Há pessoas que continuam a ensinar mesmo depois de morrerem. Numa Faculdade de Medicina, isto não é apenas uma metáfora escolhida a dedo para abrir um artigo de forma exuberante... Prometo.
O silêncio era ensurdecedor. Não a quietude familiar, pontilhada por ansiedades quanto ao PEM da semana seguinte ou às inevitáveis sobreposições da LAC. Era um sossego inexplicável, acometido apenas pelo som gélido de metal contra metal e pelo fingido hábito de quem ainda não o possuía. No centro da sala, o meu entrevistado aguardava tranquilamente, com a paciência que só os ausentes conhecem.
- Está confortável para começarmos? - continuei, num impulso maquinal, enquanto abria o meu bloco de notas. O cadáver manteve-se taciturno. Achei profissional da parte dele.
- Como foi o seu dia? – prossegui.
- Estranho... Entraram vinte pessoas nervosas e supuseram que eu era apenas feito de fáscia e tecido conjuntivo. Este é o segundo grupo... - julguei ter ouvido tal consternado desabafo, mas a musculatura facial do meu pálido defunto não se movia, indiferente ao mundo que teimava em continuar.
Os estudantes locomoviam-se à volta da mesa com uma precisão artificiosa, quiçá para encobrirem a insegurança de quem aprendia a habitar um limiar que os manuais nunca ensinam de verdade. Havia quem evitasse pousar o olhar sobre um rosto que carregava agora as marcas inexoráveis da finitude, como se olhar demasiado tornasse o atípico mais real do que o suportável. E, no entanto, era precisamente o rosto que denunciava a sala: não o do cadáver, mas o dos vivos. Uns inédita e absurdamente concentrados no professor, outros a disfarçar o desconforto, outros ainda num torpor dormente. Em todos, a mesma dúvida: onde nos situamos nesta fronteira inusitada entre a ciência e o respeito?
- Os estudantes mudam ao longo do ano? – indaguei, tentando preencher o silêncio que acometia aquela sala.
- No início, pedem desculpa ou licença antes de tocar....- julguei ouvir. - Depois discutem o jantar, enquanto analisam as minhas inserções musculares...
Os alunos fitavam-no escrupulosamente. Mas ninguém naquela sala o observava com tanto escrutínio quanto ele a eles. Já perscrutara centenas antes de nós. Sabia quem ia desmaiar, quem simulava confiança com torpeza e quem ainda não aprendera a coexistir com a morte, porque antes de aprenderem a salvar vidas, os estudantes de Medicina aprendem, inevitavelmente, a sentar-se com a inexorável finitude.
Era exatamente isso que me intrigava: a forma como, paulatinamente, o olhar se transforma. No início, há hesitação, um cuidado instintivo, em que cada gesto pede desculpa. Contudo, com o fluir do tempo, esta cautela molda-se, torna-se mais técnica, mais distante. Não por frieza, mas por necessidade.
Ninguém consegue dissecar o mundo inteiro e conhecer-lhe os meandros, sem desenvolver, em algum momento, a capacidade de dele se separar. Como se a proximidade constante com a morte obrigasse os vivos a renegociarem a forma como estão presentes. Não era apenas Anatomia que ali se praticava. Aprendia-se uma linguagem nova, a da distância controlada: a quantidade exata de separação emocional necessária para abrir um corpo humano, o mapa de uma vida fecunda, honrando a história ali esculpida, sem colapsar juntamente com ela.
- É curioso - continuou o nosso anfitrião de feições imperturbáveis - Conhecem o meu corpo ao detalhe. Mas já não me conhecem a mim...
Finalmente olhei para o rosto do meu entrevistado. Parecia cansado. Fechei o bloco de notas. É bizarro como a Medicina ensina cada minuciosidade do corpo humano e vai, ao mesmo tempo, apagando discretamente a pessoa que existia dentro dele. Aos poucos, os corpos, santuários de uma vida recheada, deixam de ter histórias e passam a ser estrutura: o coração já não pertence a alguém, passa apenas a conter patologias e particularidades que devemos diagnosticar.
Entre o cheiro a formaldeído e os apontamentos apressados, o extraordinário tornava-se rotina e era fácil esquecer que aquele corpo tivera um nome, uma vida, gostos e memórias. Antes de ser cadáver, fora alguém, uma biografia inteira que um dia ocupara espaço no nosso mundo. A humanidade não desaparece com o fim do batimento cardíaco.
Regresso sempre à mesma pergunta: quantas vezes é preciso olhar para um corpo até deixar de o ver como alguém? Não sei responder. Talvez este seja um dos paradoxos da Medicina que nunca irá ter resposta. Apenas sei que temos de dispor de empatia para cuidar e de distanciamento para suportar, e que essa duplicidade não é simples. Acredito que nunca será. Aprende-se lentamente, e custa, como tudo o que vale a pena. Este equilíbrio é construído. Aprende-se com os casos que correm bem, claro. Mas sobretudo com os que se cicatrizam em nós. Um doente que não se salva. Um corredor silencioso depois de más notícias que já não podem ser desditas.
Os atlas estão incompletos: falta um capítulo sobre como continuar funcional sem perder o que nos faz Humanos. Todavia, apercebo-me, com o tempo, que o distanciamento não é ausência total de empatia, mas apenas uma forma de a tornar sustentável: nunca será sobre sentir ou respeitar menos, mas sim sobre não permitirmos que o sofrimento que vemos e sentimos diariamente nos consuma.
O meu entrevistado despediu-se da vida há vários anos. Ainda assim, continua a ensinar todos os dias. Após se ter descartado todo o material, os alunos saíram. A quietude permaneceu. O cadáver ficou. Como sempre.
- Mariana Santos da Silva
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