junho 2023 - Fusão

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Legalização das Drogas

junho 09, 2023 0
Legalização das Drogas

 

A legalização das drogas é um tema a debater já há algumas décadas, sendo que há países como o Canadá, alguns estados dos EUA e a Holanda, que já enveredaram por essa lei. 

Importa, primeiramente, distinguir legalização e descriminalização. A legalização consiste em remover quaisquer sanções ou pena, seja criminal, seja administrativa, associada a uma certa ação. No caso, as drogas passavam a ser legais no seu consumo e produção. Já a descriminalização considera um ato (nas drogas, posse ou consumo) como contraordenação, mas não como crime. 

Em Portugal, desde 2001, rege a descriminalização. O consumo e posse de droga continua a ser legalmente proibido sendo que, o seu não cumprimento, constitui apenas uma violação administrativa e não criminal. Portugal opta assim pela norma “tratar em vez de punir”. 

    Mas afinal, quais os pros e contras da legalização das drogas? 

O direito à liberdade e autonomia de cada cidadão é visto por alguns como um ponto a favor desta lei, sendo que cada indivíduo deve ter oportunidade de acesso a estas substâncias, decidindo por si próprio o seu consumo. 

Também, há quem equipare o caso do álcool e tabaco às drogas. Sabe-se que as primeiras duas substâncias podem ter consequências muito nocivas para a saúde, causando doenças graves e dependência, tal como outras drogas. Assim, se o álcool e o tabaco são legais, o mesmo devia aplicar-se às substâncias psicoativas. 

Por outro lado, a legalização iria tornar o consumo mais controlado e fiscalizado, reduzindo a procura por drogas de alta potência, que têm riscos muito mais elevados para a saúde. No mesmo sentido, os carteis e os traficantes acabariam por se tornar obsoletos na medida em que quem quisesse consumir, já não teria de recorrer a estes, podendo optar por produtos de qualidade controlada. Reduzir-se-ia assim a criminalidade e a corrupção. 

A nível económico, podiam também existir vantagens, já que o consumo tributado, resulta num aumento da receita pública, pois passariam a existir impostos sobre o consumo e produção. 

    Denota-se assim vários pontos positivos, mas também há opiniões opositoras. 

Com a legalização das drogas receia-se o aumento do seu consumo, por parte de quem já o faz, e por quem nunca experimentou, dado o seu fácil acesso. Consequentemente, podia levar ao aumento do número de casos graves. 

Teme-se, também, que haja uma tendência para trivializar o consumo de drogas, considerando-o socialmente aceite e seguro, quando, na verdade, se sabe e está comprovado que existem sérios riscos na sua utilização. 

Por outro lado, existe uma preocupação de que a legalização, caso não exista à escala global, torne os países em que esta existe, zonas de “turismo de drogas”, provocando uma afluência maior de consumidores destas substâncias. 

Ainda, a via legal pode aumentar a atividade criminosa, na medida em que, se a legalização da produção e consumo de drogas acarretar elevados custos e impostos, haverá uma preferência pelo acesso ilegal que não acarretará esses importes. 

    Agora com as duas perspetivas expostas, quais terão sido os efeitos que Portugal teve ao optar pela descriminalização? 


Verificou-se um decréscimo no número de doenças e mortes relacionadas com o consumo de droga e, ainda, uma redução no consumo jovem. Além disso, o número de pessoas que procuram tratamento aumentou. 

Em 2018, o World Drug Report48, indicou um aumento do consumo problemático a nível mundial, referindo que, em Portugal, esse aumento apenas se verificou no grupo feminino e nas faixas etárias que compreendem os 25 e os 44 anos, sendo que no que respeita à maior parte das drogas, os valores mantiveram-se estáveis, tendo mesmo diminuído em alguns casos. Hoje, Portugal continua abaixo dos valores médios da Europa no que diz respeito às prevalências de consumo recente de droga, particularmente no que toca às três substâncias ilícitas com maiores prevalências (canábis, cocaína e ecstasy). 

Portugal, tornou-se assim, um exemplo a seguir pelos outros países, já que a descriminalização contribuiu para uma redução do consumo. Assim, será que é hora de passarmos à legalização? 

                                                                                                                            Escrito por Sara Bernardo

Referências 
• Catarino, L. (2020). A Legalização da Droga em Portugal Uma perspetiva da Administração Pública, Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/47945/1/ulfd145931_tese.pdf 
• Greenwald, G. (2009). Drug Decriminalization in Portugal: Lessons for Creating Fair and Successful Drug Policies, SSRN Electronic Journal. https://doi.org/10.2139/ssrn.1464837 
• Gillen, J. (2022). Pros and Cons of Legalising Drugs, Ocean Recovery Centre. https://oceanrecoverycentre.com/2022/11/pros-and-cons-of-legalising-drugs/#arguments-for-legalising-drugs 
• ‌Iniciativa Liberal (2023), Projeto de Lei n.º 735/XV/1.ª Legaliza a canábis. https://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf?path=6148523063484d364c793968636d356c6443397a6158526c63793959566b786c5a79394562324e31625756756447397a5357357059326c6864476c325953396d4f444d795a6a55784d69316b4e3251304c5451334d7a6374596a45784f53316b596a67324f5745314f47466d5a4449755a47396a65413d3d&fich=f832f512-d7d4-4737-b119-db869a58afd2.docx&Inline=true

terça-feira, 6 de junho de 2023

junho 06, 2023 0

Med’s Pop Culture

Qual será o impacto da cultura pop medicina? Numa sociedade tão timofílica como é a nossa, não há temas sagrados para os ávidos de lucro. Portanto, para tudo, todos e na sua totalidade, há um lugar reservado nas bancas. A nossa querida medicina, como pertencente à totalidade das coisas, também foi violentada, abusada, espremida e monetizada pelo setor do entretenimento. Que impacto poderá ter isso na maneira de olhar para a generalidade dos profissionais de saúde e o seu ‘’habitat’’? 

