Sendo, para muitos, o highlight de dezembro, o Natal é uma festividade cristã que traz consigo uma coleção de tradições e costumes, alguns mais globais, outros mais caricatos.
Mas, acima de tudo, o Natal é um momento de reunião. Aquela altura de arrumar as malas, encher o carro até o condutor perder a visão para trás, e ir até à aldeia dos avós. De rever os primos e os tios de França, que vemos duas vezes por ano. De pôr a conversa em dia e de recontar aquelas histórias que já ouvimos tantas vezes que já as sabemos de cor, mas que ganham um novo brilho todos os anos, porque “quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto”.
Não há nada como sair à rua e ter o campo de visão invadido por pequenas luzes incandescentes, ver as avenidas cheias de pessoas enchouriçadas nos seus casacos mais quentinhos, crianças de gorros e luvas a puxarem os pais, pela mão, de uma montra para a outra, e a admirarem por detrás do vidro a abundância de brinquedos de todas as cores, tipos e feitios.
O espírito natalício persegue-nos já bem antes deste mês, como uma praga festiva de alegria imposta, quer queiramos, quer não. Mas então por que é que, cada vez mais, em vez do reverberar dos sinos da missa de domingo, ou do “descongelar” da Mariah Carey, ouvimos “Não sei porquê, mas este ano nem parece Natal. Não estou nada no mood natalício”?
Quando é que fazer a árvore de Natal deixou de ser uma oportunidade de passar um serão com a lareira acesa e em boa companhia passando a ser só mais um encargo desta época já carregada de obrigações, encaixado na lacuna mais conveniente de um calendário preenchidíssimo? Quando, finalmente, conseguimos chegar ao topo do pinheiro para pôr a estrela sem precisar de subir às cavalitas do pai? Porque é que o Natal passou a ser só “cá em casa”; porque é que deixou de vir toda a gente? E porque é que as rabanadas não são iguais às que a avó fazia?
Ceias duradouras, outrora repletas de enredos, gargalhadas, e até o ocasional debate aceso, hoje apresentam, maioritariamente, copiosos momentos de silêncio coletivo e observação conjunta de telas eletrónicas, esporadicamente interrompidas por comentários sobre “esta cena que me apareceu no TikTok”. E o clássico jogo de Bingo no dia de Natal, com cartões à troca de moedas pretas e cascas de noz a marcar o lugar, foi descomplicadamente substituído por partidas na Playstation. Naturalmente, com tantos streaming services diferentes ao nosso dispor, não há razão para ver o “Sozinho em Casa” outra vez, nem para correr para a casa de banho mal comece o intervalo, para conseguirmos estar de volta antes que o filme recomece, nem que seja em nome da tradição.
Nenhuma outra visão se compara à paisagem de uma montanha de caixinhas debaixo da árvore, cada embrulho mais colorido e elaborado que o outro, e, por muito aesthetic que o papel de embrulho verde-musgo que a tia comprou seja, o eleito será sempre o da Popota ou da Leopoldina.
Juntamente com uma panóplia de luzinhas, grinaldas e bolas de todas as variedades, o pinheiro encontra-se digno de prémio e pronto para ser admirado todo o dia, todos os dias, durante este mês. Mas, especialmente, à noite, quando a casa já dorme, e não há obstáculos no caminho que nos impeçam de chocalhar aquelas pequenas caixinhas até termos a mínima ideia do que possa estar lá dentro. Exceto, talvez, o gato enfiado lá para o meio, entrelaçado nos fios, com pequenos buracos negros em vez de olhos, a admirar as luzes.
Impossível, também, não revelar o maior dilema do mundo: escolher qual a música certa para o inevitável concerto que vamos fazer (featuring os primos), perante o qual toda a família aplaudirá veementemente, numa verdadeira ovação em pé. Ou pior ainda, ter de escolher qual dos nossos brinquedos novos vamos estrear porque a mãe não deixa abrir tudo de uma vez.
Mas está tudo bem, porque, hoje em dia, é rara a criança que quer uma boneca nova no Natal. É rara a pessoa que não recebe, pelo menos, um ou dois presentes que vai encostar num canto do armário e nunca mais pegar. E está tudo bem, porque dar prendas no Natal já há muito deixou de ser apenas um gesto, convertendo-se numa verdadeira competição materialista. E as listas para o Pai Natal, quando existem, resumem-se a tablets e moedas eletrónicas.
E, por falar em Pai Natal, quando é que deixámos, realmente, de acreditar nele? Quando vimos as sapatilhas azuis do avô por baixo do fato, quando ele supostamente estava lá fora a guardar o trenó? Ou quando escolhemos parar de acreditar, porque já éramos crescidos?
Será que deixar de ser criança inequivocamente significa deixar de viver o Natal? Será que não chega perdemos o resto da magia que a vida tem enquanto a vemos pelas nossas “lentes mais novas” - temos de perder, também, a única que é suposto durar a vida toda?
Cada vez mais, a sensação é que, se calhar, todos aqueles pedidos a cada estrelinha que passava para “crescer mais rápido” fizeram com que não aproveitássemos o que tínhamos quando o tínhamos. Mas, se calhar, a magia do Natal não está completamente perdida. Em cada fornada de bolachas escaldantes vindas do forno, em cada canção mal cantada, em família, em cada jogo de cartas que acaba em guerra, há esperança de que, se calhar, a magia do Natal esteja só escondida, atrás do consumismo e da estética de um Natal perfeito. E que, se calhar, cabe-nos apenas a nós reavê-la e torná-la nossa outra vez. Porque ser crescido também significa lutar pelo que é nosso, e tentar não custa.
É Natal, ninguém leva a mal.
Maria Ferreirinha
