setembro 2025 - Fusão

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Liberdade de expressão: uma nova realidade

setembro 30, 2025 1
Liberdade de expressão: uma nova realidade


 

 

                Atualmente, presencia-se cada vez mais atos de violência como forma de manifestação e revolta. Muitos chamam a isso liberdade de expressão e consideram-nos um direito que lhes deve ser concedido. Contudo, até que ponto é aceitável essa maneira de demonstrar as suas crenças?

          Desde o recente motim contra o governo do Nepal, relativamente ao bloqueio das redes sociais, até à morte de políticos assassinados por defenderem as suas convicções, observa-se uma onda crescente de criminalidade quando são abordados temas e ideias que chocam com certos valores. A justificação usada para impor atos de violência como defesa de uma causa é cada vez mais aceitável, levando a um mundo mais instável e inseguro. Os perigos da atualidade são cada vez mais imprevisíveis e difíceis de controlar.

          A verdadeira questão que se deve colocar é: esta aceitação da violência como reação e ato de revolta é uma forma de liberdade de expressão, ou uma pedra para construir um mundo de opressão e insegurança global? A globalização, extremamente benéfica para a economia, pode ser tanto um fator desencadeante para inspirar estes movimentos, como uma nova maneira de ver o que nos rodeia e de aceitar os outros.

Se a revolta atual significar que a justiça tem de ser feita através da destruição e das mortes, não estaremos a caminhar em direção a uma realidade onde o mundo será intolerante e perigoso? A violência não deve ser vista como forma de justiça quando há outras alternativas que envolvem conversar, entender e respeitar o ponto de vista dos outros. As mentalidades diferem de pessoa para pessoa, pelo que aceitar uma opinião divergente é essencial mesmo que não se concorde na totalidade.

Sendo assim, quanto mais se normalizar estas formas de manifestação, mais difícil será reverter este mecanismo de defesa, que nunca deve ser usado como primeiro recurso. É de extrema importância pensar que, como nós próprios, os outros têm direito a exprimir as suas opiniões e crenças de forma livre, como nós gostaríamos que fosse connosco.

Marta Ferreira



quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Fingir

setembro 25, 2025 2
Fingir


Estamos rodeados de informação. Para qualquer lugar que olhemos, informação invade e preenche a nossa cabeça: publicidade, notícias, avisos... Mas como sabemos o que é verdade e o que é importante? Infelizmente, não sabemos, porque quem apresenta essa informação é um fingidor. Já Fernando Pessoa escrevia que o poeta é um fingidor, mas podia ter ido mais longe, porque a realidade é que o Homem vive mais de metade do seu tempo a fingir. Mas o que é que o Homem finge e porquê? 

Fingir, segundo o dicionário português, é um verbo transitivo regular que significa inventar, fantasiar. O ser humano sempre foi um sonhador, apreciador de fantasia. Somos poetas, atores, escritores - imaginarmo-nos outras pessoas noutros locais é uma arte e uma maneira simples de fugir da realidade por meros momentos, mas, ao longo dos tempos, o Homem aperfeiçoou a arte do fingimento, aplicando-a ao seu dia a dia. Resta questionar o que é que isto traz para o indivíduo, e com esta questão encontrei várias respostas. 

Primeiro, o poder. O Homem é movido, muitas vezes, pela ideia de poder fundida na nossa História, nas guerras e batalhas perdidas. Atualmente, o Homem finge para obter a sensação de poder sobre os outros, para avançar na carreira, para ser apreciado. É um fingimento perigoso e que afeta todo o mundo, mas não considero que seja o mais perigoso de todos. Com isto, obviamente, surge a questão de como é que algo tão simples como fingir pode ser perigoso? Mas, afinal, quem é que nunca fingiu uma emoção? Quem é que nunca fingiu ser alguém diferente para se enquadrar? Até que ponto a pessoa que finge o consegue fazer sem se sentir uma farsa?

