junho 2024 - Fusão

quinta-feira, 27 de junho de 2024

A causa animal: Uma luta de todos

junho 27, 2024 0
A causa animal: Uma luta de todos

 


           Estás a passear pela Covilhã. De repente, vês um cachorro abandonado. Vem cumprimentar-te, abanando a cauda. Não podes ficar com ele para sempre, mas queres ajudá-lo. Ou, então, estás na tua casinha e queres mesmo ter uma companhia animal por algum tempo, talvez um gatinho: até já ouviste dizer que ter um bicho por perto alivia o stress. Mas, por algum motivo, não podes adotar. Ou, simplesmente, queres ajudar animais em situação de risco, sem casa e, por enquanto, sem a sua família perfeita. O que fazes?

Felizmente, cá na Covilhã, temos três instituições responsáveis por ajudar os animais em situação de risco: A NOA, a INSTINTO, e a Shelter 4 Life.


NOA - Nós os Animais

Instagram: @nos.os.animais

MB Way: 963 497 068

IBAN: IBAN PT50 0018 0000 4016 2862 0017 7


A instituição “Nós os Animais”, NOA foi criada oficialmente há 2 anos, mas o seu conjunto de incríveis voluntários já atuava anteriormente. De momento, são 11 pessoas, contando ainda com a ajuda de mais alguns voluntários que auxiliam em situações específicas. Entrevistámos uma das voluntárias desta instituição para tentarmos compreender melhor o seu funcionamento.


É possível voluntariarmo-nos? De que forma?

A NOA precisa sempre do máximo de ajuda possível, pelo que basta mandar uma mensagem através das redes sociais e rapidamente serão atribuídas tarefas, como auxiliar no BSA (banco solidário animal) nos supermercados, levar animais das FATs (famílias de acolhimento temporário) às clínicas e vice-versa, auxiliar na “captura” de um animal em risco, gerir as redes sociais, entre outros. 


Como podemos ajudar?

Através de bens materiais, nomeadamente ração, caixas de areia, transportadoras, comedouros, etc., entregues em locais como o posto da GALP e a loja Quatro Patas.

Também é importante o apoio financeiro. A NOA tem dívidas veterinárias bastante avultadas a pagar, pelo que qualquer ajuda faz a diferença.


Para que são usadas as doações feitas à vossa instituição?

As doações monetárias são principalmente usadas para o pagamento de dívidas veterinárias (animais feridos, cirurgias, vacinação, entre outros), sendo também usadas, quando necessário, para comprar bens como ração, que por vezes tem de ser específica para animais doentes, comprados na loja Quatro Patas, parceira da NOA. Caso seja especificado na doação, o dinheiro tem o propósito indicado por quem doa.


Têm um local para manterem os animais, ou funcionam através de FATs?

    A NOA não tem um espaço físico, pelo que os animais abrigados por esta instituição se encontram em FATs. Há um grupo de pessoas com um grande coração que recebem animais sempre que necessário. Ser FAT é, obviamente, uma forma de ajudar, sendo que estas não têm qualquer despesa por acolherem os animais - todas as necessidades alimentares, de areia, de transportadoras e veterinárias são cobertas pela NOA. Há vários estudantes que são FATs, encarregando-se de ficar com animais doentes que recuperam de atropelamentos, infeções, entre outros. Estes podem tornar-se tão meigos que se torna difícil devolvê-los à rua, ficando para adoção. Infelizmente, poucas pessoas querem adotar animais adultos ou doentes. 

    Muitas vezes, são recolhidas grávidas que têm os seus filhotes na segurança das FATs, onde ficam até serem adotados. Nos últimos 3 meses, a NOA teve cerca de 37 bebés, com 5 mães gestantes recolhidas da rua e alguns aparecendo sozinhos, recolhidos do lixo... 


Ainda há animais por adotar?