O que é a cultura Popular?


Por definição, a cultura popular é qualquer forma de entretenimento ou arte que é produzida pela e para a população. Portanto, para o podermos colocar dentro deste chavão, não só se destina a ser consumido pelas massas (e não apenas por um nicho muito restrito), como cumpre perfeitamente esse propósito. Ou seja, estamos a falar de um alcance à escala global. E o global, como é lógico, engloba desde pessoas altamente letradas e dotadas de espírito crítico, que colocam em perspetiva o entretenimento que consomem, até ao mais ingénuo, que religiosamente defende o que viu, ouviu e sentiu: ‘’os que não dão para mais’’, como se diz na gíria popular, para ser temático. 

E mantendo-me sempre alinhado com a pop culture, citando o ‘’Homem-Aranha’’, ‘’Com grande poder, vem grande responsabilidade’’, seria de exigir algum esforço por parte de toda a indústria que ousa vender a Medicina de forma tão barata, que pelo menos houvesse rigor no que transmitem de modo a não confundir os já tão confusos consumidores. 

Os meus pais, apercebendo-se, porventura, da minha  limitação, sempre tiveram cuidado em explicar com exemplos concretos todas as minhas dúvidas. Não se achem superiores, que vos vou fazer o mesmo.  

Pensem então comigo, um adolescente, cujo córtex pré-frontal está ainda moldável, incapaz de grande pensamento crítico, todas as segundas e quartas-feiras enquanto come o seu caldo-verde ao jantar, a ver anatomia de grey, onde a vida intra-hospitalar é mais drama e romance que médica, certamente irá ficar com uma ideia errada das lides hospitalares e poderá ter um comportamento evasivo destes, com medo do tratamento que receberá lá. Ou com vontade acrescida, há gostos para tudo.

Ou fenómenos como a exigência de tratamentos altamente específicos por parte dos doentes, porque viram ser usados num episódio de uma das inúmeras séries médicas, numa situação em nada semelhante à que se encontram. Mas como lhes falta literacia em saúde não conseguem aceitar a resposta negativa por parte do médico.

Ou onde o prejuízo recai no próprio doente, pois houve uma normalização de comportamentos abusivos e pouco profissionais como o nosso ilustre Dr. House. Médico omnisciente que pode levar à fabricação de uma narrativa de que os médicos têm de saber tudo… e na hora.. e sem recurso a exames adicionais. Ou acesso a informação errada pelos autointitulados médicos do TikTok.

                   


Tantos ‘’ou’s’’ possíveis…

Mas então é tudo mau?


Como testemunhamos inúmeras vezes, na história, raramente algo é exclusivamente bom ou exclusivamente mau. Oppenheimer e a sua bomba atómica, capazes de acabar uma guerra ou começar outra. Numa vertente mais bíblica, o prego constrói uma casa ou crucifica inocentes. Das primeiras grandes descobertas, o fogo, capaz de nos aquecer e enriquecer a comida, como desflorestar e matar. 

Como comecei por dizer, efetivamente, as redes sociais, os media e outras formas de entretenimento, pelo seu grande alcance, detêm um enorme poder. Pode ter uma influência negativa, manipuladora e oportunista ou ser capaz do bem e ter um papel formador e sensibilizador. 

Créditos a quem os merece, e se brinco com os episódios romantizados de ‘’Anatomia de Grey’’, também os prezo onde assim o acho merecedor. É uma série com staff médico constante nas gravações, com apoio a especialistas em tópicos específicos e baseado em casos reais, mesmo que abrilhantados para agarrar o telespectador. Para dar apoio estatístico, após um episódio que abordou uma temática sensível, a violação, a mensagem correta foi também passada da forma mais correta. Tanto que no dia seguinte à estreia do episódio, a associação RAINN, uma Organização de apoio a vítimas de incesto, exploração sexual e abuso, dos Estados Unidos, viu um aumento no número de chamadas de auxílio, em 43%. Não podemos fingir que é mera coincidência.  

Da mesma maneira que podemos também enumerar influencers digitais como o Dr. Mike Varshavsky, ou a Dr Pimple Popper que através de um método mais interativo e lúdico, captam o interesse das massas para temáticas médicas, sendo por isso grandes agentes da literacia em saúde.


Visto que está fora de questão fugir ao mote do século XXI, a pura rentabilidade, o que é que é necessário então para mantermos o bom e minimizar os efeitos adversos? Acima de tudo, e apesar de opinativo creio que será uma opinião universal: a informação médica veiculada convém ser rigorosa e verdadeira. Tendo esse pilar assente, e um outro que já não é da competência da indústria mas sim da sociedade como estrutura, - a questão de uma boa literacia em saúde e uma grande aposta na educação -, mais ou menos drama, mais ou menos aprofundado, mais ou menos humor, penso que será uma liberdade estilística do artista, que depois também já compete ao consumidor final fazer uma triagem (trocadilhos médicos não é o meu forte), do que é real ou puro entretenimento. 

E como não poderia desaproveitar a oportunidade, deixo a minha total disponibilidade para contratação a recibos-verdes para consultadoria médica para livros, filmes, séries, novelas ou até saraus culturais.  


 Escrito por Pedro Ferreira