novembro 2023 - Fusão

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Healing with Heart: Empathy in Healthcare

novembro 21, 2023 0
 Healing with Heart: Empathy in Healthcare


Vivemos numa sociedade global na qual o papel da tecnologia é inegável. No entanto, a comunicação continua a desempenhar um papel imprescindível no estabelecimento da relação médico-doente e consequente transmissão de informação entre estas entidades. 1

Sabe-se que existem determinados fatores que influenciam, não só o processo de cura, como todo o processo terapêutico, sendo a empatia um dos pilares de uma boa prática médica. Esta capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, partilhando os seus sentimentos, visões e perspetivas coloca-nos numa posição privilegiada para proporcionar ao doente um ambiente de conforto emocional, no qual haja abertura para transmitir informações sobre a sua doença, diagnóstico e prognóstico. Ao aliar a sua experiência clínica com as capacidades humanas, o médico consegue abordar o doente de uma forma holística, tendo em conta as suas necessidades, não só físicas, como também, mentais e espirituais. 1

O desenvolvimento desta capacidade de ser empático, respeitoso e digno, é de extrema importância na profissão médica, particularmente aquando da transmissão de notícias que irão impactar de forma negativa a vida de outrem. Uma má notícia pode ser compreendida como aquela que altera drástica e negativamente a perspetiva do paciente em relação ao seu futuro, perspetiva esta que depende do indivíduo em questão e do contexto psicossocial do mesmo. 1

Devido à complexidade inerente à necessidade de comunicar más notícias diversos autores desenvolveram guias que permitam aos profissionais de saúde e respetivas equipas, atuar neste momento de forma clara e organizada. Um dos protocolos de referência é o protocolo SPIKES, desenvolvido por Robert Buckman, que consiste em seis etapas cruciais no processo de transmissão de más notícias. 2,3

Tomemos como exemplo a transmissão da notícia de um diagnóstico de cancro incurável. Esta informação irá repercutir-se na saúde do doente a vários níveis, afetando drasticamente o seu bem estar físico, mental e espiritual, bem como, as suas perspetivas do futuro. Para além de serem forçados a assimilar as implicações do seu diagnóstico para a sua vida, os doentes são ainda confrontados com uma série de decisões que devem ser tomadas num curto espaço de tempo. 2

O impacto do momento da transmissão de más notícias é notório naqueles que as recebem, sendo que os doentes, frequentemente, reportam emoções fortes como ansiedade e sentimentos depressivos. Para além disto, existe evidência crescente que o corpo reage ao stress emocional, e que as emoções e pensamentos negativos, podem ativar o sistema nervoso simpático, e consequentemente provocar uma resposta “fight-flight” deixando o corpo fisiologicamente preparado para uma situação de fuga. Esta resposta impacta, também, a memória face à informação fornecida, pelo que 40 a 80% dos pacientes têm problemas em recordar a informação previamente transmitida. 2 O “emotional arousal” resultante da transmissão de más notícias, promove que o foco da atenção esteja centrado na fonte do estímulo, diminuindo o processamento dos detalhes secundários. Em termos práticos, isto pode significar que o doente terá mais facilidade em recordar-se da informação que lhe foi transmitida sobre o diagnóstico e prognóstico, a denominada informação central, do que da informação sobre as opções terapêuticas, efeitos secundários e implicações para a vida no futuro. 2

Este fenómeno vem corroborar a relevância do estabelecimento de uma próxima relação médico-doente, uma vez que a tomada de decisão vai estar comprometida pelo viés emocional e afetação da própria memória. 2

Segundo Adler uma comunicação efetiva tem a capacidade de diminuir o “physiological arousal” e, consequentemente, de aumentar a “information recall”. Através da criação de uma atmosfera positiva, na qual haja uma relação de confiança e suporte, pode haver uma redução dos níveis de stress, a qual irá contribuir para a melhoria do estado físico e mental do doente. 2



                                                    


      Referências Bibliográficas:


  1. Victorino AB, Nisenbaum EB, Gibello J, Bastos MZN, Andreoli PBA. Como comunicar más noticias: revisão bibliográfica. Revista da SBPH [Internet]. 2007 Jun 1;10(1):53–63. Available from: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-08582007000100005


  1. Sep MSC, van Osch M, van Vliet LM, Smets EMA, Bensing JM. The power of clinicians’ affective communication: How reassurance about non-abandonment can reduce patients’ physiological arousal and increase information recall in bad news consultations. An experimental study using analogue patients. Patient Education and Counseling. 2014 Apr;95(1):45–52.

