Vivemos num país onde as crianças deixam de ser crianças demasiado cedo. Não pela urgência de crescer, mas pela pressa do mundo em roubar-lhes o tempo. Substituímos parques por ecrãs, a macaca pelo TikTok e o silêncio pela euforia deste mundo tão barulhento. Com tanto ruído, esquecemo-nos de perguntar: que infância estamos a proteger?
Deixámos de fomentar o crescimento intelectual e a procura pela identidade e pelo pensamento crítico. Durante tanto tempo, queixamo-nos de uma “idade dos porquês”, e cada vez mais a vemos passar por entre os dedos. Mais uma vez, perdemos para o progresso. Mas progresso para quem?
Para que serve o uso da tecnologia nesta faixa etária, quando esta silencia tantas gargalhadas? Quando normaliza a solidão? Estamos continuamente a criar uma geração onde os dedos deslizam antes de saberem escrever, onde a criatividade se mede em likes e as opiniões são copiadas daquelas que ouvimos alguém partilhar nas demais redes sociais. Criámos relógios suíços, num país que a arte sempre tentou acalmar, e agora, o silêncio – esse lugar onde nascem as ideias, os mundos e os sonhos – tornou-se intolerável.
Esta não é apenas uma consequência inevitável dos nossos tempos. É também uma escolha política e, como todas as escolhas políticas, tem vítimas. Quando os governos abandonam as iniciativas públicas de apoio à infância, quando não há investimento em educação artística, espaços verdes, apoio psicológico e tempo de qualidade, o que sobra é o vazio preenchido por ecrãs. A infância informatizada é mais do que uma questão de costumes — é um problema estrutural: é o reflexo de um sistema que esqueceu que brincar também é (e deve continuar a ser) um direito.
No aproximar de mais um Dia da Criança, precisamos de mais do que apenas oferecer brinquedos: temos de resgatar o tempo. O tempo de estar, ouvir, tocar, brincar e ser. Abraçar a nossa criança interior, procurá-la e preservá-la como ato de resistência. Para lembrar à sociedade que cada criança perdida num algoritmo é uma promessa adormecida. E para nos lembrarmos a nós próprios, que temos tempo e que os sonhos são alcançáveis. Lembremo-nos de relativizar a vida, mas ao mesmo tempo de encontrarmos prazer nas coisas pequenas. Lembremo-nos de ouvir com o coração de uma criança e viver com curiosidade, que dela é tão característica.
“A criança que não brinca não é criança,
mas o homem que não brinca perdeu para sempre
a criança que vivia nele”
- Pablo Neruda
O que está em jogo não é apenas o futuro das crianças. É o futuro da nossa humanidade. Uma humanidade que não protege a infância é aquela que se condena ao cinismo, à pressa e ao esquecimento. Se continuarmos a aceitar que o ruído substitua o encanto, que o digital substitua a curiosidade e que o imediatismo substitua os risos, então preparemo-nos para um mundo onde nenhum adulto seja capaz de imaginar e criar.
Eu não quero viver no país onde nos esquecemos de brincar.
Bárbara Azevedo
