dezembro 2023 - Fusão

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Ética em Tempos de Conflito: A Influência da Medicina em Cenários de Guerra

dezembro 18, 2023 0
 Ética em Tempos de Conflito: A Influência da Medicina em Cenários de Guerra



Cenários de guerra e conflito marcam vários momentos da história da humanidade e com eles surge a prática médica num contexto extremo com novos desafios e necessidades. O número elevado de vítimas com traumatismos extensos, recursos limitados em locais de acesso reservado criam um ambiente em que impera a sobrevivência e emergem novas questões éticas. Como definir os doentes prioritários quando não é possível socorrer toda a gente? Até que ponto é ético experimentar novas abordagens e técnicas nestes pacientes?

Durante a Segunda Guerra Mundial foram vários os acontecimentos que levaram à necessidade de regulamentar as práticas médicas e criar normas assentes em padrões éticos: Experiências em seres humanos em campos de concentração e prisioneiros de guerra, negligência deliberada de minorias, implementação de um programa de eutanásia, esterilização forçada, colaboração de médicos em regimes totalitários, entre muitos outros. Tornou-se o conflito mais fatal da história e foi imperativo salvaguardar as populações futuras e proteger o que hoje reconhecemos como direitos humanos. Assim, começou uma época de grande revolução na ética médica.

No fim da guerra 23 médicos foram julgados pelas suas práticas, embora centenas estivessem envolvidos, e 15 foram condenados por crimes contra a humanidade. No final deste julgamento médico de Nuremberg, foram definidos pontos fundamentais para a investigação em seres humanos assentes na importância do consentimento prévio voluntário e da promoção da autonomia dos envolvidos. Nasce, assim, o Código de Nuremberg em 1947.

Um ano depois surge a Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas também fundada nesse ano. O desenvolvimento da ética continuou e em 1964 a Associação Médica Mundial elabora a Declaração de Helsínquia em que são descritos princípios éticos para a investigação clínica a nível global. Alguns exemplos são: os participantes terem de beneficiar com a pesquisa, o seu bem-estar ser prioritário e passar a ser fornecido um formulário de consentimento por escrito.

Nos anos 70 é exposto o caso Tuskegee, um estudo com o objetivo de investigar o processo natural da sífilis em seres humanos que decorria desde 1932, mesmo antes da segunda grande guerra. Acompanhou centenas de homens afroamericanos previamente saudáveis à sua participação na pesquisa e mesmo após o aparecimento da penicilina não foram sujeitos ao tratamento. Este caso motivou a redação do Relatório de Belmont (1979), que defendia os princípios fundamentais da beneficência, do respeito pelas pessoas, promovendo a sua autonomia, e da justiça, que visa combater a discriminação e exploração. Este último foi especialmente enfatizado.

Vítimas de traumatismo emergentes por vezes são incapazes de fornecer consentimento informado. Entram num grupo de pacientes em que muitas vezes o tratamento é prestado sob a condição de “consentimento implícito”. Ao longo dos anos os regulamentos têm sido revistos e atualizados de forma a abranger nuances como esta da forma mais ética.

Com o desenvolvimento tecnológico em massa, emergem novos desafios éticos que são exemplos o bioterrorismo e a biotecnologia militar. Aqui, o planeamento surge como uma estratégia imperativa de forma a dar respostas eficazes e a proteger a população e os profissionais de saúde. É importante que sejam preparados para que tenham o conhecimento necessário de forma a agirem em conformidade com padrões éticos.

Até hoje a população militar, como grupo vulnerável, é abrangida por regulamentos éticos mais rigorosos e as normas de experimentação em humanos tornaram-se muito severas de forma a salvaguardar as pessoas da perversidade testemunhada no passado. É, assim, clara a influência profunda da medicina de guerra no desenvolvimento da ética médica ao longo dos anos. No entanto, a noção de ética continua a evoluir ao passo que o mundo evolui, debatendo-se com as mais aguçadas e controversas questões da atualidade e refletindo em futuras perguntas e respetivas soluções sempre com o objetivo de orientar o comportamento humano no sentido da moralidade.

