janeiro 2024 - Fusão

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Deixar Portugal para poder ser médico?

janeiro 22, 2024 0
Deixar Portugal para poder ser médico?

 


Atualmente, vive-se uma crise no Sistema Nacional de Saúde. A falta de condições de trabalho, ausência de valorização das carreiras e salários precários, estão a provocar greves constantes dos médicos em Portugal. Porém, este descontentamento já se tem vindo a sentir desde há alguns anos, e muitos profissionais têm optado por abandonar o seu país, em busca de melhores condições de vida. Só no ano de 2019, chegaram à Ordem dos Médicos 386 pedidos de certificados para exercer no estrangeiro [1]. Os países mais procurados são o Reino Unido, Alemanha, Suíça e países nórdicos, onde são encontradas as propostas mais atrativas [1]

Stress, excesso de trabalho, falta de tempo para atender os utentes, sobrecarga da vida profissional em detrimento da vida pessoal, são também outros aspetos que provocam a saída dos médicos [2]. Além disso, o numerus clausus das faculdades de Medicina é muito superior ao número de vagas para a especialidade, o que aumenta o número de médicos indiferenciados e, consequentemente, a procura de emprego lá fora [1]. A distância da família e amigos, uma língua e cultura diferentes, são pontos a pesar na balança da emigração, mas que acabam por perder face aos melhores salários, valorização da profissão, qualidade e equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, que outros países oferecem [2]

Mas será ainda possível reverter esta tendência de emigração? Vejamos a opinião da Maria, estudante do 6º ano de medicina:

Estando na reta final do curso, começas já a planear o teu futuro como Médica. O que te atrai em Portugal para exercer esta profissão?

Apesar do SNS não estar a passar pela melhor fase, este tem uma qualidade muito boa de formação de internos e, consequentemente, gera bons especialistas. Para além disso, a família e os amigos são também um fator importante para ficar em Portugal.

O que poderá desencadear a tua ida para o estrangeiro?

Existem países que dão mais valor à profissão médica do que em Portugal, o que consequentemente leva a uma melhor qualidade de vida, uma vez que a carga horária não é tão pesada e a remuneração também é mais elevada face ao custo de vida. Adicionalmente, em Portugal a falta de recursos humanos, materiais e infraestruturas, é cada vez mais visível, o que dificulta a prática médica diária e aumenta o desgaste da profissão.

No teu seio de amigos e colegas de curso, consideras existir uma tendência para a progressão dos estudos (especialidade) fora de Portugal? 

Não considero que exista uma maior tendência para ir para o estrangeiro, apesar de haver uma maior investigação e interesse por parte dos estudantes de medicina sobre todas as opções de internato que existem fora de Portugal. Esse interesse faz com que, cada vez mais, existam sessões nas escolas médicas nesse âmbito. O MedUBI costuma organizar todos os anos esta sessão, na qual recomendo vivamente que todos se inscrevam, de forma a tomarem uma decisão mais acertada para o seu futuro. Sei que os colegas que vão para o estrangeiro trabalhar vão porque a qualidade de vida é melhor e o trabalho deles é reconhecido, apreciado e melhor pago.

Que incentivos podiam existir para evitar a emigração dos jovens médicos portugueses?

Neste momento tem-se falado muito nas notícias e redes sociais sobre este tópico. Acho que o principal neste momento para os internos é limitar as horas extra, de modo a tentar conciliar vida profissional e pessoal e possibilitar melhorar a qualidade de vida dos internos. Adicionalmente, com a inflação económica, torna-se também importante valorizar os médicos do ponto de vista salarial que reflita os anos dedicados a estudar medicina, a responsabilidade e o risco de assumir esta profissão.

Posto isto, parece crucial haver uma reforma do nosso sistema de saúde e atender aos pedidos dos nossos profissionais. Estamos a perder gratuitamente profissionais de excelência e a tornar precário o acesso à saúde em Portugal. Os cidadãos precisam de cuidados, mas quem os presta também precisa de ser cuidado. E parece ofensivo quando o próprio Ministro da Saúde prefere facilitar a contratação de médicos estrangeiros, ao invés de segurar e valorizar os portugueses.


Sara Bernardo


[1] Salomé Leal. “Não é fácil ser-se médico no SNS. O que motiva a emigração de médicos portugueses?”. Polígrafo. 2020. Consultado em: https://poligrafo.sapo.pt/sociedade/artigos/nao-e-facil-ser-se-medico-no-sns-o-que-motiva-a-emigracao-de-medicos-portugueses

‌[2]  Martins C. Rita Rodrigues. MGFamiliar. 2018. Consultado em: https://www.mgfamiliar.net/blog/rita-rodrigues-orsa/


A (Des)Centralização da Cultura em Portugal

janeiro 22, 2024 0
A (Des)Centralização da Cultura em Portugal

 


Reconhecemos Portugal como um país centralizado em variados setores e são longos os debates sobre a implementação de medidas que promovam a descentralização dos serviços. No entanto, a dinâmica entre densidade populacional, acessibilidade de serviços e medidas políticas é complexa e evoluiu muito ao longo da história. No setor da cultura não foi exceção.

  O fenómeno da centralização remete ao século XV e XVI, quando Lisboa, pelas suas condições geográficas se tornou o epicentro associado à expansão marítima e, consequentemente, do comércio ultramarino. A cidade expandiu rapidamente, tanto a nível populacional como de serviços. A cidade do Porto, com uma localização geográfica também favorável e ponto importante de produção de vinho, cresceu associada ao desenvolvimento económico da zona. Ao longo dos anos houve ainda períodos de êxodo rural em que as pessoas se mudaram para o litoral em busca de melhores condições de vida, como é exemplo o final do século XIX com a industrialização dos métodos agrícolas e a diminuição da necessidade de mão de obra. Assim, foi-se construindo o desequilíbrio de serviços entre o litoral e o interior.