Em segundo lugar, é muito mais fácil aceitar uma felicidade fingida do que olhar mais fundo e encontrar um lugar escuro que precisa de ser iluminado. Muitos de nós sabemos que uma vítima de suicídio é geralmente alguém que ninguém esperava, isto porque “People don't fake depression, they fake being okay” — Abhysheq Shukla. Mas como é que os mais próximos não se apercebem e não distinguem os dois tipos de alegria? A questão que colocam normalmente nestas situações fixa-se na necessidade que estas pessoas sentem de fingir, esquecendo que é a sociedade que fomenta e
ssa necessidade. Afinal, quem quer ser amigo de uma pessoa triste? Quem quer trabalhar com uma pessoa desmotivada? Quem quer apreciar a natureza com alguém que não consegue ver as suas cores? Assim, a pessoa finge estar feliz, finge motivação e finge conseguir ver as cores do mundo. 

No entanto, ninguém consegue fingir para sempre: os políticos são apanhados nas mentiras, os soldados que lutam nas guerras perdidas começam a questionar o motivo pelo qual o fazem, o fingimento nas redes sociais é questionado pela realidade e deixa de ser possível fingir que se vê as cores, porque vermelho não é azul e nunca o será. E, quando a cortina cai, desmontam-se impérios, caem governos e saltam as pessoas para o esquecimento na tentativa de fugir ao fingimento. Por isso, quando olharem  à vossa volta, questionem-se sobre quem fez a publicidade, questionem por que é que o político quer aquela lei aprovada e, sobretudo, questionem se a pessoa ao vosso lado sorri porque é capaz de admirar a paleta da natureza ou porque não quer que as pessoas vejam o preto monótono da sua alma. 

Sara Castro


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

À conversa com... Eterna Covilhã

setembro 18, 2025 0
À conversa com... Eterna Covilhã


 A Covilhã, nossa eterna Cidade Neve, é rica em história e em cultura. A C’a Tuna Aos Saltos - Tuna Médica Feminina da Universidade da Beira Interior, orgulha-se em contribuir para esta tão importante riqueza imaterial. Eventos como o “Eterna Covilhã” são uma belíssima carta de agradecimento a esta segunda casa.

Comigo tenho a Catarina Castro, Magister, e a Beatriz Lago, Vice-Magister, que se disponibilizaram a responder a perguntas sobre o evento, que se vai realizar no próximo sábado, dia 20 de setembro, no Teatro Municipal da Covilhã.


Margarida Reis (Entrevistadora): Falem-me um pouco sobre vocês, e sobre o vosso cargo e percurso na C’a Tuna Aos Saltos.


Catarina Castro: Comecei como caloira, depois acabei por ser a responsável pela imagem. No ano a seguir tornei-me Vice-Magister e, este ano, sou a Magister (ou presidente) da agora Associação Recreativa e Cultural C’a Tuna aos Saltos. O meu papel é orientar os membros da Tuna e organizar diversas atividades, como o evento de que vamos falar hoje, e é com muito gosto que o faço.


Beatriz Lago: O meu nome é Beatriz. Sou a Vice-Magister. O meu trabalho passa um bocadinho pelo mesmo que o da Magister. Também tenho de organizar as atividades e as pessoas da Tuna, garantir que elas estão bem, física e mentalmente, e ajudar no que a Magister precisar.


M.R.: Qual é a vossa rotina antes de subirem ao palco? Têm alguma tradição?


C.C.: Costumamos reunir, aquecer a voz, encorajamo-nos umas às outras e revemos o que vamos fazer. Temos uma tradição mesmo antes de entrar. Basicamente, começamos a cantar muito baixinho, e vamos aumentando, aumentando, aumentando… É o nosso amuleto da sorte para cada atuação e faz com que ganhemos coragem.


B.L.: É dos momentos mais bonitos que temos. Surgiu de um dos nossos retiros, e agora fazemos isso antes de cada atuação. Dá uma motivação extra, especialmente nas semanas mais cansativas. Sentimo-nos alegres e confiantes. É uma tradição que passou de uma Anciã para uma Caloira que atualmente é Tuna, e que a passará no futuro.


M.R.: De que forma diriam que pertencer a esta tuna vos moldou enquanto pessoas? Quais consideram ser as principais vantagens de pertencer a uma tuna?


