julho 2024 - Fusão

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Hora do Fusão – Expresso transatlântico no TMC

julho 26, 2024 1
Hora do Fusão – Expresso transatlântico no TMC

 


Uma guitarra, esta primeira elétrica, a outra, portuguesa - o eterno símbolo do fado e de uma nação à beira-mar plantada. Um trompete, cuja surdina não deixa calar a voz que canta. Uma bateria e um baixo, a marcar um passo que não é dado, nem tão pouco corrido – é sim dançado ao som do novo álbum dos Expresso Transatlântico, formação musical de Gaspar e Sebastião Varela, e de Rafael Matos – “Ressaca bailada”. 

Sem saudosismo implícito a uma pátria remota, - porque mudam-se tempos, mudam-se mentalidades - a língua portuguesa tem a particularidade da multiplicidade de sinais, da infinidade das possibilidades. 

O primeiro significado que nos ocorre quando ouvimos a palavra ressaca, recai maioritariamente no que sentimos depois de uma noite mal dormida, ora passada às voltas na cama a contar carneirinhos saltitando nalgum lugar pela Serra de Estrela, ou então fora de casa pelas ruas e vielas depois de alguns copos trocados por conversas na nossa cidade da Covilhã.  No entanto, a palavra ressaca, segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa¹, tem como primeiro significado o “movimento violento das ondas sobre si mesmas, quando vão de encontro a um obstáculo”, o “refluxo das vagas”, “fluxo e refluxo”, uma “inconstância” e “volubilidade”, “movimento da multidão em vários sentidos”, e, finalmente, um “enfado ou cansaço causado por uma noite passada em claro ou embriaguez”. 

Há ainda uma alusão a um “regresso ao primitivo estado”, seja este um estado de caos e confusão de uma incerteza e desunificação humanas, ou a um estado de paz e integridade de um “porto formado pela preia-mar”. Se a escolha foi propositada, não o sabemos. Mas a etimologia da palavra não poderia ser mais apropriada para descrever o álbum “Ressaca bailada”, álbum primeiro do Expresso, “um baile consciente do futuro”, como os próprios se referem em entrevista ao Jornal de Letras. 

O mar e a cidade de Lisboa têm um papel central na confluência musical da banda, que surgiu entre oceanos, numa viagem transatlântica entre Lisboa e os Estados Unidos da América, durante a digressão de Gaspar Varela com Madonna.  Ao ouvirmos as “malhas”, vemos cores, padrões, vemos o sol e mar. 

Sobretudo, vemos possibilidades. A sua música é uma exaltação a uma beleza que sobressai à pobreza, à descaracterização do centro histórico da cidade – à partida das suas gentes pela impossibilidade de pagar rendas pecaminosas, aos despejos, como acontece um pouco por todo o país. Será este o preço de uma liberdade outrora conquistada? Neste aspeto, poder-se-á  dizer que afinal, Portugal não é só Lisboa, e que o resto, não é só paisagem. 

Mas talvez haja um pouco de Lisboa por aí. A roupa estendida nas cordas dos varais, bailando ao sol e na brisa do final de tarde. A melancolia deixada por uma noite em branco, numa tasca ou num bar qualquer. A solidão de um quarto alugado, de um cigarro aceso, na tentativa de não se contarem as horas, que tanto teimam em passar. Na torrada tomada à pressa da manhã seguinte, na correria para o trabalho. Na bica tomada ao almoço, no café da esquina. 

“Ressaca bailada” é uma cantiga à tentativa-erro, à famosa roleta da rotina, a uma culpa, a uma crença: “Já que eu não durmo nada e não, /a tentar saber onde a sorte se esconde”, “Quando nós voamos/Antes de jurar que era forte/ E que nunca ia virar a barquinha”. Esta foi uma das muitas “malhas” apresentadas pelos Expresso, esta, em colaboração com o cantautor de “Telemóveis” e de “Adoro Bolos” – Conan Osíris a dar a voz a esta “Barquinha”. 

Do mesmo álbum, foram apresentados temas como “Beco da malha” e o tema que dá o nome e faz jus ao disco. E, “Porque nada tem um fim”, “Gangster” fez-se ecoar na imensa sala do Teatro Municipal, música dedicada ao eterno Pedro Gonçalves, da banda Dead Combo. Ao chegarmos a “Bombália”, é aqui pedida ao público uma dança. Nestes momentos, tão intrínseca é a relação público-artista – um não pode existir sem o outro. A sala torna-se um pequeno universo de palmas, sorrisos, cantigas entoadas, pensamentos mais ou menos triviais. 

