fevereiro 2026 - Fusão

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

As resoluções que ficaram nas uvas

fevereiro 23, 2026 0
As resoluções que ficaram nas uvas

 


3 ... 2 ... 1 … Feliz Ano Novo! E entramos em 2026 a comer as tradicionais 12 uvas e com várias resoluções para que o novo ano seja melhor que o que passou. Mas o decorrer de uns minutos não apaga tudo o que se passou, os momentos infelizes, as guerras e as atrocidades do ano anterior. No entanto, entre abraços, foguetes e uvas, o ambiente é de mudança, e que para a frente é só positividade. 


Contudo, chega o segundo de janeiro, onde a roupa velha já acabou e são poucos os restos dos doces tradicionais no frigorífico, e começa-se a ouvir: “Ai, janeiro é o mês que mais demora a passar… Nunca mais acaba”. Mas, mesmo assim, sente-se ainda a emoção de alcançar o que se desejou e se acordou com as uvas.


Agora, o mês que não se lhe via o fim terminou. E é aí que começamos a pensar se de facto algo verdadeiramente se alterou, e se alguma das nossas promessas secretas que contamos às uvas foi já cumprida ou sequer iniciada, ou mesmo se o será no futuro. Mas aqui, agora, pensamos numa ordem mais individualista como as resoluções mais comuns como, por exemplo, de ir mais vezes ao ginásio, reduzir o tempo de ecrã, entre tantas outras. Porém, a novidade do novo ano terminou e com ela cai o véu que amenizava os acontecimentos do ano que passou, e percebemos que mantemos a mesma rotina acelerada e centrada no “eu” e as mudanças que explicamos às uvas que iriamos implementar ainda andam perdidas entre o espaço vazio que separa a ideia da ação. 


E é com esta perceção de que janeiro termina como um mês “fracassado”, mas tal como o passar de uns pequenos segundos ao mudar o ano não apaga o que passou, não são os primeiros 31 dias que definem a impossibilidade de cumprir o que se projetou nas uvas. Afinal, as resoluções baseiam-se em hábitos, e hábitos demoram tempo a ser adquiridos ou mudados. É aqui que se devem fazer as questões mais importantes: “O que é que quero mesmo mudar? Quem quero ser?” São as respostas a estas perguntas que quando descobertas nos conduzem e nos motivam e, infelizmente, não são perguntas tipo PEM às quais se tivéssemos sorte encontraríamos a resposta na compilação do ano anterior. São perguntas cuja resposta não é direta, está dentro de nós e cabe a cada um revelá-la. “Quem sou eu agora, e quem quero ser no futuro?” seguindo esta reflexão, viveremos consoante os princípios que queremos que nos definam, tomaremos decisões com base nas crenças que nos pertencem e tudo isto levará, se bem feito, às verdadeiras resoluções que devíamos ter falado às uvas. E todas as promessas supérfluas que repetem ano após ano e não contribuem para a nossa realização pessoal perderão a sua importância.


Assim, com janeiro terminado, são onze os meses em que ainda podemos encontrar as respostas a estas perguntas e descobrir a verdadeira mudança que queremos ver em nós. Resoluções não são só no ano novo, nem estão vinculadas às uvas. Podem surgir agora, e com as respostas que encontramos em nós, e com o passar do tempo alcançaremos cada vez mais aquilo que verdadeiramente desejamos para nós e para o mundo em que vivemos.


Sara Castro e Margarida Reis



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Notas de um Amante Cénico - “Sempre Alguém”

fevereiro 11, 2026 0
Notas de um Amante Cénico - “Sempre Alguém”


Menos de um mês depois, é ainda com as emoções ao rubro que urge dissertar sobre o IX Sarau Cultural do MedUBI "Sempre Alguém".

Não obstante o viés de quem assiste aos espetáculos deste cariz apresentados sob temas diversos há 6 anos, o "Sempre Alguém" surpreendeu. Suscitou algo mais do que entusiasmo e divertimento.

 

Meses antes da apresentação do estado de arte, rumores surgiam de que este ano não seria tão encorpado como o anterior, que não seria para qualquer gosto dado o foco central numa só especialidade médica. Certezas eram dadas de que teria menos momentos musicais e nos era esperado um ritmo pausado. Pois, para espanto dos mais céticos, não só o corpo artístico foi aumentando gradualmente desde então em figurinos, músicos e bailarinos, como a duração da peça excedeu as três horas sem que alma-viva se tenha apercebido.

