Ah, Carnaval… Uma das épocas mais felizes do ano! Para alguns, pode ser só mais uns dias no calendário, mas para mim, nunca foi indiferente. Adoro o Carnaval, adoro que seja mais uma desculpa para beber uns copos e ficar meia torta. E sabem que mais? Foi mais ou menos assim que o Carnaval nasceu.
Fui procurar saber um pouco mais, porque, afinal, o Carnaval nunca tem uma data fixa, está sempre a mudar e anda ali às voltas com a Páscoa e a Quaresma. Mas porquê? Pois bem, descobri que tem a ver com o cristianismo. A ideia surgiu da Igreja há séculos, porque a seguir vinha a Quaresma, um período de jejum, sacrifícios e restrições. Então, fazia sentido ter uns dias antes para extravasar tudo, fazer a festa, comer e beber à vontade, porque depois vinha a “seca”.
Mas não é só isso! Já na Idade Média o Carnaval era visto como um "mundo ao contrário", onde as regras e hierarquias eram viradas do avesso. Há histórias de prisioneiros que, durante cinco dias, eram tratados como reis… antes de serem executados. Que suplício, mas adiante. Atualmente, e felizmente, ninguém se veste de rei para acabar mal (ou pelo menos, espero que não). Mas essa ideia de assumirmos personagens continua viva: fantasiamo-nos e, por uns dias, somos o que quisermos ser.
A minha experiência, que não é propriamente vasta, já que se resume aos meus queridos Carnavais da Mealhada e da Covilhã, não me permite afirmar com toda a certeza que o Carnaval em Portugal é incrível…, mas tudo indica que é.
“É Carnaval, ninguém leva a mal”. Será que ninguém leva a mal? Porque, curiosamente, há quem adore ver matrafonas, mas torce o nariz a drag queens e kings. Afinal, a brincadeira tem limites para alguns: "é drag, alguém leva a mal".
Drag é a arte de personificar géneros, onde os artistas exageram na feminilidade ou na masculinidade, para entreter, mas também para se descobrirem. Para além de cantar, dançar e atuar, vão contra as normas sociais e as expectativas de género, explorando tudo o que é possível ser ou fazer, sem as limitações que a sociedade impõe.
E, embora o drag seja tratado muitas vezes só como uma piada em histórias sobre conflitos com a cultura hétero, vai muito além disso. Na verdade, desafia as normas sociais e identidades de género que conhecemos. E, claro, isso acaba por incomodar algumas pessoas, que preferem ridicularizar a expressão e, simplesmente, não a aceitam.
Há séculos que este universo tem histórias. Um exemplo é John Cooper, do século XVIII, que se vestia de Princesa Serafina e é considerado uma das primeiras drag queens na Inglaterra. Em 1880, organizou um baile drag em Manchester que foi invadido pela polícia, resultando na prisão e humilhação pública dos participantes. Imaginem só, no Carnaval de hoje, alguém ser preso por ir de matrafona, freira, bailarina ou qualquer outro disfarce… só o pensamento parece surreal.
Mesmo com toda a perseguição, a cultura drag seguiu em frente e foi crescendo. Não se sabe ao certo de onde vem o termo "drag", mas existe uma teoria que refere que os vestidos utilizados eram tão pesados que tinham de ser literalmente “dragged” (arrastados) pelo chão.
No século XIX, as drag queens eram vistas como o fim da masculinidade e o começo do apocalipse, como se perder a "força" de ser homem conduzisse, automaticamente, ao colapso de um Império. Nada berra mais “fim de uma civilização” do que um homem de vestido.
A história das drag queens e, principalmente, dos drag kings, mulheres que se vestem como homens, ainda é pouco conhecida, sobretudo porque foi muitas vezes censurada ao longo dos anos. A cultura drag king tem raízes que remontam ao ano de 1660, quando as mulheres começaram a atuar no teatro. Uma das pioneiras foi Aphra Behn, que criou personagens masculinas para falar de questões sociais e políticas. As mulheres não podiam ser ouvidas, portanto tinham de se disfarçar de homens para serem levadas a sério. E bem. Atualmente, a cultura drag king ainda é vista como um "roubo" do poder masculino e, claro, incomoda a sociedade patriarcal. Diz-se que, para algumas pessoas, o drag king é ainda mais perturbador, porque coloca as mulheres numa posição de poder. Quem diria que uma mulher vestida de homem poderia causar tamanha ansiedade?
Embora as drag queens de hoje vejam os bailes drag como o começo dessa arte, alguns acreditam que as suas raízes estão nas antigas tradições teatrais, onde os homens imitavam mulheres e vice-versa.
Muita coisa mudou até hoje, mas fica a pergunta: por que se aceitam disfarces no Carnaval e, quando se trata de uma drag queen ou um drag king, questiona-se? No Carnaval, as máscaras são temporárias, e o drag é uma expressão contínua de identidade ou arte. A sociedade adora dar regras sobre quem pode brincar com a identidade e como. No fundo, Carnaval e drag têm uma coisa em comum, ambos desafiam normas. A hipocrisia aparece quando celebramos um e condenamos o outro!
Que venha o Carnaval, com muita diversão e sem julgamentos! Divirtam-se, arrasem nos disfarces e sejam todos quem quiserem ser, hoje e sempre.
Inês Lima