                            
                                                                                                                  Catarina Barros



Referências:


  1. Medical care during World War I - Dr Leo Van Bergen | Imperial War Museums https://www.iwm.org.uk/partnerships/mapping-the-centenary/projects/medical-care-during-world-war-i-dr-leo-van-bergen


  1. McManus, J., Mehta, S. G., McClinton, A. R., de Lorenzo, R. A., & Baskin, T. W. (2005). Informed consent and ethical issues in military medical research. Academic Emergency Medicine, 12(11), 1120–1126. https://doi.org/10.1197/j.aem.2005.05.037~



  1. https://www.un.org/en/about-us/udhr/history-of-the-declaration


  1. Greco, D., & Welsh, J. (2016). Direitos humanos, ética e prática médica. Revista Bioética, 24(3), 443–451. https://doi.org/10.1590/1983-80422016243143


  1. Declaração de Helsínquia da Associação Médica Mundial [versão de outubro de 2013 † ] Princípios Éticos para a Investigação Médica em Seres Humanos. (n.d.). http://www.wma.net/en/30publications/10policies/b3/


  1. https://www.cdc.gov/tuskegee/timeline.htm




segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Era uma vez uma criança infeliz

dezembro 04, 2023 0
 Era uma vez uma criança infeliz

Era uma vez uma família feliz. Na cozinha, pairava o cheiro de bolo acabado de sair do forno, feito pela mãe. Pela porta, entra o pai, vindo do trabalho. E os irmãos, que brincavam na sala, correm felizes na sua direção. São estas as famílias que os livros para crianças e os contos de fadas nos apresentam. As histórias padrão, as histórias felizes. Mas às vezes a mãe não pode fazer o bolo porque adoeceu, o pai não entra pela porta porque faleceu, as crianças não brincam em casa porque não têm brinquedos, nem dinheiro, nem casa. Ou pais que as queiram ou as saibam amar. Ou colegas que as saibam tratar e escolas que saibam vigiar. Às vezes os monstros não existem só debaixo da cama ou dentro do armário, mas sim na forma de violência doméstica, abuso sexual, negligência, precariedade económica, bullying.

Já nos primórdios da psicanálise, Freud atribuía às neuroses dos adultos os traumas infantis. Atualmente, vários transtornos psiquiátricos em adultos têm sido relacionados a algum trauma na infância. A magnitude do problema é variável, sendo que alguns estudos apontam para a ocorrência de traumas na infância em aproximadamente 50% dos adultos com psicopatologia. Do ponto de vista psicodinâmico, o trauma envolve acontecimentos na vida do indivíduo que implicam uma quantidade ou intensidade de ocorrências que superam a sua habilidade de as tolerar. Como seres em desenvolvimento, as crianças são mais suscetíveis a este tipo de eventos, pelo que vivências traumáticas e falhas graves nas relações precoces podem interromper ou alterar o curso do desenvolvimento saudável.

O cérebro humano inicia o seu desenvolvimento aproximadamente duas semanas após a conceção e atinge a maturidade na terceira década de vida. Vários estudos em crianças sujeitas a adversidades na infância demonstram uma redução do volume cerebral, com alterações nas regiões do lobo temporal, frontal, parietal e occipital e no volume da substância cinzenta e branca e diminuição do volume da amígdala e do hipocampo, sendo que o timing e a cronicidade dos abusos condicionam a magnitude das alterações.

Algumas das consequências dos maus-tratos são o desenvolvimento de um padrão de vinculação desorganizado, défices no desenvolvimento intelectual, cognitivo, social, físico e sexual, dificuldades na regulação emocional e no controlo de impulsos, problemas interpessoais, sintomas dissociativos, baixa autoestima e desenvolvimento de perturbações psicológicas das quais se destacam a depressão, as perturbações de ansiedade como a Perturbação de Pânico, Perturbação de Stress Pós-traumático e perturbações de somatização. E quando falamos de consequências, estas vão para além do campo psicopatológico. Alguns estudos revelam que várias experiências traumáticas contribuem para o desenvolvimento de inúmeras doenças, nomeadamente a doença cardíaca, a hipertensão arterial, a doença pulmonar crónica, fraturas, doença hepática, cancro, disfunção do sistema imunitário e morte precoce. Existe, ainda, uma associação significativa entre estas vivências traumáticas e o desenvolvimento de comportamentos violentos e, consequente, aumento da criminalidade, dos comportamentos de risco e do suicídio na adolescência e na vida adulta.

Poucas pessoas têm consciência que uma das principais causas de morte na infância nos países ocidentais são os maus-tratos físicos e a negligência que ocorre dentro das famílias. Por exemplo, nos Estados Unidos, os maus-tratos são responsáveis por 76% das mortes até aos 6 anos e a prevalência estimada dos maus-tratos infantis na Europa é de 22,9% para o abuso físico, 29,1% para o abuso emocional, 9,6% para o abuso sexual, 16,3% para a negligência física e 18,4% para a negligência emocional. Em Portugal, em 2020, estavam 6.706 crianças e jovens em instituições de acolhimento residencial e familiar como medida de proteção e o nosso país foi classificado como um dos países com piores resultados a nível da proteção infantil.

