fevereiro 2025 - Fusão

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

De Matrafona a Drag Queen

fevereiro 27, 2025 0
De Matrafona a Drag Queen

           


Ah, Carnaval… Uma das épocas mais felizes do ano! Para alguns, pode ser só mais uns dias no calendário, mas para mim, nunca foi indiferente. Adoro o Carnaval, adoro que seja mais uma desculpa para beber uns copos e ficar meia torta. E sabem que mais? Foi mais ou menos assim que o Carnaval nasceu.

Fui procurar saber um pouco mais, porque, afinal, o Carnaval nunca tem uma data fixa, está sempre a mudar e anda ali às voltas com a Páscoa e a Quaresma. Mas porquê? Pois bem, descobri que tem a ver com o cristianismo. A ideia surgiu da Igreja há séculos, porque a seguir vinha a Quaresma, um período de jejum, sacrifícios e restrições. Então, fazia sentido ter uns dias antes para extravasar tudo, fazer a festa, comer e beber à vontade, porque depois vinha a “seca”.

Mas não é só isso! Já na Idade Média o Carnaval era visto como um "mundo ao contrário", onde as regras e hierarquias eram viradas do avesso. Há histórias de prisioneiros que, durante cinco dias, eram tratados como reis… antes de serem executados. Que suplício, mas adiante. Atualmente, e felizmente, ninguém se veste de rei para acabar mal (ou pelo menos, espero que não). Mas essa ideia de assumirmos personagens continua viva: fantasiamo-nos e, por uns dias, somos o que quisermos ser.

A minha experiência, que não é propriamente vasta, já que se resume aos meus queridos Carnavais da Mealhada e da Covilhã, não me permite afirmar com toda a certeza que o Carnaval em Portugal é incrível…, mas tudo indica que é.

“É Carnaval, ninguém leva a mal”. Será que ninguém leva a mal? Porque, curiosamente, há quem adore ver matrafonas, mas torce o nariz a drag queens e kings. Afinal, a brincadeira tem limites para alguns: "é drag, alguém leva a mal".

Drag é a arte de personificar géneros, onde os artistas exageram na feminilidade ou na masculinidade, para entreter, mas também para se descobrirem. Para além de cantar, dançar e atuar, vão contra as normas sociais e as expectativas de género, explorando tudo o que é possível ser ou fazer, sem as limitações que a sociedade impõe. 

E, embora o drag seja tratado muitas vezes só como uma piada em histórias sobre conflitos com a cultura hétero, vai muito além disso. Na verdade, desafia as normas sociais e identidades de género que conhecemos. E, claro, isso acaba por incomodar algumas pessoas, que preferem ridicularizar a expressão e, simplesmente, não a aceitam.

Há séculos que este universo tem histórias. Um exemplo é John Cooper, do século XVIII, que se vestia de Princesa Serafina e é considerado uma das primeiras drag queens na Inglaterra. Em 1880, organizou um baile drag em Manchester que foi invadido pela polícia, resultando na prisão e humilhação pública dos participantes. Imaginem só, no Carnaval de hoje, alguém ser preso por ir de matrafona, freira, bailarina ou qualquer outro disfarce… só o pensamento parece surreal. 

Mesmo com toda a perseguição, a cultura drag seguiu em frente e foi crescendo. Não se sabe ao certo de onde vem o termo "drag", mas existe uma teoria que refere que os vestidos utilizados eram tão pesados que tinham de ser literalmente “dragged” (arrastados) pelo chão.

No século XIX, as drag queens eram vistas como o fim da masculinidade e o começo do apocalipse, como se perder a "força" de ser homem conduzisse, automaticamente, ao colapso de um Império. Nada berra mais “fim de uma civilização” do que um homem de vestido.

