abril 2026 - Fusão

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Dia Internacional da Dança

abril 29, 2026 0
 Dia Internacional da Dança


Dança, uma das mais antigas formas de comunicação da história. Há relatos de que, desde a época da pré-história, os seres humanos já usavam uma série de movimentos que, com o tempo, formariam ritmos e sequências, criando uma certa harmonia, um certo tipo de dança. 

A dança continuou connosco durante o nosso percurso. Os egípcios utilizavam-na nos seus rituais, ao som de pandeiretas e castanholas. A dança também teve a sua importância na antiga Grécia, não só nos seus rituais e eventos religiosos, mas também numa vertente de entretenimento, onde se inseriu a dança no mundo do teatro. Muitos filósofos gregos apoiavam a dança, como é o caso de Platão que acreditava que a dança era uma forma de conseguir ligar o nosso corpo à alma, dando-lhe um aspeto moral e educativo. Já os romanos continuaram a integrá-la na sua sociedade, pondo-a um pouco de lado em celebrações religiosas, mas continuando a dar-lhe importância como entretenimento. 

Apesar de permanecer sempre connosco, também teve os seus períodos menos bons, como durante a Idade Média. A influência da Igreja pôs um travão na maneira como as pessoas se expressavam e viviam e a dança não foi uma exceção. Aparecem dois tipos diferentes de danças: as danças populares, mais movimentadas e cantadas e as danças da corte, mais sofisticadas e coordenadas, sendo a primeira vez que aparecem as danças a pares. Esta época também ficou marcada por momentos posteriormente denominados episódios de coreomania, ou Epidemia da Dança. Estes consistiam em pessoas que se juntavam num local público e começavam a dançar incansavelmente, durante dias, até à exaustão ou, em casos mais graves, à morte.  

Após ser considerada uma atividade em segundo plano durante muito tempo, a chegada do Renascimento traz-lhe uma nova vida.  Começando na corte italiana e, depois, pelo mundo, a dança ganha uma forma mais estruturada. Desenvolvem-se os primeiros livros de regras e esta começa a ser ensinada pelas classes mais nobres, constituindo um sinal de status. Entre vários tipos de dança, destaca-se a Pavana. Originalmente de raiz italiana, foi posteriormente levada para a corte francesa, onde foi desenvolvida, contribuindo para a formação do ballet. 

Assim, como grande figura do ballet francês, destaca-se o rei D. Luís XIV, onde, na sua corte, este estilo de dança era muito apreciado, tendo este mesmo feito inúmeros espetáculos nos seus sapatos altos vermelhos característicos. Surge, também, nesta altura a renomada Académie Royale de Danse, em 1661, mas foi apenas no século XIX que este estilo de dança atingiu o seu auge técnico e artístico com o surgimento da vertente russa. Neste período foram aprimoradas as famosas sapatilhas de pontas, destacaram-se figuras como o bailarino Marius Petipa e o compositor Piotr Tchaikovski. 

A partir do séc. XX, ocorreu uma grande revolução no mundo da dança. Os bailarinos e bailarinas decidem afastar-se das rígidas regras do ballet clássico e experimentar novos passos que lhes proporcionem mais liberdade de movimento. Assim, surgem novos estilos de dança, como a dança moderna e a contemporânea, destacando-se figuras como Isadora Duncan e Martha Graham e estilos como jazz, danças sociais (entre elas tango, salsa e rumba) e danças urbanas, como o hip hop. 

Em Portugal, a dança assenta numa forte tradição popular, incluindo estilos como o vira, o corridinho, o bailinho e os pauliteiros de Miranda. Ainda assim, o país também desenvolveu a vertente da dança clássica, tendo sido criada no século XX a Companhia Nacional de Bailado. Mais recentemente, a dança contemporânea tem ganho destaque, com nomes como Vera Mantero. 

Todo este percurso da dança permitiu-nos chegar aos dias de hoje, onde esta é vista como uma arte, dando, àqueles que a praticam, a liberdade e a possibilidade de expressar sentimentos e emoções através do movimento, quando as palavras não são suficientes.  Desta forma, a UNESCO decidiu criar o Dia Internacional da dança, em 1982 e escolheu o dia 29 de abril por ser o dia do nascimento de Jean-Georges Noverre, considerado o pai do ballet moderno, permitindo, assim, celebrar todos os estilos de dança e promovê-la como arte universal e considerando-a uma parte importante da cultura humana. 

Queria, por fim, deixar uma nota pessoal e o motivo de querer escrever sobre este tópico. A dança sempre foi, para mim, uma parte essencial da minha vida. Sinto que a dançar podemos expressar o que sentimos, quando tudo o resto falha. Outro ponto que adoro na dança é saber que todos o podemos fazer e que cada um de nós o fará na sua própria maneira especial e única. 

