novembro 2025 - Fusão

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Superalimentos da moda: Chá Matcha

novembro 24, 2025 0
Superalimentos da moda: Chá Matcha


 

 

Nos dias atuais é muito comum encontrar, principalmente nas redes sociais, pessoas tidas como expert em nutrição e vida saudável. Com a popularização deste fenómeno fitness surgem conceitos novos como os super alimentos. Mas o que são estes alimentos tidos como super? Este termo refere-se a alimentos ricos em nutrientes essenciais e compostos bioativos, conhecidos por promoverem a saúde e reduzirem o risco de doenças, mas se formos procurar uma definição mais “científica” os superalimentos são, no fundo, um termo não científico usado para descrever alimentos com uma elevada densidade nutricional.  Densidade nutricional é a quantidade de nutrientes benéficos que um alimento contém em relação ao seu número de calorias, ou seja, um alimento com alta densidade nutricional fornece muitos nutrientes por poucas calorias, sendo um ótimo exemplo os espinafres. É neste novo grupo de alimentos em que o chá matcha se vê incluído.

 

O Matcha surgiu durante a Dinastia Song, na China é feito de um chá verde cultivado à sombra que é cuidadosamente cozido no vapor e meticulosamente seco. O seu consumo tem vindo a aumentar pela descoberta dos seus benefícios.

 

O chá matcha é constituído por antioxidantes, clorofila, catequinas, cafeína e L-teanina e são estes constituintes que atribuem a este superalimento os seus benefícios tão apreciados pelos seguidores das modas mais recentes.

 

A catequina com a sua ação antioxidante distingue-se neste chá por promover a atividade do tônus simpático. A cafeína, é por sua vez um estimulante do sistema nervoso central, a L-teanina um aminoácido característico do chá verde, responsável pelo efeito de relaxamento sem sonolência. 

 

A L-teanina, aminoácido não proteico, presente nas folhas de chá verde, tem sido alvo de estudos pelos seus efeitos no stress, ansiedade, humor, estado de alerta e desempenho cognitivo. O teor de L-teanina varia consoante vários fatores como o estadio de crescimento da folha, estação do ano, entre outros e uma grama de matcha tem em média cerca de 20-60 mg de L-teanina  e 30-70mg de cafeína.

 

No entanto, na maioria dos chás matcha comerciais as concentrações destes são reduzidas e por vezes o seu consumo não assegura um aporte terapêutico. Além disso, variedades com maior teor em L-teanina tendem a ter também maior teor em cafeína o que requer cautela, sobretudo em crianças.

Mas sendo componentes tão diferentes e com caraterísticas vantajosas, como a ação relaxante da L-teanina para pessoas ansiosas e outras menos desejadas para esse mesmo grupo de pessoas, como a componente estimulante da cafeína, porque é que quando em conjunto numa mesma bebida se tornam tão apelativos? Isto porque a cafeína e a L-teanina possuem uma ligação funcional e sinérgica ao invés de uma ligação química e,por isso quando combinados, a L-teanina modula os efeitos da cafeína sem bloquear o seu efeito estimulante, suavizando apenas o pico de ação. No entanto, estudos afirmam que para que isto aconteça dentro dos objetivos a L-teanina deve estar numa proporção de 2:1 com a cafeína.

 

Assim, o chá matcha muito utilizado no oriente é agora muito utilizado no ocidente por variados grupos de pessoas como: estudantes e profissionais, praticantes de exercício físico, pessoas com características mais ansiosas, pessoas com o diagnóstico de PHDA.

Mas usarão estes grupos o chá matcha com os mesmos objetivos? E qual a evidência científica existente?



  • PHDA

Para as pessoas com PHDA o seu uso complica-se e perguntamo-nos: qual o interesse acrescido destas pessoas para com este produto? Uma grande percentagem de pessoas diagnosticadas com PHDA fazem medicação para diminuir os efeitos negativos da condição, sendo uma grande parte destes fármacos psicoestimulantes como lisdexanfetamina. Esta medicação, como qualquer outra, traz as suas restrições e efeitos secundários e uma das restrições mais debatidas e ainda sem uma resposta cientificamente comprovada é o consumo de cafeína simultaneamente com a toma do psicoestimulante. Como em qualquer outro conceito relacionado com a saúde, não há algo que se aplique a todos os indivíduos, há sempre exceções, mas a maioria dos indivíduos diagnosticados com PHDA apresentam um aumento da ansiedade e ritmo cardíaco quando consomem cafeína simultaneamente com o psicoestimulante. 

