Hoje, “800 mulheres morrem todos os dias ao dar à luz, (...) e quase uma em cada 10 mulheres não pode tomar as suas próprias decisões sobre contraceção”. Assim se lê no relatório sobre a Situação da População Mundial em 2024, publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA). A prevalência desta precariedade destaca-se no continente africano, onde as mulheres têm uma probabilidade cerca de 130 vezes maior do que as vizinhas europeias de morrer por complicações na gravidez e no parto.[1] E isto é dizer mais ainda, quando até em alguns países do famigerado 1º mundo a mortalidade materna retrocedeu. Talvez por ser tão normal receber a notícia de que estavam “oito serviços de urgência de ginecologia e obstetrícia encerrados no fim-de-semana” numa vulgar tarde de agosto do corrente ano de 2024, e que a situação piorou de tal forma que as grávidas em Leiria tinham de ir até ao Porto se entrassem em trabalho de parto.[2] Para algumas mulheres, foi mais acessível ir ao santuário pedir à Nossa Senhora uma melhoria nos cuidados obstétricos duas vezes por dia do que ter condições para parir o próprio filho. Daqui a uns anos, não só não existirá Leiria como não existirão crianças naturais de lá.
De facto, se qualquer pessoa com um cérebro está sujeita a patologias neurológicas, qualquer pessoa com um útero está sujeita a patologias ginecológicas. Mas a incidência destas patologias mostra-se excessiva quando comparada à frequência com que são mencionadas. Por exemplo, cerca de 1 em cada 10 pessoas com útero em idade reprodutiva sofre de Endometriose - uma doença que provoca inflamação e fibrose do endométrio, com episódios de dor incapacitante, a qual não tem cura.[3] Já a Síndrome do Ovário Poliquístico (PCOS) afeta entre 8 a 13% do mesmo grupo, das quais cerca de 70% permanecem sem um diagnóstico, com sequelas como a infertilidade, excesso de peso e pelo facial derivados de distúrbios hormonais, e que constitui grupo de risco para uma panóplia de doenças tais como a diabetes tipo II e a hipertensão.[4] No tratamento destas doenças, o impacto que uma abordagem desleixada e impessoal tem num doente ginecológico é desumanizante. E vai muito para além do que conseguimos observar.
No entanto, nem só das patologias vive o homem. Ter um sistema reprodutor feminino é sinónimo de passar por um conjunto de transições, algo que compreende o seu nível de cuidado e atenção. Mas para as mulheres na menopausa, nem sempre é esse o caso. As alterações hormonais que compreendem este período arrecadam um conjunto de sintomas que impactam desde a saúde física à saúde mental - tanto a suscetibilidade para a ansiedade e depressão, como as ondas de calor, alterações de peso e dos padrões de memória. Acresce-se ainda a perceção social de que a menopausa significa a entrada na velhice - o que altera certamente a imagem que a mulher constitui de si própria.[5]
Sendo uma transição que exige muito de quem a enfrenta, a menopausa é também um mar de desconhecimento para a maioria das mulheres. Desde as adaptações do estilo de vida à Terapia Hormonal de Substituição (THS), o acompanhamento desta etapa deve ser feito de forma adequada a cada pessoa. Ainda assim, a falta de informação, aliada à falta de disponibilidade do sistema de saúde, resultam numa gestão da saúde feminina que deixa muito a desejar
Segundo uma estimativa do Fórum Económico Mundial, “corrigir as desigualdades ligadas à endometriose e à menopausa – que há muito são consideradas pouco estudadas – poderia significar uma contribuição de 130 mil milhões de dólares (119,8 mil milhões de euros) para o produto interno bruto (PIB) mundial até 2040”.[6]
Então, porque será que há tão pouca informação relativa à saúde das mulheres? Sabemos hoje que “são diagnosticadas mais tarde que os homens em relação a 700 doenças diferentes”.[6] Sabemos, ainda, que muitas permanecem por diagnosticar, e que mesmo aquelas que já o são, com o avanço dos cuidados de saúde e da tecnologia, pouco ou nada são informadas sobre aquilo que se passa com o seu próprio corpo.
Como qualquer doença que influencie o equilíbrio hormonal, uma patologia ou circunstância ginecológica como as acima mencionadas oferecem um leque de manifestações sintomáticas que põem em causa a autoestima e que exigem adaptações físicas e psicológicas de grande impacto. Seria o dever de qualquer profissional de saúde expor e aconselhar sobre as implicações da doença em questão. No entanto, o tratamento proporcionado a estas pessoas fica muito aquém do expectável, questionando a dignidade de quem exige um direito fundamental.
Hoje, dia 25 de novembro, realiza-se uma marcha para a eliminação da violência contra as mulheres, organizada pela CooLabora. Esta marcha tem início às 18h, no Jardim Público, e conta com várias entidades, entre as quais a Comissão para a Igualdade da UBI, a Covilhã a Marchar, a Academia Sénior e a AAUBI. Até agora, foram também elaborados os cartazes, bandeiras e faixas, com a colaboração do MedUBI, o Museu dos Lanifícios, a AAUBI e o NELA-UBI, bem como uma sessão solene no passado dia 22, na qual foram apresentados os dados da violência de género na Covilhã, e o trabalho da rede Violência O.
Há muitas melhorias em vista, e espaço para o fazer. É urgente agir de forma mais rápida e eficaz. Não há vergonha em ser mulher, nem deve havê-la em tratar uma. E os padrões por que se rege a sociedade são construídos por cada um de nós.
Referências:
UNFPA: milhões de mulheres continuam sem acesso a cuidados de saúde sexual e reprodutiva. ONU Portugal. 2024. https://unric.org/pt/unfpa-milhoes-de-mulheres-continuam-sem-acesso-a-cuidados-de-saude-sexual-e-reprodutiva/
Agência Lusa, Oito serviços de urgência de ginecologia e obstetrícia encerrados no fim-de-semana. RTP. 2024. https://www.rtp.pt/noticias/pais/oito-servicos-de-urgencia-de-ginecologia-e-obstetricia-encerrados-no-fim-de-semana_n1590580
Bastos, Cristina, Endometriose - A doença invisível aos olhos. News@FMUL. 2021; 110. https://www.medicina.ulisboa.pt/newsfmul-artigo/110/endometriose-doenca-invisivel-aos-olhos
Polycystic ovary syndrome. World Health Organization. 2023. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/polycystic-ovary-syndrome
Valente, Ana Carina, Cada mulher vive a menopausa de uma forma única. Público. 2024. https://www.publico.pt/2024/07/09/impar/opiniao/mulher-vive-menopausa-forma-unica-2096886
Agência Lusa, Diferença de atenção dada à saúde de mulheres e homens custa 920 mil milhões de euros por ano, segundo relatório. Observador. 2024. https://observador.pt/2024/01/17/diferenca-de-atencao-dada-a-saude-de-mulheres-e-homens-custa-920-mil-milhoes-de-euros-por-ano-segundo-relatorio/
Artigo de: Carolina Troia
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