  2. 3. Bukowski H, Sweeney C, Bennett D, Rizzo G, O’Tuathaigh CMP. Medical student empathy and breaking bad news communication in a simulated consultation. Patient Education and Counseling. 2021 Sep;

                                                                                                    Por Catarina Gomes Gonçalves


terça-feira, 14 de novembro de 2023

Substituição de Válvulas Cardíacas

novembro 14, 2023 0
Substituição de Válvulas Cardíacas




As válvulas cardíacas podem sofrer alterações que interferem com a sua normal abertura, dificultando a passagem de sangue – estenose valvular – ou que impeçam o seu encerramento por completo e haja regurgitação – insuficiência valvular. Estes problemas são causados essencialmente por defeitos congénitos, febre reumática, infeções e causas degenerativas dos tecidos relacionadas com o envelhecimento. As válvulas mais frequentemente atingidas são a aórtica e a mitral. A válvula tricúspide é a menos vezes implicada.

Para solucionar estas situações, recorre-se a procedimentos cirúrgicos, através da substituição ou reparação da válvula danificada. Quando é necessária a substituição, esta é feita utilizando uma prótese que pode ser mecânica ou biológica. As indicações para a escolha do tipo de prótese dependem das características do paciente, sendo que as próteses mecânicas são implantadas geralmente em doentes novos em que a esperança de vida é elevada, implicando a realização de uma terapêutica anticoagulante durante toda a vida; as próteses biológicas têm a grande vantagem de não requererem anticoagulantes, porém, têm uma duração limitada – 10 a 15 anos;

Existe também o procedimento de Ross, que consiste em mover a válvula saudável para a posição da válvula danificada e substituir a válvula “emprestada” por uma nova, o procedimento TAVI (transcatheter aortic valve implantation), entre outros mais recentes. No TAVI uma nova válvula é colocada no lugar da válvula afetada através de um pequeno cateter de uma maneira muito menos invasiva que a cirurgia convencional (que implica a abertura total do tórax e exposição do coração) no tratamento da estenose aórtica. Habitualmente, a válvula é introduzida através de um pequeno orifício (1cm) na virilha do paciente, existindo outras alternativas como a artéria subclávia, um espaço entre as costelas (transaórtico), ou o ápice do coração (transapical).

No que toca a riscos e complicações, como em qualquer procedimento cirúrgico, também podem ocorrer. Os mais frequentes são a hemorragia e a infeção, que não ultrapassam, na maioria dos casos, os 5%. Outras complicações como arritmias, AVC e mortalidade são baixas, inferiores a 2-3%, e muito dependentes do estado pré-operatório do paciente.


Referências:

- Cirurgia valvular. (2017). Paulo Neves. 

https://cirurgiacardiaca.org/cirurgia-valvular/

- Options for Heart Valve Replacement. (2016). American Heart Association.

https://www.heart.org/en/health-topics/heart-valve-problems-and-disease/understanding-your-heart-valve-treatment-options/options-for-heart-valve-replacement

‌- Tratamento Transcateter (TAVI). (2019). Gaia, Dr. Diego.

https://www.drdiegogaia.com.br/tratamento-transcateter


                                                                                                                                Por Sara Bernardo


quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Investigação, sim ou não?

novembro 09, 2023 0
Investigação, sim ou não?

O meu nome é Pedro Ferreira, aluno do 6ºano do mestrado integrado em medicina. E, portanto, refém da tese de mestrado, ou dissertação, como preferirem chamar, obrigatória para todos os que tencionam acabar este curso.

Para substrato desta tarefa não menos que hercúlea, decidi arriscar num projeto de investigação. Caso seja do vosso interesse, deixo-vos com o meu testemunho, com a ressalva de que cada pessoa é diferente e cada projeto é único, não há significância estatística para extrapolar as minhas experiências para as vossas.

 

Para começar, eu tive uma sorte que a maioria de vocês não terá, caso decidam fazer também um projeto de investigação. O meu foi-me proposto. Uma criatura mitológica do meu ano de faculdade, que intimida alguns e bajula outros, apresentou-me uma ideia demasiado ambiciosa, já conversada com docentes, já estruturada, ou seja, uma ideia com pernas para andar. Ideia essa que deliberei. À luz do que sei hoje, provavelmente não tão bem deliberado como devia ter sido, e na altura aceitei. Éramos então 5 jovens investigadores, dispostos a percorrer todos os lares do enorme concelho do Sabugal, em missão para desenhar 5 temas diferentes, um para cada logicamente, dentro do mesmo projeto de investigação. Ao fim de muitos meses e muitas retificações, conseguimos aprontar tudo. Inquéritos extensíssimos, para termos material para as 5 teses, apresentações feitas e estudadas para convencer a câmara do Sabugal e os respectivos diretores e presidentes de lares do concelho, a nos abrirem as portas, e uma calendarização provisória de quando iríamos realizar o trabalho de campo tão ansiado. Parecia tudo encaminhado…

 

Mas como é natural em tudo o que é devidamente acautelado e preparado, nada corre como esperamos. Desde adiamentos recorrentes da sessão de apresentação aos lares, direções de lares que estavam muito relutantes em dar o seu consentimento, a logística muito complicada de conciliar 5 horários pessoais, de 5 estudantes completamente diferentes uns dos outros, com as disponibilidades dos lares, e a recolha de dados pendentes, via telefónica ou e-mail, onde é preciso insistência, paciência e soft skills de comunicação, como qualquer bom operador da telecom.