É aqui que o chá matcha se torna cativante, porque quantas pessoas conheces que não tomam nenhum café? Suponho que sejam poucos, principalmente se te focares na comunidade estudantil, assim, em vez de recorrerem ao café (que pode dificultar o dia de um indivíduo com PHDA) recorrem ao chá Matcha, que proporciona uma melhora do foco sem aumento da ansiedade devido à combinação de cafeína coma L-teanina explicada anteriormente. 

Mas existe alguma evidência científica?

Relativamente a estudos mais direcionados para a PHDA a combinação de 100mg L-teanina com 50mg de cafeína demonstrou efeitos sinérgicos na atenção sustentada em crianças com PHDA. Relativamente à cafeína e a PHDA, pelas suas caraterísticas semelhantes aos fármacos de primeira linha da PHDA, levantou-se a hipótese de utilização da cafeína como opção terapêutica. Contudo, os resultados têm sido contraditórios e o tema mantém-se controverso.



  • Atletas e praticantes de exercício físico

Para os praticantes de exercício físico este chá torna-se apelativo uma vez que estes pretendem melhorar desempenho e resistência física e conseguem-no  através da combinação de cafeína e catequinas, que leva aumento da oxidação de gordura durante exercícios aeróbicos, poupando glicogênio e prolongando a resistência. Além disso, as catequinas, potentes antioxidantes, ajudam a reduzir inflamação e dano muscular induzido pelo exercício intenso auxiliando na recuperação muscular. Elas podem ainda  melhorar sensibilidade à insulina e perfil lipídico, contribuindo para recuperação e composição corporal. Muito promissor para os atletas, certo? No entanto, a maioria das pesquisas ainda é pré-clínica ou com chá verde tradicional, então os efeitos específicos do matcha em atletas de alto desempenho precisam de mais ensaios clínicos.



  • Estudantes

Qual o estudante que não quer melhorar a sua atenção em foco? A combinação cafeína + L-teanina aumenta o estado de alerta e concentração sem nervosismo excessivo. As catequinas, como antioxidantes, têm efeito neuroprotetor e podem apoiar a memória e a aprendizagem. E a melhor vantagem é que a cafeína no chá matcha é libertada lentamente devido à presença de L-teanina evitando picos de ação como referido acima. Assim, para estudantes, o matcha funciona como um superalimento que melhora atenção, foco, memória e energia mental, ao mesmo tempo em que promove relaxamento e proteção cerebral. Diferente do uso em atletas, o foco aqui é desempenho cognitivo, não físico.



  • Em indivíduos com ansiedade

A L-teanina atravessa a barreira hematoencefálica e atinge o seu pico de concentração 5 horas após a ingestão, e os seus efeitos são observáveis em meia hora. Atua principalmente através da modulação dos GABA neurotransmissores , serotonina e dopamina promovendo, assim, o relaxamento, foco e redução da ansiedade.

Assim, relativamente à ansiedade, a L-teanina parece atuar como ansiolítico ao potenciar os recetores de GABA. Revisões sistemáticas indicam um potencial efeito ansiolítico em doses de 200 a 400mg/dia, sobretudo em situações de stress agudo ou em indivíduos com predisposição para perturbações de ansiedade. Estes efeitos parecem estar associados ao aumento da atividade das ondas alfa e à redução da atividade glutamatérgica. Contudo, a evidência é insuficiente para recomendar a sua utilização como estratégia eficaz no stress crónico.

 

Com isto, é sempre importante recordar que cada indivíduo é diferente, cada  um tem necessidades de foco distintas e objetivos específicos. O importante é estar em constante alerta relativamente ao que constitui cada novo superalimento que surja para não cair no erro de seguir uma nova moda que não acarreta qualquer evidência científica.

