De um ponto de observação privilegiado, situado na linha que divide o mundo em dois hemisférios, podemos vê-lo por inteiro e pensar no apanágio que nos tolda a visão e que tantas vezes nos impede de ver com clareza. Estava no ilhéu das Rolas, no marco do Equador e esta foi talvez a segunda vez daquele dia em que pensei no quão privilegiada sou. A primeira foi quando um miúdo de 22 anos, como eu, me tentou vender uma pulseira feita com conchas e me contou que lá, naquele lugar especial de onde vemos o mundo inteiro, para as crianças irem para a escola apanham o bote das 4:30 da manhã e regressam de noite, de bote também.
Quantos de nós sonham em ir para um país subdesenvolvido e dar de si ao outro? Mas quantos de nós se apercebem do privilégio que é, chamá-lo de sonho?
Comecemos pelo significado de privilégio: vantagem ou direito atribuído a uma pessoa, ou a um grupo de pessoas, em detrimento dos demais. Privilégio, neste contexto é incómodo. É estranhar a falta de luz, a falta de água, estranhar o desconhecimento do básico por tantos, estranhar a inexistência de estradas e de recolha de lixo. Porque, como em tantas conversas me apercebi, só estranhas o que conheces. Só estranhas o que falta porque vieste de um lugar de direitos e regalias. As conversas adensam-se, conheces mais e mais pessoas e passado uns dias dás conta que estás, novamente, a estranhar o que falta. Mas não o que falta lá, o que falta de onde vieste.
Quanto mais vives, mais o “sonho de voluntariado” começa a parecer desajustado. Mas só começa a inquietar porque partiste, e talvez seja isso o mais difícil. Eu sempre me inquietei e tive vontade de partir. Tantas vezes procurei projetos e oportunidades que nunca pareciam certas: ou a altura não o era, ou o projeto não o era, ou o dinheiro não o era. Pensando bem, mais do que os “ous” eram os “ses”: e se corre mal?, e se não tenho estofo?, e se não me faz feliz como parece fazer a tantos outros?. Eu tive sorte e, mais uma vez, o privilégio favoreceu-me, a AHBA (Associação Humanitária Beira Aproxima) acolheu-me, a minha família deu-me força e lancei-me no projeto Lwelwe.
Durante um mês eu e mais 3 voluntárias pudemos ser professoras, amigas, conselheiras, médicas. Durante um mês brincamos e ensinamos um pouco do que sabemos, fizemos curativos e diagnósticos muitas vezes incertos. Tentamos cuidar, aprendemos mais do que alguma vez achamos que era possível em tão pouco tempo e toda a gente, sem exceção, nos agradeceu. Agradeceram-nos com um obrigado, com simpatia, com histórias, com um abraço. Agradeceram-nos como se fosse prerrogativa médica e nem questionaram o facto de ainda não o sermos. Aprendemos que com pouco se faz muito.
Se há algo que levo de lá é a leveza de viver inconsequentemente e com pouco. Em São Tomé não há pressa, vive-se leve leve, num certo ritmo que só lá é possível. Vive-se no presente e confia-se que vai dar tudo certo. E mais uma vez estranhamos este modo de viver. Estranhamos porque este agora é desprovido de segurança, planeamento ou mesmo futuro. Estranhamos porque em tudo o que é bom e bebemos daquela cultura, volta e meia somos confrontados com o “e depois?”. Estranhamos porque as crianças riem, mas não são crianças, têm 8, 9, 10 anos e cuidam dos seus irmãos de 3, 4 e 5. Estranhamos porque as famílias são numerosas, 14 ou 15 filhos, mas colchão só há um e refeições nutricionalmente ricas nem sempre são servidas. Estranhamos porque com tanta pobreza seria de prever mais miséria, mas como tantas vezes ouvi “a terra é boa, o sol brilha - a terra dá-nos tudo, que mais podemos pedir?”. Estranhamos porque em todo o lado há um sorriso e um abraço à espera. Talvez o ideal seja um meio termo em que não vivemos só no hoje, nem vivemos só para o amanhã.
Viver um mês em voluntariado parece insignificante quando pensamos numa vida inteira. Mas por mais curta que seja a estadia, e como já tantos terão ouvido, sempre que vais, não dás apenas, recebes tanto mais em troca. A meu ver, devemos olhar para o voluntariado como uma regalia que embora acessível a todos, não deve ser para todos. Pode parecer moralista ou mesmo paternalista da minha parte, mas acredito veemente que nem todo o voluntariado é bom. Chegamos cheios de conhecimento e vontade de mudar o mundo, de ensinar o que de melhor temos de onde partimos, cheios de validade e verdade científica, e ficamos desconcertados com o quão pouco sabemos. Porque embora a fosfomicina seja indicada para tratamento de uma infeção urinária, prescrevê-la quando cada saqueta custa cerca de 20€ e o salário mínimo do país é cerca de 100€ é, peço desculpa pela expressão, idiotice e uma alienação da realidade. É uma prescrição toldada pelas regalias que nos são banais no dia a dia: um sistema de saúde acessível, gratuito e funcional.
Todos nós temos a capacidade de ser voluntário, de dar de si e de mudar o mundo que existe em cada indivíduo com que nos cruzamos. Mas para isso, temos de começar com a humildade de que por muito que saibamos, é muito maior o que desconhecemos. Temos de ir de braços e ouvidos abertos, prontos para ouvir, prontos para receber.
Se estás a pensar em partir, não precisas que ninguém te convença. Precisas de te atirar de cabeça, com a certeza de que nunca estarás preparado. Se estás a pensar em partir, desassossega-te, aflige-te, desafia-te a dar outro sentido ao privilégio em que nasceste. Muitos dirão que cada pessoa atribui o seu próprio significado a cada experiência de voluntariado, mas de tudo o que tive o privilégio de experienciar, há um sentimento sempre transversal, e talvez o que deixa mais saudade: o sentimento de que estou a ser o mais humano que me é possível ser.
Maria Monteiro

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