  Historicamente, Portugal tem mantido um modelo administrativo centralizado com concentração de poder e uma hierarquia coordenada com agentes locais. Se por um lado essa estratégia permite tomar decisões de forma rápida e uniforme, por outro é importante considerar a realidade local e como esta é afetada de forma a não causar ineficiências administrativas e desigualdades. Especialmente num país com uma heterogeneidade populacional marcada e prevalência de uma população mais envelhecida no interior, é importante garantir a conexão às diferentes realidades e crenças. O investimento e a gestão de serviços fundamentais são os que têm recebido mais críticas.

  No setor cultural assistimos a uma grande discrepância de ofertas. Existe muita diversidade cultural e encontramos medidas de preservação e promoção de tradições muitas vezes associadas ao turismo, como forma de enriquecer e partilhar o que temos de melhor, enquanto se estimula a economia local. No entanto, as grandes cidades continuam a ser o principal ponto onde vemos emergir novos artistas, espetáculos e novas formas de arte com uma grande centralização de oportunidades e apoios. A cultura exerce um papel fundamental no desenvolvimento e crescimento das pessoas e, consequentemente, da sociedade, contribuindo para a formação da identidade de um país. Esta, historicamente é uma forma de expressão, divulgação de ideias com estimulação da opinião crítica para além de uma forma de entretenimento. Ao centralizarmos a cultura, não só corremos o risco de diminuir a representatividade e envolvimento da heterogeneidade de realidades no nosso país, como contribuímos para o elitismo do público, distanciando muitas pessoas que se veem privadas de participar em várias atividades. Para além disto, a desigualdade acentua-se para os que têm o desejo ou interesse em trabalhar na área ou desenvolver competências e trabalhos artísticos no interior. Esta vontade é muitas vezes toldada pelo que acreditam e veem ser possível atingir, reforçando a importância da representatividade. 

  Perante este panorama, gerou-se a discussão de medidas que promovam a descentralização. Como nota final, ficam algumas sugestões culturais na cidade da Covilhã. 

  O Teatro das Beiras é uma companhia profissional desde 1974, que conta desde sempre com o apoio do Ministério da Cultura, e é um projeto de descentralização teatral na Beira Interior, embora também tenha apresentado as suas produções pelo país. É responsável por organizar o Festival de Teatro da Covilhã e em 2023 recebeu várias companhias convidadas no âmbito da iniciativa “Quartas de Teatro”, que teve o objetivo de trazer novas propostas teatrais uma vez por mês.

  A Tinturaria - Galeria de Exposições é uma galeria direcionada à promoção de novos talentos com exposições temporárias desde 2006. Recebeu exposições a nível internacional, de artistas locais da Beira Interior entre outras descentralizadas. Entre as formas de arte promovidas encontravam-se fotografia, pintura, gravura e desenho, escultura, azulejo, filme, instalações sonoras e instalações visuais. Atualmente, encontra-se encerrada para obras de requalificação com o objetivo de melhorar as infraestruturas e receber exposições de maior dimensão.

  Por fim, a companhia de dança contemporânea Libellula Dance Company, criada em 2021 e sediada no Conservatório da Covilhã, conta já com dezenas de apresentações e recebe bailarinos internacionais em modelo de residência artística de forma a aumentar o contacto com diferentes abordagens estilísticas e contribuir para a formação de bailarinos.

   Embora a evolução seja muito positiva, continua a ser imperativo democratizar o acesso à cultura e trabalhar num processo de sensibilização para a vertente cultural com criação de públicos e de forma a estimular o interesse e o desenvolvimento, celebrar a diversidade cultural e impulsionar a participação ativa de todas as regiões. 


Catarina Barros


Politiquices à parte

janeiro 22, 2024 0
Politiquices à parte

 




A política está constantemente à nossa volta: nas notícias, nas redes sociais, nas conversas de café. Estamos absolutamente rodeados de um assunto mesmo não sabendo o suficiente sobre ele. São inúmeras as questões que todos temos por responder. Principalmente nas faixas etárias mais jovens, a desinformação e falta de literacia política é uma lacuna muito significativa, que está, entre outros fatores, na génese da elevada taxa de abstenção de voto no nosso país.

Muito se fala da importância de abordar mais sobre este tema nas escolas, de fomentar o interesse da população e esclarecer as suas dúvidas. Nesse sentido, à conversa com Tiago Ricardo e João Morgado, dois jovens presidentes de juventudes partidárias distintas, formados em Economia e mestrando em Economia e Políticas Públicas no ISEG e Ciência Política e Relações Internacionais na UBI e mestrando em Administração Público-Privada na FDUC, respetivamente, vamos tentar abordar e esclarecer algumas das questões mais pertinentes da atualidade, sobretudo na classe mais jovem, mas também entre a população em geral.


Primeiramente, e sendo um tópico impossível de ignorar, como podemos combater a abstenção do voto jovem e, ao mesmo tempo, promover um voto informado? A abstenção jovem resulta muito daquele que é um sentimento generalizado na sociedade de descrença na atividade partidária, subvertida de valores e de orientação pelo bem comum. Além disso, o fator familiar também é impactante. Se temos pais que não votam e não falam de política em casa, é, de certa forma, previsível termos filhos que também não votem. Nesse sentido, não serão campanhas publicitárias de incentivo ao voto que resolverão este problema. Embora alguns considerem a adoção do voto obrigatório, obrigando os cidadãos a envolverem-se nas decisões públicas através do voto nas plataformas políticas que mais acreditem refletir o interesse da população. Provavelmente, o problema de base existente em Portugal, que origina afastamento entre eleitores e eleitos e ausência de responsabilização dos parlamentares, reside no sistema eleitoral vigente. Um sistema eleitoral misto, com eleição de deputados em círculos uninominais, poderia impactar de forma positiva esta realidade. Em todo o caso, tudo isto passa por um processo de identificar aquelas que são as reais necessidades da sociedade atual, filtrando a informação fidedigna e fiel daqueles que são cada vez mais os populismos existentes na espuma dos dias. Para que o voto informado esteja ao alcance de todos, é imperioso perceber os meios de comunicação social, redes sociais e fontes de informação que estão em causa, de forma a evitar fontes enviesadas. Se queremos estimular o voto jovem, é necessário que comecemos a falar para os jovens e a usar os meios que pautam o dia-a-dia dos mesmos para lhes fazer chegar informação que deve ser clara e de fácil compreensão e difusão.


