janeiro 2025 - Fusão

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

REDDIT: AITA e a importância (ou não) da perspetiva de desconhecidos

janeiro 23, 2025 0
REDDIT: AITA e a importância (ou não) da perspetiva de desconhecidos


    AITA, traduzido aproximadamente como “Serei eu o idiota” é uma página muito popular na rede social Reddit.

    Resumidamente, em cada post, uma pessoa (o OP) relata uma situação em que se encontrou (publicando, por exemplo, “sou o idiota por ter reclinado ao máximo a minha cadeira num avião”) ou em que se encontra (por exemplo “seria o idiota se chamasse a polícia porque os filhos do meu vizinho brincam no meu quintal”) e desconhecidos apresentam a sua opinião sobre o caso desse OP. Isto é, identificam e justificam o seu julgamento com YTA (és o idiota), NTA (não és o idiota), ESH (toda a gente é idiota), NAH (não há idiotas)  e INFO (não há informação suficiente para julgarmos situação). Trata-se apenas de uma questão de estar certo ou errado? Ou há algo mais?

    Em muitos dos casos apresentados, o OP fala acerca de situações privadas, que ocorreram entre essa pessoa e membros da sua família. Talvez uma análise de terceiros seja exatamente aquilo que o OP precisava quando se trata de perceber até que ponto magoou outra pessoa ou até que ponto está a ser magoado e, assim, escolher entre perdoar e esquecer ou tentar afastar-se da situação. Em alguns casos, o OP afirma achar que o julgamento da sua família está a ser desproporcional ao caso apresentado (por exemplo, “sou o idiota por ter pedido a minha mulher em casamento no casamento do meu irmão?”). Muitas vezes, a procura de terceiros pode estar relacionada com uma necessidade de perceber se o julgamento das pessoas da sua vida vem de um lugar de favoritismos ou de um sentimento de justiça honesta.

    Não nos podemos esquecer que o julgamento externo sobre os intervenientes da história contada pelo OP pode não contribuir em nada mais que um sentimento de ódio em relação a essas mesmas pessoas. Também temos de ter em mente que pode, realmente, fazer a diferença. (“Seria eu a idiota se visse o telemóvel do meu marido?” [1])

    É um local da internet onde as pessoas podem identificar-se com determinadas situações, mesmo sem publicar nada, e assim perceber se deverão modificar o seu comportamento ou não. É um local em que as pessoas querem saber se a forma como justificam as suas ações é ou não suficiente para as ações que tomaram e é um local onde dilemas de todos os tipos ,lutas por heranças, divórcios, entre outros, são tornados públicos.

    A procura pela superioridade moral sobrepõe-se aos laços criados até ao momento? O sentimento de apoio por gente que nunca esteve envolvida na situação em que o OP se encontra é suficiente para que o OP se deixe de sentir frustrado com a situação? Claro, em muitas das situações não sabemos até que ponto as histórias publicadas são verdadeiras, mas talvez perguntar a desconhecidos por feedback seja menos eficaz que perguntar a quem conhece os dois lados da história, clarificando-se assim mal-entendidos, discussões, entre outros que, caso fossem apenas julgados num dos lados, acabassem por dar o julgamento final de “a culpa é da outra pessoa, eu não fiz nada de errado”. É verdade que, ao apresentar a situação a desconhecidos e não a membros da família ou amigos, torna-se mais fácil confrontar a situação. Mas há situações que não devem apenas ser julgadas desta forma. No entanto, por vezes, uma perspetiva externa é mesmo aquilo que uma pessoa precisa para seguir a sua vida sem um sentimento de culpa.

 

[1] Para os curiosos, os comentários disseram que não seria a idiota. O OP deste caso disse que iriam prosseguir para divórcio, uma vez que ele a estava realmente a trair.


Margarida Reis


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

E se morresses em breve?

janeiro 16, 2025 0
E se morresses em breve?

