outubro 2024 - Fusão

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Porque se fala tanto de "Educação Médica"?

outubro 28, 2024 0
Porque se fala tanto de "Educação Médica"?
   

A Educação Médica em Portugal tem enfrentado constantes modificações, fruto dos avanços da medicina e, mais recentemente, da pandemia de Covid-19.
Em Portugal existem oito escolas médicas públicas que possuem currículos diversificados e distintos entre si, os quais sofrem reformas curriculares ao longo do tempo. Analisando essas mesmas reformas, torna-se preponderante refletir sobre o impacto das mesmas face à finalidade pretendida. 

A ANEM, Associação Nacional dos Estudantes de Medicina, rege os seus trabalhos no âmbito da Educação Médica ao promover um conjunto de três programas nacionais, atualmente em vigor, com o intuito de identificar as principais lacunas no ensino médico português. O “Programa Nacional de Promoção da Qualidade Formativa Pré-Graduada” aponta vários problemas identificados no currículo das escolas médicas. “Excessivo número de ingressos nas Escolas Médicas Portuguesas, relativamente às capacidades formativas pós-graduadas”, “escassez de recursos humanos e materiais para o ensino”, “escassez de formação pedagógica e docimológica contínua dos docentes” e “falta de incentivos à realização de trabalhos em Educação Médica pelos estudantes de Medicina”, são apenas alguns exemplos das problemáticas detetadas pela ANEM.
Estando as lacunas identificadas, importa refletir e elaborar mecanismos que respondam às necessidades atuais do ensino médico. Por um lado, avivar entre os estudantes a relevância da atualização constante dos seus currículos académicos, por outro, advogar, junto com as respectivas entidades governamentais, por condições que permitam atender às exigências contemporâneas dos incessantes avanços da prática médica.

E de que forma se pode consubstanciar esta questão no seio académico? Uma das formas passa pela realização de congressos que assentam nesta temática. Promover a atualização e formação contínua dos estudantes e profissionais médicos, é essencial nos dias de hoje, pois a ciência avança ininterruptamente. Proporcionando um espaço de troca de ideias, conhecimentos e inovações, um congresso sobre Educação Médica permite que estudantes e profissionais construam oportunidades de networking, colaboração, melhorando, assim, a qualidade da prática clínica e o contacto com o doente.
A Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, uma das várias escolas médicas do país, tem contribuído, junto da comunidade académica, para um melhor conhecimento sobre esta área basilar. O In2ME, Into Better Medical Education, apresenta-se aos estudantes como um congresso exclusivo sobre esta área. Na sua segunda edição, com o slogan “Unleashing the potential of Medical Education”, o In2ME dá destaque para as competências clínicas gerais, a comunicação, o trabalho em equipa, a capacidade de liderança, a educação interprofissional, a medicina personalizada e muitas outras áreas de interesse.
Num mundo exigente e complexo, a colaboração entre profissionais de saúde enche-se da máxima relevância. A par desse avanço da ciência e da medicina, a tecnologia e a inteligência artificial surgem como um desafio, colocando a tónica na medicina personalizada. Mergulhado nas questões éticas e com os olhos postos no futuro da medicina, o In2ME desperta para a curiosidade que rodeia esta matéria. Por último, e não menos importante, qualquer estudante e profissional preocupado com a atualização dos seus conhecimentos pode encontrar neste congresso um conjunto de estratégias para maximizar o estudo. Por estas e por outras razões, não podes perder esta nova edição do In2ME a realizar entre os dias 7, 8 e 9 de novembro de 2024. 
Se tens interesse em Educação Médica e nas suas mais recentes lutas e áreas de intervenção, este evento é certamente uma excelente oportunidade para ampliar horizontes e te implicares na defesa de um ensino médico de qualidade. 

    “Educação Médica, duas palavras, um nome e um adjetivo relacional que andam de mãos dadas subtilmente revoltas pelos corredores das faculdades de medicina, pululam de hospital em hospital e renascem cada vez que se fala de si.”

Guilherme Fernandes

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Como fazer Ozempic® caseiro num país sem stock?

outubro 24, 2024 0
Como fazer Ozempic®  caseiro num país sem stock?


         “Semaglutida ou semaglutido, vendida sob as marcas Ozempic®, Wegovy® ou Rybelsus®, entre outras, é um medicamento usado para tratar diabetes tipo 2, obesidade e sobrepeso.” É isto que a Wikipedia nos diz sobre o medicamento que anda na boca do povo, vulgo, na boca do TikTok®: o Ozempic®. Mas a verdade é que, apesar desta simples, e fidedigna, definição, o Ozempic® tornou-se algo muito maior do que um simples medicamento. Todos têm uma opinião para dar sobre ele. Ou é porque as Kardashian usaram, porque a avó começou a tomar e já perdeu 10kg, porque a prima tentou comprar ilegalmente mas custava mais de 100 euros ou porque o pai que tem diabetes precisava de tomar, mas como não têm cunha na farmácia, não o consegue comprar.