Outro tema bastante abordado entre todos nós, principalmente ao longo do último ano, refere-se à habitação. Estaremos todos destinados a viver em casa dos pais até aos 30 anos, uma vez que nos é cada vez mais difícil pagar uma renda ou comprar uma casa? O problema da habitação é um problema sobretudo existente na Europa do Sul, em que existe uma clara fragilidade das políticas sociais em torno da infância e da família, acompanhadas de dificuldades dos jovens em ter emprego, carreiras sólidas e salários médios elevados, o que por si só também desincentiva a parentalidade. Em Portugal, apesar de existirem programas de arrendamento acessível e o programa Porta 65 Jovem, os mesmos pautam-se por elevada burocracia e por complementos às rendas que não respondem às necessidades reais, devido às crises inflacionistas e do mercado de habitação. Esta última que se vive sobretudo na região da Grande Lisboa, mas um pouco por todo o país e cada vez mais, também nas pequenas cidades. Eventuais soluções passariam por uma regulação do mercado da habitação, com a imposição de tetos máximos às rendas, mas sobretudo com o combate ao mercado paralelo. Por último e não menos importante, torna-se imperativo desenvolver políticas públicas de incentivo à emancipação, à progressão salarial e a uma vida digna, e os aumentos no salário médio terão de ser uma realidade.


Vivemos na era da sustentabilidade e transição energética. No entanto, como é possível fazer esta transição no nosso país? Uma das prioridades da sustentabilidade é a mobilidade verde,como é possível atingir esta realidade se ainda estamos a viver com uma escassa rede de transportes públicos, por exemplo? Com a mais recente medida da subida do IUC para veículos antigos, que depois acabou por não ter validade, abriu-se o debate para o melhor caminho para potenciar uma mobilidade verde. Se, por um lado, é necessário reduzir a utilização de automóveis poluentes, optando pela mobilidade privada sustentável (por exemplo, adquirindo veículos elétricos) ou pela mobilidade em transportes públicos, a verdade é que se torna necessário acautelar que esses sejam alternativas viáveis. Primeiro, a subida do IUC para veículos antigos pode nãoser uma realidade, uma vez que, Portugal é um país com um parque automóvel antigo, tal significa que os cidadãos não possuem rendimentos suficientes para o substituir. Assim, a subida do IUC para esses veículos iria afetar sobretudo as classes mais desfavorecidas, sendo, por isso, regressivo. Deste modo, é necessário criar condições para que as pessoas procurem alternativas de mobilidade, como por exemplo num investimento em redes de transporte público mais robustas, amigas do ambiente e capazes de responder às necessidades da população. Depois, para que os cidadãos também optem por veículos elétricos, torna-se necessário criar instrumentos de incentivo à sua compra, como subsídios aos preços ou ao rendimento, mas também mitigando os encargos com os mesmos, nomeadamente através de redes de carregamento gratuitas, entre outros.


Todos os anos somos assombrados com as notícias sobre a mítica falta de professores, alunos sem aulas de determinada disciplina durante meses, insuficiente número de formados em educação. Terão os filhos desta geração posta em causa a sua educação? É notório o aumento da escolarização em Portugal: aquando do Estado-Novo, cerca de 33% da população portuguesa era analfabeta, ao passo que hoje apenas 2% o é. Pode-se, por um lado entender que a falta atual de professores se deve: à fraca valorização da carreira, às deslocações a que os profissionais são sujeitos regularmente, e claramente ao número insuficiente de diplomados para lecionar nas escolas de Portuga. Éimprescindível valorizar esta carreira, que é um dos alicerces da educação e torná-la apelativa aos jovens estudantes. 

O nosso país figura atualmente um cenário de uma pirâmide invertida devido ao envelhecimento da população. Este envelhecimento traduz-se numa diminuição da população ativa, pondo em causa a sustentabilidade da segurança social. Nesse sentido, que medidas existem para aumentar a taxa de natalidade e combater o envelhecimento da população? Esta é a pergunta para mil milhões, afirma um dos nossos convidados à conversa.O índice de sustentabilidade potencial dos Estados reflete a proporção de adultos no total de idosos, sendo à data de criação dos Estados de Bem-Estar particularmente elevado. Ora, com o envelhecimento da população, o número de idosos aumentou e o número de adultos em idade produtiva tem sido cada vez menor, o que coloca em causa a sustentabilidade da segurança social, obrigando a aumentos na idade da reforma. Assim, as políticas resolutórias neste sentido terão de ir ao encontro de 1) aumentos da produtividade; 2) incentivos à fecundidade; e 3) liberalização da migração. Em sociedades com tendências de diminuição da fecundidade, a migração de sub-substituição tem um papel fundamental para aumentar a força de trabalho em idade adulta, aumentar o número de jovens e, por conseguinte, aumentar a fecundidade. É certo que da migração descontrolada podem surgir desafios socio-culturais, mas, em todo o caso, poderá ser por aqui o futuro, semelhante ao que acontece, por exemplo, nos EUA. Depois, torna-se necessário fornecer mais apoios sociais, maiores salários médios e maior flexibilidade no trabalho. Em termos de maior flexibilidade no trabalho, as semanas de trabalho de 4 dias podem ter um papel fundamental, inclusive com impactos na produtividade. Apenas desta forma, conseguiremos atrair jovens a ficar no nosso país, fazendo com que exista uma recuperação da fecundidade que, neste momento, está no seu ponto mais baixo.


