Era uma vez uma criança infeliz - Fusão

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Era uma vez uma criança infeliz


Era uma vez uma família feliz. Na cozinha, pairava o cheiro de bolo acabado de sair do forno, feito pela mãe. Pela porta, entra o pai, vindo do trabalho. E os irmãos, que brincavam na sala, correm felizes na sua direção. São estas as famílias que os livros para crianças e os contos de fadas nos apresentam. As histórias padrão, as histórias felizes. Mas às vezes a mãe não pode fazer o bolo porque adoeceu, o pai não entra pela porta porque faleceu, as crianças não brincam em casa porque não têm brinquedos, nem dinheiro, nem casa. Ou pais que as queiram ou as saibam amar. Ou colegas que as saibam tratar e escolas que saibam vigiar. Às vezes os monstros não existem só debaixo da cama ou dentro do armário, mas sim na forma de violência doméstica, abuso sexual, negligência, precariedade económica, bullying.

Já nos primórdios da psicanálise, Freud atribuía às neuroses dos adultos os traumas infantis. Atualmente, vários transtornos psiquiátricos em adultos têm sido relacionados a algum trauma na infância. A magnitude do problema é variável, sendo que alguns estudos apontam para a ocorrência de traumas na infância em aproximadamente 50% dos adultos com psicopatologia. Do ponto de vista psicodinâmico, o trauma envolve acontecimentos na vida do indivíduo que implicam uma quantidade ou intensidade de ocorrências que superam a sua habilidade de as tolerar. Como seres em desenvolvimento, as crianças são mais suscetíveis a este tipo de eventos, pelo que vivências traumáticas e falhas graves nas relações precoces podem interromper ou alterar o curso do desenvolvimento saudável.

O cérebro humano inicia o seu desenvolvimento aproximadamente duas semanas após a conceção e atinge a maturidade na terceira década de vida. Vários estudos em crianças sujeitas a adversidades na infância demonstram uma redução do volume cerebral, com alterações nas regiões do lobo temporal, frontal, parietal e occipital e no volume da substância cinzenta e branca e diminuição do volume da amígdala e do hipocampo, sendo que o timing e a cronicidade dos abusos condicionam a magnitude das alterações.

Algumas das consequências dos maus-tratos são o desenvolvimento de um padrão de vinculação desorganizado, défices no desenvolvimento intelectual, cognitivo, social, físico e sexual, dificuldades na regulação emocional e no controlo de impulsos, problemas interpessoais, sintomas dissociativos, baixa autoestima e desenvolvimento de perturbações psicológicas das quais se destacam a depressão, as perturbações de ansiedade como a Perturbação de Pânico, Perturbação de Stress Pós-traumático e perturbações de somatização. E quando falamos de consequências, estas vão para além do campo psicopatológico. Alguns estudos revelam que várias experiências traumáticas contribuem para o desenvolvimento de inúmeras doenças, nomeadamente a doença cardíaca, a hipertensão arterial, a doença pulmonar crónica, fraturas, doença hepática, cancro, disfunção do sistema imunitário e morte precoce. Existe, ainda, uma associação significativa entre estas vivências traumáticas e o desenvolvimento de comportamentos violentos e, consequente, aumento da criminalidade, dos comportamentos de risco e do suicídio na adolescência e na vida adulta.

Poucas pessoas têm consciência que uma das principais causas de morte na infância nos países ocidentais são os maus-tratos físicos e a negligência que ocorre dentro das famílias. Por exemplo, nos Estados Unidos, os maus-tratos são responsáveis por 76% das mortes até aos 6 anos e a prevalência estimada dos maus-tratos infantis na Europa é de 22,9% para o abuso físico, 29,1% para o abuso emocional, 9,6% para o abuso sexual, 16,3% para a negligência física e 18,4% para a negligência emocional. Em Portugal, em 2020, estavam 6.706 crianças e jovens em instituições de acolhimento residencial e familiar como medida de proteção e o nosso país foi classificado como um dos países com piores resultados a nível da proteção infantil.

Estes são números assustadores, mas aos quais não podemos fechar os olhos. Não podemos fechá-los pelas crianças de hoje, e pelas crianças que elas irão criar no futuro, uma vez que este efeito na saúde, pode ser intergeracional ao contribuir para a formação e perpetuação de um ciclo, em que indivíduos que crescem em condições de adversidade têm menor probabilidade de promover um ambiente adequado e ótimo para o crescimento dos seus filhos.

É, portanto, extremamente importante a nível dos cuidados de saúde primários, que o médico de família ou até o pediatra, aprendam a reconhecer sinais precoces de stress tóxico de forma a identificá-lo atempadamente. É importante que os professores e funcionários escolares sejam treinados a identificar crianças em risco. Mas nem só de médicos e de escolas se faz a prevenção. A ajuda está ao alcance de todos e é importante que estejamos atentos. Qualquer um de nós pode reportar, de forma anónima ou não, uma situação de risco às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), fazer um donativo às associações dedicadas à proteção de crianças abandonadas e negligenciadas, contactar a linha SOS Criança através do 116 111, ou simplesmente estender a mão para alimentar uma criança com fome, para limpar as lágrimas a uma criança que chora e dar um abraço a uma criança que não se lembrava do que era ser agarrado com carinho.Era uma vez uma criança que cresceu fora dos contos de fadas. E os filmes de terror que a deveriam assustar, tornaram-se os cenários da vida real, os traumas da vida futura. Era uma vez, e que bom que era, se uma vez não fossem vezes. Portanto, vamos reescrever a história. 


                                                                                                            Por Joana Filipa Costa


Referências Bibliográficas

Waikamp, V., & Serralta, F. B. (2018). Repercussões do trauma na infância na psicopatologia da vida adulta.Ciencias Psicológicas,12(1), 137-144. doi: 10.22235/cp.v12i1.1603

FONTE, Rebecca Feitosa da. Os reflexos da infância na vida adulta: uma revisão de literatura. 2017. 43 f. +. Trabalho de conclusão de curso (bacharelado - Odontologia) - Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Faculdade de Odontologia de Araçatuba, 2017. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/156604>.

Actas Évora Volume XII p.54 a 73.

Maia Â, Guimarães C, Carvalho C, Capitão L, Carvalho S, Capela S. Maus-tratos na infância, psicopatologia e satisfação com a vida: um estudo com jovens portugueses.


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