Vivemos numa sociedade hipócrita. Olhamos para o lado e só vemos trabalhadores, que muito pouco têm de trabalhadores, e tanto têm de homens e mulheres, máquinas fazedoras de dinheiro. Perdoem-me as generalidades, mas vão ser muitas neste artigo, principalmente porque, para além de máquinas altamente funcionais, detentoras de todo o conhecimento analítico e severamente incapazes de sentir compaixão e empatia pelos nossos iguais, somos exatamente isto: todos iguais. Saímos religiosamente à rua de cravo na mão, cantamos as brilhantes canções do tão nosso Zeca, ensinamos às crianças que o “dia da Liberdade é tão importante” e, quando nos apercebemos, somos adultos, com tanto por reivindicar. Mas não queremos ter esse trabalho, porque “nos outros países é muito pior, do que te queixas?”.
Estamos inseridos num sistema onde queremos votar conscientemente, mas só nos oferecem partidos que não respondem às necessidades da população que se comprometem a servir, vemos jovens a enveredar por ideais que facilmente nos remetem ao porquê de tantos dos nossos avós terem ido para o Ultramar lutar por nós e pela esperança perdida que tinham de voltar e ver um Portugal renascido. Como é possível sermos egoístas ao ponto de não conseguirmos olhar para o passado e prevenir o nosso suicídio pela segunda vez? E se desta não houver volta e realmente não nos reconstruírmos?
Temos tanto medo de ser revolucionários, “é uma palavra tão forte”, porquê? Não há questões a serem respondidas? Não há lutas a serem travadas diariamente? Vemos jovens mulheres, crianças, a serem violadas publicamente, escândalo nacional; mortes à porta de bares por defesa de ideais pessoais, e, ao mesmo tempo, querem convencer-me de que o índice de criminalidade em Portugal está controlado e a descer? O pior é que as opções que nos dão para colmatar este problema são só mais ideias extremistas - o que, para mim, é mais uma vez gozar com a nossa cara.
Vemos corrupção nos governos, desinformação fabricada nos meios de divulgação oficiais, pessoas a serem abafadas e misteriosamente mortas por informação que não deveriam ter, guerras mundiais e regimes tão semelhantes àquele que deixou uma marca em todas as famílias - que manchou e posteriormente reviveu Portugal.
Todos os anos, vivo abril como uma nova porta a abrir, e quero manter essa esperança no meu Portugal, que é tão caracterizado pelo seu coração e não pelas suas máquinas analíticas fazedoras de dinheiro. Todos os anos ouço textos fortes a serem ditos em palestras, recitais e espetáculos, e o povo a recebê-los como “mais uma bonita canção de abril”. Se fôssemos realmente ouvir frases e excertos de textos de abril, e não só porque é bonito, reconstruiríamos Portugal. Porque o trabalho está feito, leitores; temos críticas em Bom trabalho de João Negreiros, raiva e sátira no FMI 1ª e 2ª partes de José Mário Branco, história em As portas que abril abriu de Ary dos Santos e vontade de mudar em todos os artistas e em todos aqueles que olham para o passado como uma aprendizagem e não como algo que já conquistamos.
Termino respondendo a José Mário Branco, no texto FMI: “Estás desiludido com as promessas de Abril, n'é?” Sim, estou.
A todos aqueles que estiverem interessados e quiserem juntar-se a esta luta, no dia 29 de abril pelas 21h, a biblioteca da FCS-UBI albergará mais uma edição do “Fala-me de abril”, onde os estudantes levantarão bandeiras dos ideais que realmente ainda faltam cumprir.
Agora pergunto: também estão desiludidos com as promessas de abril?