Além disso, o envelhecimento populacional sobrecarrega os serviços de saúde de um país. A esta, somam-se outras ameaças ao destino do SNS. Estará destinado ao colapso? Perderemos o acesso universal e tendencialmente gratuito à Saúde? A crença geral ainda parece ser um não, uma vez que o acesso universal e gratuito à saúde é uma realidade. A questão, por exemplo, das taxas moderadoras na saúde, prende-se com outra razão, que é a da sobrelotação dos serviços e, naturalmente, com o arrecadar de receitas por parte do Estado. No entanto, é inegável que a saúde produz externalidades positivas imensas para a sociedade e, por isso, o Estado procurará sempre financiá-la. No entanto, o que acontece nos hospitais é que existe, frequentemente, uma procura desmedida dos serviços pela população. A linha SNS 24 veio ajudar a mitigar esse paradigma e, por isso, um dos jovens presidentes entrevistado, vê com bons olhos que seja obrigatório ligar para esse serviço antes de visitar um serviço de urgências. Além disso, a melhor forma de retornar o investimento que um médico faz ao longo de quase 10 anos no seu processo de aprendizagem é dar-lhe bons salários e serviços de qualidade onde trabalhar. As PPPs (Parcerias Público-Privadas) na saúde podem ter um papel fundamental. No que diz respeito aos serviços locais de saúde, a criação de unidades agregadas ao invés dos tradicionais centros de saúde locais poderá ser a chave para atrair profissionais, permitindo que estes estejam fixos num determinado serviço de atendimento, em vez de terem de se deslocar de terra em terra. Torna-se, ainda, evidente a necessidade de dar mais robustez a serviços como Medicina Dentária e Fisioterapia no SNS, com salários mais atrativos. Um dos intervenientes do debate diz até: desengane-se quem achar que tal só é possível com a criação de ordens profissionais ou associações de defesa. Tal apenas serve os interesses dos seus dirigentes, criando inclusive distorções na mobilidade do trabalho na Europa. É necessário, sim, atuar em conformidade com salários, melhores condições dos serviços e, nesse sentido, atrair profissionais, de forma que o SNS seja mais robusto e responda às necessidades da população, sem que tenha que funcionar a meio gás.


É notório o crescente fluxo de imigração. Quem imigra para Portugal vem em busca de melhores condições de vida e acaba em trabalhos precários? Ou são migrantes reformados, apelidados “imigrantes de luxo”? Qual a razão na base do cenário visto atualmente? Portugal tem a vantagem de ser um país que sabe receber bem. Em Portugal, comparativamente a outros países, onde os rendimentos são mais elevados, a relação qualidade/custo de vida é relativamente boa, pelo que muitos ingleses e franceses, acima de tudo, optam por Portugal como destino de reforma/férias de eleição. Por outro lado, tenhamos em conta que cidadãos de países como Angola, Cabo Verde e Brasil imigram para Portugal por questões de subdesenvolvimento económico dos países de origem. No entanto, a migração resulta de uma procura estrutural de trabalho por parte de países como Portugal, em que os cidadãos nacionais rejeitam trabalhar em determinados empregos, por uma questão de baixo salário, ausência de progressão de carreira ou até mesmo de status social, pelo que, a todos os fatores anteriormente elencados, junta-se a oportunidade dos migrantes terem um emprego estável, honesto e acumularem riqueza. Nesse sentido, dado que muitos dos migrantes têm baixas qualificações e procuram a “sobrevivência” num país capaz de lhes dar melhores condições de vida, é natural que as suas ocupações passem por este tipo de empregos. Nesse sentido, à exceção de casos pontuais já abordados, os migrantes não vêm ocupar posições desejadas pelos nativos, mas sim combater a escassez de mão de obra nacional nesses postos de trabalho. Dar condições a quem vem em busca de uma vida melhor, posto nesses termos, começa por fiscalizar as entidades que empregam, garantir que cumprem a legislação laboral, mas, ao mesmo tempo, controlar mais a forma de entrada, pois a migração, apesar de ser uma ajuda no aumento da natalidade e na ocupação de postos de trabalho que os portugueses não ocupam, pode ter um efeito negativo se feita de forma descontrolada.


A leitura é uma ferramenta absolutamente essencial para viver em sociedade. Apesar disso, somos, atualmente, o penúltimo país da União Europeia em índices de leitura. Não é coincidência o baixo nível de atitude crítica que os portugueses têm. Para quando um acesso à cultura que não se circunscreve apenas aos mais ricos, mais novos e mais instruídos? Ambos os intervenientes pensam que o governo tem trabalhado nesse sentido, com a promoção da gratuitidade do acesso a museus e espaços culturais nos feriados e domingos, entre outras medidas, mas não nega que, sem dúvida, é preciso mais. Uma maior digitalização da sociedade podia, de facto, ser utilizada em prol de um maior acesso à cultura e à educação, mas a verdade é que a utilização desses meios é muito subvertida. No entanto, isto não explica tudo, já que as classes mais pobres não têm, muitas vezes, acesso aos meios digitais sequer. É necessária uma escola pública, de facto, gratuita – e temos caminhado nesse sentido, com a gratuitidade dos manuais escolares e com a ação social escolar. No entanto, isso apenas ocorre de forma pronunciada no ensino básico, perdendo-se no ensino secundário e superior. Uma das propostas apresentada à conversa, a foi extensão da ação social escolar à cultura, de forma que as classes mais desfavorecidas pudessem ter condições especiais de acesso. Por outro lado, com a redução das propinas ou um caminho progressivo para a propina zero, o acesso generalizado à educação superior seria uma realidade. E, sendo a educação o verdadeiro elevador social, tal podia contribuir para o acesso maior à cultura e uma mudança de mentalidades.