    Ainda há alguns bebés por adotar, podendo ser consultadas as redes sociais ou enviando mensagem privada para a NOA para mais informações. Também contam, ainda, com animais adultos. A NOA tem três cães seniores que se encontram em FATs, mas acredita que chegará o tempo em que serão adotados. Infelizmente, não têm tido sucesso,  devido à sua idade avançada e patologias existentes.


A NOA confessa que tem um trabalho difícil, mas que conta com a ajuda de cada vez mais pessoas. Deixa, ainda, uma mensagem de gratidão a todos aqueles que conseguirem ajudar!

Nós os Animais


SHELTER 4 LIFE

Instagram: @shelter4life

MB Way: 965 110 569

IBAN: PT50 0036 0011 991000 59382 04 

Site: https://www.shelter4life.pt/


       “A "Shelter 4 Life" é uma associação sem fins lucrativos que pretende ajudar a encontrar um "Abrigo para a Vida" para cães e gatos que nasceram e nunca conheceram um lar ou que o perderam. Iniciámos a nossa atividade em outubro de 2018 e formalizámos a constituição, enquanto associação, a 25 de fevereiro de 2021.”


Quantos animais têm a vosso cargo neste momento?

57 gatos:

- 1 mamã ainda gestante (4 crias quase a nascer);

- 4 mamãs que já pariram;

- 29 bebés;

- 15 adultos de adoção muito difícil;

- 8 Juvenis;

11 cães:

- Todos de adoção difícil (resgatados de condições que comprometeram o seu comportamento futuro).


Como funcionam as FATs?

São famílias de acolhimento temporário cuja existência é fundamental para a nossa missão. Não temos instalações e, por isso, esta é a alternativa. Os bebés que são resgatados da rua, para serem encaminhados para adoção, terão de passar por um tempo de “quarentena” e também socialização, facto que irá alavancar o sucesso desse passo. 

Enquanto estão em FAT todas as despesas de alimentação e cuidados são de responsabilidade da Shelter.


Como podemos fazer doações?

Através dos meios disponíveis e indicados na página (Facebook e site): MBway, transferência bancária ou mesmo pagando valores de faturas em aberto diretamente nas Clínicas Veterinárias.


Como é que usam o dinheiro dos donativos?

Apenas para pagar o que devemos (custos veterinários, alimentação e estadia de cães em regime de hotel) e são insuficientes.

 

Como é que nos podemos voluntariar, se precisam de voluntários, e qual é o papel dos mesmos?

As inscrições de voluntariado estão disponíveis no site da Shelter.


Quais as maiores dificuldades que uma associação de ajuda animal enfrenta?

Conseguir FAT´s e ter recursos suficientes para pagar contas.


Muito obrigado.

Shelter 4 Life


INSTINTO

Instagram: @instinto.apac

MB Way e Urgência: 962 063 858 

IBAN: PT 50 0061 0050 00560344500 11

Site: https://instinto1.wixsite.com/associacaoinstinto (onde é possível ver os animais por adotar)


“Adopt, don’t shop” é uma frase cada vez mais repetida, por compaixão aos animaizinhos que não são escolhidos, mas que escolhem os seus donos, por destino ou por coincidência, e que enriquecem uma casa exatamente da mesma forma que um patudo escolhido e comprado. E a INSTINTO está cheia destes animais.

De acordo com o seu website, a Instinto – Associação Protetora de Animais da Covilhã foi criada a 30 de julho de 2012 e tem como objetivo promover a defesa direta e indireta dos direitos dos animais:

-Contribuindo para a melhoria das condições de animais em cativeiro ou em situação de abandono;

-Procurando novos donos para animais abandonados; 

-Intervindo junto das autoridades competentes no sentido de serem respeitadas as leis de defesa e proteção dos animais; 

-Promovendo e efetuando campanhas de sensibilização junto da população;

-Desenvolvendo atividades rentáveis (realizando peditórios públicos e recebendo doações de sócios e não sócios para alcançar os objetivos da associação);

-Participando na formulação e execução das políticas públicas, no que diz respeito à proteção dos animais, acompanhando as ações do poder público, bem como fiscalizando e aperfeiçoando a legislação em vigor; 

-Colaborando, em regime de voluntariado, com estruturas públicas e municipais, com o intuito de dignificar as condições dos animais que aí se encontram.

