Nasci Abril - Fusão

sábado, 25 de abril de 2026

Nasci Abril

 


E Abril funde-se naquilo que nos permite viver os dias de hoje tal como os conhecemos. Viver com a Liberdade de 1974. Liberdade frágil e quebradiça, por quem a memória do passado se transforma em fita cola da resistência. Há 52 anos, uma das ditaduras mais longas da Europa, com 40 anos de opressão, tem o seu fim, e vem levantar o véu da esperança, onde o desabrochar da democracia se alia à sede da simples possibilidade de sonhar. Ouvimos os nossos avós falar deste tempo com a mesma rebeldia jovem que sentiam quando viviam no monocromático, quando ousavam amar sem dimensão, ler sem sermão ou cantar Godinho e Zeca na escuridão. Não vou escrever para rimar. O caminho não foi, nem será tão linear como a rima. Mas há que salientar que foi a rima que deu azo à eventualidade deste texto que leem. Podemos dizer que o introduziu. E a introdução foi de Paulo de Carvalho. 

Avistava-se o fim da guerra colonial, o fim dos investimentos loucos para armamento, num regime onde a educação e a saúde não alcançavam a maioria. Regime onde se definhava de fome. Regime de seu nome Estado Novo. 

Num mundo onde a arte é símbolo e expressão, como não se ser um Portugal cinzento antes do Cravo na Rua? Portugal virou a página e construiu-se, socialmente, politicamente, culturalmente. Conseguimos nós, geração neta ou até bisneta de Abril, imaginar uma dimensão onde o pensamento, que tropeça agilmente com o pensamento seguinte, e o terceiro, e o que de este último nasce, não é livre de sair do ínfimo de cada um de nós? 

E o teatro? Claro que uma mulher pode ser atriz, pode ser casada. Pode ter o pai, o marido ou a mulher, os filhos, a aplaudi-la em pé, aplaudir a sua arte, o seu grito de elevação, que entretém, enche salas, comove e acende gargalhadas. Sim, claro que pode. Hoje pode. É Abril. 

E a música? Tão facilmente escrevemos uma canção, compomos, produzimos, gravamos e deixamos a sorte dos media ditar o alcance de quem vibra ou de quem passa para a próxima estação. Claro que podemos ser músicos. A música chega para todos, não é censura, não é amarrada a sete chaves e muito menos limitada. A música é Abril. 

E o desenho, a pintura e a escultura? Ser filha de artistas plásticos é ser filha da paixão, do manifesto, da sensibilidade . É nascer na casa da imaginação. É ser arte e crítica no seu cru. Não é ser mais pequeno, nem miserável. É ter cor. É ser Abril. 

E a literatura? Somos a geração que lê, suga cada letra, cada palavra e cada frase. Livros que não vivem só nas rodas das bibliotecas itinerantes. Estão nas físicas, nas virtuais, nas portuguesas, nas internacionais. Podemos dizer nas bibliotecas infinitas? Podemos. É Abril. 

E a dança? De calções, de calças, de saia, de mini saia, de biquíni, quem sabe. A dança não é mais promiscuidade. A dança é língua e comunicação e mil e uma formas de expressão. Podemos dançar na relva, no pátio da avó, ou nos palcos. Quem disse? Eu sei quem disse. Disse Abril. 

Filha da liberdade, também eu nasci com a prontidão de poder ser tudo e mais alguma coisa. Nasci mulher. Nasci e tenho direito à educação. Nasci e posso votar. Nasci e vou a concertos, teatros e exposições. Nasci e passeio à beira-mar, sozinha. Nasci e posso sair do meu país sem ter de pedir autorização a qualquer ponta de homem. Nasci e posso dizer não aos ditadores, à guerra e ao genocídio. Nasci e posso sonhar. Sou filha do ramo verde e da pétala vermelha. Tenho sim o direito e dever da consciência. Consciente do que está à minha volta, do que depende de mim e, do que não dependendo, poderei mudar para melhor. Se há 52 anos, a Dona Liberdade não saísse à rua, eu não era Abril. Sou Abril em força. É curioso, podem não acreditar, mas sou também Abril de apelido. Quem sabe, destinada a honrar a Revolução dos Cravos. Quem sabe, através de um simples texto como este, que pode ser partilhado e criticado, barafustado e argumentado. Por quem? Já sabem por quem. Por quem é pessoa filha, neta e bisneta da Dona Liberdade. Por quem é Abril. 


Francisca Ferro Abril Monteiro





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