 

Mas vocês estão a ler isto certamente para retirar algo de útil para as vossas vidas e não apenas com fins humorísticos, ao me ver lamuriar. Portanto, tentando seguir uma ordem que vos faça sentido, alerto para…

 

Começar cedo, este é sem dúvida o aspecto mais importante. Um projeto de investigação requer imensas burocracias. Começando com a óbvia escolha de tema, escolha de dados que vais querer estudar e relacionar, elaboração de inquéritos ou meios de recolha de dados, consentimentos e respectiva aprovação por comitê de ética de toda a documentação e proposta de trabalho. Esta é a fase mais maleável, de lápis e borracha na mão, onde vão ser feitas muitas alterações durante todo o processo, e isso envolve tempo, portanto quanto mais cedo te decidires e lançares ao desafio, melhor. Nem todos os projetos têm a mesma dimensão e nem todas as pessoas trabalham ao mesmo ritmo, logo não há datas absolutas nem fórmulas mágicas, mas quanto mais pessoas envolvidas, ao contrário do que se espera, mais tempo demora. A idade da parvoeira não acaba aos 18, e lidar com egos, agendas e vontades de terceiros é incrivelmente desafiante.

 

Em linha com a última informação, caso seja um projeto coletivo, escolhe uma equipa com que te identifiques a nível de trabalho e que sintas que tem as mesmas prioridades e previsões que tu. Nem sempre serão os teus amigos do dia-a-dia, levar assuntos pessoais para um ambiente de trabalho geralmente dá asneira. Definam prazos limite (útil para todos os projetos de investigação e todos os processos de escrita de uma tese), e uma distribuição de tarefas mais equitativa. Como já referi, o ritmo de trabalho não é igual entre todos, e haverá sempre quem tenha mais disponibilidade para trabalhar, no entanto, tentar manter a divisão de tarefas o mais equilibrada possível parece-me benéfico para o ânimo da equipa. Se notarem grandes disparidades entre os resultados apresentados entre cada um dos elementos, sentem-se à mesa, comuniquem sem julgamentos e tentem perceber porquê, podem ter conselhos que possam partilhar para auxílio do colega de trabalho, uma vez que neste caso, a eficiência dos outros, é também a vossa eficiência. Estão todos para o mesmo fim.

 

Compromisso! São processos longos e cansativos. Provavelmente terás de sacrificar bastante para arranjares disponibilidade para a recolha dos dados. Poderás perder fins de semana, férias de verão, viagens com amigos, tudo depende das prioridades que defines. Vais ter vontade de lançar a toalha ao chão, mas lembra-te do compromisso inicial e não te esqueças que nunca é apenas prejuízo.

Com esta conversa sinto que vos estou a demover de fazer algo mais ousado, mas pelo contrário. Quero que o façam, mas prefiro que não se percam a meio e acautelem muita coisa logo à priori!  Na minha ótica, existem mais razões a favor de o fazeres do que contra. Á cabeça tens o óbvio, currículo. Fica bonito na tua página de linkedin, é verdade. Mas isso é insignificante quando comparado com o resto.

 

Um projeto de investigação numa área que realmente gostes, vai ser mais recompensante do que inicialmente julgas. Aqui mais orientado para projetos que envolvem contacto social, para um estudante de medicina, quase sempre tutelado por alguém, e a mando da hierarquia natural dos serviços que frequenta, ao estares livre e independente, vai te obrigar a ganhar outra desenvoltura, um outro à vontade que vai ser útil quer para a tua futura vida clínica como para a vida pessoal. A minha experiência, com este projeto, e em particular no trabalho de campo, este Verão dava um livro, não escrito por mim obviamente, já conseguem perceber por esta amostra de texto, quão mal isso correria, mas de facto, atuar em meio clínico, sozinhos ou com pares, quando temos 20 e poucos anos, muito verdes a nível emocional e do que é a vida, de um grosso modo, é um valor impagável. Ouvimos histórias, recebemos conselhos, dão-nos raspanetes, ajudam, sorriem, agradecem e reconhecem. Abraçam, choram, pedem e oferecem, vocês sentem e são sentidos.

Como diz a gíria, ‘’quem corre por gosto não cansa’’. Sei eu quão desprovido de veracidade, isto é, mas do cansaço recupera-se, e as memórias e capacidades, essas ficam.

 

A comunidade científica precisa de pessoas proativas e arrojadas. O progresso somos todos nós e é para todos nós! 

 


                                                                                                                                          Por Pedro Ferreira