Mais outras “malhas” nos são prometidas na cidade lã. É (re)visitado o primeiro EP dos Expresso, com temas como “Alfama, Texas”, ou “Primeira Rodada”. Ao escutarmos, vemos o céu, esse, pintado de “Azul Celeste”. 

E “Ressaca bailada”  é exatamente um amanhecer, um novo acordar. O tradicional a encontrar a translocação das décadas, as melodias primordiais do folclore a encontrar o rock e o indie português. Um hino à liberdade, à identidade. Um estilo fora do convencional, fora de padrões. Uma rutura com o que achamos ser o dissonante e o consonante. 

Surge então um solo inesperado. Um palco só. A luz a incidir sobre o pequeno banco, desses das casas de fado, dos cantinhos dos artistas. Gaspar entra a passo decidido. Para quê evitar o que sabemos ser inevitável? A música é inevitável. O silêncio. A mudança das estações.  A robustez de uma cidade quase adormecida, que aos poucos lá vai saindo à rua na noite de S.Pedro, na despedida do mês que consigo trouxe as danças, as marchas, as canções de verão. As suas mãos tocam uma guitarra, os acordes ecoam e sobressaem-se na duplicidade das suas cordas, mas, na verdade, abraçam o mundo, na aceitação do autêntico, do genuíno, do real. 


  1.  José Pedro Machado in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Volume V, Edições Alfa, Sociedade da Língua Portuguesa, Lisboa, 1991


Autora: Alice M. Pereira

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Amor à Camisola - A cultura do futebol em Portugal

julho 19, 2024 0
 Amor à Camisola - A cultura do futebol em Portugal

 



Desde o último mês, até à derrota nos quartos de final, o país inteiro manteve o seu olhar atento sob o Euro 2024. Sabemos o que significa para tantos a possibilidade de vencer um torneio desta dimensão e influência, e a importância deste desporto na nossa identidade cultural. Continuamos a ser o país dos 3 Fs: Fado, Fátima e Futebol. 

Esta expressão, que surge do plano de António de Oliveira Salazar de alimentar a pacificação e a alienação da população é, ainda hoje, usada para caracterizar a falta de envolvimento popular nos assuntos da sociedade. Tendo debates eleitorais com um tempo de antena de 30 minutos, e debates futebolísticos com o dobro do tempo, no mínimo, não há dúvida de que as prioridades nacionais se mantêm tão atuais como as de há 50 anos. 

Hoje, centrando o foco neste último F, abordamos um pouco do “como” e do “porquê” de se manter um pilar inquestionável da cultura portuguesa. 


Para abordar o papel do futebol, precisamos do contexto em que este se introduziu na nossa cultura. O desporto, como atividade abrangente que é, constitui uma forma de transmissão de valores, opiniões, conhecimentos e normas que teve o seu destaque inicial nas transformações subsequentes da Revolução Industrial na Europa, entre os séculos XVIII e XIX. O aumento do tempo de lazer, combinado com a divulgação do desporto no meio operário, despoletou uma expansão mundial de popularidade como nenhum fenómeno social fez até então. E isto provém, nomeadamente, da estrutura tão bem conseguida com que se apresenta: uma ação social institucionalizada, sujeita a regras que se desenvolvem numa base lúdica com o objetivo da competição - dependente da habilidade e estratégia dos participantes.[1] É um paradigma quase infalível, porque apela a um dos instintos mais ancestrais do ser humano. E funciona. 

Já o futebol parece ser uma das subespécies de desporto mais bem conseguidas para a cultura portuguesa. E é irrefutável só por observação direta que se tenha tornado, e que se mantenha ainda, um fator de caracterização cultural tão grande no nosso país. 

