No Limbo: o problema de diagnosticarmos a arte do Viver - Fusão

sexta-feira, 10 de julho de 2026

No Limbo: o problema de diagnosticarmos a arte do Viver


No Limbo: o problema de diagnosticarmos a arte do Viver 
     Raiva. Prazer. Repulsa. Surpresa. Medo. Felicidade. Somos o que sentimos. As nossas emoções moldam o nosso dia a dia, influenciam as nossas decisões e são ditadoras da forma como nos conectamos, uns aos outros e com o que nos rodeia. “Cogito, ergo sum?” Talvez. Não obstante, proveniente das profundezas do sistema límbico, do córtex, da medula espinal e dos nervos periféricos, a experiência afetiva, o “sinto, logo existo”, é o que nos torna mais do que Homo sapiens. Para além de “primatas sábios”, somos feitos de Saudade. Tristeza. Alegria. Manifestações legítimas da nossa existência. Sem elas, nada somos. 
     Em abono da verdade, a Medicina Moderna procura ser ambiciosa. Perfecionista. Superdotada. Talvez por isso, por vezes, transforma o sofrimento inerente à condição humana em patologia, anulando a autonomia e a resiliência do Homem, passando a ver estas experiências através de um óculo onde toda a emoção dita negativa é pura disfunção biológica, apenas tratável com terapêutica biomédica, como resposta imediata ao sofrimento. A Medicina possui uma eterna predileção por considerar estas experiências afetivas, não como prova da nossa simples existência, mas sim como sintomas patológicos, que exigem imediato diagnóstico e imperativa intervenção. A literatura sublinha fortemente: ao ser priorizada uma lógica biomédica, outras abordagens psicossociais e comunitárias, como a terapia ou os grupos de entreajuda, acabam por ser desvalorizadas. Ignoradas. Esquecidas. Talvez assim seja para que tudo regresse a um estado de funcionamento rápido, quase automático; um cenário onde a própria normalidade é redesenhada, a ideia de doença se expande e se dilui, e a performance é imposta como a régua inflexível e silenciosa do que significa estarmos bem. 
     Cada cultura guarda, com os seus próprios ritmos e conceitos, formas de sofrer, de curar e até de morrer. Hoje, porém, permanece a questão de saber se a Medicina Moderna, ao querer nomear tudo, como investigadora indomável, acaba por apagar estes saberes silenciosos transmitidos como quem aprendeu a habitar a dor. Entre o sofrimento existencial, esse sentimento profundamente humano que se manifesta na tristeza, na ansiedade ou no desânimo passageiros perante perdas e frustrações, sinais de vida em movimento mais do que de doença, e a patologia clínica, persistente e invasiva, comprometedora do funcionamento global do indivíduo para além do que a vida explicaria, abre-se um território frágil. Um espaço onde nem toda a dor é doença, mas onde toda a dor pede escuta ativa. 
     Relembro, nunca devemos atravessar a dor em solidão, como se o sofrimento fosse um caminho vexatório e intransmissível. Há um valor profundo em procurar a comunidade, em encontrar na palavra partilhada um espaço de ressonância onde o que nos pesa no trapézio ganha perspetiva e sentido. Os fármacos não são neutros, muito menos apenas simbólicos, constituem intervenções sérias que alteram uma fisiologia que, por vezes, apenas é sintoma de possuirmos batimento cardíaco. Nem toda a tristeza é doença, nem toda a ansiedade é disfunção, porque os sentimentos, por natureza, são transitórios. Atravessam-nos. Transformam-se. Por vezes, estão longe de ser estados crónicos ou definitivos. Ainda assim, reconhecer esta fluidez que nos torna humanos não diminui a importância da Saúde Mental. Antes a reforça. Cuidar da mente é também saber distinguir o que precisa de presença e escuta do que exige intervenção clínica. Ser humano reside exatamente nesse equilíbrio delicado entre não reduzir as múltiplas facetas da vida a rótulos e não relegar o sofrimento ao silêncio. 
     O apoio clínico é essencial e muitas vezes insubstituível, oferecendo ajuda, tratamento e acompanhamento. Contudo, quando se torna excessivo ou desproporcionado, abre também espaço a riscos. Subtis a olho nu? Talvez, mas muito reais. Um deles é a supressão da autonomia, em que a pessoa perde gradualmente a confiança na sua própria capacidade de compreender e ultrapassar dificuldades inerentes à Vida, passando a depender de respostas externas e, em alguns casos, da polifarmácia como solução quase automática para o sofrimento. Outro reside na descontextualização completa do mal-estar, quando a atenção é fixa exclusivamente no indivíduo e no nível biológico, esquecendo que a dor também nasce de condições sociais, culturais e ambientais que moldam toda a experiência humana e não são tratadas com o simples recurso de um comprimido. Assim, aquilo que deveria ser cuidado pode, em excesso, restringir a nossa leitura do que é existir, transformando o que é complexo em algo demasiado simplificado, facilmente tratado com recurso a benzodiazepinas, e o que é humano em algo apenas clínico.      Talvez a verdadeira sabedoria esteja em não escolher extremos, mas em aprender a habitar o intervalo. Entre sentir e tratar. Entre compreender e medicar. Entre acolher e intervir. Porque a existência humana não se reduz, nem se esgota no diagnóstico. 
     É precisamente neste eterno antagonismo imperfeito entre a dor que nos constitui e o sofrimento patológico, que urge por terapêutica, que se revela, silenciosamente, aquilo que significa estarmos verdadeiramente vivos. 
                                                                                                                     Mariana Santos da Silva

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