Já Marta Graham dizia “a dança é a linguagem escondida da alma” e eu não poderia estar mais de acordo. Dançar é contar uma história, é expor quem nós somos e, apesar da vulnerabilidade que isso acarreta, também é nesse momento que conseguimos realmente sentir e demonstrar aos outros o que sentimos. Dança é expressão. Dançar é sentir. Dançar é viver sob as nossas próprias normas.

Mónica Pereira


sábado, 25 de abril de 2026

Nasci Abril

abril 25, 2026 0
Nasci Abril

 


E Abril funde-se naquilo que nos permite viver os dias de hoje tal como os conhecemos. Viver com a Liberdade de 1974. Liberdade frágil e quebradiça, por quem a memória do passado se transforma em fita cola da resistência. Há 52 anos, uma das ditaduras mais longas da Europa, com 40 anos de opressão, tem o seu fim, e vem levantar o véu da esperança, onde o desabrochar da democracia se alia à sede da simples possibilidade de sonhar. Ouvimos os nossos avós falar deste tempo com a mesma rebeldia jovem que sentiam quando viviam no monocromático, quando ousavam amar sem dimensão, ler sem sermão ou cantar Godinho e Zeca na escuridão. Não vou escrever para rimar. O caminho não foi, nem será tão linear como a rima. Mas há que salientar que foi a rima que deu azo à eventualidade deste texto que leem. Podemos dizer que o introduziu. E a introdução foi de Paulo de Carvalho. 

Avistava-se o fim da guerra colonial, o fim dos investimentos loucos para armamento, num regime onde a educação e a saúde não alcançavam a maioria. Regime onde se definhava de fome. Regime de seu nome Estado Novo. 

Num mundo onde a arte é símbolo e expressão, como não se ser um Portugal cinzento antes do Cravo na Rua? Portugal virou a página e construiu-se, socialmente, politicamente, culturalmente. Conseguimos nós, geração neta ou até bisneta de Abril, imaginar uma dimensão onde o pensamento, que tropeça agilmente com o pensamento seguinte, e o terceiro, e o que de este último nasce, não é livre de sair do ínfimo de cada um de nós? 

E o teatro? Claro que uma mulher pode ser atriz, pode ser casada. Pode ter o pai, o marido ou a mulher, os filhos, a aplaudi-la em pé, aplaudir a sua arte, o seu grito de elevação, que entretém, enche salas, comove e acende gargalhadas. Sim, claro que pode. Hoje pode. É Abril. 

E a música? Tão facilmente escrevemos uma canção, compomos, produzimos, gravamos e deixamos a sorte dos media ditar o alcance de quem vibra ou de quem passa para a próxima estação. Claro que podemos ser músicos. A música chega para todos, não é censura, não é amarrada a sete chaves e muito menos limitada. A música é Abril. 

E o desenho, a pintura e a escultura? Ser filha de artistas plásticos é ser filha da paixão, do manifesto, da sensibilidade . É nascer na casa da imaginação. É ser arte e crítica no seu cru. Não é ser mais pequeno, nem miserável. É ter cor. É ser Abril. 

E a literatura? Somos a geração que lê, suga cada letra, cada palavra e cada frase. Livros que não vivem só nas rodas das bibliotecas itinerantes. Estão nas físicas, nas virtuais, nas portuguesas, nas internacionais. Podemos dizer nas bibliotecas infinitas? Podemos. É Abril. 

E a dança? De calções, de calças, de saia, de mini saia, de biquíni, quem sabe. A dança não é mais promiscuidade. A dança é língua e comunicação e mil e uma formas de expressão. Podemos dançar na relva, no pátio da avó, ou nos palcos. Quem disse? Eu sei quem disse. Disse Abril. 

Filha da liberdade, também eu nasci com a prontidão de poder ser tudo e mais alguma coisa. Nasci mulher. Nasci e tenho direito à educação. Nasci e posso votar. Nasci e vou a concertos, teatros e exposições. Nasci e passeio à beira-mar, sozinha. Nasci e posso sair do meu país sem ter de pedir autorização a qualquer ponta de homem. Nasci e posso dizer não aos ditadores, à guerra e ao genocídio. Nasci e posso sonhar. Sou filha do ramo verde e da pétala vermelha. Tenho sim o direito e dever da consciência. Consciente do que está à minha volta, do que depende de mim e, do que não dependendo, poderei mudar para melhor. Se há 52 anos, a Dona Liberdade não saísse à rua, eu não era Abril. Sou Abril em força. É curioso, podem não acreditar, mas sou também Abril de apelido. Quem sabe, destinada a honrar a Revolução dos Cravos. Quem sabe, através de um simples texto como este, que pode ser partilhado e criticado, barafustado e argumentado. Por quem? Já sabem por quem. Por quem é pessoa filha, neta e bisneta da Dona Liberdade. Por quem é Abril. 