 


A Dona Adelaide tem 85 anos e diagnóstico de cancro do estômago estadio IV com metastização hepática. Tem 2 filhas, vivem ambas longe, a vida assim as obrigou. Gostava de bordar e ia todas as manhãs tomar o seu galão ao café da aldeia. Quando foi diagnosticada tinha 3 netos: uma advogada, um quase médico e uma ainda indecisa, mas sabia que o tempo a ia encaminhar. Ficou viúva nova e quando compreendeu a doença que tinha, achou que a tinham referenciado para Cuidados Paliativos (CP) porque ia morrer. O tempo passou, sabe que vai morrer, mas também nunca teve dúvidas disso, ora a vida é finita para todos. Mas agora acha que foi referenciada para que a sua morte fosse o mais tranquila possível, para que o turbilhão que assolou a família que vai deixar, acalmasse. Nunca se sentiu sozinha, mesmo quando a família não podia estar. Durou mais do que achava, diz ela orgulhosa poucos dias antes do seu último dia. 

A Alice é uma adolescente de 17 anos que está em artes, adora pintar e quer ser arquiteta. Achava que não tinha jeito para o desporto e não compreendia como é que ficava sempre tão mais cansada que os seus colegas. Descobriu que tinha um linfoma. A sua doença foi evoluindo e foi transferida para os CP após complicações graves e porque tinham baixa expectativa da sua resposta à quimioterapia inicial. Começou a fazer uma coisa chamada imunoterapia, que ela nem sabia o que era e não compreendia. Sentia tudo e nada ao mesmo tempo, queria viver, era demasiado nova, não fazia sentido. Tinha medo do que estava para vir, dos efeitos adversos da medicação, de nunca mais voltar a sentir-se bem. O tempo passou, a medicação começou a funcionar e a Alice acabou a receber alta dos cuidados paliativos e continuou com o acompanhamento oncológico. É agora paisagista e adora o que faz.


Até não há muito tempo, os CP eram vistos como cuidados de fim de linha, pela sociedade, com baixa literacia em saúde, mas também pela própria comunidade científica. A verdade é que quem passa pelo serviço rapidamente perde essa ideia. Baseados em princípios estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os cuidados paliativos oferecem suporte holístico, integrando dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais. Pretendem melhorar significativamente a qualidade de vida de doentes com doenças avançadas, reduzir a ansiedade e diminuir o sofrimento familiar, preenchendo lacunas, muitas vezes deixadas pela medicina que procura curar e remissões completas. (1)

Não me interpretem mal, claro que se dessem a opção à Dona Adelaide de ser curada ela provavelmente a escolhia, assim como a Alice. Mas não é isso que está em causa quando se fala de CP. Não se fala de escolhas, mas sim de apoio, complemento. Os CP dão suporte são uma ferramenta clínica e uma arma terapêutica tão boa como um antibiótico. Não querendo cair em clichês mas às vezes a alma também precisa de tratamento. Ser seguida por CP não significa que não há mais opções, significa que, até haver essa opções, caso elas existam, ou enquanto houver sintomas incapacitantes, ou enquanto houver uma família desesperada, ou quando for mesmo o fim, e mesmo depois, quando o luto começar - significa que há mais do que uma forma de lidar com as situações e que existe uma equipa multidisciplinar capaz de trabalhar em todas as vertentes.

Os cuidados paliativos (CP) em Portugal têm evoluído ao longo dos últimos anos, com avanços significativos na sua integração no Sistema Nacional de Saúde (SNS), mas ainda existem desafios importantes a serem superados. A sua implementação é considerada uma prioridade, não apenas por ser um direito essencial de todos os cidadãos, mas também pela necessidade de garantir uma abordagem humanizada e de qualidade para todos os doentes. (2) 

Atualmente, os CP em Portugal são fornecidos através de unidades de internamento especializadas, que existem em hospitais e centros de saúde, mas também por meio de equipas intra-hospitalares de suporte, que auxiliam doentes internados noutras especialidades médicas, e equipas comunitárias que prestam apoio domiciliar. Apesar dos avanços sentidos, ainda há desafios consideráveis, como a cobertura insuficiente de CP em muitas regiões, especialmente em áreas rurais, onde os serviços são escassos ou inexistentes. A falta de profissionais especializados, como médicos, enfermeiros e assistentes sociais capacitados para atuar em CP, é, também, uma barreira significativa. (3)

Apesar dessas dificuldades, os cuidados paliativos têm proporcionado um impacto profundamente positivo na vida de muitas pessoas em Portugal. Doentes como a Dona Adelaide e a Alice, com doenças graves ou terminais, independentemente de diagnóstico ou prognóstico específico, têm encontrado alívio para sintomas debilitantes, como dor crónica, dificuldades respiratórias ou fadiga. Para as famílias, os cuidados paliativos representam um suporte emocional vital, oferecendo não só conforto e alívio, mas também orientações e ajuda nas decisões difíceis. 

