abril 2025 - Fusão

sexta-feira, 25 de abril de 2025

As promessas que abril não cumpriu

abril 25, 2025 0
As promessas que abril não cumpriu

 


Vivemos numa sociedade hipócrita. Olhamos para o lado e só vemos trabalhadores, que muito pouco têm de trabalhadores, e tanto têm de homens e mulheres, máquinas fazedoras de dinheiro. Perdoem-me as generalidades, mas vão ser muitas neste artigo, principalmente porque, para além de máquinas altamente funcionais, detentoras de todo o conhecimento analítico e severamente incapazes de sentir compaixão e empatia pelos nossos iguais, somos exatamente isto: todos iguais. Saímos religiosamente à rua de cravo na mão, cantamos as brilhantes canções do tão nosso Zeca, ensinamos às crianças que o “dia da Liberdade é tão importante” e, quando nos apercebemos, somos adultos, com tanto por reivindicar. Mas não queremos ter esse trabalho, porque “nos outros países é muito pior, do que te queixas?”. 


Estamos inseridos num sistema onde queremos votar conscientemente, mas só nos oferecem partidos que não respondem às necessidades da população que se comprometem a servir, vemos jovens a enveredar por ideais que facilmente nos remetem ao porquê de tantos dos nossos avós terem ido para o Ultramar lutar por nós e pela esperança perdida que tinham de voltar e ver um Portugal renascido. Como é possível sermos egoístas ao ponto de não conseguirmos olhar para o passado e prevenir o nosso suicídio pela segunda vez? E se desta não houver volta e realmente não nos reconstruírmos?


Temos tanto medo de ser revolucionários, “é uma palavra tão forte”, porquê? Não há questões a serem respondidas? Não há lutas a serem travadas diariamente? Vemos jovens mulheres, crianças, a serem violadas publicamente, escândalo nacional; mortes à porta de bares por defesa de ideais pessoais, e, ao mesmo tempo, querem convencer-me de que o índice de criminalidade em Portugal está controlado e a descer? O pior é que as opções que nos dão para colmatar este problema são só mais ideias extremistas - o que, para mim, é mais uma vez gozar com a nossa cara. 


Vemos corrupção nos governos, desinformação fabricada nos meios de divulgação oficiais, pessoas a serem abafadas e misteriosamente mortas por informação que não deveriam ter, guerras mundiais e regimes tão semelhantes àquele que deixou uma marca em todas as famílias - que manchou e posteriormente reviveu Portugal. 


Todos os anos, vivo abril como uma nova porta a abrir, e quero manter essa esperança no meu Portugal, que é tão caracterizado pelo seu coração e não pelas suas máquinas analíticas fazedoras de dinheiro. Todos os anos ouço textos fortes a serem ditos em palestras, recitais e espetáculos, e o povo a recebê-los como “mais uma bonita canção de abril”. Se fôssemos realmente ouvir frases e excertos de textos de abril, e não só porque é bonito, reconstruiríamos Portugal. Porque o trabalho está feito, leitores; temos críticas em Bom trabalho de João Negreiros, raiva e sátira no FMI 1ª e 2ª partes de José Mário Branco, história em As portas que abril abriu de Ary dos Santos e vontade de mudar em todos os artistas e em todos aqueles que olham para o passado como uma aprendizagem e não como algo que já conquistamos. 


Termino respondendo a  José Mário Branco, no texto FMI: “Estás desiludido com as promessas de Abril, n'é?”  Sim, estou.


A todos aqueles que estiverem interessados e quiserem juntar-se a esta luta, no dia 29 de abril pelas 21h, a biblioteca da FCS-UBI albergará mais uma edição do “Fala-me de abril”, onde os estudantes levantarão bandeiras dos ideais que realmente ainda faltam cumprir.


Agora pergunto: também estão desiludidos com as promessas de abril?


Bárbara Azevedo

sexta-feira, 18 de abril de 2025

The Substance - O paradigma da beleza

abril 18, 2025 0
The Substance - O paradigma da beleza


    Em 2024, fomos presenteados com o lançamento do filme The Substance, que mais tarde viria a ser aclamado por entre os Grandes dos Óscares como aquele que reavivou o género do horror corporal.  

    Estamos perante um thriller visualmente inquietante, visceral e que desperta emoções tão primitivas como o nojo e a tristeza dos seus espectadores mais sensíveis. Elizabeth, na pele da ilustre Demi Moore, sucumbe à objetificação do corpo feminino e à obsessão pela juventude, levando-a a recorrer a uma Substância que lhe promete de novo a beleza e a aceitação no mundo da indústria cinematográfica. O medo crescente do envelhecimento que a pudesse privar gradualmente da fama, do sucesso e da própria felicidade, conduziu-a a uma espiral irreversível de más decisões que acabaram por ditar o fim da sua existência, ironicamente pelas mãos da sua versão juvenil e bela - Sue -, interpretada por Margaret Qualley.

