Portugal é um país racista? - Fusão

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Portugal é um país racista?

 

O século XXI é muito engraçado. É uma época de descobertas, de tecnologia e de avanços exponenciais. Os direitos humanos entram na ordem do dia e a globalização é cada vez mais uma realidade. É um tempo onde todos podemos ser o que quisermos e onde quisermos. Ou pelo menos devia ser. No entanto, como toda a evolução tem os seus negacionistas, também o século XXI tem os seus. Há sempre alguém que fica preso no passado, por algum motivo que por vezes é difícil explicar.

Os últimos séculos abraçaram, mais do que nunca, a multiculturalidade. Na Europa surgem as tão famosas Chinatowns, bairros de cultura, onde se é possível experienciar a vivência de um país diferente do nosso sem sair do mesmo. Contudo, em Portugal, a moda da Chinatown não pegou. Mas qual será o motivo para isso? Até somos um país simpático. Será que nós não somos suficientemente atraentes para os imigrantes se quererem fixar no nosso país, ou será que somos nós que não damos abertura para tal? Seremos nós… Ra… Racistas? Não pode. Recuso-me a acreditar que um povo tão acolhedor como o português possa ser apelidado de racista. 

A verdade é que o racismo estrutural não é apenas uma realidade distante, restrita a países recentemente associados à segregação explícita, como os Estados Unidos ou o Brasil. Em Portugal, embora menos evidente para muitos, ainda existem muitas almas que se acreditam superiores, refletindo-se nas desigualdades enfrentadas por pessoas racializadas, como pela comunidade negra, muçulmana, cigana e indiana. Ou será que todos os portugueses de bem adoram negros, muçulmanos, ciganos e indianos? 

Nos últimos meses muito se tem falado precisamente desta última comunidade: os indianos. Surgem movimentos de reconquista cristã e chora-se no TikTok porque “não sou racista, só tinha medo dos indianos à noite no Martim Moniz”. Fazem-se vídeos a mostrar as filas para templos religiosos não cristãos, enquanto se grava a cara de pessoas que só querem cumprir a sua devoção, afirmando que elas são perigosas. Plot twist: em nenhum destes movimentos de ódio existiram crimes “perigosos” praticados por pessoas “não portuguesas”.

A verdade é que não podemos ignorar que a  política portuguesa tem avançado timidamente na abordagem do racismo estrutural (ou pelo menos estava a avançar). No entanto, a aplicação prática dessas políticas é frequentemente limitada por resistências institucionais e pela falta de uma mudança cultural mais ampla. Além disso, os discursos de certos partidos de extrema-direita, que negam a existência do racismo e promovem ideias xenófobas, alimentam tensões e dificultam o progresso.

O combate ao racismo estrutural em Portugal exige um compromisso político e social robusto. Isto passa por iniciativas educativas que desconstroem estereótipos e valorizam a história e as contribuições das comunidades racializadas no país. 

Ninguém nega que alguns emigrantes ou membros de determinadas comunidades possam praticar crimes. A criminalidade existe e não deixa de parte pessoas pela sua origem, por isso talvez o combate de forma transversal à criminalidade devesse passar pela promoção de políticas de inclusão no mercado de trabalho e na habitação, encorajando mecanismos de fiscalização e punição contra práticas discriminatórias. Pensemos em conjunto: se eu fosse uma pessoa chateada com a minha vida, a procurar o melhor para os meus e a passar necessidades ao ponto de me ver obrigado a cometer ilegalidades, cometeria-as contra alguem... que me apoia ou contra alguém que me despreza? Parece-me uma escolha bastante óbvia. Talvez até procurasse ajuda junto de alguém que me apoia e nem precisasse de praticar um crime. Ou até talvez tivesse a estrutura necessária para não ter de pedir ajuda de todo, e simplesmente me integrasse como o cidadão que sou.

Portugal é um país que se orgulha da sua tradição democrática e da sua suposta convivência pacífica entre culturas, mas tem de  reconhecer que a igualdade racial ainda está longe de ser uma realidade. É preciso enfrentar o racismo estrutural de frente, com ações concretas e um debate honesto que vá além do superficial. Só assim será possível construir uma sociedade verdadeiramente justa e inclusiva, onde a cor da pele e a origem do ser deixe de ser um marcador de exclusão.

O século XXI é efetivamente muito engraçado. É uma época cheia de descobertas, de tecnologia, de avanços exponenciais e da globalização. É um tempo onde todos devíamos poder ser o que quiséssemos e onde quiséssemos, mas não é. Talvez um dia seja. Até lá, bastava cada um poder ser o que é.


P.S.: Na verdade, há sim uma ChinaTown em Portugal! Fica em Vila do Conde e é de lá de onde vêm os mil dupes que hoje existem nas lojas online #ficaAdica


Renato Martins

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