Na convicção do outro participante na conversa, a escola tem um papel fundamental na passagem de muita informação, tal como a família. Deve ter um papel de dar mais ferramentas para a tomada de decisão e não dar soluções com decisões já tomadas. Posto isto acrescenta que, para além das medidas já tomadas referidas anteriormente, se deve aprofundar medidas como o Programa Nacional de Leitura, aumentar a divulgação do programa intrarail, e que as comunidades intermunicipais e os próprios municípios articulem a programação de grandes espetáculos, sobretudo no interior, e caso necessário com custos simbólicos.


Por último, como poderemos nós acreditar que os candidatos às eleições legislativas antecipadas são virgens de culpa, uma vez que o anterior executivo acumulou cargos ministeriais com corrupção? Como acreditar na política? Será que a isto se relaciona o crescimento da extrema direita no nosso país? Os telhados de vidro têm a particularidade de ser muito frágeis e se procurarmos um político que agrade a toda a gente, nunca o vamos encontrar. Existe um distanciamento dos cidadãos do poder político e isso reflete-se nas atitudes dos atores políticos, que tendem a preferir satisfazer os seus interesses. É necessária uma maior responsabilização dos políticos, seja através de um escrutínio permanente, seja através de mecanismos que permitam, de facto, aos cidadãos escolher os parlamentares que elegem e não só a plataforma política, dando liberdade aos diretórios partidários para escolherem os candidatos que melhor satisfazem os seus interesses. A política é um ato nobre e, portanto, deve ser encarada e levada a cabo por pessoas capazes, competentes, qualificadas e que não acarretem sobre si qualquer suspeita. Mas se há algo que carateriza o sistema político português é o facto de o mesmo ser uma democracia e, por isso, os cidadãos têm todo o direito e, acima de tudo, o dever de votar e dessa forma fazer valer as suas convicções. No entanto, tenhamos presente que a reeleição de um partido, que anteriormente demonstrou a sua vulnerabilidade a situações de potencial corrupção ou tráfico de influências, depende não só dos eleitores, mas também da oposição. Se, por um lado, os pequenos partidos de esquerda não têm um histórico de governo, os partidos de direita têm apresentado uma narrativa cada vez mais extremista. Temos um partido mais à direita, capaz de falar ao coração do eleitorado aludindo aos seus problemas, aproveitando-se das suas fragilidades e utilizando um discurso bacoco e populista. Tal deve preocupar-nos de forma gritante, uma vez que temos vindo a assistir um pouco por todo o mundo à eleição destas forças políticas, as quais tendem a ser uma ameaça à democracia, à igualdade, aos direitos das minorias, entre outros. Daí que a ideia da importância do voto obrigatório surja de novo na conversa. Uma vez que o desapego ao ato de votar e à política pode, um dia, custar-nos muito caro. E poderá ser por este motivo que, futuramente, partidos extremistas sejam eleitos: porque a população desiludida ou acostumada ao sistema e que rejeita uma alternativa não exerce o seu direito de voto, e porque aqueles que desejam a todo o custo uma alternativa impetuosa saem à rua para mostrar o seu descontentamento. No entanto, o desespero e a necessidade de mudança não justificam o crescimento da extrema-direita, estando isso relacionado com um certo “esquecimento seletivo” daquilo que foi o tempo que precedeu o 25 de Abril e de todos os ataques feitos aos direitos humanos. A mudança terá de vir de dentro e os partidos políticos tradicionais terão de mostrar a sua disponibilidade para levar a cabo reformas que salvaguardem os interesses dos cidadãos, evidenciando que a alternativa está dentro do sistema e não naqueles que se mostram revolucionários a todo o custo.


Eternamente se poderia falar e escrever e, mesmo assim, continuariam a ser inúmeras as questões por responder. É, contudo, assim que se faz a caminhada no combate à desinformação e desinteresse que pautam a atualidade. A ler, a debater em casa e na escola, a questionar, a procurar saber. Se a política está em tudo o que fazemos, então que de nós também seja feita política.


Joana Costa



*Este artigo pode transmitir certas ideologias políticas, no entanto não é de todo o objetivo do MedUBI apoiá-las. O MedUBI é uma entidade politicamente apartidária, sendo este artigo apenas a partilha de opiniões políticas.*

Diário fictício de alguém que sobrevive

janeiro 22, 2024 0
Diário fictício de alguém que sobrevive

 




O que foi e o que ficou, estamos em setembro de 2018, entrei em Medicina, e ficou para trás o garoto sem responsabilidades, que foi feliz assim mas ficou curto. Não sei se será tudo o que estava à espera, não sei se serei tudo o que esperam de mim. O mundo está a mudar e será que conseguirei acompanhar? Ah, o mundo está a mudar!? E se está! Estava a ver que em 2022, a NASA registou uma média global de temperatura 1,02°C acima dos níveis pré-industriais. Ou seja, em 1700 e troca o passo. Pelos vistos por culpa de ondas de calor extremas que direta ou indiretamente são responsáveis por um aumento de 50% nas hospitalizações.