“Temos cerca de 100 animais que queremos ajudar a encontrar um lar. Toda a ajuda faz a diferença. Pode ajudar-nos?”



Deixamos o seguinte testemunho acerca daquilo que é ser Família de Acolhimento Temporário (FAT):


A capacidade física das associações é facilmente ultrapassada pelos muitos pedidos de ajuda que lhes chegam todos os dias. Por isso, surgiu o conceito de FAT, em que há uma família responsável por temporariamente dar o espaço, os cuidados e o amor a um patudo que deles necessite, sendo que os custos inerentes são totalmente suportados pelas associações. Oiço muitas vezes “então, mas depois não vais ficar com pena de eles irem embora?” Claro que sim, mas é um mindset diferente, e no fundo um reflexo do momento em que nos encontramos na nossa vida. Estamos num período transitório, a grande maioria de nós não vai ficar na Covilhã findos os seis anos do curso, até porque as oportunidades para tal são escassas (mas isso seria todo um outro artigo). E com essa incerteza, “para onde vamos?”, “onde vamos ficar?”, muitas vezes procuramos simplificar a nossa vida e não ter nem muita tralha, nem o compromisso de ter à nossa responsabilidade um amigo patudo, embora o possamos querer. O nosso papel como FAT é um de transição e adaptação dos bichinhos ao ser humano que nem sempre traz um selo de confiança na experiência deles. Ajudamo-los a aprender a confiar e a crescer na nossa companhia, a recuperar das suas outras vidas, na rua ou noutros sítios sem amor. E quando os vemos felizes, só podemos querer que tenham o carinho de uma família a vida toda, por isso a sua adoção é o continuar do caminho que queremos para eles. Para mim, é uma experiência gratificante e recompensadora, porque o amor que lhes damos, é retribuído 1000x. Ter uma companhia em tantas horas solitárias de estudo, é um raio de calor, afago e amor. Entrelacem a vossa passagem pela Covilhã com a vida de patudinhos lindos que podem ajudar a ser felizes, sejam FAT!


Deixamos o nosso agradecimento a todas as instituições, e esperamos que este artigo impacte pelo menos um leitor a disponibilizar algum tipo de ajuda! Muito obrigada.


Margarida Reis

Mariana Ferreira


sexta-feira, 21 de junho de 2024

Hora do Fusão: Assembleia Geral da Luta

junho 21, 2024 1
Hora do Fusão: Assembleia Geral da Luta

 



Em democracia, a voz de cada cidadão deve ser ouvida e respeitada. Advogar pelos nossos direitos é uma arma e o MedUBI fomentou esse mesmo espírito reivindicativo na última Assembleia Geral Extraordinária (AGE), pelas 19h30 de 4 de junho de 2024. Tendo lugar no Anfiteatro Amarelo da FCS-UBI, aqui foram apresentadas, discutidas e votadas um conjunto de Tomadas de Posição sobre diversas desigualdades e preocupações sentidas por todos nós. Aberta a toda a comunidade estudantil de medicina da UBI, a Assembleia Geral é o órgão deliberativo máximo do MedUBI e é o espaço onde devemos fazer com que a nossa voz seja escutada e conduza a ação do núcleo que nos representa.