 

Qual tragédia clássica, o crescendo foi-se formando, começando com a tradicional apresentação demorada das personagens, que conquistaram o público com enredos peculiares. Desde os diagnósticos mais comuns como a depressão, a dependência do álcool e a psicose às mais tradicionais Perturbação Afetiva Bipolar e Esquizofrenia, a história encarregou-se de trazer a palco traços de todas elas inclusive os raros delírio de Cotard, a personalidade narcísica e a outrora apelidada histeria. Ademais, dado o contexto histórico da época, não deixou de ser interessante a forma como foi introduzida a homossexualidade patológica refletida no afeto caricato partilhado entre os dois aspirantes a psiquiatras. Escusado será dizer também que a lobectomia praticada na ainda tenra Zezinha apelou aos sentimentos mais viscerais do público - as expressões de pesar nos seus rostos e no do Dr. Delfim notavam o ceifar de vidas a que muitos foram sujeitos em prol da evolução científica. E, por fim, a peça culminou num inédito clímax triplo - o assassinato do Dr. Delfim, a despedida eterna da alucinação auditiva Prazeres e a revelação da doce Zezinha.

 

Numa outra esfera, intercalaram-se momentos musicais de exímia coordenação sonográfica, dos quais destaco “Telepatia” e “O Pastor”, com arranjo de Bernardo Marques e Bárbara Azevedo, que simultaneamente lhes deu vida com a sua voz quente e imponente. De facto, não havia melhor forma de ler o turbilhão de pensamentos e vozes que pairavam na mente da Nazaré senão como uma “barca da fantasia” que “ao largo ainda arde”. Além disso, não esquecendo a forte influência que a religião tinha no Portugal dos anos 50 (Deus, Pátria e Família), foi de suprema mestria a introdução da textura sonora de “Amaté Adea”, sob a direção musical de Sarah Dias com todo o seu background erudito e considerável quota parte na autoria da peça. A música invocou a atenção dos que se encontravam no auditório, de repente pequeno demais para o que ali estava a ser feito, e os calafrios emocionais que ainda hoje recordo tornaram-se inevitáveis. Pudesse eu ouvir e reouvir os quatro minutos de pura serenidade devota novamente… deixaria de ter pertencido aos 400 ouvintes privilegiados.

 

E como ignorar os bailados? Faria todo o sentido uma tipologia de dança  contemporânea, ou não se tratasse de um espetáculo que convidava a enfrentar sentimentos e emoções. Como tal, foi entregue isso mesmo. Aproveitou-se a versatilidade artística da atriz principal, Mariana Pinheiro, para iniciar o bailado a solo em “O Pastor”, que rapidamente foi acompanhado e intensificado por outros pares que pudessem representar todos os seus pensamentos inquietantes e que a conduziam à frustração interna. Ademais, a dança de salão, nomeadamente o tango, foi meticulosamente apresentada ao som de “Telepatia”, o que seria congruente com a erotomania nitidamente expressa pela apaixonada Prazeres. Contudo, nenhum dos sentimentos suscitados por estas coreografias poéticas poderia ter tido o alcance e a eficácia pretendida sem o notável trabalho multidisciplinar. Não sem razão, todo o processo criativo tem um propósito, desde o guião até ao passo final.

 

 

Sob o olhar clínico, a certo ponto tornava-se complexa a distinção entre causa e consequência. Seria o défice intelectual da Zezinha apenas consequência da lobectomia ou haveria a priori um défice de aprendizagem? Teria Nazaré realmente uma Perturbação de Personalidade Borderline que a sujeitasse à intervenção do marido no seu internamento compulsivo ou seria meramente vítima do ambiente político repressor de então? Teria o hospício convertido-a momentaneamente em doente psiquiátrica? Seria o infanticídio de Rosário uma consequência da sua depressão ou psicose pós-parto ou a sua depressão major resultado de um infeliz acidente?

 

Estas e muitas outras questões prendem-se nas mentes dos curiosos que mergulharam na história daquela noite. A verdade é que, a real obra prima a que assistimos deve-se, acima de tudo, aos seus autores, únicos capazes de desvendar as inquietações que dela resultaram. Tiago Ramos e Sarah Dias, o resultado de duas mentes pensantes, que se uniram e assumiram, pela última vez nesta casa, a coragem de criar um mundo onde os doentes nem sempre são doentes e os lúcidos podem ser os reais doentes.

 

Neste mundo onde as insólitas crenças ainda predominavam, a capacidade de envolver o público no próprio espetáculo tornou-se abismal - prova disso foram as reações de espanto em uníssono, as exaltações fora de tempo e a ovação final interminável. Mas, para lá do ruído da plateia, impõe-se uma questão mais silenciosa que atravessa a narrativa de fio a pavio: afinal, quem é esse “alguém” de que tanto falavam?

De facto, houve um Dr. Delfim que auxiliou na fuga da Nazaré, uma Nazaré que defendeu todas as colegas de clausura, uma Rosário que compreendeu o Padre Abel, um Padre Abel que questionou a postura do Dr. Antero, uma Prazeres que encorajou a Nazaré.

E houve Sempre Alguém que, naquele dia, sentiu a partir de dentro a história que se contou.

 

Bruna Machado