Estamos em janeiro de 2023, e folheei as notícias. Li que estamos a entrar em ano de El Niño, um fenómeno que causa subida das temperaturas do Oceano Pacífico, e que se irá prolongar pelos primeiros meses de 2024. Abro o computador e estudo o tema. Aparentemente os efeitos desta mudança de ventos e correntes demoram a materializar, pelo que provavelmente só em 2024 é que iremos ter repercussões. Estamos safos, para já. É o meu ano, certamente! Já vamos em maio e se calhar não é o meu ano. Promessas de calor, de sol, mas no meu aniversário, Chuvadas, Granizo, e estamos quase a entrar no Verão.... Olha o que era e o que ficou! Ahah afinal, ao invés do que diz o ditado, foi mesmo ‘’Chuva de pouca dura’’. O calor está a voltar, dias longos, de sol constante, roupas leves e cheiros doces. Talvez… mas o que era e o que ficou, que as notícias não mentem, e agora em julho o calor parece não dar tréguas, por todo o planeta, as temperaturas são recordistas a cada dia que passa. Pelo que a história nos conta, todas as novidades chegam atrasadas a Portugal, pode ser que nisto também não se fuja à regra. Não. Festejei demasiado cedo certamente, ‘’Mais de 40 estações meteorológicas registaram pelo menos 40 graus Celsius’’, em 18 distritos, apenas Faro não estará sob qualquer aviso…. Só está bom para quem está de férias. Não é para mim, tese…enfim…o que era e o que ficou… Desisto de ler notícias… leio hoje, em meados de setembro que, de acordo com o jornal Euronews, o ano de 2023 deverá ser o ano mais quente de que há registo. Não seria este o meu ano? Não me parece que este próximo trimestre vá salvar esta desgraça. O que podia ser e o que está a ficar… definitivamente não é o meu ano, nem o meu…nem o teu, nem o de ninguém, muito menos será o ano do nosso planeta. Estamos agora a atravessar o pico glacial deste Inverno. Mantas e aquecedores, chás e lareiras, gorros e luvas, filmes e sestas. E nada parece aquecer as pontas dos dedos, ou nos impede de recordar saudosamente o verão. Contudo é dos invernos mais quentes que temos observado. O que estará a acontecer ao nosso planeta? O que pode isto tudo mudar? O que era e o que ficou…

Estamos em julho de 2050, Não é mais um diário, é um desabafo, talvez dos últimos, a mudança climática impõe desafios monumentais à saúde global. Já não sei ser médico. O meu receio de, ora vamos cá ver, setembro de 2018, não era em nada menos que justificado. Não consegui acompanhar a mudança… mas acho que ninguém consegue. 

O nosso planeta é um espelho da nossa humanidade, doente. Sempre esteve doente, apenas doente de outra forma. A doença do ego, da ambição desmedida e da tentativa inócua de nos imortalizar acabou por nos tornar mais passageiros, a ironia…

Doenças que só víamos lá longe, ou descritas nos livros, agora assombram o Velho Mundo. E as malárias ou as leishmanioses, que sem dúvida que nos matam agora, e matam bem, não são senão o carrasco de uma sentença prévia, assinada a tinta negra, de forma consciente por todos nós e por quem nos fez assim. Éramos cegos inconformados e agora que temos olhos não os queremos, porque para ver a escuridão que está à frente, ninguém precisa de visão a cores.

E como já não é mais um diário, mas uma profecia em nada indigna do seu capítulo bíblico junto do Apocalipse, numa reminiscência nostálgica, o que era e o que ficou…

O que era brincar na rua, ao sol, mas também à chuva, sem medo de molhar a cara. O que era ansiar por essa chuva, que vinha dar vida às terras e movimento aos rios, e sabor às uvas, e música às telhas, e descanso a todos os bichos que de inverno descansam. E que se tornou no anunciar da chegada dos Invernos rígidos que agoiram todo o tipo de enfermidades para uma população já tão débil que mal sobreviveu aos antagónicos e infernais verões. Incêndios ou Cheias, Pneumonia ou Desidratação, Dengue ou a já antiga asma? Qual será o veneno? Ou sairás vencedor, este ano, desta roleta russa de proporções globais? Para apenas e só talvez sobreviver a toda mais uma volta ao calendário. E perdoem a confusão de sintaxe, a amálgama temporal, com Pretéritos, Presentes e Futuros, mas honestamente não sei para mais, ou sei bem de mais, o que fui e tive, onde estive e como vivi, mas sobretudo o que queria ser e ter, estar e viver. Sei o que era, e que gostava que fosse, e do Futuro… se é que ele existe, e se existe que breve que será, não sei como o usar pois as dúvidas são muitas se sequer o poderei vir a usar. E a ânsia de escrever, antes que esse breve futuro que me resta se esgote, de uma maleita ou doutra que já tarda por me levar.  Eu, de 50 anos, a nova senioridade. Não há como prolongar muito mais e a título de confissão, ainda bem. Ou estarei já eu extinto e será esta a minha penitência? Não me creio como má pessoa, mas certamente não terei direito a paraísos e bonanças pois não paguei a entrada nem sei onde tirar bilhete. Terei sim lugar no que vendem como o Submundo, e se for tão feio como o pintam, realmente não deve fugir muito disto, das calamidades e doenças, dos medos omnipresentes e da falta de luz…. Se calhar vivi no Céu e exilaram-me para o Inferno. Se calhar nada disso existe e a triste realidade é mais difícil de engolir que Fantasias. Se calhar não temos nada para além desta esfera, cada vez menos verde e cada vez menos azul, se calhar é o nosso único planeta e a nossa única oportunidade. Que mundo injusto. Eu tive a minha oportunidade, não merecendo, aproveitei, quem cá fica, de quem é agora a oportunidade, não a tem, porque isto não era nada assim, e olha o que ficou…


Pedro Ferreira



Ser Humano: a simples complexidade de pensar

janeiro 22, 2024 0
Ser Humano: a simples complexidade de pensar


O que nos torna humanos? Decerto, já todos nos questionamos sobre o propósito da existência, a nossa condição enquanto seres humanos e a intrincada complexidade inerente à experiência que é viver. 

