AITA, traduzido aproximadamente como “Serei eu o idiota” é uma página muito popular na rede social Reddit.
Resumidamente, em cada post, uma pessoa (o OP) relata uma situação em que se encontrou (publicando, por exemplo, “sou o idiota por ter reclinado ao máximo a minha cadeira num avião”) ou em que se encontra (por exemplo “seria o idiota se chamasse a polícia porque os filhos do meu vizinho brincam no meu quintal”) e desconhecidos apresentam a sua opinião sobre o caso desse OP. Isto é, identificam e justificam o seu julgamento com YTA (és o idiota), NTA (não és o idiota), ESH (toda a gente é idiota), NAH (não há idiotas) e INFO (não há informação suficiente para julgarmos situação). Trata-se apenas de uma questão de estar certo ou errado? Ou há algo mais?
Em muitos dos casos apresentados, o OP fala acerca de situações privadas, que ocorreram entre essa pessoa e membros da sua família. Talvez uma análise de terceiros seja exatamente aquilo que o OP precisava quando se trata de perceber até que ponto magoou outra pessoa ou até que ponto está a ser magoado e, assim, escolher entre perdoar e esquecer ou tentar afastar-se da situação. Em alguns casos, o OP afirma achar que o julgamento da sua família está a ser desproporcional ao caso apresentado (por exemplo, “sou o idiota por ter pedido a minha mulher em casamento no casamento do meu irmão?”). Muitas vezes, a procura de terceiros pode estar relacionada com uma necessidade de perceber se o julgamento das pessoas da sua vida vem de um lugar de favoritismos ou de um sentimento de justiça honesta.
Não nos podemos esquecer que o julgamento externo sobre os intervenientes da história contada pelo OP pode não contribuir em nada mais que um sentimento de ódio em relação a essas mesmas pessoas. Também temos de ter em mente que pode, realmente, fazer a diferença. (“Seria eu a idiota se visse o telemóvel do meu marido?” [1])
É um local da internet onde as pessoas podem identificar-se com determinadas situações, mesmo sem publicar nada, e assim perceber se deverão modificar o seu comportamento ou não. É um local em que as pessoas querem saber se a forma como justificam as suas ações é ou não suficiente para as ações que tomaram e é um local onde dilemas de todos os tipos ,lutas por heranças, divórcios, entre outros, são tornados públicos.
A procura pela superioridade moral sobrepõe-se aos laços criados até ao momento? O sentimento de apoio por gente que nunca esteve envolvida na situação em que o OP se encontra é suficiente para que o OP se deixe de sentir frustrado com a situação? Claro, em muitas das situações não sabemos até que ponto as histórias publicadas são verdadeiras, mas talvez perguntar a desconhecidos por feedback seja menos eficaz que perguntar a quem conhece os dois lados da história, clarificando-se assim mal-entendidos, discussões, entre outros que, caso fossem apenas julgados num dos lados, acabassem por dar o julgamento final de “a culpa é da outra pessoa, eu não fiz nada de errado”. É verdade que, ao apresentar a situação a desconhecidos e não a membros da família ou amigos, torna-se mais fácil confrontar a situação. Mas há situações que não devem apenas ser julgadas desta forma. No entanto, por vezes, uma perspetiva externa é mesmo aquilo que uma pessoa precisa para seguir a sua vida sem um sentimento de culpa.
[1] Para os curiosos, os comentários disseram que não seria a idiota. O OP deste caso disse que iriam prosseguir para divórcio, uma vez que ele a estava realmente a trair.
Margarida Reis