É inegável que existe um estigma em torno dos Cuidados Paliativos, com muitos doentes e famílias associando-os exclusivamente ao fim da vida, bem como a sociedade em geral. A falta de conhecimento sobre o que os CP envolvem e sobre como eles podem melhorar a qualidade de vida dos doentes também é uma realidade que pode levar a um atraso de acompanhamento que pode ser fundamental.

E nós, estudantes em formação, porque não ir um pouco mais além do que é o mínimo esperado? Quando se fala em cuidados paliativos, fala-se sobre respeitar as escolhas dos doentes, ajudá-los a viver com dignidade até o último momento e apoiar as suas famílias em momentos de dor e incerteza. Viemos para medicina para salvar vidas, tudo certo, mas porque não procurar fazer mais? Será que não somos todos mais capazes de dar dignidade à pessoa humana, tal como é objetivo dos CP?

Os CP não encerram histórias, mas ajudam a reescrevê-las, trazem conforto, dignidade e um sentido de humanidade para momentos que, de outra forma, poderiam ser insuportáveis. É um cuidado que transcende a doença e olha para a pessoa, reconhecendo que, às vezes, tratar significa mais do que curar: significa estar presente, escutar e aliviar o peso de carregar o sofrimento sozinho. Porque, no fim, todos precisamos de apoio, e é isso que os cuidados paliativos oferecem – uma mão estendida às Donas Adelaides e Alices com quem vamos cruzar caminho.

(as histórias relatadas são fictícias)

Maria Monteiro

  1. World Health Organization. Palliative Care: Key Facts. Geneva: World Health Organization; 2020. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/palliative-care. Acesso em: 11 jan. 2025.

  2. República Portuguesa. Lei n.º 52/2017, de 31 de julho - Cuidados Paliativos. Diário da República, 1.ª série, n.º 146. 2017. Disponível em: https://dre.pt/. Acesso em: 11 jan. 2025.

  3. Ministério da Saúde. Plano Estratégico Nacional de Cuidados Paliativos (2017-2018). Lisboa: Ministério da Saúde; 2017. Disponível em: https://www.sns.gov.pt/. Acesso em: 11 jan. 2025.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Hora do Fusão: "Porquê ir ao Sarau?"

janeiro 13, 2025 0
Hora do Fusão: "Porquê ir ao Sarau?"


Um dia, nós, estudantes de medicina, encontrar-nos-emos em cenários verdadeiramente melodramáticos, de suspense sufocante e com as emoções mais tenebrosas ao rubro - encarregues pela vida de outrem. Pois bem, se há um lugar onde ainda nos é seguro sustentar histórias de vidas alheias, é o teatro. Pelas 20h30 do dia 14 de janeiro, no grande auditório da FCS-UBI, conhecemos novas personalidades, construímos narrativas fictícias e arquitetamos uma noite repleta de música onde somos mais do que o estudo.

O Sarau Cultural do MedUBI, Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade da Beira Interior, é um meteorito no cenário académico covilhanense, sendo um evento anual tido em elevada consideração dentro do nosso meio, mas sempre com as portas abertas a qualquer um. Esta oitava edição traz-nos a história do Circo Desejo, um circo falhado com uma última oportunidade de fazer um espetáculo que o salve da bancarrota. Através da névoa de incerteza que paira na mente destes circenses, um raio de luz emerge, o Dono da Companhia, motivado para corrigir os seus erros passados e orquestrar o seu grande final. A trupe nervosa conta com personagens memoráveis que levam o espectador a um reino de êxtase e perigo, onde a glória e tragédia da vida de artista é fantasticamente explorada.

