“The brain is not a liver”
Durante décadas, os psicadélicos conseguiram algo impressionante: toda a gente tinha uma opinião sobre eles, mas quase ninguém sabia realmente do que se estava a falar. Ou eram definidos como substâncias perigosíssimas ou então como respostas para todo o sofrimento existencial. Possivelmente porque sempre foi mais fácil julgar do que ter uma opinião cientificamente sustentada.
Talvez seja aí que está o mais interessante: criou-se um medo coletivo enorme em torno destas substâncias muito antes de existir espaço para uma discussão verdadeiramente científica sobre aquilo que realmente são, os seus riscos e o potencial que podem ou não ter.
O “Heal Forum 2026 - Holistic Entheogen and Learning Forum” surgiu neste contexto com o objetivo de transmitir à comunidade fontes de informação científica, histórica e clínica fidedignas. Sem estigma, sem desinformação, sem tabus.
“The brain is not a liver”
Esta foi uma das frases que mais me marcou. Mas porquê?
Durante muito tempo, a saúde mental era tratada como quem trata uma hipercolesterolemia ou hipertensão arterial. Algo não está bem? Receita-se um antidepressivo, corrige-se quimicamente e pronto. Mas o cérebro humano é muito menos organizado do que gostaríamos. Mistura memórias, traumas, emoções, stress, relações, ansiedade existencial e provavelmente aquela vergonha que ainda sentimos às 2 da manhã por algo que dissemos em 2016.
Não funciona como um órgão isolado. E talvez seja por isso que a investigação sobre psicadélicos voltou a ganhar atenção.
Nos últimos anos, diversas universidades voltaram a estudar substâncias como psilocibina, ketamina e MDMA em doentes com depressão resistente ao tratamento, PTSD e perturbação depressiva major. Os resultados começaram a criar uma pergunta desconfortável para a medicina moderna: e se tivermos passado décadas a ignorar ferramentas potencialmente úteis com base no estigma social?
No entanto, isto não significa que psicadélicos sejam inofensivos ou milagrosos. O “Heal Forum” deixou isso bastante claro. Em contextos errados, sem acompanhamento adequado, podem ser perigosos e profundamente destabilizadores.
O mais interessante foi ver cientistas, médicos, investigadores, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais a concluírem, por diferentes caminhos:
O cérebro não se deixa reduzir a explicações simples.
Não se trata de escolher entre medo ou entusiasmo, nem de procurar respostas definitivas num tema que ainda está a ser estudado em tempo real. Trata-se antes de aceitar que há fenómenos na medicina e na neurociência que exigem mais rigor do que certezas, e mais curiosidade do que posições fechadas.
No fundo, falar de psicadélicos de forma séria não é defendê-los nem condená-los.
É simplesmente deixá-los finalmente entrar na conversa certa!
Alice Andrade

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