Uma guitarra, esta primeira elétrica, a outra, portuguesa - o eterno símbolo do fado e de uma nação à beira-mar plantada. Um trompete, cuja surdina não deixa calar a voz que canta. Uma bateria e um baixo, a marcar um passo que não é dado, nem tão pouco corrido – é sim dançado ao som do novo álbum dos Expresso Transatlântico, formação musical de Gaspar e Sebastião Varela, e de Rafael Matos – “Ressaca bailada”.
Sem saudosismo implícito a uma pátria remota, - porque mudam-se tempos, mudam-se mentalidades - a língua portuguesa tem a particularidade da multiplicidade de sinais, da infinidade das possibilidades.
O primeiro significado que nos ocorre quando ouvimos a palavra ressaca, recai maioritariamente no que sentimos depois de uma noite mal dormida, ora passada às voltas na cama a contar carneirinhos saltitando nalgum lugar pela Serra de Estrela, ou então fora de casa pelas ruas e vielas depois de alguns copos trocados por conversas na nossa cidade da Covilhã. No entanto, a palavra ressaca, segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa¹, tem como primeiro significado o “movimento violento das ondas sobre si mesmas, quando vão de encontro a um obstáculo”, o “refluxo das vagas”, “fluxo e refluxo”, uma “inconstância” e “volubilidade”, “movimento da multidão em vários sentidos”, e, finalmente, um “enfado ou cansaço causado por uma noite passada em claro ou embriaguez”.
Há ainda uma alusão a um “regresso ao primitivo estado”, seja este um estado de caos e confusão de uma incerteza e desunificação humanas, ou a um estado de paz e integridade de um “porto formado pela preia-mar”. Se a escolha foi propositada, não o sabemos. Mas a etimologia da palavra não poderia ser mais apropriada para descrever o álbum “Ressaca bailada”, álbum primeiro do Expresso, “um baile consciente do futuro”, como os próprios se referem em entrevista ao Jornal de Letras.
O mar e a cidade de Lisboa têm um papel central na confluência musical da banda, que surgiu entre oceanos, numa viagem transatlântica entre Lisboa e os Estados Unidos da América, durante a digressão de Gaspar Varela com Madonna. Ao ouvirmos as “malhas”, vemos cores, padrões, vemos o sol e mar.
Sobretudo, vemos possibilidades. A sua música é uma exaltação a uma beleza que sobressai à pobreza, à descaracterização do centro histórico da cidade – à partida das suas gentes pela impossibilidade de pagar rendas pecaminosas, aos despejos, como acontece um pouco por todo o país. Será este o preço de uma liberdade outrora conquistada? Neste aspeto, poder-se-á dizer que afinal, Portugal não é só Lisboa, e que o resto, não é só paisagem.
Mas talvez haja um pouco de Lisboa por aí. A roupa estendida nas cordas dos varais, bailando ao sol e na brisa do final de tarde. A melancolia deixada por uma noite em branco, numa tasca ou num bar qualquer. A solidão de um quarto alugado, de um cigarro aceso, na tentativa de não se contarem as horas, que tanto teimam em passar. Na torrada tomada à pressa da manhã seguinte, na correria para o trabalho. Na bica tomada ao almoço, no café da esquina.
“Ressaca bailada” é uma cantiga à tentativa-erro, à famosa roleta da rotina, a uma culpa, a uma crença: “Já que eu não durmo nada e não, /a tentar saber onde a sorte se esconde”, “Quando nós voamos/Antes de jurar que era forte/ E que nunca ia virar a barquinha”. Esta foi uma das muitas “malhas” apresentadas pelos Expresso, esta, em colaboração com o cantautor de “Telemóveis” e de “Adoro Bolos” – Conan Osíris a dar a voz a esta “Barquinha”.
Do mesmo álbum, foram apresentados temas como “Beco da malha” e o tema que dá o nome e faz jus ao disco. E, “Porque nada tem um fim”, “Gangster” fez-se ecoar na imensa sala do Teatro Municipal, música dedicada ao eterno Pedro Gonçalves, da banda Dead Combo. Ao chegarmos a “Bombália”, é aqui pedida ao público uma dança. Nestes momentos, tão intrínseca é a relação público-artista – um não pode existir sem o outro. A sala torna-se um pequeno universo de palmas, sorrisos, cantigas entoadas, pensamentos mais ou menos triviais.
Mais outras “malhas” nos são prometidas na cidade lã. É (re)visitado o primeiro EP dos Expresso, com temas como “Alfama, Texas”, ou “Primeira Rodada”. Ao escutarmos, vemos o céu, esse, pintado de “Azul Celeste”.
E “Ressaca bailada” é exatamente um amanhecer, um novo acordar. O tradicional a encontrar a translocação das décadas, as melodias primordiais do folclore a encontrar o rock e o indie português. Um hino à liberdade, à identidade. Um estilo fora do convencional, fora de padrões. Uma rutura com o que achamos ser o dissonante e o consonante.
Surge então um solo inesperado. Um palco só. A luz a incidir sobre o pequeno banco, desses das casas de fado, dos cantinhos dos artistas. Gaspar entra a passo decidido. Para quê evitar o que sabemos ser inevitável? A música é inevitável. O silêncio. A mudança das estações. A robustez de uma cidade quase adormecida, que aos poucos lá vai saindo à rua na noite de S.Pedro, na despedida do mês que consigo trouxe as danças, as marchas, as canções de verão. As suas mãos tocam uma guitarra, os acordes ecoam e sobressaem-se na duplicidade das suas cordas, mas, na verdade, abraçam o mundo, na aceitação do autêntico, do genuíno, do real.
José Pedro Machado in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Volume V, Edições Alfa, Sociedade da Língua Portuguesa, Lisboa, 1991
Autora: Alice M. Pereira