Tendo demonstrado ser uma veículo de interação, partilhar preferências de clube e perspetivas semelhantes ajuda a criar laços interpessoais que se provam muito fortes - é um tópico de conversa transversal a quase todas as circunstâncias, e que, por norma, é de conhecimento geral. [2]


A verdade é que, apesar de grande parte das pessoas não terem um interesse ou conhecimento muito aprofundado sobre o jogo, é muito difícil ficar indiferente. Em alturas como a do Euro, algo que nos faça lembrar de onde somos, aonde sentimos que pertencemos - e que está a representar um papel a nível internacional - tem um impacto que vai além do futebol em si. Envolve todo o ritual do dia de jogo: a escolha do melhor local, a t-shirt da seleção que estava há 2 anos perdida no fundo da gaveta, uma desculpa para uns finos e, mais do que tudo, a companhia a que damos realmente valor. Porque o cerne da nossa interação social, como portugueses, é uma combinação muito simples e eficaz de pessoas, comida, bebida, e um bom tema de conversa que dure o resto da noite. E, nisto, mesmo quem reduz o futebol a uma futilidade sem interesse não pode discordar. Mas fica a sugestão de que fazer planos para assistir a um debate das legislativas tem quase o mesmo efeito, com o bónus da estimulação intelectual.


Não podemos prever se daqui a 50 anos vamos continuar a juntar-nos à frente de um ecrã em cada dia de jogo, ou se os interesses da nação estarão dispersos por outras formas mais evoluídas de lazer. Mas podemos constatar que, nos dias que correm, continua a haver pouca coisa que nos mobilize tanto como um grupo de homens de calções que correm atrás de uma bola.


Autora: Carolina Troia


1. Zaffalon Júnior, J, Freitas de Medeiros, F, Rocha Silva, J, O esporte como fenômeno social. EFDeportes.com, Revista Digital. 2012;172(17).  https://www.efdeportes.com/efd172/o-esporte-como-fenomeno-social.htm 


2. Gonçalves de Almeida Neves, A J, O Fenómeno do Futebol em Portugal - Estudo de caso. Universidade da Beira Interior. 2013. http://hdl.handle.net/10400.6/3512  


terça-feira, 16 de julho de 2024

Hormonas e metáforas

julho 16, 2024 0
Hormonas e metáforas


 Caríssimos leitores e prezados estudantes de medicina, 


Trago-vos ciência e uma dica para a vida. Presunçoso da minha parte, não? Aguentem e verão onde quero chegar. 

Século XXI, século da revolução digital, da globalização, de avanços brutais na saúde, aberta a época dos “comos” e “porquês”, o sistema neuroendócrino começou a ser estudado como nunca antes foi. Era o ano de 1993 quando Haddaway perguntou “What is love?”. Não sei se conseguiu a resposta que procurava, mas hoje estamos um bocadinho mais perto. 

Talvez… 

Cientistas de campos que vão da antropologia à neurociência têm feito essa mesma pergunta (embora de forma menos eloquente) há décadas. Acontece que a ciência por trás do amor, dos afetos é ao mesmo tempo mais simples e mais complexa do que poderíamos imaginar.

Não é preciso dizer que a base científica do amor é frequentemente sensacionalizada e, como na maioria das ciências, não sabemos o suficiente para tirar conclusões definitivas sobre cada peça do quebra-cabeça. O que sabemos, no entanto, é que grande parte do que sentimos pode ser explicado pela química. 

O  neuropeptídeo oxitocina, a título de exemplo, originalmente conhecido por estimular o parto e a ejeção do leite, parece desempenhar um papel importante. Pequena molécula que diminui a pressão arterial, reduz os níveis de cortisol, aumenta a resistência à dor, tem efeitos ansiolíticos e estimula interações sociais positivas. A oxitocina pode ser liberada por estímulos sensoriais não dolorosos, como toque, calor, ingestão de alimentos e possivelmente estímulos olfativos, sonoros e luminosos.(1) A oxitocina pode ser libertada através de um abraço. Citando uma colega nossa: “Estava numa livraria e reparei num casal com um livro cada um, e com a mão livre acariciavam as mãos um do outro”. Será este casal mais ou menos saudável por sentirem o toque um do outro, por libertarem oxitocina? Estudo interessante, se alguém precisar de tema para a tese.