Estes são números assustadores, mas aos quais não podemos fechar os olhos. Não podemos fechá-los pelas crianças de hoje, e pelas crianças que elas irão criar no futuro, uma vez que este efeito na saúde, pode ser intergeracional ao contribuir para a formação e perpetuação de um ciclo, em que indivíduos que crescem em condições de adversidade têm menor probabilidade de promover um ambiente adequado e ótimo para o crescimento dos seus filhos.

É, portanto, extremamente importante a nível dos cuidados de saúde primários, que o médico de família ou até o pediatra, aprendam a reconhecer sinais precoces de stress tóxico de forma a identificá-lo atempadamente. É importante que os professores e funcionários escolares sejam treinados a identificar crianças em risco. Mas nem só de médicos e de escolas se faz a prevenção. A ajuda está ao alcance de todos e é importante que estejamos atentos. Qualquer um de nós pode reportar, de forma anónima ou não, uma situação de risco às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), fazer um donativo às associações dedicadas à proteção de crianças abandonadas e negligenciadas, contactar a linha SOS Criança através do 116 111, ou simplesmente estender a mão para alimentar uma criança com fome, para limpar as lágrimas a uma criança que chora e dar um abraço a uma criança que não se lembrava do que era ser agarrado com carinho.Era uma vez uma criança que cresceu fora dos contos de fadas. E os filmes de terror que a deveriam assustar, tornaram-se os cenários da vida real, os traumas da vida futura. Era uma vez, e que bom que era, se uma vez não fossem vezes. Portanto, vamos reescrever a história. 


                                                                                                            Por Joana Filipa Costa


Referências Bibliográficas

Waikamp, V., & Serralta, F. B. (2018). Repercussões do trauma na infância na psicopatologia da vida adulta.Ciencias Psicológicas,12(1), 137-144. doi: 10.22235/cp.v12i1.1603

FONTE, Rebecca Feitosa da. Os reflexos da infância na vida adulta: uma revisão de literatura. 2017. 43 f. +. Trabalho de conclusão de curso (bacharelado - Odontologia) - Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Faculdade de Odontologia de Araçatuba, 2017. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/156604>.

Actas Évora Volume XII p.54 a 73.

Maia Â, Guimarães C, Carvalho C, Capitão L, Carvalho S, Capela S. Maus-tratos na infância, psicopatologia e satisfação com a vida: um estudo com jovens portugueses.


sábado, 2 de dezembro de 2023

No ihéu das rolas

dezembro 02, 2023 0
No ihéu das rolas


Quantos de nós sonham em fazer voluntariado? 

De um ponto de observação privilegiado, situado na linha que divide o mundo em dois hemisférios, podemos vê-lo por inteiro e pensar no apanágio que nos tolda a visão e que tantas vezes nos impede de ver com clareza. Estava no ilhéu das Rolas, no marco do Equador e esta foi talvez a segunda vez daquele dia em que pensei no quão privilegiada sou. A primeira foi quando um miúdo de 22 anos, como eu, me tentou vender uma pulseira feita com conchas e me contou que lá, naquele lugar especial de onde vemos o mundo inteiro, para as crianças irem para a escola apanham o bote das 4:30 da manhã e regressam de noite, de bote também. 

Quantos de nós sonham em ir para um país subdesenvolvido e dar de si ao outro? Mas quantos de nós se apercebem do privilégio que é, chamá-lo de sonho? 

Comecemos pelo significado de privilégio: vantagem ou direito atribuído a uma pessoa, ou a um grupo de pessoas, em detrimento dos demais. Privilégio, neste contexto é incómodo. É estranhar a falta de luz, a falta de água, estranhar o desconhecimento do básico por tantos, estranhar a inexistência de estradas e de recolha de lixo. Porque, como em tantas conversas me apercebi, só estranhas o que conheces. Só estranhas o que falta porque vieste de um lugar de direitos e regalias. As conversas adensam-se, conheces mais e mais pessoas e passado uns dias dás conta que estás, novamente, a estranhar o que falta. Mas não o que falta lá, o que falta de onde vieste. 