    Porém, não se pretende com esta introdução analisar cinematograficamente a obra, ou esta seria uma secção Fundida com os cinéfilos UBIanos. Pretende-se antes divulgar a mensagem que a realizadora do thriller, Coralie Fargeat, concisamente revelou em contexto de entrevista: 

“O filme centra-se nos corpos das mulheres e como estes podem ser vistos pelos outros. Fala-nos sobre todas as expectativas que a sociedade por vezes projeta neles e como é que as mulheres conseguem tiranizar os seus corpos de forma a se enquadrarem nessas expectativas. Além disso, mostra-nos como um olhar externo pode facilmente moldar a relação que as mulheres possuem com os seus próprios corpos”

    De facto, destaco a tirania como palavra-chave neste discurso e alerto para a fragilidade e facilidade com que as mulheres se fragmentam internamente em busca de um ideal de beleza. Afinal, o que esconde a beleza de Sue senão uma bela mulher em pós-menopausa cujo mundo lhe ditou que envelhecer é feio? A que custo procurou ela o que acreditava ser a beleza?

    Assim, ainda que em contexto de ficção científica, podemos intuitivamente continuar a questionar-nos, enquanto sociedade, porque não revertemos este paradigma da beleza? Porque não reatribuímos um significado diferente ao conceito de beleza feminina, dado que este é comprovadamente fruto de uma construção social geracional? Porque não podia Elizabeth ser a mulher mais bela da sua faixa etária em todas as dimensões?

    Extrapolando a questão para outra vertente artística, a verdade é que, mesmo do lixo, daquilo que é fragmentado ou menosprezado se gera beleza. É caso para dizer que é tudo uma questão de perspetiva.

    Tim Noble e Sue Webster caminham entre nós para o comprovar. Desde 1980 que os artistas britânicos se destacam no mundo das Artes Plásticas pelas suas esculturas de sombras humanas feitas de sucata, lixo, taxidermia e brinquedos sexuais. De modo a que a pessoa leitora possa comprovar a precisão e complexidade com que destes materiais se gera beleza, convido-a a visitar virtualmente as suas obras, desde algumas das mais recentes como “The Masterpiece” até outras das suas obras mais aclamadas “British Wildlife” e “Dirty White Trash”.

    Também na outra margem do oceano Atlântico o norte-americano Thomas Deininger cria esculturas complexas a partir de materiais não recicláveis e resistentes à degradação do tempo, como um simples brinquedo. Encontrou no lixo de uns a sua fonte de beleza, mudando mais uma vez os requisitos para a mesma. Podemos encontrar as suas majestosas aves coloridas e tridimensionais na sua página de instagram @tdeininger.

    Concluindo a partilha de uma inquietação pessoal sobre a perspetiva atual de beleza, termino refletindo que The Substance pode ser uma poderosa crítica social que denuncia a opressão estética imposta sobre as mulheres. Ao trazer também exemplos do mundo das artes plásticas, como os trabalhos provocadores de Tim Noble, Sue Webster e Thomas Deininger, reforça-se a ideia de que a beleza pode – e deve – ser ressignificada. Seja no corpo envelhecido de uma mulher ou na matéria descartada pela sociedade, há sempre potencial para criar, transformar e admirar. Afinal, talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não seja alcançar um ideal, mas sim aprender a ver com outros olhos aquilo que já é, por si só, belo.

Bruna Machado

 

 

The Masterpiece, 2014

Solid sterling silver, metal stand, light projector

153 x 24 x 37.5 cm (601/4 x 91/2 x 143/4 in)





BRITISH WILDLIFE, 2000

88 taxidermy animals; 46 birds (35 varieties), 40 mammals (18 varieties), 

2 fish, wood, polyester glass fibre filler, fake moss, wire, light projector

150 x 90 x 180 cm (59 x 351/2 x 71 in)




DIRTY WHITE TRASH (WITH GULLS), 1998

6 months' worth of artists' trash, 2 taxidermy seagulls, light projector

Dimensions variable





  1. Tim Noble & Sue Webster, Exhibitions http://www.timnobleandsuewebster.com/exhibitions.html


  1. Thomas Deininger, Artsy.net. https://www.artsy.net/artist/thomas-deininger