Efetivamente, esta peça colorida e animada remete-nos a tempos mais simples e mágicos pelo seu tema, ao mesmo tempo que os analisamos através das lentes imperdoáveis da vida adulta. Drama, inveja e orgulho contaminam o que superficialmente seria a pintura de um quadro feliz, numa tentativa de capturar uma família que se quer reconstruir dos escombros do decorrido. 

É um facto que o tempo é algo que custa a todos dar. Porém, desafio todos nós a refletir de que forma queremos investir o nosso - como é que conseguimos ser uma versão mais rica de nós mesmos. A maneira como nos entrelaçamos e caminhamos neste mundo advém imensamente do nosso consumo de arte, da gingada com o que muitas vezes não é consciente. Facilmente perdemos vista do que importa, do convívio em comunidade, de como um sorriso num momento humorístico pode mudar-nos, de como um grito teatral nos pode arrepiar até um sítio que não conhecíamos em nós. Contudo, existe pouco que seja capaz disto. O que normalmente consumimos no dia a dia escasseia em humanidade, em realidade. Pois o Sarau, tal como o Dono da Companhia, ilumina a franca miséria de um quotidiano frequentemente a preto e branco.

Porquê ir ao Sarau? Porque sim. Porque há pouco que ainda seja como ele. O quão bonito é ver os nossos colegas a apresentar o seu coração em cima de um palco, palco que está mal habituado a ver tal? A Arte permite-nos navegar o subconsciente, expressar quem somos e fortalecer a psique. Em suma, faz bem à saúde - palavra de futuro médico. Por todos estes motivos, deves ir ao Sarau.  Por isso, cá vos esperamos, no nosso energético circo, cheio de música ao vivo, dança e representação apaixonante. Reservado a maiores de 12 anos. Garante o teu lugar através do e-mail cultural@medubi.pt, da UpEvents MedUBI ou por mensagem via Instagram @saud.arte .


Tiago Ramos


sábado, 11 de janeiro de 2025

Ansiedade e o Microbiota “A moda da boa alimentação”

janeiro 11, 2025 0
Ansiedade e o Microbiota “A moda da boa alimentação”


Como manda a tradição, nestes meses frios todos nós sofremos do mesmo mal: a tristeza do inverno. Dias curtos, chuvosos, sem sol para nos aquecer… nem os mais resistentes escapam! Mas será que essa tristeza se deve ao frio ou aos exageros alimentares que praticamos nestas épocas festivas? Existirá alguma relação entre uma boa alimentação e o nosso estado mental?


No nosso intestino existem microrganismos responsáveis por regular o trânsito intestinal, fazer digestão dos alimentos e proteger-nos contra agentes patogénicos. A alimentação e estilo de vida têm grande influência nas estirpes desses microrganismos e, como tal, diferem de pessoa para pessoa. 


O microbiota está diretamente associado ao sistema nervoso central através do eixo intestino-cérebro que interliga o cérebro ao intestino, tal como o próprio nome indica. Este eixo é fundamental não só para a manutenção da saúde intestinal e da saúde mental, mas também para a manutenção da homeostase. Esta interligação é sustentada através de diversas vias de comunicação bidirecionais incluindo o nervo vago, o sistema endócrino intestinal e o sistema imunológico. 


O nervo vago, ao conectar o cérebro ao cólon e a outros órgãos do sistema digestivo, permite que os metabolitos produzidos pelo microbiota interfiram com o eixo intestino-cérebro e que, consequentemente, induzam um estado de doença caso estes sejam nocivos. Diversos estudos indicam que pacientes com transtornos mentais ou de humor, como depressão, ansiedade e esquizofrenia, apresentam quadros de inflamação intestinal, resultado do desequilíbrio no microbioma intestinal: estados extremos de stress ativam a produção de cortisol, que se traduz num aumento da permeabilidade intestinal, proliferação de espécies pró-inflamatórias e invasão da mucosa intestinal.