Claro que a oxitocina é um exemplo de uma hormona numa piscina de hormonas que é o ser humano, uma ligação no meio de centenas, milhares de conexões, sinapses, um sistema perfeitamente equilibrado no seu desequilíbrio… Como vos fazer acreditar que o afeto é importante? Será que o amor no ser humano não é só atração e o desejo inconsciente de reprodução, de assegurar a espécie? Às vezes, na nossa pretensão de grandiosidade e espetacularidade, esquecemo-nos que somos pouco mais que animais racionais, condicionados pelo ambiente que nos rodeia. Luxúria, ou desejo, impulsionada por testosterona e estrogénio, atração resultado da dopamina e norepinefrina, apego, devido à oxitocina e vasopressina.(2) Somos nada mais que reações químicas complexas, que nos influenciam sem que nada possamos controlar. Com tudo o que de bom e mau daí advém. 

Pessoas que tiveram maior apoio paternal durante a infância tendem a ter uma saúde relativamente melhor ao longo da vida adulta, enquanto pessoas com apoio paternal inadequado enquanto cresciam, tendem a ter uma saúde pior na idade adulta, sugere um novo estudo envolvendo uma amostra nacionalmente representativa de quase 3.000 adultos. As descobertas são relatadas na edição de março da revista Psychology and Aging, publicada pela American Psychological Association (APA). (3) E este é apenas um dos milhares de exemplos que poderia dar para vos assegurar que o amor é então crucial a uma vida humana digna de ser sentida, vivida no total sentido e significado da palavra  viver. Mas porque é que se fala tanto de ciência relativamente a algo que deveria ser mais sentido que compreendido?

Amor, amigos, afeto, família, perguntamos-vos se o testemunham no dia a dia. “Disse a uma amiga que não podia comer glúten e ela foi comprar crepes com nutella sem glúten”, “Sempre que me vão buscar à paragem de autocarro ao domingo à noite”, “Vi uma rapariga a fotografar a irmã mais nova sem que ela se apercebesse”, “Ser um espectador no aeroporto, se tiverem atenção vão ver que há amor em todo o lado para onde olham”. 

No fundo, é muito mais fácil fazer do que perceber, sentir do que explicar. Já experimentaram passar um dia à procura de amor, de afeto? Será que o valorizamos, que somos gratos às pessoas que cuidam de nós? Hormonas à parte, lamechices não tanto, afinal, são os afetos que nos ancoram e que nos elevam, que, acima de tudo, nos lembram da beleza incontestável de sermos humanos e de que estamos, quer queiramos quer não, profundamente conectados uns aos outros.

Maria Monteiro


Uvnas-Moberg K, Petersson M. Oxytocin, ein Vermittler von Antistress, Wohlbefinden, sozialer Interaktion, Wachstum und Heilung [Oxytocin, a mediator of anti-stress, well-being, social interaction, growth and healing]. Z Psychosom Med Psychother. 2005;51(1):57-80. German. doi: 10.13109/zptm.2005.51.1.57. PMID: 15834840.

Marazziti, D., & Canale, D. (2004). "Hormonal changes when falling in love." Psychoneuroendocrinology, 29(7), 931-936.

APA Public Affairs Office. (2004, March 21). Less parental support is associated with adult depression and chronic health problems [Press release]. American Psychological Association. https://www.apa.org/news/press/releases/2004/03/parental-support


sexta-feira, 12 de julho de 2024

Óscares - o Gold-Standard

julho 12, 2024 0
Óscares - o Gold-Standard




          O verão avizinha-se e, com ele, encontramo-nos muitas vezes imersos num tédio que ora se resolve com praia e ar livre, ora com filmes e séries. E assim surge a derradeira pergunta com que todos (ou pelo menos quase todos) nós já fomos confrontados: “Podes sugerir-me um filme, por favor?”. E é aí que começamos a intelectualizar, a procurar nos confins da nossa mente, a tentar lembrar-nos de títulos de filmes de renome… De renome… Mas quem os renomeou? 


       Os prémios da Academia, ou, como os conhecemos, os Óscares, foram concebidos em 1927 (quase há 100 anos) e pretendem, de uma forma original e pioneira, celebrar a arte e a cultura cinematográfica. E a verdade é que, desde que me conheço, estes prémios têm um enorme papel na escolha de filmes naquelas tardes em que não há nada que estudar, até está mau tempo, mas mesmo assim nos queremos sentir estimulados e atentos. 