Se pensarmos pragmaticamente, convenhamos, o Ozempic® não passa de mais um medicamento. É um medicamento efetivamente mediático mas, se nos começarmos a referir a ele como um agonista dos receptores da GLP-1, o mediatismo já se vai perdendo.


Atualmente estão disponíveis em Portugal pelo menos 4 medicamentos injetáveis desta classe farmacológica: o liraglutido, de administração diária, conhecido como Victoza®, o exenatido, de administração semanal, conhecido como Bydureon®, o dulaglutido, de administração semanal e conhecido como Trulicity®, e o nosso semaglutido, o mais conhecido de todos. 


A verdade é que, apesar de estarem cotados pela comunidade leiga como polémicos,  os análogos do GLP-1 são aceites pela comunidade médica como parte da abordagem terapêutica para a gestão de peso em pessoas com obesidade com comorbidades associadas. Assim, não seria mal pensado que todo o burburinho à volta dos mesmos, sobre ser ético ou não uma pessoa com obesidade utilizar estes medicamentos, talvez se devesse começar a basear em factos, e não apenas em opiniões de um médico tiktoker com preconceito face à obesidade.


Infelizmente, atualmente em Portugal, estes medicamentos encontram-se cronicamente esgotados. Sim, cronicamente esgotados. Não é desde ontem, nem desde da semana passada. Estão mesmo constantemente esgotados. Há anos. Tão esgotados que, em julho deste ano, o Infarmed teve de publicar uma circular normativa sobre a  gestão da sua disponibilidade.  Nesta circular normativa recomendou que “não fossem  prescritos a doentes que não sejam diabéticos” e que “o início de novos tratamentos com agonistas do receptor da GLP-1 deve ser cuidadosamente ponderado face à escassez do abastecimento destes medicamentos e à existência de alternativas que não apresentam constrangimentos”. 


Mas a questão que paira é: será que existem mesmo alternativas que não apresentam constrangimentos? Não me interpretem mal, eu percebo o que eles querem dizer, mas, se existe uma alternativa claramente superior, e esta não está disponível por stock, não será isso um constrangimento suficiente? Bom, o que é facto é que a gestão do seu stock é cada vez mais enviesada e pouco equitativa, o que definitivamente não coaduna com o conceito de saúde que gostamos de acreditar que Portugal ainda tem.


Como todos sabemos, o primeiro passo para o tratamento da Diabetes Mellitus tipo 2  são as famosas mudanças do estilo de vida, que passam pela atividade física e pela perda de peso. Os análogos dos receptores GLP-1 podem ser a alavanca que muitos doentes necessitam para atingir o controlo glicémico, melhorar a sua qualidade de vida e diminuir as complicações associadas ao mau controlo da doença.  


Mas será que só mesmo as pessoas com Diabetes Mellitus tipo 2 é que beneficiariam de fármacos como estes? Ignorando todos os efeitos adversos e prejudiciais ao consumo de medicamentos sem supervisão médica, que já têm vindo a ser documentados, questiono aqueles que ainda são céticos face à sua utilização para a obesidade se não consideram que a adaptação destes fármacos, com respetivo ajuste de dose, para a perda de peso não poderia ser benéfica como método de prevenção da própria diabetes e como tratamento da doença que é a obesidade. 


Todos sabemos que a diabetes tipo 2 é uma doença que resulta, em grande parte, mas não apenas, do estilo de vida dos doentes. Então, o que torna mais ético utilizar o fármaco para pessoas que já possuem a doença em detrimento daqueles que muito provavelmente virão a ter a doença? Ninguém defende que se deve começar a prescrever este tipo de medicamento à Dona Manuela que quer perder 3Kg para caber melhor no bikini este ano. Mas sim à Joana, uma jovem com 23 anos, um IMC de 37 Kg/m2, que quase não se consegue mexer, que está deprimida, sem coragem para conseguir ir ao ginásio e que já tentou de tudo e que, como tem uma patologia chamada obesidade, controlando ou não a alimentação, mantém-se inglória nesta luta, mesmo apesar do que todos lhe recomendam. É possível que a Joana ainda não tenha diabetes porque é nova e não tem fatores de risco familiares para a doença, mas quanto tempo é que acham que vai demorar até a Joana iniciar uma metformina?