 

Sara Castro 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Get Ready With Me para brincar aos médicos

novembro 19, 2025 0
Get Ready With Me para brincar aos médicos

 


Caros e estimados colegas, apresento-vos a nova epidemia que vem vitimar muito boa gente desta nossa humilde posição de vida - med student influencers - que tem como sintomas principais uma vontade incontrolável de postar fotos em meio hospitalar, romantizar diretas e, nos casos mais graves, um ego dolorosamente inflamado e ruborizado. Esta nova variante não se deteta por zaragatoa, mas atentem e não se descuidem, porque tem alto risco de contágio via fyp, stories e likes. Para melhor compreensão dos sintomas, vamos analisar dois casos clínicos distintos que têm este mesmo diagnóstico.

 

Caso clínico 1 

Estão novamente a fazer doom scrolling depois de um dia de estudo que rendeu tanto como a vossa mesada durante a semana da receção, têm estágio no dia seguinte e o relógio diz que vai tocar dentro de 5 horas e 23 minutos. Perante os vossos olhos veem um dos que padecem desta maleita. Cá está ele! Um estudante de medicina textbook a mostrar como foi o seu dia, as vidas que salvou, as horas que estudou, os cafés que tomou, a forma como equilibrou de forma perfeita o seu dia de profunda produtividade e aprendizagem médica.

Permitam-me fazer uma questão que tem tanto de verdade e certezas como de inveja - desde quando é que até um curso é um ensaio performativo? 

A mente faz comparações automáticas - “eu não consigo estudar 10 horas seguidas”, “não faço diretas a rever conteúdos”, “o meu estágio não é assim tão bom”, “a espuma de leite do meu galão feito em casa nunca vai ter a formosura de um pumpkin spice latte with 3 pumps of sugar free vanilla, extra foam, extra hot, with a sprinkle cinnamon on top”. A verdade é que não precisamos de redes sociais para nos sentirmos insuficientes, o curso já trata disso por nós, mas para quem quiser uma dose extra de inadequação está aqui, ao vosso alcance, à distância de um swipe.

Quando romantizamos cansaço e hábitos tóxicos de produtividade, transformamos exaustão em mérito e olheiras em crachás de honra. Estamos a abrir uma caixa de Pandora que, como estudantes de medicina, devíamos estar a tentar fechar: medicina é estilo de vida, é vocação sem limites nem barreiras da condição humana, quem faz por gosto não cansa! A realidade é que cansa, cansa e mói. E não podemos normalizar ser um peão numa corrida para o burnout, competir por ser quem estuda mais e melhor ou passar horas à secretária como se fosse um desporto olímpico, em que a medalha de primeiro lugar é varizes.



Caso Clínico 2 

Foste à urgência porque o teu organismo decidiu castigar-te pelos restos de arroz com 2 semanas e agora está a expurgar o seu conteúdo por todos os lados. Entre análises, uns comprimidos e umas doses generosas de paciência, finalmente voltas a casa, ainda a tentar recompor a tua dignidade. Respiras fundo, achas que o pior já passou, e abres o telemóvel. Cá está ele, postado e editado -  “A day in the life - med student edition” - um vídeo do simpático estudante de medicina que até colheu muito bem a tua história clínica e, por alguma razão, decidiu incluir uma fotografia tua na sala de observações com um sticker a tapar o teu rosto. Reconheces a tua roupa e a tua postura de derrota que foi, sem o teu consentimento, eternizada numa rede social.

Mesclar o meio da saúde com o digital gera uns quantos senões éticos, quem nos dá a autoridade de partilhar histórias de pacientes da nossa ótica? De colocar fotos na sala de operações como se a apendicectomia da dona Josefina fosse um fundo aesthetic para acompanhar uma música nova da Taylor Swift? 

Ser estudante de medicina não é uma performance. Quando transformamos um leito, um corredor de hospital ou uma intervenção clínica num post, não estamos a ser genuínos, muito menos a educar quem vê sobre o que é a formação médica. É um rasgão da confidencialidade e ética pela qual nos devemos, como futuros médicos, reger. Há um claro desequilíbrio de poder entre nós, que temos o privilégio de ver e aprender com a experiência humana da doença e fragilidade de outrem, e os pacientes, debilitados ou completamente sãos, que estão à mercê do que o estudante de bata branca vai fazer com a experiência de doença ou saúde que com eles partilham. Seja uma foto com as vísceras de alguém de fora, seja um partilhar dos casos clínicos que vimos nesse dia, quem nos dá a autoridade de tornar o íntimo dos outros em conteúdo nosso?

