As "tradwives" das redes sociais: feminismo ou patriarcado? - Fusão

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

As "tradwives" das redes sociais: feminismo ou patriarcado?


 Uma tradwife (traditional wife) é uma mulher que aceita os princípios tradicionais e vive segundo eles. Ou seja, cozinha para o marido e para os filhos, trata das limpezas, foca-se completamente nas necessidades da família, entre outros. No fundo, são donas de casa. Este movimento, cada vez mais popular no Instagram e no TikTok, levou a que surgisse um debate: qual a influência destas mulheres, que publicam a sua vida como sendo saída de um filme, nos utilizadores das redes sociais?

         O tipo de vídeos apresentados geralmente envolve uma mulher a preparar uma refeição, enquanto explica que os ingredientes são diretamente obtidos da sua horta, completamente naturais e sem quaisquer produtos químicos. Depois, anuncia que o seu marido ou que os seus filhos quiseram que ela lhes preparasse a refeição em questão. Normalmente fazem o seu próprio pão, a sua própria manteiga, entre outros.

      Quando começa o debate sobre a relação tradwives-feminismo é que as coisas se começam a tornar complicadas. Muitas feministas afirmam que seguir este tipo de vida se trata da escolha de uma mulher, pelo que não devemos julgar esta opção. Outras afirmam que está a tornar-se num movimento que acabará por prejudicar as mulheres, por reforçar estereótipos que ainda hoje se tentam abolir, demonstrando que o tipo de vida ideal é aquele em que uma carreira não é algo de importante na vida de uma mulher e que a sua função é moldada à volta do marido e filhos.

Ao apresentarem de forma tão perfeita este tipo de vida, muitos jovens são expostos a padrões familiares diferentes dos que estão habituados. No fundo, pode tratar-se de um incentivo para que os rapazes vejam o papel que a sua futura esposa possa ter, e pode ser aliciante para as raparigas verem uma mulher que não tem qualquer preocupação com a vida profissional. No entanto, é importante lembrar que, nestes casos, ela está completamente dependente do homem a nível financeiro. É fácil esquecermo-nos das subtilezas de algo quando nos aparece num ecrã com uma forma tão satisfatória. Em certos casos, estas mulheres não acedem a qualquer tipo de informação e, se votarem, as suas opiniões baseiam-se geralmente nas que os seus maridos impõem. Tal como qualquer outro tipo de estrutura familiar, não nos podemos esquecer que, geralmente, a sua apresentação nas redes sociais não é a verdadeira, mas sim uma imagem ideal baseada apenas nos seus aspetos socialmente desejáveis.

O extremo deste movimento ocorre quando, para além do papel tradicional, também se regride a nível tecnológico, científico e cultural. Desde mães que expõem dezenas de filhos na internet (com todos os perigos que daí advêm) e orgulhosamente afirmam que nenhum deles é vacinado, até mães que rejeitam usar, por exemplo, leite pausterizado. Enquanto médicos, vamos encontrar, assim, famílias que rejeitam a medicina moderna, pelo que é importante encontrarmos a origem destes pontos de vista. É importante compreendermos se uma jovem se sente feliz com este tipo de papel, se os seus filhos estão em risco, entre outros aspetos, e decidirmos enquanto sociedade se é necessário agir para que os mais novos não sejam facilmente impressionáveis por este tipo de conteúdo.

Concluindo, as redes sociais são um lugar onde há espaço para todo o tipo de opiniões, mas maioritariamente para as mais extremas. Assim sendo, talvez seja importante pararmos um pouco para refletir antes de julgarmos ou apoiarmos totalmente este movimento. Cada caso é um caso, cada mulher é diferente. O sentimento de liberdade que advém deste estilo de vida para uma pode, para outra, significar opressão. No entanto, não nos podemos esquecer que o bem-estar físico e mental das mulheres e dos seus filhos deve vir, sempre, em primeiro lugar. 

Margarida Reis


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