Quanto mais vives, mais o “sonho de voluntariado” começa a parecer desajustado. Mas só começa a inquietar porque partiste, e talvez seja isso o mais difícil. Eu sempre me inquietei e tive vontade de partir. Tantas vezes procurei projetos e oportunidades que nunca pareciam certas: ou a altura não o era, ou o projeto não o era, ou o dinheiro não o era. Pensando bem, mais do que os “ous” eram os “ses”: e se corre mal?, e se não tenho estofo?, e se não me faz feliz como parece fazer a tantos outros?. Eu tive sorte e, mais uma vez, o privilégio favoreceu-me, a AHBA (Associação Humanitária Beira Aproxima) acolheu-me, a minha família deu-me força e lancei-me no projeto Lwelwe

Durante um mês eu e mais 3 voluntárias pudemos ser professoras, amigas, conselheiras, médicas. Durante um mês brincamos e ensinamos um pouco do que sabemos, fizemos curativos e diagnósticos muitas vezes incertos. Tentamos cuidar, aprendemos mais do que alguma vez achamos que era possível em tão pouco tempo e toda a gente, sem exceção, nos agradeceu. Agradeceram-nos com um obrigado, com simpatia, com histórias, com um abraço. Agradeceram-nos como se fosse prerrogativa médica e nem questionaram o facto de ainda não o sermos. Aprendemos que com pouco se faz muito. 

Se há algo que levo de lá é a leveza de viver inconsequentemente e com pouco. Em São Tomé não há pressa, vive-se leve leve, num certo ritmo que só lá é possível. Vive-se no presente e confia-se que vai dar tudo certo. E mais uma vez estranhamos este modo de viver. Estranhamos porque este agora é desprovido de segurança, planeamento ou mesmo futuro. Estranhamos porque em tudo o que é bom e bebemos daquela cultura, volta e meia somos confrontados com o “e depois?”. Estranhamos porque as crianças riem, mas não são crianças, têm 8, 9, 10 anos e cuidam dos seus irmãos de 3, 4 e 5. Estranhamos porque as famílias são numerosas, 14 ou 15 filhos, mas colchão só há um e refeições nutricionalmente ricas nem sempre são servidas. Estranhamos porque com tanta pobreza seria de prever mais miséria, mas como tantas vezes ouvi “a terra é boa, o sol brilha - a terra dá-nos tudo, que mais podemos pedir?”. Estranhamos porque em todo o lado há um sorriso e um abraço à espera. Talvez o ideal seja um meio termo em que não vivemos só no hoje, nem vivemos só para o amanhã. 

Viver um mês em voluntariado parece insignificante quando pensamos numa vida inteira. Mas por mais curta que seja a estadia, e como já tantos terão ouvido, sempre que vais, não dás apenas, recebes tanto mais em troca. A meu ver, devemos olhar para o voluntariado como uma regalia que embora acessível a todos, não deve ser para todos. Pode parecer moralista ou mesmo paternalista da minha parte, mas acredito veemente que nem todo o voluntariado é bom. Chegamos cheios de conhecimento e vontade de mudar o mundo, de ensinar o que de melhor temos de onde partimos, cheios de validade e verdade científica, e ficamos desconcertados com o quão pouco sabemos. Porque embora a fosfomicina seja indicada para tratamento de uma infeção urinária, prescrevê-la quando cada saqueta custa cerca de 20€ e o salário mínimo do país é cerca de 100€ é, peço desculpa pela expressão, idiotice e uma alienação da realidade. É uma prescrição toldada pelas regalias que nos são banais no dia a dia: um sistema de saúde acessível, gratuito e funcional. 

Todos nós temos a capacidade de ser voluntário, de dar de si e de mudar o mundo que existe em cada indivíduo com que nos cruzamos. Mas para isso, temos de começar com a humildade de que por muito que saibamos, é muito maior o que desconhecemos. Temos de ir de braços e ouvidos abertos, prontos para ouvir, prontos para receber. 

Se estás a pensar em partir, não precisas que ninguém te convença. Precisas de te atirar de cabeça, com a certeza de que nunca estarás preparado. Se estás a pensar em partir, desassossega-te, aflige-te, desafia-te a dar outro sentido ao privilégio em que nasceste.  Muitos dirão que cada pessoa atribui o seu próprio significado a cada experiência de voluntariado, mas de tudo o que tive o privilégio de experienciar, há um sentimento sempre transversal, e talvez o que deixa mais saudade: o sentimento de que estou a ser o mais humano que me é possível ser.


Maria Monteiro