A esmagadora maioria dos países do mundo consagra como feriado nacional a data da fundação do Estado ou do estabelecimento do regime político vigente. Contrariamente a esta tendência, Portugal, o pequenino encostado para canto da Europa, ergue-se por sua vez bem alto para celebrar a cada 10 de junho um feriado que simboliza mais do que afirmações políticas ou religiosas - uma ode a Portugal, a Camões e aos demais filhos da nação dispersos pelo mundo.
Para melhor se compreender a natureza e a profundidade simbólica desta efeméride, importa revisitar os marcos históricos referentes a esta data:
Em 1880, por ocasião do tricentenário da morte de Luís Vaz de Camões, foi proclamada como “Dia da Festa Nacional e de Grande Gala” pelo rei D. Luís I, com o propósito singular de celebrar a morte do poeta que outrora, e para sempre, colocou Portugal no mapa. Contudo, apenas a partir de 1929 passou a ser celebrada como feriado nacional.
Em 1944, sob o regime de António de Oliveira Salazar, a data foi renomeada como “Dia da Raça: a raça portuguesa ou os portugueses”, tendo como contexto a inauguração do Estádio Nacional do Jamor. Pretendia-se celebrar os Descobrimentos, a extensão colonial, as Forças Armadas e, no fundo, enaltecer o nacionalismo. O feriado sobreviveu assim a vários regimes políticos, sob a alçada do nobre simbolismo e identidade nacional que acarretava.
Com a revolta de abril e o advento da democracia, desde 1978 até à data que o 10 de junho se designa “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. A data visa, atualmente, enaltecer autores da língua portuguesa que continuam a fazer chegar a História, Cultura e Língua portuguesas a todo o mundo, sem abdicar do ambiente de júbilo partilhado entre o território nacional e a diáspora, entre demonstrações de evocação da pátria e da sua herança.
Surge, então, uma interrogação peculiar, mas inevitável: por que razão é um poeta a figura eleita como símbolo maior da nação? Quem era afinal Luís Vaz de Camões e porque perdura no panteão da memória nacional, mesmo com as mudanças dos tempos e das vontades?
As primeiras descrições literárias de Camões apresentam-no como um homem “mancebo e pobre”. Embora oriundo de linhagem fidalga, alega-se, em bom português, que o gastava mal gasto numa vida boémia, entre prostitutas e rixas, que eventualmente lhe custaram uma estadia humilde na cadeia do Tronco. Todavia, porque os valores cristãos andam sempre de mãos dadas com o Estado de Direito, o que na época se traduziria pela abençoada família real, Camões mereceu o perdão de D. João III e, com ele, uma segunda oportunidade.
Graças a este ato de indulgência régia, podemos hoje constatar a dualidade do Eu de Camões: ora o real bon vivant das tabernas, ora o lírico génio dos poemas que bebiam de Petrarca, Homero, Virgílio, Dante, entre outros dos seus pares eruditos.
Se for sonho para alguns dos nossos leitores ter conhecido Luís de Camões, sugiro que idealizem um jovem de Cascais que frequenta a Universidade Católica Portuguesa e cujo único objetivo de vida é ser alguém além das suas quatro paredes de casa. Pasmem-se: mesmo para um beto privilegiado se aplica o mote “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
E assim foi. Porque a alma de Camões de pequena tinha pouco: em apenas 8 anos após a publicação e oferta d´Os Lusíadas ao rei D. Sebastião, e num período em que as famas cresciam à velocidade de carruagens, o poeta conheceu o seu ano da libertação da Lei da Morte (1580) - com a morte, alcançou o perpétuo sonho de jamais ser esquecido pelos portugueses de então, dos que estariam por vir e do restante Mundo.
Importa, no entanto, refletir que o valor de qualquer obra é, até certo ponto, ditado pelos cânones e sensibilidades da época em que é lida. Não obstante o impacto profundo das obras de Camões ao longo dos séculos subsequentes que partilhavam ideais e pensamentos semelhantes, convenhamos que, atualmente, as mesmas não teriam tamanha valorização. Na verdade, já a partir de meados do século XIX, Portugal redirecionava o púlpito para o romantismo e realismo, com figuras como Eça de Queirós, inaugurando um novo paradigma literário, menos tributário da tradição clássica.
Assim, à luz dos critérios de cada época, viu-se em 1988 a necessidade de instituir o Prémio Camões, que visa atribuir o reconhecimento devido a um autor de língua portuguesa pelo seu contributo para o Património Literário Português. Poder-se-á entender esta homenagem como uma tentativa de reparação histórica pela ausência em igual medida de reconhecimento em vida do seu primeiro grande poeta. Por outro lado, este ato de meritocracia poderá ser visto como uma correta valorização monetária da literatura na sua expressão lusófona em Portugal, no Brasil e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
Retomando a questão que nos trouxe aqui - e porque o leitor deverá estar com pressa para festejar o dia à moda do aclamado bon vivant - resta afirmar que, da mesma forma que Luís Vaz de Camões jamais será esquecido, também o Zé da esquina pode aspirar à imortalidade. Afinal, escreva-se sobre a nação-mãe, glórias, infortúnios, Jesus Cristo, paixões, tragédias ou artigos do Fusão, a palavra é como risco em pedra - perdura e dura.
Referências:
Matozzi M. Representações da emigração no dia 10 de Junho: dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Dois textos e uma pergunta. 2016
https://cabodostrabalhos.ces.uc.pt/n12/documentos/14_MartinaMatozzi_REV.pdf
de Junho A a. I da RFP um DQDAM e. C a. P de E um D do AQR as SFT e. MLEPFM o. 10, de Abril de em H de CD o. EN e. A ao 25, da guerra colonial. A Segunda República não se revê neste feriado pelo que em M das V, de Portugal o. C em D, Portuguesas. de C e. das. 10 de Junho: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas [Internet]. Gov.pt.
https://antt.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/17/2008/10/2011-06-Dia-de-Portugal.pdf
Soares MG. O feriado do 10 de junho faz hoje 110 anos. Esta é a sua história. Expresso [Internet]. 10 de junho de 2021


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