No país onde as crianças se esquecem de brincar - Fusão

quinta-feira, 29 de maio de 2025

No país onde as crianças se esquecem de brincar

 


Vivemos num país onde as crianças deixam de ser crianças demasiado cedo. Não pela urgência de crescer, mas pela pressa do mundo em roubar-lhes o tempo. Substituímos parques por ecrãs, a macaca pelo TikTok e o silêncio pela euforia deste mundo tão barulhento. Com tanto ruído, esquecemo-nos de perguntar: que infância estamos a proteger?


Deixámos de fomentar o crescimento intelectual e a procura pela identidade e pelo pensamento crítico. Durante tanto tempo, queixamo-nos de uma “idade dos porquês”, e cada vez mais a vemos passar por entre os dedos. Mais uma vez, perdemos para o progresso. Mas progresso para quem?


Para que serve o uso da tecnologia nesta faixa etária, quando esta silencia tantas gargalhadas? Quando normaliza a solidão? Estamos continuamente a criar uma geração onde os dedos deslizam antes de saberem escrever, onde a criatividade se mede em likes e as opiniões são copiadas daquelas que ouvimos alguém partilhar nas demais redes sociais. Criámos relógios suíços, num país que a arte sempre tentou acalmar, e agora, o silêncio – esse lugar onde nascem as ideias, os mundos e os sonhos – tornou-se intolerável.


Esta não é apenas uma consequência inevitável dos nossos tempos. É também uma escolha política e, como todas as escolhas políticas, tem vítimas. Quando os governos abandonam as iniciativas públicas de apoio à infância, quando não há investimento em educação artística, espaços verdes, apoio psicológico e tempo de qualidade, o que sobra é o vazio preenchido por ecrãs. A infância informatizada é mais do que uma questão de costumes — é um problema estrutural: é o reflexo de um sistema que esqueceu que brincar também é (e deve continuar a ser) um direito.


No aproximar de mais um Dia da Criança, precisamos de mais do que apenas oferecer brinquedos: temos de resgatar o tempo. O tempo de estar, ouvir, tocar, brincar e ser. Abraçar a nossa criança interior, procurá-la e preservá-la como ato de resistência. Para lembrar à sociedade que cada criança perdida num algoritmo é uma promessa adormecida. E para nos lembrarmos a nós próprios, que temos tempo e que os sonhos são alcançáveis. Lembremo-nos de relativizar a vida, mas ao mesmo tempo de encontrarmos prazer nas coisas pequenas. Lembremo-nos de ouvir com o coração de uma criança e viver com curiosidade, que dela é tão característica. 


“A criança que não brinca não é criança,

mas o homem que não brinca perdeu para sempre

a criança que vivia nele”                                                                       

- Pablo Neruda


O que está em jogo não é apenas o futuro das crianças. É o futuro da nossa humanidade. Uma humanidade que não protege a infância é aquela que se condena ao cinismo, à pressa e ao esquecimento. Se continuarmos a aceitar que o ruído substitua o encanto, que o digital substitua a curiosidade e que o imediatismo substitua os risos, então preparemo-nos para um mundo onde nenhum adulto seja capaz de imaginar e criar. 


Eu não quero viver no país onde nos esquecemos de brincar.


Bárbara Azevedo


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