janeiro 2026 - Fusão

sábado, 10 de janeiro de 2026

Entre silêncios e vozes

janeiro 10, 2026 0
Entre silêncios e vozes


Há lugares onde o tempo não passa — permanece suspenso, preso nas paredes, nos corredores longos e nas histórias que nunca foram contadas em voz alta. Nos anos 50, em Portugal, os hospitais psiquiátricos eram espaços onde o medo se disfarçava de ciência e a ordem se confundia com tratamento. Lugares onde muitas mulheres entravam não por estarem doentes, mas por incomodarem. Por falarem alto demais. Por pensarem longe demais. Por quererem justiça num tempo em que isso lhes era negado.

É nesse tempo que o IX Sarau Cultural nos convida a entrar, num gesto artístico que cruza teatro, memória e denúncia. Este ano, o palco transforma-se num hospital psiquiátrico. As portas fecham-se atrás de quem entra. E o mundo passa a ser visto pelos olhos de uma mulher que ali não pertence.

Nazaré chega assustada. Não sabe porque está ali. Não sabe quem decidiu o seu destino. Vê batas, ouve passos, sente o peso dos olhares que a observam como objeto de estudo. À sua volta, outras mulheres habitam o mesmo silêncio, cada uma com a sua história apagada. Os médicos são homens. A autoridade é masculina. Há um padre que coloca questões entre a religião e a ciência. Tudo é ordem, regra, contenção. Tudo é decidido sem que as pacientes tenham voz.

O espetáculo percorre essa atmosfera densa, onde a psiquiatria se mistura com política, religião e poder. Onde a ciência, ainda em construção, serve muitas vezes para legitimar a repressão. Onde o corpo feminino é corrigido, disciplinado, silenciado. A Nazaré observa. Caminha pelos corredores. Olha para outras mulheres que ali ficaram presas no tempo. E, através dela, o público é convidado a sentir — não a partir de fora, mas de dentro.

As portas do Grande Auditório da Faculdade de Ciências da Saúde da UBI abrem às 20h30. O espetáculo começa pontualmente às 21h, não sendo permitida a entrada após o fecho das portas. Tal como naquele hospital, há momentos em que quem fica de fora já não consegue entrar.

Os bilhetes podem ser adquiridos através do Instagram @saud.arte, por mensagem privada, ou presencialmente nas bancas no Hall da FCS, na segunda ou terça-feira.

Venha assistir. Venha sentir. Venha caminhar pelos corredores com a Nazaré.

Porque há histórias que não podem voltar a ser silenciadas.

Bárbara Azevedo 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Onde está o meu certificado?

janeiro 07, 2026 0
Onde está o meu certificado?


Os congressos são atividades organizadas de modo a proporcionar uma experiência em que seja possível aprender de forma cativante, abordando diferentes dimensões da mesma área, com recurso aos mais variados profissionais e especialistas. No final, saímos com a mente cheia de novos conceitos e ideias, e, mais importante que tudo o resto: um certificado.


Este é mais um dos reflexos do comodismo - uma das pragas mais antigas e persistentes da sociedade desde que a conhecemos. A lei natural de não mexer um dedo a não ser que uma força maior se imponha. 

Há algo de muito humano em ter preguiça; não é, ao contrário do que dizem as gerações mais antigas, uma coisa “de agora”. A preguiça aparece sempre que nada perturbe a sua existência. Há de ter mais que ver com isso do que com outra coisa qualquer. Numa sociedade em que cada vez mais a pressão, tanto académica como profissional, se faz ouvir, em que é esperado que tenhamos provas das nossas capacidades, pode ser necessário fazer mais do que simplesmente “aprender pela experiência”. Desta forma, muitos alunos acabam por escolher congressos não pelo seu conteúdo, mas pelo que isso poderá trazer ao nível de carreira.


E, no entanto, é injusto generalizar. Nem todos os estudantes de medicina que se inscrevem num congresso o fazem apenas pelo certificado. Existe, realmente, quem saia daquele workshop com o entusiasmo de quem acabou de aprender a suturar, a entubar, ou mesmo a fazer um facelift.


A questão essencial acaba por se colocar assim: de todos os inscritos, quantos têm um interesse tão real e sincero que fariam exatamente o mesmo, ainda que não houvesse certificação, e quantos fazem o favor para acumular pontos para o intercâmbio

Mas será menos válido o certificado da segunda pessoa? Será um prémio corrupto, adquirido com intenções impuras? A verdade é que se cumpriram na mesma todos os requisitos; o que muda é apenas o que lhe vai na alma.


Aprender por escolha ou por obrigação são duas realidades muito distintas, mesmo que se aprenda a mesma teoria. Aprender por escolha leva a maior interesse, iniciativa e participação… por outro lado, aprender por obrigação leva muitas vezes a que seja possível expandirmos os nossos horizontes e descobrir diversos temas sobre os quais poderíamos nem sequer ter pensado.


No final de contas, uma atividade como um congresso não é um tribunal da verdade; é uma oportunidade de experiência e aprendizagem, da qual cada um faz o que bem entende.

Apesar de tudo, o valor dos congressos é inegável. Temos cada vez mais oportunidades excelentes e, com a oferta disponível, é quase impossível não haver pelo menos uma atividade de que realmente gostem.

Por isso, em tom de conclusão, mesmo que digam “só vim pelo certificado” no início de um congresso, desde que terminem com um “só vim pelo certificado, mas valeu a pena”, acreditamos que ninguém vos pode censurar por isso.


Carolina Troia e Margarida Reis