Francisca Ferro Abril Monteiro





segunda-feira, 20 de abril de 2026

Erasmus e a FCS-UBI

abril 20, 2026 0
Erasmus e a FCS-UBI


Acredito que todo o ser humano possui dentro de si um bichinho que o incentiva a viajar e a descobrir coisas novas em locais diferentes. Enquanto estudantes universitários é-nos apresentada uma oportunidade de saciar esse bichinho através de Erasmus. No entanto, acho que em medicina estes são muito pouco divulgados, havendo muitas dúvidas por parte dos alunos, desmotivando muitas vezes a participação dos mesmos. Assim, viajei pelos corredores da Faculdade de Ciências da Saúde à procura de jovens estudantes que se aventuraram e seguiram viagem neste processo de Erasmus. Assim, entrevistou-se um aluno da FCS-UBI que realizou Erasmus em Pavia, Itália, no primeiro semestre do 4º ano, Diogo Bodião, Martina Ciccone, estudante de medicina na  University of L’Aquila em Itália que realizou ERASMUS na FCS-UBI no primeiro semestre do seu sexto ano e Francisco Camus Revuelta, estudante medicina na Universidade de Cantábria em Espanha que realizou ERASMUS na FCS-UBI no seu quinto ano.


  1. Como foi a receção no país onde realizaste Erasmus?

Diogo: Eu decidi fazer Erasmus em Pavia, Itália, uma pequena cidade mais ou menos do tamanho da Covilhã que fica a 30 minutos de Milão. Fui muito bem recebido, as sessões de introdução foram esclarecedoras, as pessoas coordenadoras de mobilidade mostravam-se felizes por nos receber, a ESN (Erasmus Student Network) fez um trabalho muito bom na organização de eventos sociais, a administração da residência onde fiquei foi simpática- tudo correu bem. No entanto, é importante saber pelo menos o básico de italiano porque algumas pessoas, mesmo aquelas em funções de administração, falam muito pouco inglês. Felizmente, tal como o nosso "portunhol", o "portaliano" acaba por, com alguma dificuldade, funcionar.


  1. Expectativas que tinhas ao iniciar o processo? Quais se mostraram verdadeiras e qual aquela que mais se distanciou da realidade. 

Martina: No início, esperava que o Erasmus viesse a ser uma experiência importante, positiva para o meu crescimento, e  esperava conhecer muita gente nova de diferentes países, o que se concretizou. Conheci pessoas de zonas muito distintas da Europa, inclusive de países muito distantes de Itália, com culturas e hábitos diferentes. A maior diferença em relação às minhas expectativas foi o facto de eu achar que tudo seria divertido e fácil ao princípio, mas, no começo, foi um pouco difícil adaptar-me.

  Francisco: Quando iniciei o processo de Erasmus, esperava ganhar mais independência, conhecer pessoas de diferentes países e experienciar um sistema académico distinto. Todas estas expectativas se confirmaram. O que ficou mais longe da realidade foi a rapidez com que tudo passou a parecer normal, uma vez que achei que demoraria muito mais tempo a adaptar-me, mas, passadas poucas semanas, já me sentia confortável.


  1. Quais as maiores dificuldades, para além da diferença da língua falada, com que te deparaste e qual o apoio que a faculdade forneceu?

Diogo: A Universitá di Pavia (UniPv) honestamente funcionou muito bem e prestou um contínuo e excelente apoio. Diria que a maior dificuldade foi encontrar um bom equilíbrio entre vida social, acadêmica e descansar - isto é, ir a eventos, viajar, aproveitar a cidade - mas sem descurar que não podemos ir a tudo, é preciso descansar e é preciso não deixar acumular matéria em demasia. Em  Erasmus, isto mostrou-se particularmente difícil porque há mil coisas para ver e fazer. Além disso, lidas com centenas de pessoas que têm os seus próprios equilíbrios e há uma tendência a alinhar-nos com os nossos pares em vez de encontrar o nosso próprio.

Francisco:  A receção foi muito boa e acolhedora. Tanto os estudantes locais como os de Erasmus foram muito prestáveis, e a universidade tornou o processo de chegada bastante simples. No entanto, notei uma diferença cultural ao nível da interação social. Vindo de um intercâmbio recente no México, onde as pessoas tendem a ser extremamente abertas e extrovertidas (semelhante ao que vivemos em Espanha), aqui as interações pareceram um pouco mais reservadas, especialmente no ambiente médico. No entanto, todos foram sempre muito educados e respeitosos e, no geral, a experiência foi muito positiva.


