Corria o mês de maio de 1968 em França. O país estava transformado por uma cascata de eventos, desde protestos em massa a guerrilhas de rua. Não era uma revolução política como as suas precedentes; era uma revolução cultural, que tinha partido do ventre da nova sociedade, na sua vontade instintiva de mudar o mundo que se erguia à sua frente - os estudantes.
Foi preciso pouco - mas soube a muito - para que o país parasse e escutasse, como se tivesse havido um entendimento universal de que aquilo não ia passar em branco; de que era preciso respirar fundo. Com o intelecto, a alma e a paixão que só há num estudante, assim se fez a revolução.
O movimento tocou todos os pontos cruciais: dos colarinhos azuis aos professores catedráticos, passando pelas mulheres, imigrantes e comunidade queer, todos tiveram a oportunidade de revogar os seus direitos. Pela primeira vez, aqueles a quem faltava voz tinham o seu próprio púlpito - e assim, a França teve o seu mote de entrada na sociedade moderna.
Por todo o país, as universidades fecharam, ocupadas pelos estudantes e, muitas vezes, pelos seus professores. Nas maiores cidades, os trabalhadores juntaram-se aos intelectuais na rua para se fazer ouvir. Entre barricadas e confrontos com a polícia, permaneceram inabaláveis. As noites eram intensas, com protestos violentos, carros em chamas e montras de lojas partidas, e os intervenientes eram frequentemente hospitalizados. Quando raiava o dia, o caos dava lugar à calmaria, e a população juntava-se para debater os eventos mais recentes. Havia no ar uma liberdade inomidada: sentia-se; estava em cada gesto e em cada palavra proferida.
Ao mesmo tempo, nas fábricas, os funcionários acampavam no exterior, recusando-se a arredar pé. Por volta da terceira semana de maio, cerca de 11 milhões de franceses estavam em greve. Não havia gasolina; os comboios não andavam, nem o metro de Paris.
A certa altura, o presidente Charles de Gaulle cedeu. Era o dia 27 de maio de 1968. O governo e os sindicatos estabeleceram um acordo, garantindo levantar o peso da hierarquia e formalidade excessivas, tão impressas nas raízes da sua cultura. E o país nunca mais foi o mesmo.
O movimento estudantil de 1968 e os anos que se seguiram transcenderam a fronteira francesa, atingindo diversos grupos, nomeadamente na Europa. Em Portugal, erigiram as bases para muitas das conquistas sociais do pós-25 de abril, durante o período de "normalização" da vida portuguesa.
Hoje, a herança de maio ainda é um debate aceso. Uns afirmam que se perdeu no tempo, que se apagou da memória do povo. Há quem ouse dizer que os franceses tiraram daí o seu espírito revolucionário exacerbado, - infantil, até - que os levou a uma espiral de descredibilização. O “Pedro e o Lobo” da Europa Ocidental. Mas é com os seus erros ingénuos que hoje aprendemos a revoltarmo-nos com pés e cabeça.
Também há quem defenda que não há herança, porque a revolução nunca acabou. Deixou apenas de ser tão ruidosa, tão opulenta. Mas permanece entre nós, vai divergindo pelos recantos da sociedade. À espera de quem a convoque para a batalha.
No fim do dia, antes de qualquer outra, fica a certeza de que o poder de um universitário vai muito para além do que se pode imaginar. Num meio aberto a tantas oportunidades, há pouca gente com o interesse social e político de um estudante. Temos uma necessidade quase primitiva de agir, de pertencer e de ter significado. Temos uma vontade de mudar e de evoluir dentro de nós, que fica retida aqui, nestes anos de universidade. E é nela que devemos investir.
Carolina Troia
Referências:
Universidade de Évora, Maio de ’68 e os Portugueses – Colóquio. 2018 https://plataforma9.com/congressos/maio-de-68-e-os-portugueses-coloquio-na-universidade-de-evora.htm
Rubin, A J, May 1968: A Month of Revolution Pushed France Into the Modern World. The New York Times. 2018. https://www.nytimes.com/2018/05/05/world/europe/france-may-1968-revolution.html
Beardsley, E, In France, The Protests Of May 1968 Reverberate Today — And Still Divide The French. NPR. 2018. https://www.npr.org/sections/parallels/2018/05/29/613671633/in-france-the-protests-of-may-1968-reverberate-today-and-still-divide-the-french
Poirier, A, May ’68: What Legacy?. The Paris Review. 2018 https://www.theparisreview.org/blog/2018/05/01/may-68-what-legacy/
Ferreira, M I, A participação cívica e política dos estudantes do Ensino Superior - Influência da experiência académica e da memória dos movimentos estudantis. Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 2021. https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/139124/3/524701.pdf


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