Investigação, sim ou não? - Fusão

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Investigação, sim ou não?

O meu nome é Pedro Ferreira, aluno do 6ºano do mestrado integrado em medicina. E, portanto, refém da tese de mestrado, ou dissertação, como preferirem chamar, obrigatória para todos os que tencionam acabar este curso.

Para substrato desta tarefa não menos que hercúlea, decidi arriscar num projeto de investigação. Caso seja do vosso interesse, deixo-vos com o meu testemunho, com a ressalva de que cada pessoa é diferente e cada projeto é único, não há significância estatística para extrapolar as minhas experiências para as vossas.

 

Para começar, eu tive uma sorte que a maioria de vocês não terá, caso decidam fazer também um projeto de investigação. O meu foi-me proposto. Uma criatura mitológica do meu ano de faculdade, que intimida alguns e bajula outros, apresentou-me uma ideia demasiado ambiciosa, já conversada com docentes, já estruturada, ou seja, uma ideia com pernas para andar. Ideia essa que deliberei. À luz do que sei hoje, provavelmente não tão bem deliberado como devia ter sido, e na altura aceitei. Éramos então 5 jovens investigadores, dispostos a percorrer todos os lares do enorme concelho do Sabugal, em missão para desenhar 5 temas diferentes, um para cada logicamente, dentro do mesmo projeto de investigação. Ao fim de muitos meses e muitas retificações, conseguimos aprontar tudo. Inquéritos extensíssimos, para termos material para as 5 teses, apresentações feitas e estudadas para convencer a câmara do Sabugal e os respectivos diretores e presidentes de lares do concelho, a nos abrirem as portas, e uma calendarização provisória de quando iríamos realizar o trabalho de campo tão ansiado. Parecia tudo encaminhado…

 

Mas como é natural em tudo o que é devidamente acautelado e preparado, nada corre como esperamos. Desde adiamentos recorrentes da sessão de apresentação aos lares, direções de lares que estavam muito relutantes em dar o seu consentimento, a logística muito complicada de conciliar 5 horários pessoais, de 5 estudantes completamente diferentes uns dos outros, com as disponibilidades dos lares, e a recolha de dados pendentes, via telefónica ou e-mail, onde é preciso insistência, paciência e soft skills de comunicação, como qualquer bom operador da telecom.

 

Mas vocês estão a ler isto certamente para retirar algo de útil para as vossas vidas e não apenas com fins humorísticos, ao me ver lamuriar. Portanto, tentando seguir uma ordem que vos faça sentido, alerto para…

 

Começar cedo, este é sem dúvida o aspecto mais importante. Um projeto de investigação requer imensas burocracias. Começando com a óbvia escolha de tema, escolha de dados que vais querer estudar e relacionar, elaboração de inquéritos ou meios de recolha de dados, consentimentos e respectiva aprovação por comitê de ética de toda a documentação e proposta de trabalho. Esta é a fase mais maleável, de lápis e borracha na mão, onde vão ser feitas muitas alterações durante todo o processo, e isso envolve tempo, portanto quanto mais cedo te decidires e lançares ao desafio, melhor. Nem todos os projetos têm a mesma dimensão e nem todas as pessoas trabalham ao mesmo ritmo, logo não há datas absolutas nem fórmulas mágicas, mas quanto mais pessoas envolvidas, ao contrário do que se espera, mais tempo demora. A idade da parvoeira não acaba aos 18, e lidar com egos, agendas e vontades de terceiros é incrivelmente desafiante.

 

Em linha com a última informação, caso seja um projeto coletivo, escolhe uma equipa com que te identifiques a nível de trabalho e que sintas que tem as mesmas prioridades e previsões que tu. Nem sempre serão os teus amigos do dia-a-dia, levar assuntos pessoais para um ambiente de trabalho geralmente dá asneira. Definam prazos limite (útil para todos os projetos de investigação e todos os processos de escrita de uma tese), e uma distribuição de tarefas mais equitativa. Como já referi, o ritmo de trabalho não é igual entre todos, e haverá sempre quem tenha mais disponibilidade para trabalhar, no entanto, tentar manter a divisão de tarefas o mais equilibrada possível parece-me benéfico para o ânimo da equipa. Se notarem grandes disparidades entre os resultados apresentados entre cada um dos elementos, sentem-se à mesa, comuniquem sem julgamentos e tentem perceber porquê, podem ter conselhos que possam partilhar para auxílio do colega de trabalho, uma vez que neste caso, a eficiência dos outros, é também a vossa eficiência. Estão todos para o mesmo fim.

 

Compromisso! São processos longos e cansativos. Provavelmente terás de sacrificar bastante para arranjares disponibilidade para a recolha dos dados. Poderás perder fins de semana, férias de verão, viagens com amigos, tudo depende das prioridades que defines. Vais ter vontade de lançar a toalha ao chão, mas lembra-te do compromisso inicial e não te esqueças que nunca é apenas prejuízo.

Com esta conversa sinto que vos estou a demover de fazer algo mais ousado, mas pelo contrário. Quero que o façam, mas prefiro que não se percam a meio e acautelem muita coisa logo à priori!  Na minha ótica, existem mais razões a favor de o fazeres do que contra. Á cabeça tens o óbvio, currículo. Fica bonito na tua página de linkedin, é verdade. Mas isso é insignificante quando comparado com o resto.

 

Um projeto de investigação numa área que realmente gostes, vai ser mais recompensante do que inicialmente julgas. Aqui mais orientado para projetos que envolvem contacto social, para um estudante de medicina, quase sempre tutelado por alguém, e a mando da hierarquia natural dos serviços que frequenta, ao estares livre e independente, vai te obrigar a ganhar outra desenvoltura, um outro à vontade que vai ser útil quer para a tua futura vida clínica como para a vida pessoal. A minha experiência, com este projeto, e em particular no trabalho de campo, este Verão dava um livro, não escrito por mim obviamente, já conseguem perceber por esta amostra de texto, quão mal isso correria, mas de facto, atuar em meio clínico, sozinhos ou com pares, quando temos 20 e poucos anos, muito verdes a nível emocional e do que é a vida, de um grosso modo, é um valor impagável. Ouvimos histórias, recebemos conselhos, dão-nos raspanetes, ajudam, sorriem, agradecem e reconhecem. Abraçam, choram, pedem e oferecem, vocês sentem e são sentidos.

Como diz a gíria, ‘’quem corre por gosto não cansa’’. Sei eu quão desprovido de veracidade, isto é, mas do cansaço recupera-se, e as memórias e capacidades, essas ficam.

 

A comunidade científica precisa de pessoas proativas e arrojadas. O progresso somos todos nós e é para todos nós! 

 


                                                                                                                                          Por Pedro Ferreira

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