C.C.: A Tuna moldou-me muito. Adquirimos capacidades como organização e comunicação. Aprendemos, desenvolvemos mais a empatia e conseguimos perceber os outros e explicar a nossa opinião de forma mais fácil. Esta experiência deu-me aptidões que não teria ganho em qualquer outro lado. Há também o lado da diversão, animação e convívio, igualmente importante.


B.L.: Na minha perspetiva, sempre fui uma pessoa muito organizada, mas ansiosa com o estudo e as notas… A Tuna ajudou-me imenso a lidar com o stress. Além disso, ajudou-me na parte da comunicação, que é das mais importantes para mim. Agora, consigo falar facilmente em público e expressar os meus pontos de vista de forma mais adequada.


M.R.: A comunidade académica já foi informada de que, dia 20 de setembro, vai haver um evento especial na nossa Covilhã. Querem falar um pouco sobre este?


C.C.: Claro! Tudo começou porque, no ano passado, conseguimos passar de Núcleo a Associação e, com isso, vêm muitas responsabilidades, mas também muitas coisas boas. Queríamos ter um evento que simbolize este novo marco na nossa história e o nosso envolvimento com a comunidade da Covilhã e da Beira Interior - então vai estar centrado na nossa Cidade Neve, que nos acolhe durante tantos anos. Queremos trazer todo o tipo de artes: a dança, o teatro, a poesia e a música… e dar a conhecer a toda a gente.


M.R.: O que podemos esperar? O que distingue este espetáculo dos restantes?


B.L.: Temos algumas surpresas! Não queremos apenas mostrar a tão importante arte das Tunas, mas também outros artistas, que vêm alegrar a nossa Cidade Neve, dando-lhe renome e mostrando a sua riqueza cultural. Vale a pena vir e estar na Covilhã, uma casa tão acolhedora para nós todos.


C.C.: Também temos o gosto de ter connosco um dos nossos antigos professores, o Prof. Themudo Barata, que trouxe consigo o seu grupo, “Contar o Fado”, com guitarra portuguesa, baixo e guitarra clássica. No fundo, trazemos um pouco de casa à nossa casa.


M.R.: Qual consideram ter sido o vosso maior desafio na preparação deste evento?


C.C.: Em comparação com os eventos passados, não se trata tanto da logística geral, até porque contamos com a ajuda do teatro, mas sim de muito trabalho ao nível da parte burocrática, de licenças… Por sermos associação, é mais complicado. 


B.L.: Eu também iria por aí. Sendo uma novidade, estamos muito entusiasmadas, mas o facto de nunca ter sido feito deixa-nos um pouco “sem base”. Há muito trabalho por trás.


M.R.: Como foi o processo de seleção dos diversos participantes neste festival? 


C.C.: Para celebrarmos os diversos tipos de arte, decidimos focar-nos em cada uma. O que queremos da música? Trazer os nossos companheiros das tunas, porque achamos que faz sentido a sua representação no teatro. E da dança? A incrível Libellula Dance Company. Do teatro? A Saud’Arte, que vai fazer um ótimo trabalho. Também teremos as nossas Adufeiras da Casa do Povo do Paul, que serão uma fantástica adição a esta noite.


B.L.: E queremos trazer um pouco de nós, visto que é o nosso grande evento. Tendo como nome um original nosso, Eterna Covilhã, todas as gerações de solistas que cantaram este original serão chamadas a palco. Trazemos também o Tiago Bettencourt. Apesar de não ser da nossa terra, achamos que a sua forma de cantar e a sua presença em palco “mostram casa”, e é isso que queremos.


M.R.: Para terminar, gostaria de vos deixar um espacinho para deixarem um apelo à presença da comunidade académica!