É inegável o papel que a perceção de cada um desempenha na forma como encaramos a realidade. Questões tão simples como a definição de felicidade, a incursão pelos medos e as aspirações, os momentos que nos marcam e constroem a essência, constituem um meio de acesso para as profundezas da psique humana. Ao refletirmos sobre os nossos sonhos, conseguimos visualizar o nosso passado e moldar o futuro, pois há sempre espaço para nos superarmos e levarmos a cabo uma ação transformadora do Eu. Este exercício de introspeção revela, não só, o que nos torna singulares enquanto indivíduos, mas também o que nos aproxima independentemente da barreira temporal. 

A beleza da fragilidade está presente de várias formas no nosso quotidiano. Aceitar e reconhecer o seu impacto permite-nos olhar para os outros e para nós próprios através de uma janela consciente repleta de humanidade. O ser humano é um ser social que, muitas vezes, depende do bem estar daqueles que o rodeiam para se sentir completo e realizado, o que nos conduz ao pensamento de que a verdadeira plenitude é alcançada na conexão e na partilha.  

Foi neste sentido que decidimos elaborar um conjunto de perguntas de caráter reflexivo e ir para junto das pessoas para perceber e comparar como a perspetiva varia mediante a idade.  

Quando confrontados com a interrogação “O que é, para ti, a felicidade?” várias respostas surgiram, no entanto, o seu fundamento permaneceu o mesmo. Alguns descrevem a felicidade como  “ Um sentimento.”, outros referem que esse sentimento é “O amor.”, e para a grande maioria esse amor é espelhado através do contacto com os seus entes queridos “Para mim a felicidade é estar junto daqueles que mais amamos” e da superação e atingimento do potencial máximo enquanto indivíduos,  “A felicidade para mim é obter motivação a todos os níveis”.  Se houvesse uma frase que conseguisse sintetizar a ideia transmitida diria que “a felicidade é viver bem.” e cada um de nós tem a sua forma de viver. 

Na continuidade da definição de felicidade, surge a questão “Qual foi o momento mais feliz da tua vida?”. Apesar de distintas, mais uma vez, as respostas voltam a aproximar-se, “quando recebi um novo animal de estimação”, “quando a minha irmã nasceu“, “O meu casamento”. Todas estas citações têm em comum a presença ou o surgimento de outro alguém que veio acrescentar significado às vidas de cada um dos entrevistados. Isto corrobora a ideia de que somos seres sociais, como previamente referido, cujo percurso neste caminho árduo a que chamamos vida, é mais facilmente trilhado quando estamos na presença de alguém que nos acompanha nesta jornada.

Porém, para que seja possível concretizarmos os nossos sonhos e chegar a bom porto, é necessário atentar a alguns obstáculos que por vezes nos petrificam, sendo um deles o medo. Medo de falhar, medo de não sermos suficientes, medo de enfrentarmos a realidade, medo de perder alguém ( “Perder os meus pais.”), medo de nos sentirmos impotentes ( “Ver os outros morrer e não poder fazer nada.)”. Esta questão denotou, contudo e ainda, a evolução da complexidade do pensamento com a idade, distanciando o medo simples de uma criança (“medo de baratas”) do medo profundo da morte de alguém mais velho.

Colocando, de seguida, a vida em perspetiva, quer futura para os mais novos, quer passada para os mais velhos, reconhecemos as aspirações e expectativas dos primeiros (“ser mecânico”, “ser médica”,”ser jogador de futebol”, “ser feliz”...) , bem como, os arrependimentos e desilusões dos segundos (“ Se pudesses mudar alguma coisa quando eras mais novo, o que seria?” “Tinha optado por aceitar o trabalho em Lisboa”, “Fazia quase tudo diferente”, “ tinha arriscado mais”...).

Ainda neste exercício, de olhar para a vida como um todo, na sua, ora curta passagem para alguns, ora longa passagem para outros, refletimos acerca dos momentos mais marcantes, onde, inquietantemente, prevalece a lembrança de momentos negativos, tristes,  nomeadamente a morte de alguém próximo (“Quando a minha avó morreu”, “quando morreu a minha mulher”, “A morte dos maus pais”...), comparativamente a uma menor escolha de momentos positivos, felizes (“Brincar com os meus amigos”, referido por uma criança de 5 anos). Levanta-se então a questão se, e, porque é que, à medida que vamos crescendo e envelhecendo, somos mais marcados por acontecimentos tristes, do que, realmente, por acontecimentos felizes?

Porém, a felicidade no mundo parece ser, efetivamente, o desejo major de todos, independentemente da faixa etária. A última questão veio demonstrar isso mesmo. Quando inquiridos sobre a possibilidade de mudar algo no mundo, as respostas aproximam-se novamente, derrubando as barreiras geracionais no sentido de procurar, uniformemente,  extinguir a guerra, a pobreza, as desigualdades e a solidão e promover o amor.

Como seres humanos que somos, nascemos com um pensamento quase irracional. São as experiências dos sentidos, aquilo que vemos, aquilo que ouvimos e aquilo que sentimos que nos permitem, progressivamente, passar à racionalidade, criar opiniões, tomar posições, definir ambições e reconhecer desambições. Com o passar do tempo, adquirimos o pensamento abstrato, o pensar para além daquilo que conseguimos apenas observar, adquirimos o imaginar, o moldar das ideias de acordo com as experiências vividas, com as tristezas e alegrias sentidas e as pessoas conhecidas. Por um lado, é este pensamento, simultaneamente  racional e abstrato, que nos distingue enquanto indivíduos, que nos leva a agir de forma singular e faz, cada um, viver a vida de forma distinta. Por outro lado, é exatamente este pensamento que nos une também, que nos permite investir em causas comuns, que nos permite amar, que nos permite partilhar e que nos permite evoluir enquanto seres sociais que somos, intrinsecamente.