A história das drag queens e, principalmente, dos drag kings, mulheres que se vestem como homens, ainda é pouco conhecida, sobretudo porque foi muitas vezes censurada ao longo dos anos. A cultura drag king tem raízes que remontam ao ano de 1660, quando as mulheres começaram a atuar no teatro. Uma das pioneiras foi Aphra Behn, que criou personagens masculinas para falar de questões sociais e políticas. As mulheres não podiam ser ouvidas, portanto tinham de se disfarçar de homens para serem levadas a sério. E bem. Atualmente, a cultura drag king ainda é vista como um "roubo" do poder masculino e, claro, incomoda a sociedade patriarcal. Diz-se que, para algumas pessoas, o drag king é ainda mais perturbador, porque coloca as mulheres numa posição de poder. Quem diria que uma mulher vestida de homem poderia causar tamanha ansiedade? 

Embora as drag queens de hoje vejam os bailes drag como o começo dessa arte, alguns acreditam que as suas raízes estão nas antigas tradições teatrais, onde os homens imitavam mulheres e vice-versa. 

Muita coisa mudou até hoje, mas fica a pergunta: por que se aceitam disfarces no Carnaval e, quando se trata de uma drag queen ou um drag king, questiona-se? No Carnaval, as máscaras são temporárias, e o drag é uma expressão contínua de identidade ou arte. A sociedade adora dar regras sobre quem pode brincar com a identidade e como. No fundo, Carnaval e drag têm uma coisa em comum, ambos desafiam normas. A hipocrisia aparece quando celebramos um e condenamos o outro!

Que venha o Carnaval, com muita diversão e sem julgamentos! Divirtam-se, arrasem nos disfarces e sejam todos quem quiserem ser, hoje e sempre.

Inês Lima


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

As "tradwives" das redes sociais: feminismo ou patriarcado?

fevereiro 20, 2025 0
As "tradwives" das redes sociais: feminismo ou patriarcado?


 Uma tradwife (traditional wife) é uma mulher que aceita os princípios tradicionais e vive segundo eles. Ou seja, cozinha para o marido e para os filhos, trata das limpezas, foca-se completamente nas necessidades da família, entre outros. No fundo, são donas de casa. Este movimento, cada vez mais popular no Instagram e no TikTok, levou a que surgisse um debate: qual a influência destas mulheres, que publicam a sua vida como sendo saída de um filme, nos utilizadores das redes sociais?

         O tipo de vídeos apresentados geralmente envolve uma mulher a preparar uma refeição, enquanto explica que os ingredientes são diretamente obtidos da sua horta, completamente naturais e sem quaisquer produtos químicos. Depois, anuncia que o seu marido ou que os seus filhos quiseram que ela lhes preparasse a refeição em questão. Normalmente fazem o seu próprio pão, a sua própria manteiga, entre outros.

      Quando começa o debate sobre a relação tradwives-feminismo é que as coisas se começam a tornar complicadas. Muitas feministas afirmam que seguir este tipo de vida se trata da escolha de uma mulher, pelo que não devemos julgar esta opção. Outras afirmam que está a tornar-se num movimento que acabará por prejudicar as mulheres, por reforçar estereótipos que ainda hoje se tentam abolir, demonstrando que o tipo de vida ideal é aquele em que uma carreira não é algo de importante na vida de uma mulher e que a sua função é moldada à volta do marido e filhos.

Ao apresentarem de forma tão perfeita este tipo de vida, muitos jovens são expostos a padrões familiares diferentes dos que estão habituados. No fundo, pode tratar-se de um incentivo para que os rapazes vejam o papel que a sua futura esposa possa ter, e pode ser aliciante para as raparigas verem uma mulher que não tem qualquer preocupação com a vida profissional. No entanto, é importante lembrar que, nestes casos, ela está completamente dependente do homem a nível financeiro. É fácil esquecermo-nos das subtilezas de algo quando nos aparece num ecrã com uma forma tão satisfatória. Em certos casos, estas mulheres não acedem a qualquer tipo de informação e, se votarem, as suas opiniões baseiam-se geralmente nas que os seus maridos impõem. Tal como qualquer outro tipo de estrutura familiar, não nos podemos esquecer que, geralmente, a sua apresentação nas redes sociais não é a verdadeira, mas sim uma imagem ideal baseada apenas nos seus aspetos socialmente desejáveis.

