Portugal, meu doce Portugal! O que te estão a fazer ? Qualquer dia fica mais caro ter quarto numa residência universitária do que ir à lua!
Contextualizando um pouco a situação, tudo começa no dia em que saem as colocações para o Ensino Superior. Entrei, não entrei? Eia! Fui parar ao outro lado de Portugal! E assim surge a mais macabra das aventuras de um caloiro: procurar um quarto para passar os próximos 10 meses.
Ora liga para aqui, ora liga para ali. Ora entra num grupo do facebook, ora vê um anúncio na OLX, e aos poucos reduzem-se as opções, até que, finalmente, depois desta demanda louca, aparece o tal, o único, o verdadeiro: o quarto “ideal”. E, assim, lançados vão para os melhores anos das suas vidas.
Há quem tenha sorte de realmente ficar em excelentes condições (dentro de um preço considerado “acessível” à carteira dos papás), os outros, os nómadas, nunca ficam contentes com o que têm e todos os anos mudam de quarto.
Mas, a realidade é que muitas vezes essas mudanças não são por picuinhice, são por necessidade! Torna-se uma procura incessante: a busca pelo melhor e o mais barato possível.
Alugar quartos a estudantes está a tornar-se cada vez mais um negócio. A ganância é tanta que muitas das vezes pedem balúrdios de dinheiro por um cubículo mal amparados a 3 horas da faculdade! Ou então retiram todo o conforto e lazer aos pobres estudantes transformando as salas de estar em quartos. E assim acabaram-se as tardes a ver jogos de futebol com os amigos e umas minis ou os derradeiros jantares que se prolongam noite fora.
Infelizmente, hoje em dia o negócio imobiliário está tão caro que muitos estudantes são obrigados a optar por alugar um quarto numa residência. Quer dizer, depende, há residências universitárias privadas, que têm um mundo lá dentro: desde ginásio a sala de cinema passando ainda pelo mini mercado onde se pode comprar papel higiénico (tão essencial nas desagradáveis “emergências”). E aí sim! Vale a pena ter um quarto numa residência. Mas não é esse o ponto.
No caso das residências públicas, chegam a morar duas pessoas num quarto e por vezes têm, no máximo, uma casa de banho com chuveiros para um andar inteiro. Custa a crer que, por vezes, nem forno têm, o que me faz refletir sobre as míseras condições em que algumas pessoas vivem: sem privacidade, conforto ou condições mínimas.
Mas mesmo que não proporcionem o top de qualidade, estas residências são a única opção que muitos estudantes têm para virem estudar de modo a progredirem na vida!
É muito triste perceber que a maior barreira que um estudante enfrenta são os preços elevadíssimos de algo considerado um bem essencial: um teto para descansar! Por vezes, a possibilidade de frequentar uma residência pública está interligada com as bolsas de estudo e já me deparei com casos de estudantes que perderam as bolsas (e posteriormente acesso a um quarto numa residência) por terem feito uns biscates no verão, sendo obrigados a desistirem de um sonho por não terem condições financeiras para alugar um quarto. É realmente decepcionante!
Pedi a um amigo, Rui Ferreira, recém-formado em Medicina, que me desse o sua opinião sobre este assunto:
“ Ao longo dos meus anos enquanto estudante deslocado na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra passei por diferentes alojamentos, tendo contactado com diferentes senhorios, diferentes colegas de casa e também diferentes condições de alojamento.
Como acontece com a maioria dos estudantes de Coimbra e de outras cidades, quando ingressei no Ensino Superior em 2017, vi-me na obrigação de arrendar um quarto. Na altura, deparei-me com várias opções: de preços mais caros aos mais acessíveis, com mais ou menos pessoas por apartamento, com melhores ou piores condições, com mais restrições (como arrendamento apenas a raparigas) ou menos restritos.
Quando andei à procura do meu primeiro quarto, não tive dificuldade em encontrar um a um preço acessível, bem localizado e com condições que me agradaram na altura. Desde aí mudei duas vezes de quarto por diferentes circunstâncias. A realidade da maioria dos estudantes nesta situação passa muito por procurar melhores condições ou preços mais acessíveis, mas atualmente a busca por algum destes requisitos torna-se cada vez mais difícil.
Sei, por anúncios que vou encontrando e conversas que vou tendo com colegas e amigos, que a oferta no mercado imobiliário, e em específico no que toca arrendamento de quartos para estudantes, está muito diferente do que era há sete anos.
Ao comparar a oferta disponível atualmente com a que encontrei no meu primeiro ano de faculdade, existe uma grande diferença, que é o preço. O aumento drástico de preços que observamos para arrendar um quarto não condiz muitas vezes com as condições da casa ou com o salário do arrendatário. São vários os casos, e que inclusive já experienciei, em que os arrendadores transformam divisões como salas de estar, dispensas ou até mesmo halls de entrada em quartos, com o objetivo de alojar mais uma pessoa e receber mais uma renda, não pensando se as restantes divisões, como cozinha ou casas de banho, conseguem oferecer condições suficientes para o bem-estar das pessoas que estão lá alojadas. Em troca, o que observamos é um aumento significativo da relação renda/salário, ocupando assim esta despesa uma parcela cada vez mais significativa dos ganhos das famílias em Portugal.
A realidade que há uns anos apenas se observava em grandes cidades como Lisboa ou Porto está a agravar-se e a alastrar-se a todos os cantos do país. Com isto, torna-se urgente resolver a crise que se verifica no setor imobiliário, através de medidas que promovam o arrendamento mais acessível, apoiando tanto arrendatários, com aumento da oferta de habitação, como proprietários, através de incentivos para a redução do aluguer para valores abaixo do preço de mercado, e finalmente, regular o mercado de arrendamento para evitar aumentos abusivos de preços como se tem vindo a observar nos últimos anos.”
Ao ler o testemunho do Rui despertou-me a curiosidade e fui tentar perceber como evoluiu o mercado imobiliário ao longo dos últimos anos. De acordo com o site Idealista, nos últimos 9 anos, em Coimbra, Porto e Lisboa ocorreu um aumento significativo do preço de arrendamento por metro quadrado. Comparando com o ano de 2015, Lisboa teve um aumento de 14,6 euros, no Porto aumentou 10,7 euros e Coimbra sofreu um aumento de 6,1 euros. Se considerarmos que arrendar um quarto com 12 metros quadrados em 2015 custava 200 euros, hoje em dia, em teoria, esse mesmo quarto em Lisboa custaria 375,2 euros, no Porto custaria 328,4 e em Coimbra custaria 275,6 euros. No entanto, na realidade, em média, arrendar um quarto em Lisboa custa cerca de 450/500 euros, no Porto 350/ 400 euros e em Coimbra 280/320 euros.
Em suma, e fazendo as palavras do Rui, minhas: se isto continuar assim acabamos a dormir todos no chão da faculdade!
Filipe Gaspar
Referências
https://www.idealista.pt/media/relatorios-preco-habitacao/arrendamento/

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