Então, porque será que o anfiteatro não estava cheio, sabendo que se tratava de algo que, certamente, é de interesse público? Sim, as cerca de 40 pessoas presentes fizeram-se sentir, fosse com o levantar da mão para votar, fosse com intervenções e participações na discussão. Ainda assim, fica o sentimento de que devia estar mais gente envolvida no avanço de medidas urgentes para melhorar a nossa experiência universitária. Quiçá o nome “Assembleia Geral” seja o problema. Talvez mudá-lo para “Partir a Loiça Toda Extraordinariamente” resolvesse a adesão. Quer isto dizer que falamos da aprovação de documentos que lutam pela qualidade da alimentação na FCS, por trazer a PNA para a Covilhã e até pela gratuitidade dos transportes de estágio. 

Sem dúvida que ninguém está indiferente a estas matérias e de certeza que quase todos já desabafamos sobre elas com o nosso círculo de amigos, desejando até que “alguém fizesse alguma coisa”, ou comentando ainda que “ninguém se mexe". Evidentemente, o MedUBI tem a estrutura e meios para avançar com uma postura firme de forma a alcançar resultados, e precisa de participantes investidos nestes momentos para o fazer. Então, a que se devem as cadeiras vazias? Será que a aparente formalidade assusta/aborrece muitos estudantes de se integrarem nestes trabalhos? Poderá ser desconhecimento genuíno? Parecerá erroneamente um momento inacessível para os que têm interesse, ou não haverá sequer esse interesse para começar? Será que fazer uma “préda AG com finos e funk resolveria o dilema? Ou projetar Subway Surfers enquanto se discute a melhoria da vida dos académicos seria mais adequado para captar a sua atenção?

A verdade é que todos nos alimentamos, temos de ir ao estágio e podemos vir a enfrentar a PNA. Efetivamente, estes 3 temas deviam ser totalmente assegurados pelas instituições de ensino competentes, às quais pagamos para ter acesso e que, ainda assim, falham na execução rigorosa, justa e acessível destes serviços. Por se tratarem de assuntos que são nossos direitos, urge a necessidade dos estudantes pressionarem os órgãos de ensino para que exista um real empenho e brio no cumprimento dos seus deveres enquanto tal.

Primeiramente, abordou-se como se consegue zelar pela alimentação saudável dos alunos - somos uma escola médica que não cuida dos seus estudantes neste aspeto crucial do bem-estar físico e mental. Seja a falta de oferta de produtos não processados no bar e máquinas de venda automática, seja na fraca reposição de refeições vegetarianas na cantina, existem muitos aspetos a otimizar neste âmbito. Uma colega presente na Assembleia acrescentou ainda a esta Tomada de Posição que o refeitório da FCS devia estar aberto ao jantar, como acontece noutros polos da UBI, sugestão essa incorporada no documento por ter sido “aprovada por unanimidade”, como a Presidente da Mesa da AG proferiu. 

Relativamente aos transportes que temos de pagar para frequentar atividades letivas obrigatórias, basta dizer que ninguém gosta de gastar dinheiro. Com a aprovação desta Tomada de Posição, espera-se que a direção da FCS-UBI reconheça que é um problema gastarmos até 40 euros por mês em senhas de autocarro para se ir ao estágio, sem o qual é impossível acabar o curso. Além dos quase 700€ anuais, muitos de nós encontramo-nos deslocados das nossas terras natais para estudar cá, o que, obviamente, acarreta em si ainda mais custos extra. Portanto, não é justo existir esta despesa adicional que já deveria estar contemplada nas propinas que nos extorquem.

Outrora, a prova nacional de acesso à especialidade era realizada na Covilhã. Desde 2019 que a mesma já não se realiza cá. Não sabemos bem o porquê; aliás, não concordamos com as justificações apresentadas na altura desta alteração. O que é facto é que o recém-formado médico ubiano tem que se deslocar para uma cidade diferente, alugar um quarto desconhecido e enfrentar um isolamento desnecessário naquele que é um dos dias mais importantes da sua vida profissional. Ou seja, obstáculos sociais e monetários que alunos de Lisboa, Porto ou Coimbra não têm de ultrapassar e que criam uma discrepância de pontos de partida da performance no exame. Terá o mar outro encanto que a serra não tem? O MedUBI, ao declarar que a cidade neve tem os meios de acolher a prova, pressionando o Ministério da Educação, Ciência e Inovação, a Câmara Municipal, a Reitoria, a Administração Central do Sistema de Saúde e o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas, está a mostrar que a serra tem tanto de sublime quanto o mar, e que devemos ser valorizados, terminando esta injustiça. 

