina Troia


1. Zaffalon Júnior, J, Freitas de Medeiros, F, Rocha Silva, J, O esporte como fenômeno social. EFDeportes.com, Revista Digital. 2012;172(17).  https://www.efdeportes.com/efd172/o-esporte-como-fenomeno-social.htm 


2. Gonçalves de Almeida Neves, A J, O Fenómeno do Futebol em Portugal - Estudo de caso. Universidade da Beira Interior. 2013. http://hdl.handle.net/10400.6/3512  


Sem comentários:

Enviar um comentário