Nunca nos esqueçamos, por isso, da importância da ingenuidade do pensamento de uma criança, da inquietação do pensamento de um adolescente, da ambição do pensamento de um jovem-adulto, do prudente pensamento de um adulto e do vivido pensamento de um idoso. Afinal, passaremos, de uma ou de outra forma, por todos eles e é precisamente isso que nos torna humanos.




Catarina Gomes e Inês Silva 



GM, 5 anos

  1. O que é, para ti, a felicidade?

“O amor.”

  1. Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?

“O Guilherme nascer.”

  1. de que é que tens mais medo?

“Baratas.”

  1. O que gostavas de ser quando fores mais velho?

“Construir carros, mecânico.”

  1. Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?

“Brincar com os meus amigos.”

  1. Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

“Amor. Ter mais amor no mundo.”


RD, 21 anos.

  1. O que é, para ti, a felicidade?

“A felicidade para mim é obter motivação a todos os níveis, e basicamente cumprires todos os teus objetivos e teres saúde e família.”

  1. Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?

“Quando tirei a carta e o inspetor disse que passei.”

  1. de que é que tens mais medo?

“Perder os meus pais.”

  1. O que gostavas de ser quando fores mais velho?

“Ser feliz.”

  1. Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?

“Não teria gasto tanto dinheiro em coisas que gastei, gastava noutras coisas.”

  1. Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?

“Quando a minha avó morreu.”

  1. Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

“Abolia o dinheiro, ou pelo menos a forma como o dinheiro funciona no mundo.”


FS, 35 anos

  1. O que é, para ti, a felicidade?

“Para mim a felicidade é estar junto daqueles que mais amamos”

  1. Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?

“O momento mais feliz da minha vida foi o nascimento dos meus filhos.”

  1. De que é que tens mais medo

“O que eu mais tenho medo é perder aqueles que eu mais amo.”

  1. Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?

“Se pudesse voltar atrás ou mudar alguma das coisas que fiz quando era mais nova, se calhar tinha optado por aceitar o trabalho em Lisboa.”

  1. Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?

“O momento mais marcante para mim, bom, foi, realmente, o nascimento dos meus filhos e o momento mais marcante para mim, mau, foi quando a minha avó faleceu.”

  1. Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

“Se eu pudesse mudar alguma coisa no mundo era no sentido de  tentar que houvesse menos desigualdades entre as pessoas e que houvesse mais amor entre toda a gente.”


FS, 83 anos

  1. O que é, para ti, a felicidade?

“A felicidade? é viver bem, por exemplo”

  1. Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?

“Acho que foi quando eu casei”

  1. De que é que tens mais medo

“Andar de noite.”

  1. Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?

“Tudo. Fazia quase tudo diferente. Tudo que entendi que fiz bem, agora não fazia”

  1. Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?

“Mau foi quando morreu a minha mulher”

  1. Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

“Se possível, por toda a gente feliz”



CQ, 10 anos

  1. O que é para ti a felicidade? Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida? 

“O momento mais feliz na minha vida foi quando recebi um novo animal de estimação.”

  1. De que é que tens mais medo?

“O meu maior medo é perder a minha família toda.”

  1. O que gostavas de ser quando fosses mais velha?

“Médica.”

  1. Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?

“Foi quando a minha avó morreu.”

  1. Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

“Se eu pudesse mudar alguma coisa no mundo seria a guerra e a pobreza.”


TQ, 15 anos

  1. O que é para ti a felicidade? Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida? 

“A felicidade é o bem estar da família. O momento mais feliz da minha vida 

foi quando a minha irmã nasceu.”

  1. De que é que tens mais medo?

“O que tenho mais medo é perder alguém importante.”

  1. O que gostavas de ser quando fosses mais velho? Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?

“Gostava de ser jogador de futebol. Arrependo-me de ter passado demasiado tempo a jogar quando poderia estar com a família.”

  1. Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?

“O momento mais marcante da minha vida foi quando soube que ia ter uma irmã.”

  1. Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

“O que mudaria no mundo é a guerra.”


AA, 23 anos

  1. O que é para ti a felicidade? Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida? 

“Um sentimento. Não sei qual foi.”

  1. De que é que tens mais medo?

“Ver os outros morrer e não poder fazer nada.”

  1. O que gostavas de ser quando fosses mais velho? Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?

“Teria escolhido arquitetura ou teria ido para o serviço militar.” 

  1. Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?

“Sem resposta.”

  1. Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

“Teria impedido o socialismo de ter chegado à Venezuela. Aliás, eliminava o socialismo da face da terra.” 


JM, 81 anos


  1. O que é para si a felicidade? Qual foi para si o momento mais feliz da sua vida? 

“Para mim a felicidade é viver bem, feliz. O meu casamento.”

  1. De que é que tem mais medo?

“Das doenças.”

  1. Mudava alguma coisa se fosse mais nova?

“ Não mudava. Estou feliz.” 

  1. Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para si?

“A morte dos maus pais. É um momento triste da vida.”

  1. Se pudesse mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

“Vir a paz para o mundo.”


CQ, 51 anos

  1. O que é para ti a felicidade? Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida? 

“Estar descontraída e sem preocupação. Não consigo definir, há vários. Neste caso posso apontar que foi o nascimento dos sobrinhos como não tenho filhos mas há vários.”

  1. De que é que tem mais medo?

“Neste momento, perder os meus pais.”

  1. Mudavas alguma coisa se fosses mais nova?

“Mudava, tinha arriscado mais. Um dos exemplos seria ter ido trabalhar para o estrangeiro.”

  1. Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?

“O nascimento da Beatriz.”

  1. Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?

“Tentava que as pessoas idosas tivessem mais apoio, que não houvesse tanta solidão.”