É verdade que os análogos dos receptores da GLP-1 dão muito que falar. Também é verdade que há muita gente famosa a utilizar estes fármacos quando não necessita. E é ainda mais verdade que há um problema de controlo e distribuição dos fármacos em Portugal. No entanto, nesta fase (já quase não tão) inicial do fármaco, é importante não estigmatizá-lo. São uma classe farmacológica que precisa de ser ainda mais estudada, mas que já é uma poderosa arma terapêutica para doentes com diabetes, e que pode vir a ser uma arma ainda mais poderosa no combate à obesidade se estudada e prescrita de maneira livre de estereótipos e preconceitos. Claro que tudo isto seria mais aplicável num país com stock. Até lá, é continuar a procurar receitas caseiras.


Renato Martins

Referências: 

https://hospitalcruzvermelha.pt/agonistas-no-tratamento-da-diabetes/

https://www.infarmed.pt/web/infarmed/infarmed/-/journal_content/56/15786/10150386


quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Somos o que sentimos: saúde mental nos dias de hoje

outubro 10, 2024 0
Somos o que sentimos: saúde mental nos dias de hoje

 

A saúde mental é, desde sempre, um tema que levanta muitas questões à compreensão humana. Talvez por termos alguma dificuldade em perceber o que não vemos, ou pela falta de objetividade que lhe é inerente. O que sabemos sobre ela - apesar de ainda limitado - é muito mais do que há meia dúzia de décadas. As ideias diferem, e a especulação e desinformação agravam o panorama: hoje, analisamos a sua natureza e o impacto que tem nas nossas vidas.


Atualmente, mais de um em cada cinco portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica, o que nos coloca diretamente no segundo lugar do pódio europeu, liderado pela Irlanda do Norte. Entre as perturbações psiquiátricas, que representam 11,8% da carga global de doenças em Portugal (diretamente atrás das doenças cérebro-cardiovasculares e seguidas pelas doenças oncológicas), são as de ansiedade que têm a maior prevalência (16,5%).[1] 


E, de facto, quando olhamos para nós, a viver em empregos das 9h às 18h, inundados por redes sociais, à mercê do mercado capitalista e do ar poluído que oferecemos aos pulmões, não é difícil de imaginar que possamos estar sujeitos a efeitos colaterais.

Parece-nos uma epidemia geracional que não tem caminho de retorno. Dizem-nos que é de agora, que está na moda, que antigamente não era assim. Acusam-nos de falta de resiliência, de sensibilidade excessiva; prescrevem-nos autocontrolo. A verdade é que as perturbações do foro psiquiátrico sempre existiram - nós é que as vemos com outros olhos. 

Se, de facto, hoje em dia, já não recorremos a técnicas tão rudimentares como a trepanação, ou mesmo a lobotomia (uma das maiores trends ocidentais lançadas por Portugal nos anos 40), continuamos a ter pensamentos moderadamente ancestrais sobre a natureza destas doenças.[2] E é aqui que se impõe a necessidade de as vermos de fora, já que sempre estiveram cá. 


As histórias de familiares que “enlouqueceram”, que não toleravam ruídos altos e organizavam as meias por cores, que falavam sozinhos, que foram vítimas de suicídio, são demonstrações ativas de perturbações psiquiátricas que hoje sabemos chamar pelo nome, mas que na época eram motivo de estigma, agravado pela incompreensão.

Se uma fratura exposta não é “moda”, se um cancro pancreático não é uma tentativa de chamar atenção, por que motivo deve uma doença psiquiátrica ser menos digna de validação? À medida que evoluímos a nível psicossocial, e que implementamos uma visão mais tolerante daquilo que podemos ser, em alguns permanece um medo muito intrínseco de ser vulnerável, de demonstrar fraqueza. Que é, possivelmente, a raiz da questão. Se não nos permitimos ser humanos, não temos margem para melhorar. E a ideia de que a vulnerabilidade é um sinal de fraqueza está completamente virada ao contrário: quem não se expõe ao fogo tem a certeza de que não se vai queimar.


A 20 de agosto do ano passado entrou em vigor uma nova Lei de Saúde Mental, que vem substituir, por fim, a de 1998.[3]  Ao mesmo tempo, foi também lançado o Programa para a Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior, em parceria com a DGES, e com um orçamento de 12 milhões de euros.[4]  

Estamos numa maré de adaptação social, legislativa e cultural às consequências do nosso modo de vida. Temos ferramentas para o fazer, temos informação e temos propósito. Só nos falta coragem.

Carolina Troia



1. Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Perturbação Mental em Números 

https://www.sppsm.org/informemente/perturbacao-mental-em-numeros/ 

2. Mehta, Parang, What Is Lobotomy?. WebMD. 2022. https://www.webmd.com/brain/what-is-lobotomy 

3. XXIII Governo - República Portuguesa, Nova Lei de Saúde Mental: perguntas e respostas. 2023. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc23/comunicacao/noticia?i=nova-lei-de-saude-mental 

4. DGES, Programa para a Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior. 2024. https://www.dges.gov.pt/pt/noticia/programa-para-promocao-da-saude-mental-no-ensino-superior