Uma dieta munida de suplementação permite regular a produção de metabólitos microbianos, reduzir a resposta  ao  stress, aumentar a expressão de fatores neurotróficos, melhorar a cognição, comportamentos sociais e padrões de sono.


Concluindo, uma vez que o eixo intestino-cérebro interliga o intestino e cérebro, é de extrema importância manter uma alimentação equilibrada, de forma a influenciar positivamente a nossa saúde intestinal, mental e emocional. Assim, é muito provável que a “tristeza de inverno” se deva, na realidade, aos excessos e má alimentação que adotamos durante a época natalícia!

 Filipe Gaspar

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Só vim pelo coffee break

janeiro 08, 2025 0
Só vim pelo coffee break

 







Ir a um congresso é um evento canónico na vida de qualquer estudante universitário. Nos primeiros anos de curso as pessoas vestem um blazer, escolhem os workshops com muita calma e demonstram grande entusiasmo para enfrentar 3 dias que se avizinham de grande aprendizagem. Nos últimos anos de curso, já não é bem assim (palavra de finalista). 

O primeiro kit que recebemos é uma alegria. Uma simples tote bag, uma caneta da AMBOSS e um livro do médico interno tornam-se as melhores coisas que recebemos em muito tempo. No entanto, ao fim de 5 ou 6 congressos, quando se começa a perceber que estes são cromos repetidos, essa luz vai se apagando. 

Atualmente, vários anos da FCS-UBI possuem incentivos curriculares à participação em congressos, todavia, será que esta medida efetivamente motiva a busca pela aprendizagem extracurricular ou apenas incentiva a luta pelos certificados. 

E a questão que não quer calar é: será que a culpa deste desvanecer de entusiasmo é dos congressos que se repetem e não são suficientemente apelativos ou dos alunos e profissionais que participam nos mesmos? A verdade é que esta é uma das perguntas que não tem nem nunca terá resposta. Se estivermos a falar do BeInMed, acredito que a culpa seja dos participantes, porque não há congresso que se compare com este. No entanto, é certo que, apesar de raro, alguns temas se poderão inevitavelmente repetir entre congressos. O que não aceito que me digam é que, entre os 65 workshops que o BeInMed oferece este ano, nenhum vos interessa. 

Acredito que existem muitos motivos para a falta de interesse dos alunos em imergir completamente no mundo das conferências científicas. O curso de medicina é um curso exigente e os alunos são pessoas muito ocupadas, muitas vezes sem tempo para atividades extracurriculares. Não obstante, incentivar a participação em congressos deve passar também pelo apoio e auxílio da sua gestão. A maioria dos congressos não são gratuitos e, muitos deles possuem horário coincidente com as atividades letivas, pelo que, o tempo que se dedica a cada um carece de uma gestão meticulosa. 

A verdade absoluta é que quando é para falar sobre esforço e dedicação, todas as pessoas são muito esforçadas e dedicadas, ainda assim, quando é para mostrar efetivamente empenho, já nem toda a gente possui a mesma motivação. Quando entrei no curso de medicina o grande auditório enchia-se completamente nas sessões de abertura e encerramento do BeInMed, situação que, infelizmente, não tem vindo a acontecer nas últimas edições, mesmo com um marcado aumento do número de inscrições. Não sei qual é o motivo para este fenómeno, contudo seria interessante perceber o que está por detrás dele. Os congressos dão muito trabalho a organizar e não comparecer no momento em que as comissões organizadoras são apresentadas é não reconhecer nem valorizar o trabalho das mesmas. 

Anos passam, edições de congressos são feitas, ainda assim há um único local onde nunca faltarão pessoas interessadas em comparecer: a zona de coffee break. É verdade que sou suspeito, adoro um bom rissol e não falto a um coffee break, mas sei que vocês sabem que não é esse o problema. O problema é comparecer apenas nesse momento e ainda reclamar que o croquete está frio. 

Lá no fundo os congressos são eventos que começam com promessas de aprendizagem, mas que, para muitos, terminam com uma batalha épica pelo último rissol. Espero que depois deste desabafo o XVI Beira Interior Medical Meeting tenha menos pessoas com a mentalidade “só vim pelo coffee break”, que a faculdade comece efetivamente apoiar os congressos, que a sessão de abertura esteja cheia e que os participantes no geral percebam que a essência dos congressos é e sempre será (espero eu) a partilha de conhecimento e a busca pela evolução científica.



