Mais um Natal, mais um “Sozinho em Casa”, este clássico que não sai de moda. Todos os anos, vemo-nos no meio do caos natalício, onde a cozinha vira um verdadeiro teatro de operações, entre broas de mel, filhós e rabanadas. E, apesar de já ter 23 anos, a tradição de me deixarem com as partes mais fáceis nunca morre. Há também o imprescindível momento em que alguém decide vestir-se de Pai Natal, mas acaba desvelado, geralmente, porque faz demasiada questão de ser descoberto numa verdadeira caça auto-instigada.
Já eu? Sempre fui mansa. Nunca corri atrás do “alegado” Pai Natal, com medo de que, se o apanhasse, ele não voltasse no próximo ano. Acreditei nele até ao 5º ano, e foi nessa altura que os meus pais, num ato de "compaixão", acharam por bem revelar a verdade. Foi também nessa altura que a lista de presentes começou a mudar. Hoje, o pedido mais frequente é: “Prefiro dinheiro, obrigada!”. Por um lado, adoro a sinceridade – quem não gosta de algo prático? Por outro, sinto que se perde um pouco da magia de dar aquela prenda única, que tem um significado especial, algo pensado especificamente para a pessoa.
O jantar do dia 24 é, sem dúvida, o auge do Natal. A mesa brilha, mais caprichada do que em qualquer outra altura do ano. Só o Natal nos faz sofrer com síndrome do túnel do carpo de tanto criar origamis de árvores para a mesa e deixar tudo perfeito. E claro, ninguém resiste a tirar um “storyzinho” para o Instagram, afinal, trabalhámos tanto para quê? O ambiente aquece, o bacalhau ou o peru aparecem, mas pouco se fala sobre a correria que foi preparar tudo: começamos o dia apressados e terminamos exaustos. No entanto, o esforço vale sempre a pena.
Infelizmente, o Natal não é só glamour. É também o palco de conversas que nem sempre são desejadas, porque, convenhamos, nenhuma família é perfeita. Há sempre quem pergunte: “Então, já arrumaste um bom partido?” – e, se a resposta for negativa, emenda com um “Mas nem um que seja mais ou menos?” Há também os comentários passivo-agressivos do género: “Não exageres no prato” – o que soa a preocupação, mas, na verdade, é uma crítica mascarada de conselho. E, inevitavelmente, surgem discussões políticas com opiniões que podem deixar o ambiente um pouco menos descontraído. É cansativo…, mas que se lixe. Porque prefiro mil vezes alguém a mandar as suas postas de pescada enquanto dividimos o bacalhau, do que imaginar essa pessoa longe de mim. E penso naqueles que passam o Natal sozinhos: num hospital, num lar, ou em silêncio na própria casa. É nestes momentos que percebo que, entre críticas disfarçadas de comentários “bem-intencionados” e o clássico “Estás mais cheinha este ano”, ainda há calor, vida e amor. E nada se compara a isso.
Também penso nos familiares que já não estão entre nós, e a ausência pesa, mas também é uma oportunidade de os recordar. E, acima de tudo, é uma chance de valorizar quem ainda está aqui. A vida é demasiado breve para não abraçarmos quem amamos, mesmo com as suas falhas. Porque, no fundo, é isso que torna o Natal especial: não a perfeição, mas a verdade que ele carrega.
Entre perguntas indesejadas, piadas repetidas e momentos caóticos, encontramos um amor que se manifesta nas imperfeições. E, por muito imperfeito que seja, não trocaria este Natal por nada no mundo.
A todos, um Feliz Natal repleto de todos os clichês que amamos e, claro, sem ninguém a perguntar “E aquele namorado?”.
Autora: Inês Lima


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