Guia de Sobrevivência para o Intercâmbio - Fusão

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Guia de Sobrevivência para o Intercâmbio

 


Conseguiste. Juntaste todos os pontos, foste a todas as atividades do MedUBI e da ANEM, fizeste voluntariado e desdobraste-te em atividades de representação estudantil, tudo para escolheres o teu país de intercâmbio. 

A primeira prova de fogo não é o voo, nem a língua, nem as saudades: chama-se consulta do Viajante. Raiva? Hepatites de A a Z? Quem é que vai apanhar febre tifoide na Europa do século XXI? Tu, aparentemente.

Chegas ao destino e rapidamente descobres que os estereótipos fazem parte de uma linguagem universal, e que somos conhecidos pelo Cristiano Ronaldo e pelo bacalhau e pelo nosso presidente que manda cachaços e tira selfies no Algarve. Portugal não é só sol e praia, o fado não se dança e não fazemos surf  todos os fins de semana.

E como explicar o que é a praxe a um estudante estrangeiro? É tipo um culto cheio de regras, mas mais alcoólico e menos coerente, mas é mais sobre sobre fazer parte de um grupo do que sobre as regras em si.

Uns dias depois começas o estágio. Se pensavas que até sabias alguma coisa de medicina, um hospital noutro sistema de saúde rapidamente te desilude. Os protocolos são diferentes, as hierarquias são diferentes, até a forma como se fazem alguns exames é diferente. Ainda assim, há uma estranheza boa em não saber quase nada, uma humildade que te faz mais curioso, mais atento, mais vivo.

No primeiro dia, sentes-te mais perdido que um peixe fora de água. No segundo, já percebes metade do que se passa. Na segunda semana, surpreendes-te a explicar como funcionam as coisas a um colega local. E é assim que percebes: a curva de aprendizagem aqui é quase vertical, mas cada dia te torna mais resiliente, mais adaptável, mais médico.
    
Almoças qualquer coisa que não sabes bem o que é, mas comes na mesma porque o pão tem bom aspeto e porque, afinal, a fome é o melhor tempero.

Sentes saudades da tua língua, mas também descobres o prazer de usar outras, mesmo que mal, mesmo que a gaguejar. Às vezes, a meio de uma frase, esqueces uma palavra. Ficas ali, de boca aberta, à procura do termo certo em inglês, em francês, em alemão, no que quer que seja.

Passas as tardes e os fins de semana em explorações e viagens, e pessoas de quatro países diferentes tornam-se a tua rede de apoio numa questão de semanas ou de dias.

No final, dás por ti com saudades de sítios que mal conheces, descobres que afinal “casa” é um conceito elástico, e que agora tens duas ou três portas onde bater, e em todas elas há alguém que pergunta: “when will you be back?”.

Alexandra Lourenço


Nota: Um obrigada especial à Beatriz, por ter sido a minha companheira nas aventuras do verão passado, e por me ter ajudado a explicar aos alemães que os portugueses são gente de poucas misturas e de ideias teimosas, que é como quem diz “bread bread, cheese cheese”.

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