Em 2024, fomos presenteados com o lançamento do filme The Substance, que mais tarde viria a ser aclamado por entre os Grandes dos Óscares como aquele que reavivou o género do horror corporal.
Estamos perante um thriller visualmente inquietante, visceral e que desperta emoções tão primitivas como o nojo e a tristeza dos seus espectadores mais sensíveis. Elizabeth, na pele da ilustre Demi Moore, sucumbe à objetificação do corpo feminino e à obsessão pela juventude, levando-a a recorrer a uma Substância que lhe promete de novo a beleza e a aceitação no mundo da indústria cinematográfica. O medo crescente do envelhecimento que a pudesse privar gradualmente da fama, do sucesso e da própria felicidade, conduziu-a a uma espiral irreversível de más decisões que acabaram por ditar o fim da sua existência, ironicamente pelas mãos da sua versão juvenil e bela - Sue -, interpretada por Margaret Qualley.
Porém, não se pretende com esta introdução analisar cinematograficamente a obra, ou esta seria uma secção Fundida com os cinéfilos UBIanos. Pretende-se antes divulgar a mensagem que a realizadora do thriller, Coralie Fargeat, concisamente revelou em contexto de entrevista:
“O filme centra-se nos corpos das mulheres e como estes podem ser vistos pelos outros. Fala-nos sobre todas as expectativas que a sociedade por vezes projeta neles e como é que as mulheres conseguem tiranizar os seus corpos de forma a se enquadrarem nessas expectativas. Além disso, mostra-nos como um olhar externo pode facilmente moldar a relação que as mulheres possuem com os seus próprios corpos”.
De facto, destaco a tirania como palavra-chave neste discurso e alerto para a fragilidade e facilidade com que as mulheres se fragmentam internamente em busca de um ideal de beleza. Afinal, o que esconde a beleza de Sue senão uma bela mulher em pós-menopausa cujo mundo lhe ditou que envelhecer é feio? A que custo procurou ela o que acreditava ser a beleza?
Assim, ainda que em contexto de ficção científica, podemos intuitivamente continuar a questionar-nos, enquanto sociedade, porque não revertemos este paradigma da beleza? Porque não reatribuímos um significado diferente ao conceito de beleza feminina, dado que este é comprovadamente fruto de uma construção social geracional? Porque não podia Elizabeth ser a mulher mais bela da sua faixa etária em todas as dimensões?
Extrapolando a questão para outra vertente artística, a verdade é que, mesmo do lixo, daquilo que é fragmentado ou menosprezado se gera beleza. É caso para dizer que é tudo uma questão de perspetiva.
Tim Noble e Sue Webster caminham entre nós para o comprovar. Desde 1980 que os artistas britânicos se destacam no mundo das Artes Plásticas pelas suas esculturas de sombras humanas feitas de sucata, lixo, taxidermia e brinquedos sexuais. De modo a que a pessoa leitora possa comprovar a precisão e complexidade com que destes materiais se gera beleza, convido-a a visitar virtualmente as suas obras, desde algumas das mais recentes como “The Masterpiece” até outras das suas obras mais aclamadas “British Wildlife” e “Dirty White Trash”.
Também na outra margem do oceano Atlântico o norte-americano Thomas Deininger cria esculturas complexas a partir de materiais não recicláveis e resistentes à degradação do tempo, como um simples brinquedo. Encontrou no lixo de uns a sua fonte de beleza, mudando mais uma vez os requisitos para a mesma. Podemos encontrar as suas majestosas aves coloridas e tridimensionais na sua página de instagram @tdeininger.
Concluindo a partilha de uma inquietação pessoal sobre a perspetiva atual de beleza, termino refletindo que The Substance pode ser uma poderosa crítica social que denuncia a opressão estética imposta sobre as mulheres. Ao trazer também exemplos do mundo das artes plásticas, como os trabalhos provocadores de Tim Noble, Sue Webster e Thomas Deininger, reforça-se a ideia de que a beleza pode – e deve – ser ressignificada. Seja no corpo envelhecido de uma mulher ou na matéria descartada pela sociedade, há sempre potencial para criar, transformar e admirar. Afinal, talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não seja alcançar um ideal, mas sim aprender a ver com outros olhos aquilo que já é, por si só, belo.
Bruna Machado
The Masterpiece, 2014
Solid sterling silver, metal stand, light projector
153 x 24 x 37.5 cm (601/4 x 91/2 x 143/4 in)
BRITISH WILDLIFE, 2000
88 taxidermy animals; 46 birds (35 varieties), 40 mammals (18 varieties),
2 fish, wood, polyester glass fibre filler, fake moss, wire, light projector
150 x 90 x 180 cm (59 x 351/2 x 71 in)
DIRTY WHITE TRASH (WITH GULLS), 1998
6 months' worth of artists' trash, 2 taxidermy seagulls, light projector
Dimensions variable
Tim Noble & Sue Webster, Exhibitions http://www.timnobleandsuewebster.com/exhibitions.html
Thomas Deininger, Artsy.net. https://www.artsy.net/artist/thomas-deininger

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