segunda-feira, 28 de outubro de 2024
quinta-feira, 24 de outubro de 2024
“Semaglutida ou semaglutido, vendida sob as marcas Ozempic®, Wegovy® ou Rybelsus®, entre outras, é um medicamento usado para tratar diabetes tipo 2, obesidade e sobrepeso.” É isto que a Wikipedia nos diz sobre o medicamento que anda na boca do povo, vulgo, na boca do TikTok®: o Ozempic®. Mas a verdade é que, apesar desta simples, e fidedigna, definição, o Ozempic® tornou-se algo muito maior do que um simples medicamento. Todos têm uma opinião para dar sobre ele. Ou é porque as Kardashian usaram, porque a avó começou a tomar e já perdeu 10kg, porque a prima tentou comprar ilegalmente mas custava mais de 100 euros ou porque o pai que tem diabetes precisava de tomar, mas como não têm cunha na farmácia, não o consegue comprar.
Se pensarmos pragmaticamente, convenhamos, o Ozempic® não passa de mais um medicamento. É um medicamento efetivamente mediático mas, se nos começarmos a referir a ele como um agonista dos receptores da GLP-1, o mediatismo já se vai perdendo.
Atualmente estão disponíveis em Portugal pelo menos 4 medicamentos injetáveis desta classe farmacológica: o liraglutido, de administração diária, conhecido como Victoza®, o exenatido, de administração semanal, conhecido como Bydureon®, o dulaglutido, de administração semanal e conhecido como Trulicity®, e o nosso semaglutido, o mais conhecido de todos.
A verdade é que, apesar de estarem cotados pela comunidade leiga como polémicos, os análogos do GLP-1 são aceites pela comunidade médica como parte da abordagem terapêutica para a gestão de peso em pessoas com obesidade com comorbidades associadas. Assim, não seria mal pensado que todo o burburinho à volta dos mesmos, sobre ser ético ou não uma pessoa com obesidade utilizar estes medicamentos, talvez se devesse começar a basear em factos, e não apenas em opiniões de um médico tiktoker com preconceito face à obesidade.
Infelizmente, atualmente em Portugal, estes medicamentos encontram-se cronicamente esgotados. Sim, cronicamente esgotados. Não é desde ontem, nem desde da semana passada. Estão mesmo constantemente esgotados. Há anos. Tão esgotados que, em julho deste ano, o Infarmed teve de publicar uma circular normativa sobre a gestão da sua disponibilidade. Nesta circular normativa recomendou que “não fossem prescritos a doentes que não sejam diabéticos” e que “o início de novos tratamentos com agonistas do receptor da GLP-1 deve ser cuidadosamente ponderado face à escassez do abastecimento destes medicamentos e à existência de alternativas que não apresentam constrangimentos”.
Mas a questão que paira é: será que existem mesmo alternativas que não apresentam constrangimentos? Não me interpretem mal, eu percebo o que eles querem dizer, mas, se existe uma alternativa claramente superior, e esta não está disponível por stock, não será isso um constrangimento suficiente? Bom, o que é facto é que a gestão do seu stock é cada vez mais enviesada e pouco equitativa, o que definitivamente não coaduna com o conceito de saúde que gostamos de acreditar que Portugal ainda tem.
Como todos sabemos, o primeiro passo para o tratamento da Diabetes Mellitus tipo 2 são as famosas mudanças do estilo de vida, que passam pela atividade física e pela perda de peso. Os análogos dos receptores GLP-1 podem ser a alavanca que muitos doentes necessitam para atingir o controlo glicémico, melhorar a sua qualidade de vida e diminuir as complicações associadas ao mau controlo da doença.
Mas será que só mesmo as pessoas com Diabetes Mellitus tipo 2 é que beneficiariam de fármacos como estes? Ignorando todos os efeitos adversos e prejudiciais ao consumo de medicamentos sem supervisão médica, que já têm vindo a ser documentados, questiono aqueles que ainda são céticos face à sua utilização para a obesidade se não consideram que a adaptação destes fármacos, com respetivo ajuste de dose, para a perda de peso não poderia ser benéfica como método de prevenção da própria diabetes e como tratamento da doença que é a obesidade.
Todos sabemos que a diabetes tipo 2 é uma doença que resulta, em grande parte, mas não apenas, do estilo de vida dos doentes. Então, o que torna mais ético utilizar o fármaco para pessoas que já possuem a doença em detrimento daqueles que muito provavelmente virão a ter a doença? Ninguém defende que se deve começar a prescrever este tipo de medicamento à Dona Manuela que quer perder 3Kg para caber melhor no bikini este ano. Mas sim à Joana, uma jovem com 23 anos, um IMC de 37 Kg/m2, que quase não se consegue mexer, que está deprimida, sem coragem para conseguir ir ao ginásio e que já tentou de tudo e que, como tem uma patologia chamada obesidade, controlando ou não a alimentação, mantém-se inglória nesta luta, mesmo apesar do que todos lhe recomendam. É possível que a Joana ainda não tenha diabetes porque é nova e não tem fatores de risco familiares para a doença, mas quanto tempo é que acham que vai demorar até a Joana iniciar uma metformina?