Artigo de: Renato Martins

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Hora de fusão: “HERMAN JOSÉ COM BANDA FILARMÓNICA ALHADENSE e ORQUESTRA DE JAZZ DO CAE"

janeiro 06, 2025 0
Hora de fusão: “HERMAN JOSÉ COM BANDA FILARMÓNICA ALHADENSE e ORQUESTRA DE JAZZ DO CAE"

 





No sábado passado, dia 21 de dezembro de 2024, tive a oportunidade de assistir ao último espetáculo da 2ª edição do “ORQUESTRAE”. Dinamizado pelo CAE (Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz), este projeto envolve as várias bandas filarmónicas do concelho da Figueira da Foz que, em conjunto com artistas de renome, embelezam a sala de espetáculos com as notas entoadas. Este ano, o palco da sala de espetáculos do CAE teve o privilégio de receber Sofia Escobar, Tim dos Xutos e Pontapés, “Táxi” e Herman José.


Nascido a 19 de março 1954, Herman José Krippahl é um ator, apresentador, humorista, guionista e realizador português. Filho de pai alemão e mãe portuguesa, conta com mais de 50 anos de carreira passando por diversos palcos e canais de televisão portugueses e internacionais.


Falando do espetáculo em questão, ao longo de duas horas, tanto as bandas convidadas como Herman José brilharam mais que a própria lua. Mais de 100 músicos, tendo destaque instrumentos de sopro e percussão, foram orquestrados pelos maestros José António Firme e Ricardo Jorge Gabriel.  

Abriram o espetáculo com uma adaptação exímia da “Marcha do Vapor”, música tradicional figueirense e com a adaptação/ medley de 5 ou 6 músicas dos “Abba”. Após a apresentação das bandas e do maestro José António Firme, o coro do Herman entrou em palco dando assim início ao espetáculo. Entre piadas sexuais, charadas e muita comédia, Herman satirizou tudo o que “mexia”, incluindo a indumentária de Ana Moura na Gala dos Globos d’Ouro. 

            Interpretou uma panóplia de temas como por exemplo “Saca o saca-rolha”, “És tão boa”, “Vamos lá cambada!” e “A cor do teu batom”, percorrendo o seu reportório com 50 anos.


Num ponto de vista mais pessoal, achei o espetáculo foi bastante interativo e divertido que levou a plateia a cantar, rir e aplaudir de pé.




Referências bibliográficas:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Herman_Jos%C3%A9 


Autor: Filipe Gaspar


sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Ano Novo, Vida Velha

janeiro 03, 2025 0
Ano Novo, Vida Velha

  

Desde a mais tenra infância, somos incutidos, na escola, a fazer os clássicos trabalhos acerca do Natal, dos seus valores e daquilo que desejamos, tanto para nós como para os outros. Entre cartolinas, artes plásticas e cartas ao Pai Natal, fala-se de respeito, solidariedade, tolerância, altruísmo e paz. A quadra natalícia é o grande momento de introspeção do ano, o que inspira a que, pelas diversas plataformas sociais, se evidenciem as diferentes realidades no mundo, nomeadamente os seus males, e a necessidade de nos unirmos, enquanto humanidade, para os combater.


Sem querer soar negativista e desencorajadora, não deixo de pensar que a nossa missão, enquanto humanidade, está a falhar, cruel e friamente. Em 2024, vivemos num mundo onde a insensibilidade impera, onde o contacto visual se desvanece e é substituído por ecrãs que satisfazem as necessidades emocionais de cada um de nós, onde a futilidade e a fome do bem material dão aso a uma poluição destruidora e mortífera e onde o genocídio e a guerra singram, dizimando terras, casas e tantas, mas tantas vidas.


Vivemos num mundo onde é possível abandonar, mal tratar e matar pessoas sem freio, onde a violência é, quer queiramos quer não, a resposta para o mais pequeno desacato e onde o racismo, a xenofobia e a discriminação abundam e assassinam.


