Mas, afinal, porque é que todos querem ser influencers? - Fusão

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Mas, afinal, porque é que todos querem ser influencers?

 


Nos dias que correm tem-se ouvido cada vez mais o “Sabes o que eu quero ser quando crescer? Influencer!". Pois é, agora o sonho é viver com câmaras, ring lights e muitos seguidores no Instagram.
Mas, afinal, o que é um influencer e de onde é que tal espécie surgiu? A verdade é que a história do marketing de influência remonta a tempos muito anteriores ao surgimento da internet. A capacidade de influenciar data desde os primórdios, passando por líderes políticos, líderes religiosos, cientistas, filósofos, que moldaram sociedades com ideias, valores e descobertas. Mas como é que (des)evoluímos e começámos a ser influenciados por caras bonitas e cabeças vazias?  
No início do século XX, o marketing era dominado pela publicidade massiva, com anúncios em jornais, revistas, rádio e TV, num modelo de comunicação unidirecional. Nas décadas de 1980 e 1990, o marketing começou a evoluir para uma abordagem mais relacional. A comunicação tornou-se mais segmentada e as campanhas procuravam o chamado “engajamento emocional”. Esses princípios começaram a ganhar força com a chegada da internet: com o advento do marketing digital nos anos 2000 e a popularização das redes sociais, como o MySpace, o Facebook e o YouTube, as marcas passaram a interagir diretamente com os consumidores. Essa comunicação bidirecional abriu espaço para os primeiros criadores de conteúdo, que, de maneira informal, começaram a influenciar as perceções e decisões de consumo.
A ascensão dos influencers foi consolidada nos anos 2010, com plataformas como o Instagram, o YouTube e, mais tarde, o TikTok. Assim, o marketing de influência surgiu como uma estratégia central, substituindo o uso de celebridades distantes por “pessoas comuns”, com suposta autoridade ou carisma. Esse modelo pretendia humanizar a comunicação das marcas, focando na confiança e na autenticidade. Desde então, o marketing de influência tornou-se estratégico, apoiado em análises de dados, segmentação de público e conteúdo criativo. Influencers passaram a atuar como intermediários diretos entre marcas e consumidores, ajudando a construir conexões mais próximas e personalizadas.
Mas será que esta tentativa de humanizar, de facto, humanizou? Hoje, o marketing de influência é um dos pilares do marketing digital. Ele reflete a transição de um modelo centrado na marca, para um modelo centrado no consumidor, onde autenticidade, microssegmentação e engagement são fundamentais - por forma a atingir o objetivo final e desde sempre central: levar o consumidor a ser isso mesmo - consumidor, gastador. 
Talvez um influencer seja aquele que cria conteúdo, ou que partilha experiências únicas, que conecta as pessoas... bem, até pode ser verdade! Mas não é só isso que o define, se não o Fusão também seria um. Influencers são hoje um grupo diversificado, que vai desde quem nos inspira com arte ou projetos sociais até àquele que te elucida com os “5 produtos que mudaram a minha pele." O influenciar é um espetro, do aspiracional ao absolutamente nonsense.
E porque é que todos querem ser um? Talvez porque seja um trabalho que não parece trabalho. Porque a sua vida é romantizada de uma forma absurda nas redes sociais. Quem não gostaria de passar o dia a gravar vídeos e a receber presentes de marcas? É o sonho perfeito, não é? Zero chefes, zero responsabilidades (ou pelo menos parece); é a receita do sucesso. Ser influencer permite trabalhar de forma criativa, em horários flexíveis e com a promessa de autonomia financeira, algo que contrasta com os empregos tradicionais. Será?
Para além disso, vivemos numa sociedade esfomeada por validação e um sentimento de pertença. As redes sociais são um espaço onde os jovens crescem expostos a métricas de popularidade como likes, comentários e seguidores. Tornar-se influencer é visto como uma maneira de alcançar relevância social, num nicho que valida as suas opiniões, estilo de vida ou talentos. Adicionalmente, o mundo digital oferece um ambiente onde barreiras tradicionais, como localização geográfica ou formação académica, são menos importantes, criando a sensação de que qualquer pessoa pode se tornar influencer, desde que seja autêntica, criativa e consiga cativar um público.
Mas calma, não estamos só a criticar! Há influencers que realmente fazem a diferença. São aqueles que nos fazem rir depois de um mau dia, que nos inspiram a fazer algo novo, ou que nos apresentam algo que nunca considerámos antes. O que criticamos é algo diferente.
A crítica recai em nós, o fiel público? “Comemos tudo”, porque gostamos de ser parte disso. Queremos acreditar que aquela viagem foi mesmo perfeita, que a rotina daquela pessoa é mesmo cheia de cafés, de lugares bonitos e que o novo creme vai fazer milagres na nossa pele. E talvez seja isso que alimenta o desejo de todos quererem ser influencers: a ilusão de que eles têm uma vida perfeita – aquela vida que, sejamos honestos, não vamos ter. No fundo, é fácil esquecer que até as fotos mais deslumbrantes escondem filtros, edições e, quem sabe, umas boas dívidas no cartão de crédito. Atrás de tantos sorrisos e paisagens perfeitas, muitas vezes há problemas, mal-estar e tristeza, que são escondidos por um feed estético e impecável.
Não sejamos hipócritas, nós também consumimos, também clicamos e, às vezes, também tentamos aquela receita de panquecas "fácil e rápida" que leva 42 ingredientes e um elefante. E sabem o mais irónico? Também queremos ser influencers. Sim, também queremos compartilhar momentos e, quem sabe, fazer uma dancinha no TikTok… não, calma, isso já é demais. Não nos iremos submeter a esse tipo de coreografias (pelo menos é o que dizemos agora, mas quem sabe se no TikTok do Fusão iremos cair na tentação). Porque o sonho de ser influencer talvez seja menos sobre influenciar os outros, e mais sobre querer ser visto, ouvido e, principalmente, lembrado.
Esta procura desenfreada de tantos jovens para se tornarem influencers reflete uma sociedade com um sistemas de valores distorcido, centrado na fama, validação e consumo ostensivo. Precisamos mesmo de tanto? Muitos jovens fascinados pela superficialidade das redes sociais, atraídos pela ilusão de uma vida perfeita, nem têm sentido crítico que lhes permita considerar o trabalho real e as incertezas que existem por detrás do sucesso digital. Além disso, a idealização dessa carreira ignora as consequências psicológicas de viver sob constante escrutínio público. Muitos influencers relatam ansiedade, esgotamento e até crises de identidade, questões ocultadas pelo brilho do post perfeito. 
Então, para responder à pergunta: porque é que todos querem ser influencers? Talvez porque todos querem ser importantes. E se, pelo caminho, der para ganhar uns produtos de skincare, por que não? Não queremos criticar o sonho de ninguém. Se querem mesmo ser influencers, por que não? Mas se o tentarem, não se esqueçam que têm em vocês sentido crítico que deve ser usado, não deixem de viver o presente, não negligenciem relações autênticas e percam oportunidades de aproveitar o tempo de forma significativa. Não se esqueçam que somos seres sociais e relacionais e que a vida mais bonita é mesmo a que se vive no presente.

Autoras: Inês Lima e Maria Monteiro

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