O Interior, como todos nós sabemos, foi deixado ao abandono ao longo de sucessivos anos em prol do litoral. O que é certo é que cada um de nós que escolheu esta cidade para chamar de casa consegue perceber a coroação que Amália lhe deu quando cantou: “Covilhã cidade neve (...)/ És das beiras a rainha”. E, por ser a Rainha, é que continua a cativar cada vez mais e mais estudantes. Por isso, cabe-nos a nós zelar e lutar para que não se desonre o prestígio serrano que a fadista aqui plantou, a fim de que os futuros alunos herdem uma casa melhor que a que nós encontrámos.

Sendo preocupações e desejos comuns a todos, uma participação proativa e dinâmica torna-se essencial, nem que sirva só para mostrar a inquietude daqueles que almejam construir uma academia ativa e preocupada com quem cá está. Afinal de contas, cada um de nós, ainda paga as tão familiares propinas! E não existe um sítio melhor para desabafar dos problemas da faculdade e para trabalhar por uma comunidade estudantil mais forte e interessante do que as Assembleias Gerais do MedUBI: talvez não se vendam finos nem passem funk lá dentro, mas até podes conhecer aqui pessoas novas para ires aos copos depois dela acabar.


Guilherme Fernandes

Tiago Ramos


sexta-feira, 14 de junho de 2024

ADHD? Espera, estou só a procrastinar

junho 14, 2024 0
ADHD? Espera, estou só a procrastinar





João, 22 anos, estudante do 4º ano de Medicina, será submetido a exame de Nefrologia na próxima semana. Abre o computador e descobre que tem, aproximadamente, 453 slides para estudar. De seguida, abre outro separador e, (in)conscientemente, abre a página do Instagram e vê que os seus amigos lhe enviaram 7 reels - “oh não, o conteúdo curto, brilhante e imediato que nos é oferecido diariamente estragou a minha capacidade de concentração”. Verifica a data do exame, “ainda tenho tempo”. Olha para a janela e está um sol radiante. Liga a um amigo e vão tomar café. Chega à noite a casa e apercebe-se que magicamente o conhecimento não tomou conta dele, que devia ter estudado. “Não me consigo concentrar. Até a minha mãe diz que parece que tenho espetos na cadeira, não consigo estar quieto a estudar. Eu devo ter ADHD”, ocorre-lhe o pensamento porque ainda não teve Psiquiatria e ouviu falar disso na televisão.

Não, isto não é um caso real. Mas será que é um caso assim tão distante da realidade? Quantos de nós deixamos obrigações para depois? Quantos de nós nos justificamos com “eu juro que trabalho melhor sob pressão”? 

A procrastinação é um fenómeno intrigante e paradoxal que, apesar de tão comum, carrega uma complexidade psicológica profunda. Na sua essência é o ato de adiar ou evitar tarefas, mesmo tendo consciência que daí podem advir consequências negativas. É adiar o ginásio mais um dia, porque hoje não dá jeito. É “começo a limpar a casa depois deste episódio,... depois deste,... não agora é que é”. É uma constante batalha interna onde nos deparamos com uma resistência aparentemente inexplicável.

A grande novidade, que não surpreende ninguém, é: todos procrastinamos. Mas ter ADHD é diferente. Se observarmos um único comportamento associado a ADHD, isoladamente, é algo que pode acontecer a qualquer pessoa. ADHD começa quando vários tipos desses comportamentos ocorrem repetidamente, e interferem no dia a dia de quem tem esta condição.