É óbvio que quando me perguntam se posso sugerir um filme, jamais recomendarei o  “Miúdos e Graúdos”. Afinal de contas, nunca foi nomeado para um óscar… 


A beleza do cinema é um campo de definições e interpretações que não me atrevo a tentar explicar. Tenho plena noção de que, enquanto mera espectadora, não dou a atenção devida ao filme como um todo, nomeadamente, figurinos, realização, efeitos visuais, edição de som, qualidade artística de produção, entre outros. No máximo, sei o nome dos atores e do realizador, mas nada mais. Não estou, de todo, treinada e apta para julgar um filme, daí dar extrema importância aos nomeados pelas pessoas capacitadas para o fazer. Para mim, são um indicador de referência de qualidade, porque sei que, à partida, os filmes terão, efetivamente, mais qualidade.


Um bom argumentista terá de criar uma narrativa suscetível de ser interpretada por um conjunto vasto de pessoas (elenco e realizador), logo, a partir do momento em que o filme é um sucesso, é imperativo premiar o indivíduo. Por outro lado, se um realizador consegue transformar uma história que, à partida, seria banal, sem corpo e alma, numa verdadeira obra prima, é necessário o reconhecimento. E como é óbvio, um bom ator ou uma boa atriz, que dê o seu cunho pessoal a uma certa personagem e a interprete de forma exímia, deve também ser premiada. No fundo, no mundo do cinema tudo está conectado: os figurinos que conseguem, tão subitamente, mudar a perceção acerca de uma personagem, os efeitos especiais que permitem criar um cenário idílico, a música e som associados a cada cena. É um espetáculo bem orquestrado que resulta de um trabalho de equipa bem conseguido


Até que ponto estas escolhas influenciam o crescimento pessoal e profissional de cada um? Na minha opinião, da mesma forma que uma tartaruga aprende a caminhar sozinha. Ao sermos expostos a uma diversidade cultural cinematográfica, podemos criar o nosso próprio estilo, fazer escolhas mais arriscadas, experimentar coisas novas. Mas não esquecer que partimos, inicial e inevitavelmente, dos gostos dos outros que, por sua vez, também partiram dos gostos de outros. É uma cadeia de boca-a-boca, mensagem-a-mensagem que, ao longo do tempo, e consoante as novas modas, se muda e transforma numa coisa diferente. Essa é a grande importância de academias como os Óscares, que não só estão em permanente atualização, mas também informam o espetador dos novos projetos do cinema de Hollywood ou cinema de nicho. 


Por isso, este verão, quando se sentirem aborrecidos, consultem a página dos Óscares (https://www.oscars.org/oscars), naveguem pelo mundo dos filmes por descobrir e, quem sabe, vejam. Ou não. Podem sempre escolher ver “Miúdos e Graúdos” pela quinta vez.



Autora: Catarina Silva

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Hora do Fusão: Gala de Medicina e Expectativas de Género

julho 05, 2024 0
 Hora do Fusão: Gala de Medicina e Expectativas de Género



A gala de medicina, no passado dia 14 de junho, foi uma celebração de mais um ano concluído.

O jantar foi agradável, a banda excelente, o entretenimento bonito e as fotos também. A after party, no bar académico, não estava cheíssima, mas graças às várias festividades que havia na nossa Covilhã nessa noite, não seria de esperar que todas as pessoas fossem para o mesmo local. Ainda assim, estava um ambiente muito bom.

Recentemente, vi um post em que uma rapariga desabafava acerca de os rapazes terem uma maior facilidade em escolher roupas para eventos formais. Ela afirmou, ainda, que eles podem reutilizar os seus fatos uma e outra vez, algo que as raparigas não devem fazer. Um dos comentários era: “como rapaz, nunca repararia se ela usasse sempre o mesmo vestido. Isso é uma expetativa entre as mulheres, mas para mim era igual”. Interessante.

É verdade que os recursos (tempo e dinheiro) que as mulheres despendem na preparação para este tipo de eventos são, geralmente, superiores aos dos homens? Que desafios enfrenta cada género em relação a este tipo de eventos? Decidi conversar com alguns colegas de medicina e procurar as suas opiniões sobre este assunto.

 

- Achas que a preparação para eventos formais é mais fácil para os rapazes que para as raparigas?

