Um homem australiano (que optou por manter a anonimidade) tornou-se a primeira pessoa a sobreviver durante mais de 100 dias com um coração feito de titânio, até receber o órgão em questão através de um dador. Este passo gigante para a medicina decorreu entre novembro do ano passado e o início deste mês.
Foi devido à falta de corações disponíveis que o senhor realizou o procedimento em questão. Este é feito com o intuito de manter os pacientes vivos até que um transplante com recurso a dador seja possível, mas a ambição partilhada por vários cirurgiões e pelo criador do coração de titânio é a de que quem necessite de um transplante possa, na verdade, viver com esse mesmo dispositivo durante toda a sua vida.
Relativamente ao produto, este designa-se por Coração Artificial Total BiVACOR, tendo sido criado pelo doutor Daniel Timms. É descrito como uma bomba de sangue rotativa que usa tecnologia de levitação magnética (sim, a mesma tecnologia utilizada por alguns comboios de alta velocidade) para se assemelhar ao efeito de um coração normal. [1]
Cientificamente, o Dr. Timms explica que não seria possível ter um coração artificial que imitasse o “apertar e relaxar” do coração normal e saudável uma vez que, com o tempo, o dispositivo poderia perder essa ação. As membranas e válvulas mecânicas iriam tornar-se cada vez mais fracas e, desta forma, o coração teria de ser substituído. O dispositivo de titânio é diferente na medida em que este apresenta um disco rotativo no interior que funciona, como mencionado atrás, através de levitação magnética. Assim, não há fricção e, consequentemente, o coração pode durar muito mais tempo.
É importante salientar que o senhor australiano em questão não foi a primeira pessoa a nível mundial a receber o coração de titânio, mas sim o primeiro a atingir o número de 100 dias com este tipo de tecnologia a substituir o efeito de um coração normal. Isso indica, obviamente, um grande marco na possibilidade de manutenção de um maior tempo de vida sem recurso a órgãos de dadores.
A nível nacional estima-se que, entre a população com mais de 50 anos, uma em cada seis pessoas tenha insuficiência cardíaca.[2] Não temos dados atualizados acerca da prevalência desta condição na população mais jovem.
Em 2024, Portugal realizou a recolha de 60 corações, sendo que 58 destes foram transplantados no nosso país e os restantes em Espanha. No entanto, 60 pacientes continuavam à espera da sua vez no final do ano.[3] Assim, é muito importante refletirmos seriamente acerca de como a tecnologia em causa pode efetivamente aumentar o tempo de vida enquanto assegura a manutenção da qualidade desta. Os riscos têm de ser corretamente avaliados, mas os resultados são cada vez mais promissores.
Este tipo de tecnologia irá tornar-se cada vez mais prevalente no nosso quotidiano, e é importante mantermos em mente as suas possíveis aplicações. Com o investimento certo e os estudos necessários, podemos estar a caminhar para um mundo em que o transplante com recurso a órgãos artificiais (e não apenas de corações) se torna cada vez mais comum e seguro, salvando milhares de vidas em todo o mundo.
Margarida Reis
Referências
- Australian man survives 100 days with artificial heart in world-first success. The Guardian. 2025. https://www.theguardian.com/australia-news/2025/mar/12/australian-man-survives-100-days-with-artificial-heart-in-world-first-success?CMP=share_btn_url
- Baptista, R, et al., Portuguese Heart Failure Prevalence Observational Study (PORTHOS) rationale and design - A population-based study. PubMed. 2023;42(12):985-995. doi: 10.1016/j.repc.2023.10.004
- Agência Lusa, Portugal alcança marco histórico de transplantes cardíacos em 2024. CNN Portugal. 2024. https://cnnportugal.iol.pt/transplantacao/coracao/portugal-alcanca-marco-historico-de-transplantes-cardiacos-em-2024/20250212/67ac4e35d34ef72ee442238c


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