 

Conselhos no Momento de Alta

No final das contas, #MedStudentTok e outros equivalentes são mais do que uma tendência, são um alerta e uma preocupação. Um alerta de que a digitalização da experiência médica, quando aliada a vaidade ou desatenção, pode corroer a confiança, desumanizar o cuidado e confundir aquilo que é aprendizagem com aquilo que é performativo. Uma preocupação porque coloca os standards do estudo, esforço e vocação num patamar inalcançável ao mero mortal, que faz uma sesta malandra depois de chegar do estágio ou tira um dia de descanso para estar com a família. Não nos deixemos enganar pelos 30 segundos da vida de alguém que nos passa na tela, nem caiamos no erro de ver alguém doente como conteúdo e não como uma pessoa.

Perante esta epidemia, caríssimos colegas, não se escondam atrás da máscara, tirem-na. Sejamos sinceros uns com os outros e apliquemos a vacina mais simples e eficaz contra o contágio digital - o bom senso.

 

Francisca Costa 


terça-feira, 4 de novembro de 2025

Quem paga o preço do descongelamento?

novembro 04, 2025 0
Quem paga o preço do descongelamento?

 



O descongelamento das propinas volta a pôr em cima da mesa uma velha questão: quem paga o preço do ensino superior em Portugal? Depois de anos de valores estagnados, o aumento agora permitido pelo governo ameaça cair, mais uma vez, sobre quem menos pode suportá-lo - os estudantes. E, na Beira Interior, o impacto é particularmente duro.


Estudar fora das grandes cidades é, por si só, um desafio. Na Covilhã, muitos estudantes deslocam-se de concelhos distanciados por 2, 3 ou mais horas de viagem, mas não têm direito a apoio ao alojamento se não forem bolseiros. As rendas continuam altas, a oferta é escassa e os transportes públicos não são sujeitos a apoio financeiro, como nas grandes cidades. Sem bolsa de estudos, não há subsídio de deslocação nem ajuda para a habitação — apenas o peso total das despesas, muitas vezes suportado por famílias de rendimentos modestos a moderados.


É neste contexto que o descongelamento das propinas se torna mais do que uma medida económica. É um novo obstáculo num percurso que, muitas vezes, já é difícil por si. Um ligeiro aumento anual pode parecer insignificante para quem o decide, mas tem um significado muito maior do que a gestão familiar e a economia do país - estamos a regredir. Enquanto deveria haver um esforço coletivo para uma idealizada e tão sonhada abolição das propinas, fugimos do rumo à gratuitidade do ensino e continuamos a contentar-nos com migalhas do Estado e promessas vazias, mais uma vez.


Do lado das universidades, o argumento é compreensível: há falta de financiamento público, as despesas sobem e é necessário garantir a sustentabilidade das instituições. Mas a solução encontrada repete um padrão antigo — transferir o peso do problema para os estudantes. A curto prazo, as universidades podem ganhar alguma margem; a longo prazo, o valor tenderá a aumentar e o sistema perderá equidade, fechando portas a quem mais precisa delas abertas.


Apesar das manifestações e dos apelos das várias associações académicas, na Beira Interior a mobilização estudantil tem sido quase nula e, mesmo quando a há, ainda vemos muita desinformação e conformismo. Muitos estudantes não acreditam que protestar mude algo, outros tentam e lutam contra aqueles que se inserem no sistema. Mais uma vez, quando chega abril saímos todos à rua de cravo na mão.


O descongelamento das propinas é apresentado como uma atualização necessária. Mas, sem políticas que acompanhem essa decisão — reforço de bolsas, apoio ao alojamento e transporte —, o resultado é previsível: menos oportunidades e mais desigualdade. No papel, é uma medida de equilíbrio financeiro. Na vida real, é mais um sinal de que, em Portugal, o ensino superior continua longe de ser verdadeiramente acessível para todos.


Até quando vamos deixar que as nossas vontades sejam contrariadas e que as promessas desapareçam apenas porque alguém decide o nosso futuro, as nossas contas e a nossa voz? No final, quem paga o preço deste tipo de medidas?


Bárbara Azevedo