A arte é bué de cenas: I who have never known men - Fusão

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

A arte é bué de cenas: I who have never known men





Numa altura em que a revolta (justificada) contra os homens tomou as redes sociais, um mundo sem conhecer homens parece uma utopia. Trago-vos algo diferente. Uma distopia de uma mulheres, não para mulheres, mas para qualquer um. (Spoiler alert: sensível para ansiosos que gostam de compreender tudo à primeira.) Trago-vos um livro maravilhoso sobre relações humanas, existencialismos, sofrimento, liberdade e camaradagem, escrito por uma mulher belga que queria ser médica. Um livro publicado em 1995 sobre morte, intimidade, feminilidade. Uma apologia ao absurdismo de Camus. Pretensioso?


Esta história acompanha uma de 39 mulheres prisioneiras num bunker subterrâneo. Nenhuma delas sabe como chegou ali nem o motivo de estarem presas. Guardas, homens, patrulham o bunker em silêncio, e as mulheres são vigiadas 24 horas por dia. A protagonista é a mais jovem do grupo e, ao contrário das suas colegas mais velhas, não tem memória da sua vida antes de chegar ao bunker


“As far back as I can recall, I have been in the bunker. Is that what they mean by memories?”


Frequentemente, sente-se alienada e precisa das parceiras para obter qualquer informação sobre o mundo exterior, pois elas são sua única conexão com o que existe além daquelas paredes. Um dia, tudo muda quando um evento inesperado permite que as mulheres escapem do cativeiro. Agora, deparam-se com um mundo novo e estranho e precisam de encontrar o seu lugar nele. A história segue o grupo enquanto exploram uma natureza selvagem desconhecida, num mundo sem a presença de homens, ou de qualquer ser humano para além delas.


Mas afinal, o que torna este livro especial, diferente das distopias “clássicas”? Geralmente (e não querendo correr o risco de generalizações, tão perigosas na sociedade atual, portanto, desde já, perdoem-me) essas histórias são críticas sociais, mostrando como certas ideologias, políticas ou avanços tecnológicos, levados ao extremo, podem limitar a liberdade, eliminar a individualidade e destruir a ética humana. Temas comuns como a vigilância constante, a manipulação da verdade, a perda da identidade pessoal e o impacto do conformismo são costume. 


I who have never known men” não foge totalmente à regra, com a exceção de ser, de uma certa perspetiva, esperançoso, de enaltecer o sentido de pertença a uma comunidade e um profundo desejo humano por civilização. A verdade é que em 188 páginas (mais coisa, menos coisa, depende sempre das versões) a autora mantém-nos agarrados a conceitos que só podemos tentar compreender, dá-nos um nó no cérebro e faz-nos questionar, como, porquê.


A autora não está particularmente interessada em fornecer respostas fáceis para a situação dessas mulheres; mas sim explorar como as personagens que criou reagem ao ambiente peculiar em que foram lançadas, em vez de se concentrar nos eventos em si mesmos. Assim, onde ela realmente se destaca é ao colocar o leitor na mesma posição que essas mulheres – o desejo inicial por respostas, seguido da conclusão inevitável de que uma explicação simples provavelmente não virá, levando, por fim, à aceitação gradual dessas circunstâncias, por mais irreais que possam parecer.


I was forced to acknowledge too late, much too late, that I too had loved, that I was capable of suffering, and that I was human after all.


A verdade é que o ambiente que rodeia a personagem principal até pode ser desolado e estéril, mas o seu espírito permanece vibrante - chegamos ao final e a única certeza que temos enquanto leitores, é que não se pode dizer que a sua vida, por mais incomum e restrita que fosse, não valeu a pena ser vivida. 


Não pretendo convencer-vos a ler o livro, mas deixo-vos com uma questão: num mundo de nada, terá lugar o saber? 


“This bizarre world that I inhabited was kind enough to add a few more questions to my list of unanswered ones.”


Maria Monteiro





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