É verdade que os análogos dos receptores da GLP-1 dão muito que falar. Também é verdade que há muita gente famosa a utilizar estes fármacos quando não necessita. E é ainda mais verdade que há um problema de controlo e distribuição dos fármacos em Portugal. No entanto, nesta fase (já quase não tão) inicial do fármaco, é importante não estigmatizá-lo. São uma classe farmacológica que precisa de ser ainda mais estudada, mas que já é uma poderosa arma terapêutica para doentes com diabetes, e que pode vir a ser uma arma ainda mais poderosa no combate à obesidade se estudada e prescrita de maneira livre de estereótipos e preconceitos. Claro que tudo isto seria mais aplicável num país com stock. Até lá, é continuar a procurar receitas caseiras.
Referências:
https://hospitalcruzvermelha.pt/agonistas-no-tratamento-da-diabetes/
https://www.infarmed.pt/web/infarmed/infarmed/-/journal_content/56/15786/10150386
quinta-feira, 10 de outubro de 2024
A saúde mental é, desde sempre, um tema que levanta muitas questões à compreensão humana. Talvez por termos alguma dificuldade em perceber o que não vemos, ou pela falta de objetividade que lhe é inerente. O que sabemos sobre ela - apesar de ainda limitado - é muito mais do que há meia dúzia de décadas. As ideias diferem, e a especulação e desinformação agravam o panorama: hoje, analisamos a sua natureza e o impacto que tem nas nossas vidas.
Atualmente, mais de um em cada cinco portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica, o que nos coloca diretamente no segundo lugar do pódio europeu, liderado pela Irlanda do Norte. Entre as perturbações psiquiátricas, que representam 11,8% da carga global de doenças em Portugal (diretamente atrás das doenças cérebro-cardiovasculares e seguidas pelas doenças oncológicas), são as de ansiedade que têm a maior prevalência (16,5%).[1]
E, de facto, quando olhamos para nós, a viver em empregos das 9h às 18h, inundados por redes sociais, à mercê do mercado capitalista e do ar poluído que oferecemos aos pulmões, não é difícil de imaginar que possamos estar sujeitos a efeitos colaterais.
Parece-nos uma epidemia geracional que não tem caminho de retorno. Dizem-nos que é de agora, que está na moda, que antigamente não era assim. Acusam-nos de falta de resiliência, de sensibilidade excessiva; prescrevem-nos autocontrolo. A verdade é que as perturbações do foro psiquiátrico sempre existiram - nós é que as vemos com outros olhos.
Se, de facto, hoje em dia, já não recorremos a técnicas tão rudimentares como a trepanação, ou mesmo a lobotomia (uma das maiores trends ocidentais lançadas por Portugal nos anos 40), continuamos a ter pensamentos moderadamente ancestrais sobre a natureza destas doenças.[2] E é aqui que se impõe a necessidade de as vermos de fora, já que sempre estiveram cá.
As histórias de familiares que “enlouqueceram”, que não toleravam ruídos altos e organizavam as meias por cores, que falavam sozinhos, que foram vítimas de suicídio, são demonstrações ativas de perturbações psiquiátricas que hoje sabemos chamar pelo nome, mas que na época eram motivo de estigma, agravado pela incompreensão.
Se uma fratura exposta não é “moda”, se um cancro pancreático não é uma tentativa de chamar atenção, por que motivo deve uma doença psiquiátrica ser menos digna de validação? À medida que evoluímos a nível psicossocial, e que implementamos uma visão mais tolerante daquilo que podemos ser, em alguns permanece um medo muito intrínseco de ser vulnerável, de demonstrar fraqueza. Que é, possivelmente, a raiz da questão. Se não nos permitimos ser humanos, não temos margem para melhorar. E a ideia de que a vulnerabilidade é um sinal de fraqueza está completamente virada ao contrário: quem não se expõe ao fogo tem a certeza de que não se vai queimar.
A 20 de agosto do ano passado entrou em vigor uma nova Lei de Saúde Mental, que vem substituir, por fim, a de 1998.[3] Ao mesmo tempo, foi também lançado o Programa para a Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior, em parceria com a DGES, e com um orçamento de 12 milhões de euros.[4]
Estamos numa maré de adaptação social, legislativa e cultural às consequências do nosso modo de vida. Temos ferramentas para o fazer, temos informação e temos propósito. Só nos falta coragem.
1. Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Perturbação Mental em Números
https://www.sppsm.org/informemente/perturbacao-mental-em-numeros/
2. Mehta, Parang, What Is Lobotomy?. WebMD. 2022. https://www.webmd.com/brain/what-is-lobotomy
3. XXIII Governo - República Portuguesa, Nova Lei de Saúde Mental: perguntas e respostas. 2023. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc23/comunicacao/noticia?i=nova-lei-de-saude-mental
4. DGES, Programa para a Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior. 2024. https://www.dges.gov.pt/pt/noticia/programa-para-promocao-da-saude-mental-no-ensino-superior
