Desde a mais tenra infância, somos incutidos, na escola, a fazer os clássicos trabalhos acerca do Natal, dos seus valores e daquilo que desejamos, tanto para nós como para os outros. Entre cartolinas, artes plásticas e cartas ao Pai Natal, fala-se de respeito, solidariedade, tolerância, altruísmo e paz. A quadra natalícia é o grande momento de introspeção do ano, o que inspira a que, pelas diversas plataformas sociais, se evidenciem as diferentes realidades no mundo, nomeadamente os seus males, e a necessidade de nos unirmos, enquanto humanidade, para os combater.
Sem querer soar negativista e desencorajadora, não deixo de pensar que a nossa missão, enquanto humanidade, está a falhar, cruel e friamente. Em 2024, vivemos num mundo onde a insensibilidade impera, onde o contacto visual se desvanece e é substituído por ecrãs que satisfazem as necessidades emocionais de cada um de nós, onde a futilidade e a fome do bem material dão aso a uma poluição destruidora e mortífera e onde o genocídio e a guerra singram, dizimando terras, casas e tantas, mas tantas vidas.
Vivemos num mundo onde é possível abandonar, mal tratar e matar pessoas sem freio, onde a violência é, quer queiramos quer não, a resposta para o mais pequeno desacato e onde o racismo, a xenofobia e a discriminação abundam e assassinam.
A verdade é que a maioria dos jovens adultos dos países ditos “desenvolvidos” encaram a paz como um dado garantido, e, de alguma forma, se dotam de uma incrível desconexão emocional com as realidades de, por exemplo, viver num país em guerra ou num ambiente de exploração, não ter condições básicas de saneamento ou alimentação, não ter liberdade de expressão ou, simplesmente, não poder falar ou mostrar o rosto. O ridículo sobressai quando penso, que para nós, muitas vezes, o problema é a dificuldade em estabelecer uma ligação wi-fi, enquanto que para outros jovens e crianças é saber se e como sobrevivem até ao dia seguinte, atormentados e eternamente traumatizados pelo infortúnio de viverem em zonas de conflito.
Em plena época natalícia, leem-se headlines de jornais como “A Guerra na Síria não acabou”, “ONU alerta para aumento da fome no Sudão”, “Alemanha confirma entrega de um dos maiores pacotes de armamento à Ucrânia”, “FINUL denuncia destruição contínua do sul do Líbano por Israel”, entre tantas outras, que nos mostram que, enquanto sociedade, falhámos, e continuamos a falhar. Vivemos embebidos em apatia, hipnotizados pela vontade materialista e controlados por um egoísmo gritante.
Olhando para os migrantes desfavorecidos ou refugiados que se encontram no nosso país ou que surgem nos meios de comunicação, ignoramos, viramos a cara e pensamos ou dizemos “Não podemos fazer nada, é a realidade deles.”, sem nunca pensar que aquela mesma pessoa passou por crises de migração, deslocamentos forçados, um choque cultural e político hediondo e que, no fundo, apenas fugiu do horror.
Alargando a crítica, o problema não reside só na sociedade, mas também nos (in)admiráveis governos, que encaram as armas como lucro e as guerras como interesses financeiros, permitindo que inúmeros conflitos se prolonguem ao ponto de serem esquecidos. A gigante hipocrisia política é, assim, revelada e estende-se desde os discursos promotores da paz que escondem o apoio a regimes opressores, até à criação de políticas contraditórias relativas à ajuda humanitária.
E quanto a nós, cidadãos do mundo, sobra-nos pensar se basta ser um ativista superficial nas redes sociais (contra mim falo), ao partilhar o story sobre a nova bomba russa que abateu mais uma cidade ucraniana ou sobre mais um hospital bombardeado em Gaza, arriscando transformar causas sérias em modismos passageiros; ou se devemos querer aprender sobre como ajudar a alterar esta corrente de desumanização crescente e como devemos e podemos tornar-nos agentes ativos nesta luta que é, efetivamente, não só “deles”, mas de todos nós.
Saramago alertava para o risco de nos tornarmos cegos em sociedade, mas não se preocupem, que eu já mandei vir uns óculos pretos super fashion da empresa chinesa exploradora para disfarçar, não vá alguém notar, neste mundo tão indiferente! Também só custa 1 euro e a liberdade de uma criança, não é?
Criticamos a guerra, mas continuamos a comprar gadgets feitos com minerais provenientes de conflitos. Dizemos “tadinhos!”, mas mudamos de canal. Choramos pelos famintos, mas desperdiçamos comida todos os dias. Criticamos a exploração, mas não o preço das roupas e objetos baratos. Revoltamo-nos com o sofrimento alheio, por vezes fugazmente, mas priorizamos sempre o nosso próprio bem-estar.
Somos espectadores apáticos de tragédias que se repetem, narradores de empatia seletiva, enquanto nos refugiamos na ilusão de progresso e na falsa moralidade de quem observa sem agir. Já Camões exclamara que o ser humano não passa de um “bicho da terra tão pequeno” e a verdade é que, cinco séculos depois, continuamos a encolher-nos cada vez mais ao perpetuar a dor, o sofrimento global e a insensibilidade coletiva.
Findo o Natal, ressoa o inevitável 'Feliz Ano Novo!', mas, para muitos, é apenas o prelúdio da vida velha, em que nada muda e a dor perdura.
Beatriz Silva

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