Vivemos numa sociedade global na qual o papel da tecnologia é inegável. No entanto, a comunicação continua a desempenhar um papel imprescindível no estabelecimento da relação médico-doente e consequente transmissão de informação entre estas entidades. 1
Sabe-se que existem determinados fatores que influenciam, não só o processo de cura, como todo o processo terapêutico, sendo a empatia um dos pilares de uma boa prática médica. Esta capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, partilhando os seus sentimentos, visões e perspetivas coloca-nos numa posição privilegiada para proporcionar ao doente um ambiente de conforto emocional, no qual haja abertura para transmitir informações sobre a sua doença, diagnóstico e prognóstico. Ao aliar a sua experiência clínica com as capacidades humanas, o médico consegue abordar o doente de uma forma holística, tendo em conta as suas necessidades, não só físicas, como também, mentais e espirituais. 1
O desenvolvimento desta capacidade de ser empático, respeitoso e digno, é de extrema importância na profissão médica, particularmente aquando da transmissão de notícias que irão impactar de forma negativa a vida de outrem. Uma má notícia pode ser compreendida como aquela que altera drástica e negativamente a perspetiva do paciente em relação ao seu futuro, perspetiva esta que depende do indivíduo em questão e do contexto psicossocial do mesmo. 1
Devido à complexidade inerente à necessidade de comunicar más notícias diversos autores desenvolveram guias que permitam aos profissionais de saúde e respetivas equipas, atuar neste momento de forma clara e organizada. Um dos protocolos de referência é o protocolo SPIKES, desenvolvido por Robert Buckman, que consiste em seis etapas cruciais no processo de transmissão de más notícias. 2,3
Tomemos como exemplo a transmissão da notícia de um diagnóstico de cancro incurável. Esta informação irá repercutir-se na saúde do doente a vários níveis, afetando drasticamente o seu bem estar físico, mental e espiritual, bem como, as suas perspetivas do futuro. Para além de serem forçados a assimilar as implicações do seu diagnóstico para a sua vida, os doentes são ainda confrontados com uma série de decisões que devem ser tomadas num curto espaço de tempo. 2
O impacto do momento da transmissão de más notícias é notório naqueles que as recebem, sendo que os doentes, frequentemente, reportam emoções fortes como ansiedade e sentimentos depressivos. Para além disto, existe evidência crescente que o corpo reage ao stress emocional, e que as emoções e pensamentos negativos, podem ativar o sistema nervoso simpático, e consequentemente provocar uma resposta “fight-flight” deixando o corpo fisiologicamente preparado para uma situação de fuga. Esta resposta impacta, também, a memória face à informação fornecida, pelo que 40 a 80% dos pacientes têm problemas em recordar a informação previamente transmitida. 2 O “emotional arousal” resultante da transmissão de más notícias, promove que o foco da atenção esteja centrado na fonte do estímulo, diminuindo o processamento dos detalhes secundários. Em termos práticos, isto pode significar que o doente terá mais facilidade em recordar-se da informação que lhe foi transmitida sobre o diagnóstico e prognóstico, a denominada informação central, do que da informação sobre as opções terapêuticas, efeitos secundários e implicações para a vida no futuro. 2
Este fenómeno vem corroborar a relevância do estabelecimento de uma próxima relação médico-doente, uma vez que a tomada de decisão vai estar comprometida pelo viés emocional e afetação da própria memória. 2
Segundo Adler uma comunicação efetiva tem a capacidade de diminuir o “physiological arousal” e, consequentemente, de aumentar a “information recall”. Através da criação de uma atmosfera positiva, na qual haja uma relação de confiança e suporte, pode haver uma redução dos níveis de stress, a qual irá contribuir para a melhoria do estado físico e mental do doente. 2
Referências Bibliográficas:
Victorino AB, Nisenbaum EB, Gibello J, Bastos MZN, Andreoli PBA. Como comunicar más noticias: revisão bibliográfica. Revista da SBPH [Internet]. 2007 Jun 1;10(1):53–63. Available from: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-08582007000100005
Sep MSC, van Osch M, van Vliet LM, Smets EMA, Bensing JM. The power of clinicians’ affective communication: How reassurance about non-abandonment can reduce patients’ physiological arousal and increase information recall in bad news consultations. An experimental study using analogue patients. Patient Education and Counseling. 2014 Apr;95(1):45–52.
3. Bukowski H, Sweeney C, Bennett D, Rizzo G, O’Tuathaigh CMP. Medical student empathy and breaking bad news communication in a simulated consultation. Patient Education and Counseling. 2021 Sep;
Por Catarina Gomes Gonçalves