C.C.: Convidamos todos a estarem presentes nesta noite tão especial para nós e para quem a vir. Vai ser uma noite repleta de dança, música, e muito mais. Espero que as pessoas se divirtam muito a ver o que a Covilhã tem para dar. Recebemos tanto dela durante o tempo em que nos acolhe, que ficar a conhecer um pouco mais a sua arte é muito importante. Espero ver muita gente no TMC, e que gostem tanto deste evento como nós!




segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Crónica de Verão - “Meu Querido Mês de Agosto”

setembro 01, 2025 0
Crónica de Verão - “Meu Querido Mês de Agosto”


“Meu querido mês de Agosto, por ti levo o ano inteiro a sonhar...” - podemos ouvir cantar em qualquer baile de verão, com o copo meio cheio e um pezinho de dança a acompanhar. Além da canção popular portuguesa, este é um título que pode encontrar em diversos artigos e crónicas de opinião de jornais, não fosse provavelmente o mês mais digno de inspiração literária.

Desde que há memória, quase todo o português tem um familiar ou conhecido emigrante que regressa a Portugal em agosto para dar vida à sua terra natal. As esplanadas enchem-se de famílias inteiras, retoma-se a frequência vocal elevada conterrânea, todos se cumprimentam na rua, mesmo que ninguém saiba bem quem é.

— Quem é aquele que nos acenou? — pergunta a criança.

— São primos do vizinho da tua avó, da França — responde o pai, com a naturalidade de quem já perdeu o fio às árvores genealógicas.


Pelas estradas e autoestradas de Portugal passeia uma enchente de matrículas europeias pertencentes a marcas de carros reluzentes, quais troféus conquistados longe daqui. O termo “domingueiro”, referente a todo aquele que conduz a não mais do que 40 km/h ao domingo após o almoço de família, apropria-se dos restantes dias da semana. As ruas voltam a estar cheias de carros estacionados à porta das casas.


As tainadas, essas, repetem-se como manda a lei: não há mãos a medir, o dinheiro do emigrante vem para ser investido na boa comida, boa bebida e boa cama. O tempo parece esticar-se, feito de tardes que não acabam e de noites que não têm pressa, entre conversas que lembram tempos passados e que se repetem todos os anos.


As festas populares reinam e, com elas, trazem a alegria dos convívios com as pessoas por quem se aguardou ansiosamente durante largos meses. Ao fundo, a música popular insiste, precedida de procissões que misturam fé e festa, unindo os mais velhos aos mais novos e enchendo-os de orgulho e sorrisos, ao som do “Apita o Comboio”. Abraços sentidos propagam-se, juras de um regresso definitivo ao país são lançadas para o ar, mas as lamentações sobre o estado da nação não escasseiam nunca. 



Para os mais jovens, agosto é sinónimo de férias prolongadas, uma oportunidade para rever amigos de longa data, fazer todas as atividades que se foram deixando por fazer, riscar a checklist de festivais de verão, uma promessa de amores breves. São dias para saborear o descanso que nunca serve verdadeiramente para recarregar energias. Para a classe operária, agosto também significa uma falsa sensação de descanso onde, apesar de muitos poderem finalmente silenciar o chat do grupo do trabalho, aproveitam as férias para tratar da bricolage que foi sendo adiada há meses. Outros cozinham não para cinco à mesa, mas antes para uma aldeia, e nenhum tira férias da educação a dar às crianças, ainda que numa praia paradisíaca às 9h da manhã. Já os nossos idosos, esses, encaram o mês como um reencontro, e muitos veem nele a oportunidade de um último adeus.


E no entanto, agosto não alude apenas às boas sensações. É também a ansiedade do fim que se aproxima: o regresso às aulas, ao trabalho ou à vida “real”. É o mês do perigo iminente de se dar por si novamente refém dos incêndios que lavram território nacional e, com ele, memórias e pertences.


Alguns dirão que agosto é para desgosto, outros que é azul e amarelo, talvez agridoce. Mas agosto é sobretudo nostalgia, é a sensação de que o tempo não passa, os dias são infindáveis, a brisa da tardinha aquece a alma e as noites quentes animam as conversas. Agosto é nunca saber o que o dia seguinte reserva, marcar finalmente a consulta em atraso, não ter horas para nada. Agosto é um brinde à amizade, é mês de saudade e de tudo o que é ser português.


Bruna Machado