Desde que há memória, quase todo o português tem um familiar ou conhecido emigrante que regressa a Portugal em agosto para dar vida à sua terra natal. As esplanadas enchem-se de famílias inteiras, retoma-se a frequência vocal elevada conterrânea, todos se cumprimentam na rua, mesmo que ninguém saiba bem quem é.
— Quem é aquele que nos acenou? — pergunta a criança.
— São primos do vizinho da tua avó, da França — responde o pai, com a naturalidade de quem já perdeu o fio às árvores genealógicas.
Pelas estradas e autoestradas de Portugal passeia uma enchente de matrículas europeias pertencentes a marcas de carros reluzentes, quais troféus conquistados longe daqui. O termo “domingueiro”, referente a todo aquele que conduz a não mais do que 40 km/h ao domingo após o almoço de família, apropria-se dos restantes dias da semana. As ruas voltam a estar cheias de carros estacionados à porta das casas.
As tainadas, essas, repetem-se como manda a lei: não há mãos a medir, o dinheiro do emigrante vem para ser investido na boa comida, boa bebida e boa cama. O tempo parece esticar-se, feito de tardes que não acabam e de noites que não têm pressa, entre conversas que lembram tempos passados e que se repetem todos os anos.
As festas populares reinam e, com elas, trazem a alegria dos convívios com as pessoas por quem se aguardou ansiosamente durante largos meses. Ao fundo, a música popular insiste, precedida de procissões que misturam fé e festa, unindo os mais velhos aos mais novos e enchendo-os de orgulho e sorrisos, ao som do “Apita o Comboio”. Abraços sentidos propagam-se, juras de um regresso definitivo ao país são lançadas para o ar, mas as lamentações sobre o estado da nação não escasseiam nunca.
Para os mais jovens, agosto é sinónimo de férias prolongadas, uma oportunidade para rever amigos de longa data, fazer todas as atividades que se foram deixando por fazer, riscar a checklist de festivais de verão, uma promessa de amores breves. São dias para saborear o descanso que nunca serve verdadeiramente para recarregar energias. Para a classe operária, agosto também significa uma falsa sensação de descanso onde, apesar de muitos poderem finalmente silenciar o chat do grupo do trabalho, aproveitam as férias para tratar da bricolage que foi sendo adiada há meses. Outros cozinham não para cinco à mesa, mas antes para uma aldeia, e nenhum tira férias da educação a dar às crianças, ainda que numa praia paradisíaca às 9h da manhã. Já os nossos idosos, esses, encaram o mês como um reencontro, e muitos veem nele a oportunidade de um último adeus.
E no entanto, agosto não alude apenas às boas sensações. É também a ansiedade do fim que se aproxima: o regresso às aulas, ao trabalho ou à vida “real”. É o mês do perigo iminente de se dar por si novamente refém dos incêndios que lavram território nacional e, com ele, memórias e pertences.
Alguns dirão que agosto é para desgosto, outros que é azul e amarelo, talvez agridoce. Mas agosto é sobretudo nostalgia, é a sensação de que o tempo não passa, os dias são infindáveis, a brisa da tardinha aquece a alma e as noites quentes animam as conversas. Agosto é nunca saber o que o dia seguinte reserva, marcar finalmente a consulta em atraso, não ter horas para nada. Agosto é um brinde à amizade, é mês de saudade e de tudo o que é ser português.
Bruna Machado


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