Crocodilos voadores, cabeças de camelo coladas a frigoríficos, tubarões antropomórficos que caminham pela praia com sapatilhas NikeTM azuis… Se percebeste, parabéns! Fazes já parte do admirável mundo novo do brainrot italiano.
Para os que ainda não estão familiarizados, são estas as mascotes não-oficiais de um fenómeno que invade as redes sociais desde janeiro de 2025, composto por imagens e sons propositadamente absurdos e ridículos, que desafiam qualquer lógica tradicional.
As imagens representam monstros, quimeras, experiências. Há, logo neste ponto, uma ironia perversa: estas criaturas nascem de ferramentas de inteligência artificial que prometiam “beleza hiperrealista”, mas são deliberadamente torturadas até se tornarem aberrações. Os criadores não falham; escolhem a anti-estética como forma de resistência à perfeição artificial que domina as redes.
E enquanto no ecrã um dragão massivo (pun intended!) estende as suas asas de macarrão e cospe molho, a voz robótica apresenta-nos Cannelloni Dragoni, o dragão de massa que queima cidades com o seu bechamel infernal. Voa sobre Nápoles, cospe ricotta a ferver e coze os inimigos dentro do forno do destino. Não tem coração, apenas mozzarella fundida, massa e poder.
Tal como este, cada monstro é acompanhado por uma melodia personalizada, um leitmotiv que mistura palavras sem sentido. Aliás, o sucesso do brainrot deve-se, pelo menos em parte, ao facto de as pessoas reconhecerem os sons mas não compreenderem o seu significado. Ninguém pára para traduzir cada frase, deixando-se transportar pela aura de musicalidade que a língua italiana leva a ouvidos alheios. Talvez muitos admiradores estivessem bem menos entusiasmados se soubessem que o Tralalero Tralala grita “porco Dio e porco Allah” e que o Bombardino Crocodillo bombardeia crianças na Palestina. E é precisamente esta desconexão entre som e significado que permite a exportação do fenómeno: o que em Itália seria escândalo, na Indonésia é apenas fonética – como se a língua italiana, reduzida a puro significante, se tornasse a nova lingua franca do nonsense. O Tung Tung Sahur é apenas a ponta do iceberg; cada cultura adapta o fenómeno aos seus demónios locais, criando novas bestas que misturam folclore tradicional com absurdismo digital.
Esta apropriação não é passiva; é, antes, uma reinvenção frenética, devida à facilidade com que se modificam e difundem estes personagens fantásticos. Passa-se assim do simples meme ao world building, ao nascimento de uma espécie de mitologia, um épico que conta a origem de cada um dos personagens, com páginas wiki que percorrem a história e a génese dos encontros, das guerras, das fações, e das transformações. O Cannelloni Dragoni não cospe molho por acaso – há teorias inteiras dedicadas a explicar porque foi amaldiçoado pela feiticeira Parmesão.
Para quem olha de fora, poderá parecer que tudo isto é apenas um devaneio, uma febre delirante que contaminou o inconsciente coletivo. Procurar sentido em fenómenos extremos como o brainrot é uma empreitada geralmente destinada ao fracasso. E, no entanto, é precisamente a repetição de imagens grotescas, a vulgaridade gratuita e as montagens decadentes que criam uma nova forma de comunidade. A identificação com estes personagens nasce da sua falta de moralidade, de qualidade, de nexo. São os anti-heróis perfeitos para uma geração que cresceu entre crises económicas, pandemias e inteligências artificiais psicóticas.
Neste ecossistema anárquico, até a própria ironia sofre mutação. Se os memes clássicos operavam em duplo sentido, aqui a ironia clássica morreu. O brainrot opera num registo pós-irónico – não há "piada" para desvendar, só um vórtice onde o sarcasmo se autodestrói: "porco Allah" não é blasfémia, nem paródia... é só um som. Não há segundo nível, nem significado oculto.
Talvez seja precisamente isso que nos atrai no brainrot, uma espécie de prenúncio de uma revolução que nos liberte dos fardos do raciocínio e da razão, porque é difícil pensar quando temos na cabeça uma voz mecânica que embala: tralalero tralala, tralalero tralala…
Alexandra Lourenço
