Décadas que passam, Vozes que ficam - Fusão

terça-feira, 26 de maio de 2026

Décadas que passam, Vozes que ficam


 

Décadas que passam, Vozes que ficam

Desde os primórdios da humanidade que o ser humano procura fazer-se ouvir. No entanto, as sinfonias não apareceram até bem mais tarde. Porque, como com tudo, a música começou de forma simples. Imitavam-se os sons da natureza: o canto dos pássaros, os assobios do vento, o correr da água das nascentes. Batiam-se palmas, e tão depressa se ouviam sussurros como gritos. Trauteavam-se curtas melodias dantes ouvidas em jeito de sinal. Porque, antes de ser arte, a música era sobrevivência.

No entanto, rapidamente as vozes deixaram de ser suficientes, e surgiu a necessidade de encontrar novas formas de criar e moldar sons. Pouco a pouco, tudo o que os rodeava tinha potencial para se tornar num instrumento: flautas esculpidas em osso, tambores feitos com peles de animais caçados, chocalhos nascidos de pequenas pedras encerradas em cascas ocas. E, rapidamente, o mundo começou a ganhar novas ‘vozes’.

Com o passar do tempo, estes conjuntos de sons foram ganhando forma e estrutura, mas sem nunca perder a sua natureza fluida. Assim, os batuques, os ritmos e as melodias evoluíram para canções, que evoluíram até o que conhecemos hoje como música, e que, certamente, continuarão a fazê-lo.

A vontade de não perder as melodias outrora cantadas pelos nossos avós, e pelos avós deles, passadas de ouvido em ouvido e cantadas de boca em boca, levou a que começassem a ser escritas. E, tal como a música em si, o método de a guardar e recordar também cresceu muito até chegar ao que conhecemos hoje em dia. Desde Neumas, até Guido de Arezzo, e às pautas em pentagrama da atualidade, tudo nos permite preservar e garantir que os séculos de música que nos antecederam não ficam esquecidos.

Complicam-se os tempos, complicam-se os pensamentos. E a música acompanha-os. Tal como a arquitetura do período barroco surgiu com todo o seu grandor, marcada por edifícios ornamentados e exuberantes, a música recusou-se a ficar para trás. Inevitavelmente, as composições ganharam uma nova complexidade, uma certa riqueza, um toque de ouro e grandor, que refletiam perfeitamente a sua sociedade contemporânea.

Cada época deixou a sua marca através da música, mas foi, igualmente, por ela moldada. E cada região, cada ponto do mapa por onde ela passou, também ficou com pegadas, fundas e imóveis; fósseis de um tempo que passou mas deixou vestígios.

Trovas de amor, nos tempos em que nada era declaração mais romântica do que uma canção. Gritos de guerra, traçados com sangue, suor e lágrimas, ou cantigas num momento de paz que podia muito bem ser o último. Um conforto, que, embora por vezes trouxesse memórias desconfortáveis, nunca conseguimos verdadeiramente largar. 

Porque, por mais independente e livre que a música nos pareça e nos faça sentir, é e sempre será algo inerentemente agregado ao tempo que a forjou. 

E saber o que é a música é muito mais do que conhecer todas as sinfonias de Bach. É sentir, é deixarmo-nos levar pelo que entra por um ouvido, e em vez de sair pelo outro, rodopiar dentro da nossa cabeça até nos tirar os pés do chão. É ganhar asas para subir, e perdê-las de repente numa descida a pique. É ter algo que nos acompanha pela montanha-russa da vida.

É, também, ter algo que começa e que impulsiona. Um pequeno prelúdio do que está por vir. Algo que toca no rádio e que leva multidões à rua, e que acorda a coragem onde antes reinava o silêncio e a censura. 

A Cultura Portuguesa também está intrinsecamente ligada a esta que é a primeira das Artes Clássicas. De fados, a desgarradas, e até a música pimba, é um traço inconfundível da nossa essência e da alma portuguesa. E, felizmente, há quem não a deixe esquecer.

Do convívio, da tradição e do amor a esta arte, surgiram as Tunas Académicas, que a continuam a propagar - de jovens para jovens, para (meninas) velhinhas à janela, que reveem um pouco da sua infância em cada trinado, para visitantes, que vêm ao nosso país pelo pastel de nata e saem de cá com um verdadeiro cheirinho a Portugal.

Desde 2009, a C’a Tuna aos Saltos - Tuna Médica Feminina da Universidade da Beira Interior tem sido um marco na comunidade estudantil e tunante, nunca perdendo o foco na partilha de momentos, e no que é verdadeiramente a essência da música: aproximar pessoas.

Deste mesmo desejo de partilha, nasceu o Medicalis - Festival de Tunas Femininas da Universidade da Beira Interior. Ao longo dos anos tem vindo a contar com inúmeras edições, aproximando-se a décima segunda. E, este ano, reflete sobre tudo o que nos permitiu chegar até aqui. Retrata um verdadeiro encontro entre épocas, uma viagem no tempo centrada nos dias 29, 30 e 31 de maio, no Teatro Municipal da Covilhã, onde celebramos.

Há quem diga que a falar é que nos entendemos, mas eu discordo. A música atravessa barreiras linguísticas, penetra pensamentos, quebra muros e destranca portas. Por isso, mudemos a frase: a cantar a gente entende-se.

                                                                                                                           Maria Ferreirinha


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