  1. Quais as principais diferenças entre os sistemas de ensino entre as faculdades?

Diogo: Em Pavia, eles têm muitas aulas teóricas. Sendo uma faculdade mais antiga e clássica há muitas aulas que são o clássico de um professor a ler slides para 100 alunos, mas felizmente não há presença obrigatória para Erasmus. Podes escolher só estudar em casa. Além disso, a esmagadora maioria das avaliações finais são por exame oral, algo que me chocou um pouco mas de que gostei. É preciso estudar de uma forma completamente diferente, sendo a própria filosofia de estudo diferente.


  1. Quais as principais diferenças no sistema de saúde dos dois países?

Diogo: Depois de voltar valorizo um pouco mais o nosso sistema. Acho que há muitas diferenças mas a principal tem que ver com "registos". Primeiramente, os próprios médicos usam muito papel ainda: agendas físicas para marcar consultas, fazer requerimentos, etc. Além disso, os próprios pacientes tinham também toda a sua informação em papel - foi chocante ver todos os idosos a trazer consigo dossiês enormes para as consultas. O sistema informático tinha muitas limitações e as comparticipações tinham um funcionamento que até hoje não entendi…

Martina:  Do ponto de vista de um estudante de medicina, posso dizer que os sistemas de saúde em Itália e em Portugal são bastante semelhantes. Durante o meu Erasmus, fiz um estágio no serviço de urgência e notei que muitos aspetos são iguais. Por exemplo, também há muita burocracia em Portugal e os médicos queixam-se frequentemente disso, tal como em Itália. No geral, a organização e os desafios do sistema são muito parecidos, ainda que existam algumas pequenas diferenças.

Francisco: Uma diferença que notei prende-se com os tempos de espera para consultas médicas. Venho de Santander, uma cidade espanhola relativamente populosa, onde as listas de espera para certas consultas podem ser bastante longas e, por vezes, sofrer atrasos significativos. Na Covilhã, que é uma cidade muito mais pequena, não observei o mesmo nível de pressão sobre o sistema de saúde nem os mesmos problemas de tempo de espera. No entanto, isto também pode estar relacionado com a dimensão da cidade, e seria provavelmente necessário comparar com cidades maiores em Portugal, como Lisboa, para ver se existem desafios semelhantes.


  1. Uma pergunta que surge sempre a quem pensa fazer Erasmus é acerca da possibilidade de visitar o país e manter boas notas. O que podes dizer sobre o assunto?

Francisco: Pela minha experiência, é perfeitamente possível viajar e manter boas notas ao mesmo tempo. Notei que os professores são, muitas vezes, muito amáveis e dão apoio aos estudantes de Erasmus, embora os critérios de avaliação sejam os mesmos para todos. Durante o meu Erasmus em Portugal, consegui viajar bastante — por exemplo, visitei o México duas vezes e também viajei para o Porto e para Lisboa. Ao mesmo tempo, estudei honestamente muito menos do que costumo estudar em Espanha. Contudo, isto não significa que seja fácil para todos. Também tenho amigos de Erasmus aqui em Portugal que chumbaram a exames e que não viajaram tanto como eu. Penso que depende muito da pessoa, da forma como te adaptas e do nível de exigência académica da universidade. 


  1. Mensagem para quem pensa em fazer Erasmus no futuro.

Diogo: Fazer Erasmus enquanto aluno da FCS-UBI não é fácil. Não vale a pena dizer que é tudo bom - somos um dos cursos de Medicina que há menos tempo aderiu a este projeto - muitos dos nossos colegas de outras faculdades têm o terreno já está desbravado enquanto que um estudante da FCS tem quase sempre de criar um plano do zero, o que pode ser um processo cansativo. Mas no fim de contas é possível e terminar a aventura com boas notas e com memórias que vão durar toda uma vida. Sinto que muitas pessoas do nosso curso fogem de Erasmus porque é visto como "perder um semestre" ou "ficar para trás", mas a grande beleza do Erasmus é que ele pode ser o que tu quiseres, é uma experiência incrível personalizada por ti em que podes ter e ser o que quiseres.

Martina:  O meu conselho é: não tenhas medo e vive esta experiência. É uma excelente oportunidade para aprender, conhecer pessoas novas e crescer, mesmo que possa ser um pouco assustador no início. Mantém o espírito aberto e aproveita cada momento.

Francisco: Se tiveres a oportunidade de fazer Erasmus, recomendo. É uma experiência que te ajuda a crescer pessoal e academicamente, a conhecer pessoas novas e a ver a tua profissão sob uma perspetiva diferente. Eu próprio vou repetir a experiência! Vou estudar para o México durante o meu sexto ano.

                                                                                                                                                Sara Castro