Quando fiz esta pergunta, recebi várias opiniões, concordando rapazes e raparigas que “no geral (...) demora mais para raparigas, quer no que diz respeito à indumentária mais complexa quer mesmo tendo em conta toda a preparação da maquilhagem, cabelo e outros aspetos.” Outra opinião interessante, vinda de um dos rapazes, foi que “em média, as mulheres demoram mais porque normalmente vão fazer penteados elaborados e maquilhagem porque é a norma entre as miúdas, e acho que se comparam mais entre elas para ver quem está mais bonita. Com os rapazes não é tão complicado. Dizemos que estamos todos bem arranjados e pronto.” Outra rapariga afirmou que “normalmente entre as raparigas há sempre um julgamento quer inocente quer não”, o que se alinha com a opinião do rapaz. Afirma, ainda, que “é muito complicado para uma rapariga levar um vestido igual ao do ano passado. No entanto, uma coisa muito boa nas galas de medicina é que cada um leva o que gosta, sejam calças mais clássicas, seja vestido de princesa, e toda a gente está à vontade.”

 



- ⁠Quais são as tuas principais preocupações quando te preparas para uma gala?

        Aqui as respostas variaram. Entre as respostas dos rapazes tive, por exemplo, “ter o fato bem preparado e ir com o cabelinho penteado” e “tentar inovar no arranjo do meu fato, pensando fora da caixa e mantendo-me dentro dos parâmetros normais e formais de uma gala”. Entre as raparigas, foram entre “o que vou vestir e os acessórios que vou usar tendo em conta o outfit; também penso se devo arranjar o cabelo ou se vou mais casual” e “tratar das coisas a tempo da gala (ajustar vestidos por exemplo)”. Outro aspeto particularmente importante para as raparigas é “ter um sítio para guardar sapatos confortáveis caso decida ir ao After Party”.

 

- ⁠Alguma vez repetiste a mesma roupa para o mesmo tipo de evento?

Mais uma vez, as respostas variaram. Quase metade das raparigas responderam que sim, e tal verificou-se também com os rapazes, tendo um deles afirmado que “na gala do ano passado usei o mesmo fato. Só mudei a gravata e a camisa”.

Também foi dito por uma rapariga que “é muito mais fácil de se perceber um vestido igual que um smoking igual com uma gravata diferente”.

 

- ⁠Quanto tempo te demoras a preparar para uma gala?

Geralmente, foi 1h30, tanto para rapazes como raparigas (apesar do facto de que uma das raparigas chegaria a 8h se contasse com as “unhas, sobrancelhas, cabelo” e tudo o resto). Achei isso curioso, visto que acreditava que haveria uma maior diferença.

 

- ⁠Que vantagens acreditas ter na preparação para a gala por seres do teu género? E que desvantagens?

Entre as raparigas, algumas das vantagens apontadas incluem “maior leque de escolhas para a roupa”, “uma desculpa para me arranjar e pôr bonita (uma coisa que adoro fazer)” e a criatividade que a maquilhagem pode permitir. Contudo, dizem “haver mais complexidade à volta da preparação e mais tempo despendido.” Uma das raparigas afirmou que “mesmo que os fatos por vezes sejam mais caros, os vestidos envolvem penteados, unhas, acessórios, tudo isso, o que se torna mais dispendioso para as raparigas”.

Entre os rapazes, é apontado que “é mais aceite repetir o mesmo fato e há menos preparação, normalmente”, e desvantagens incluem “preços e acessibilidade, isto é, os fatos para rapazes assumem um preço relativamente superior a um vestido para uma rapariga; ademais, os rapazes apresentam muitos mais elementos num outfit (gravata ou papillon, camisa, calças, fatos, sapatos, etc) e a procuração de harmonia na sua conjugação é um desafio”. Desta forma opondo-se à opinião da rapariga.

Objetivamente, percebi que os preços entre rapazes e raparigas variaram muito. No geral, os rapazes entrevistados acabaram por gastar mais que as raparigas, o que me surpreendeu. No entanto, entre os rapazes que disseram ter repetido o fato, alguns afirmaram também que o mesmo fato acaba por ser usado mais vezes que um vestido.

Concluindo, as galas são uma forma de tanto as raparigas quanto os rapazes exprimirem a sua individualidade através do modo como se preparam para estas. Alguns temas apresentaram discordância entre os géneros, mas foi muito interessante recolher as diferentes opiniões. Agradeço a todos os colegas que disponibilizaram um pouco do seu tempo para conversarem comigo acerca deste assunto.