Hormonas e metáforas - Fusão

terça-feira, 16 de julho de 2024

Hormonas e metáforas


 Caríssimos leitores e prezados estudantes de medicina, 


Trago-vos ciência e uma dica para a vida. Presunçoso da minha parte, não? Aguentem e verão onde quero chegar. 

Século XXI, século da revolução digital, da globalização, de avanços brutais na saúde, aberta a época dos “comos” e “porquês”, o sistema neuroendócrino começou a ser estudado como nunca antes foi. Era o ano de 1993 quando Haddaway perguntou “What is love?”. Não sei se conseguiu a resposta que procurava, mas hoje estamos um bocadinho mais perto. 

Talvez… 

Cientistas de campos que vão da antropologia à neurociência têm feito essa mesma pergunta (embora de forma menos eloquente) há décadas. Acontece que a ciência por trás do amor, dos afetos é ao mesmo tempo mais simples e mais complexa do que poderíamos imaginar.

Não é preciso dizer que a base científica do amor é frequentemente sensacionalizada e, como na maioria das ciências, não sabemos o suficiente para tirar conclusões definitivas sobre cada peça do quebra-cabeça. O que sabemos, no entanto, é que grande parte do que sentimos pode ser explicado pela química. 

O  neuropeptídeo oxitocina, a título de exemplo, originalmente conhecido por estimular o parto e a ejeção do leite, parece desempenhar um papel importante. Pequena molécula que diminui a pressão arterial, reduz os níveis de cortisol, aumenta a resistência à dor, tem efeitos ansiolíticos e estimula interações sociais positivas. A oxitocina pode ser liberada por estímulos sensoriais não dolorosos, como toque, calor, ingestão de alimentos e possivelmente estímulos olfativos, sonoros e luminosos.(1) A oxitocina pode ser libertada através de um abraço. Citando uma colega nossa: “Estava numa livraria e reparei num casal com um livro cada um, e com a mão livre acariciavam as mãos um do outro”. Será este casal mais ou menos saudável por sentirem o toque um do outro, por libertarem oxitocina? Estudo interessante, se alguém precisar de tema para a tese.

Claro que a oxitocina é um exemplo de uma hormona numa piscina de hormonas que é o ser humano, uma ligação no meio de centenas, milhares de conexões, sinapses, um sistema perfeitamente equilibrado no seu desequilíbrio… Como vos fazer acreditar que o afeto é importante? Será que o amor no ser humano não é só atração e o desejo inconsciente de reprodução, de assegurar a espécie? Às vezes, na nossa pretensão de grandiosidade e espetacularidade, esquecemo-nos que somos pouco mais que animais racionais, condicionados pelo ambiente que nos rodeia. Luxúria, ou desejo, impulsionada por testosterona e estrogénio, atração resultado da dopamina e norepinefrina, apego, devido à oxitocina e vasopressina.(2) Somos nada mais que reações químicas complexas, que nos influenciam sem que nada possamos controlar. Com tudo o que de bom e mau daí advém. 

Pessoas que tiveram maior apoio paternal durante a infância tendem a ter uma saúde relativamente melhor ao longo da vida adulta, enquanto pessoas com apoio paternal inadequado enquanto cresciam, tendem a ter uma saúde pior na idade adulta, sugere um novo estudo envolvendo uma amostra nacionalmente representativa de quase 3.000 adultos. As descobertas são relatadas na edição de março da revista Psychology and Aging, publicada pela American Psychological Association (APA). (3) E este é apenas um dos milhares de exemplos que poderia dar para vos assegurar que o amor é então crucial a uma vida humana digna de ser sentida, vivida no total sentido e significado da palavra  viver. Mas porque é que se fala tanto de ciência relativamente a algo que deveria ser mais sentido que compreendido?

Amor, amigos, afeto, família, perguntamos-vos se o testemunham no dia a dia. “Disse a uma amiga que não podia comer glúten e ela foi comprar crepes com nutella sem glúten”, “Sempre que me vão buscar à paragem de autocarro ao domingo à noite”, “Vi uma rapariga a fotografar a irmã mais nova sem que ela se apercebesse”, “Ser um espectador no aeroporto, se tiverem atenção vão ver que há amor em todo o lado para onde olham”. 

No fundo, é muito mais fácil fazer do que perceber, sentir do que explicar. Já experimentaram passar um dia à procura de amor, de afeto? Será que o valorizamos, que somos gratos às pessoas que cuidam de nós? Hormonas à parte, lamechices não tanto, afinal, são os afetos que nos ancoram e que nos elevam, que, acima de tudo, nos lembram da beleza incontestável de sermos humanos e de que estamos, quer queiramos quer não, profundamente conectados uns aos outros.

Maria Monteiro


Uvnas-Moberg K, Petersson M. Oxytocin, ein Vermittler von Antistress, Wohlbefinden, sozialer Interaktion, Wachstum und Heilung [Oxytocin, a mediator of anti-stress, well-being, social interaction, growth and healing]. Z Psychosom Med Psychother. 2005;51(1):57-80. German. doi: 10.13109/zptm.2005.51.1.57. PMID: 15834840.

Marazziti, D., & Canale, D. (2004). "Hormonal changes when falling in love." Psychoneuroendocrinology, 29(7), 931-936.

APA Public Affairs Office. (2004, March 21). Less parental support is associated with adult depression and chronic health problems [Press release]. American Psychological Association. https://www.apa.org/news/press/releases/2004/03/parental-support


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