O extremo deste movimento ocorre quando, para além do papel tradicional, também se regride a nível tecnológico, científico e cultural. Desde mães que expõem dezenas de filhos na internet (com todos os perigos que daí advêm) e orgulhosamente afirmam que nenhum deles é vacinado, até mães que rejeitam usar, por exemplo, leite pausterizado. Enquanto médicos, vamos encontrar, assim, famílias que rejeitam a medicina moderna, pelo que é importante encontrarmos a origem destes pontos de vista. É importante compreendermos se uma jovem se sente feliz com este tipo de papel, se os seus filhos estão em risco, entre outros aspetos, e decidirmos enquanto sociedade se é necessário agir para que os mais novos não sejam facilmente impressionáveis por este tipo de conteúdo.

Concluindo, as redes sociais são um lugar onde há espaço para todo o tipo de opiniões, mas maioritariamente para as mais extremas. Assim sendo, talvez seja importante pararmos um pouco para refletir antes de julgarmos ou apoiarmos totalmente este movimento. Cada caso é um caso, cada mulher é diferente. O sentimento de liberdade que advém deste estilo de vida para uma pode, para outra, significar opressão. No entanto, não nos podemos esquecer que o bem-estar físico e mental das mulheres e dos seus filhos deve vir, sempre, em primeiro lugar. 

Margarida Reis


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Para além da bola - Desporto em Portugal

fevereiro 12, 2025 0
Para além da bola - Desporto em Portugal



Não há nada melhor para um verdadeiro português que um grupo de amigos, na esplanada de um café, enquanto joga a seleção no canal 2 da televisão! E obviamente que não podia faltar a típica mini geladinha para hidratar a garganta e uns tremoços para entreter o estômago. 

 “... Passa por um, passa por dois, vai direto à baliza finta o guarda-redes e é …!” E nesse instante o gerente do café muda de canal, coloca no canal 2 onde a seleção feminina de andebol está a disputar a final do campeonato europeu de verão e toda a gente no café barafusta: “Muda para a bola, então?!” “Estás maluco?!” 

 Esta é a realidade do povo português, só vêem a bola à frente da cara! Há inúmeras modalidades desportivas e ninguém lhes passa cartucho nenhum. Eu percebia a loucura pelo futebol se Portugal só tivesse o Ronaldo a brilhar pelos países do mundo mas há tantos atletas portugueses a honrar o verde e o vermelho que que precisava de um dia completo para os nomear! 

 Custa-me crer que existem atletas e clubes desportivos que não têm dinheiro para participar em provas internacionais, tendo que fazer peditórios nas redes sociais ou vender bolinhos à frente da igreja da paróquia. Já não é a primeira, nem a segunda vez que treinadores e os próprios atletas se dirigem à comunicação social a reivindicar esta falta de apoio tanto monetário como afetuoso. É triste, mas esta é a realidade: se o atleta não estiver num dos 3 grandes clubes ou se não tiver poder económico, acaba por ficar em terra e não realizar o tão grandioso sonho de representar a bandeira portuguesa a nível internacional. Enquanto isso há jogador de futebol que num minuto ganham mais dinheiro que um trabalhador ganha num mês. 

 Para concluir não custa nada estarmos mais atentos às outras modalidades como por exemplo natação, remo, atletismo e sempre que podermos ajudarmos as pequenas equipas da terrinha e apoiá-los.

 Um caso bastante icónico e que certamente poucas pessoas têm conhecimento aconteceu em novembro do ano passado. Um grupo de dança de Coimbra, composto por jovens do sexo feminino sagrou-se campeão mundial no concurso “All dance international” que teve lugar em Orlando, nos EUA. Um feito inédito e que elevou mais uma vez a bandeira nacional! 

Com isto, há que concluir que existe todo um mundo “para além da bola”


Filipe Gaspar