A verdade é que a maioria dos jovens adultos dos países ditos “desenvolvidos” encaram a paz como um dado garantido, e, de alguma forma, se dotam de uma incrível desconexão emocional com as realidades de, por exemplo, viver num país em guerra ou num ambiente de exploração, não ter condições básicas de saneamento ou alimentação, não ter liberdade de expressão ou, simplesmente, não poder falar ou mostrar o rosto. O ridículo sobressai quando penso, que para nós, muitas vezes, o problema é a dificuldade em estabelecer uma ligação wi-fi, enquanto que para outros jovens e crianças é saber se e como sobrevivem até ao dia seguinte, atormentados e eternamente traumatizados pelo infortúnio de viverem em zonas de conflito. 


Em plena época natalícia, leem-se headlines de jornais como “A Guerra na Síria não acabou”, “ONU alerta para aumento da fome no Sudão”, “Alemanha confirma entrega de um dos maiores pacotes de armamento à Ucrânia”, “FINUL denuncia destruição contínua do sul do Líbano por Israel”, entre tantas outras, que nos mostram que, enquanto sociedade, falhámos, e continuamos a falhar. Vivemos embebidos em apatia, hipnotizados pela vontade materialista e controlados por um egoísmo gritante


Olhando para os migrantes desfavorecidos ou refugiados que se encontram no nosso país ou que surgem nos meios de comunicação, ignoramos, viramos a cara e pensamos ou dizemos “Não podemos fazer nada, é a realidade deles.”, sem nunca pensar que aquela mesma pessoa passou por crises de migração, deslocamentos forçados, um choque cultural e político hediondo e que, no fundo, apenas fugiu do horror.


Alargando a crítica, o problema não reside só na sociedade, mas também nos (in)admiráveis governos, que encaram as armas como lucro e as guerras como interesses financeiros, permitindo que inúmeros conflitos se prolonguem ao ponto de serem esquecidos. A gigante hipocrisia política é, assim, revelada e estende-se desde os discursos promotores da paz que escondem o apoio a regimes opressores, até à criação de políticas contraditórias relativas à ajuda humanitária. 


E quanto a nós, cidadãos do mundo, sobra-nos pensar se basta ser um ativista superficial nas redes sociais (contra mim falo), ao partilhar o story sobre a nova bomba russa que abateu mais uma cidade ucraniana ou sobre mais um hospital bombardeado em Gaza, arriscando transformar causas sérias em modismos passageiros; ou se devemos querer aprender sobre como ajudar a alterar esta corrente de desumanização crescente e como devemos e podemos tornar-nos agentes ativos nesta luta que é, efetivamente, não só “deles”, mas de todos nós. 


Saramago alertava para o risco de nos tornarmos cegos em sociedade, mas não se preocupem, que eu já mandei vir uns óculos pretos super fashion da empresa chinesa exploradora para disfarçar, não vá alguém notar, neste mundo tão indiferente! Também só custa 1 euro e a liberdade de uma criança, não é?


Criticamos a guerra, mas continuamos a comprar gadgets feitos com minerais provenientes de conflitos. Dizemos “tadinhos!”, mas mudamos de canal. Choramos pelos famintos, mas desperdiçamos comida todos os dias. Criticamos a exploração, mas não o preço das roupas e objetos baratos. Revoltamo-nos com o sofrimento alheio, por vezes fugazmente, mas priorizamos sempre o nosso próprio bem-estar.


Somos espectadores apáticos de tragédias que se repetem, narradores de empatia seletiva, enquanto nos refugiamos na ilusão de progresso e na falsa moralidade de quem observa sem agir. Já Camões exclamara que o ser humano não passa de um “bicho da terra tão pequeno” e a verdade é que, cinco séculos depois, continuamos a encolher-nos cada vez mais ao perpetuar a dor, o sofrimento global e a insensibilidade coletiva.  


Findo o Natal, ressoa o inevitável 'Feliz Ano Novo!', mas, para muitos, é apenas o prelúdio da vida velha, em que nada muda e a dor perdura. 


Beatriz Silva