Mas então o João tem ADHD? Ou é só procrastinador nato? A Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade (PDAH ou ADHD se preferirem dizer em inglês) é uma condição neuropsiquiátrica complexa que afeta tanto crianças quanto adultos, reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), pode impactar significativamente a vida académica, profissional e social dos indivíduos.(1)

A PDAH manifesta-se por meio de dois conjuntos principais de sintomas: desatenção e hiperatividade/impulsividade, que podem ocorrer de forma isolada ou combinada. Assim, pessoas com PDAH podem apresentar dificuldade em manter o foco, distraem-se facilmente (quer seja com estímulos externos ou pensamentos irrelevantes que os desviam constantemente da tarefa em mão) e têm tendência para a desorganização. Podem apresentar uma inquietação constante, dificuldade em permanecer sentado e até mesmo comportamentos impulsivos, como interrupções frequentes em conversas ou decisões menos ponderadas.

O diagnóstico da PDAH é clínico, baseado numa avaliação detalhada dos sintomas e do seu impacto na vida diária. Profissionais de saúde mental, como psiquiatras e psicólogos, utilizam critérios do DSM-5, questionários, entrevistas e, às vezes, testes neuropsicológicos para confirmar o diagnóstico.

Mas existe uma solução e é perfeitamente gerível. O tratamento da PDAH é multifacetado, e envolve frequentemente uma combinação de medicação e terapia comportamental. Apesar dos desafios, com o diagnóstico e tratamento adequados, muitas pessoas com PDAH conseguem levar vidas produtivas e satisfatórias. É crucial aumentar a consciencialização e a compreensão sobre a PDAH para promover um ambiente de apoio e aceitação, permitindo que indivíduos com a patologia alcancem seu potencia máximo. E talvez parar de banalizar o “juro, tenho ADHD, fiz um daqueles testes que aparece na internet.”


Trazemos-vos então, leitores, uma entrevista com uma colega de medicina que está, de facto, diagnosticada com PHDA, para ser possível compreender melhor a diferença entre a procrastinação e esta condição.


Quais são os desafios de viver com PHDA não diagnosticada?

Em primeiro lugar, o mais importante é perceber que cada pessoa tem a sua experiência e vivência com esta condição. Nem toda a gente apresenta os mesmos sintomas. Durante todo o meu percurso escolar antes do ensino superior vivi com PHDA não diagnosticada. Sempre tive que trabalhar o dobro que os meus colegas para alcançar resultados parecidos e, com a entrada em Medicina, deixei de ser capaz de ultrapassar sozinha as dificuldades... Era muito fácil deixar os pensamentos intrusivos governarem e não conseguir ouvir: "Vou estudar, sou capaz".


O que mudou com o diagnóstico?

Comecei a aceitar que o que antes conseguia batalhar sozinha é algo de que me devo orgulhar, mas que não faz mal ter ajuda. Assim, com 20 anos, comecei uma medicação específica para o PHDA (Elvanse) e monitorização psicológica e psiquiátrica.


O que mudou com a medicação?

Consigo notar uma diferença na quantidade de informação que consigo reter num determinado período de tempo. É importante referir que a medicação não é uma poção mágica que torna tudo fácil. Ainda me questiono muitas vezes o quanto é PHDA, o quanto é procrastinação e o quanto é apenas preguiça.


Quais os efeitos negativos da medicação?

É uma anfetamina e, nas festas, não se deve misturar bebida e anfetaminas! Para além disso, há um aumento nos tremores fisiológicos e da ansiedade (porque PHDA e ansiedade não é o melhor…) Outra coisa negativa é o preço. A Ritalina é mais barata. O Elvanse leva a perda de apetite e, sendo um estimulante, tem potencial para o abuso e dependência. Pode ainda levar a cardiopatias, hipertensão...


Como enfrentas a PHDA? E a procrastinação?

Para a PHDA tenho a medicação para me ajudar e a procrastinação é uma batalha a continuar, mas na qual não estou sozinha. Nem toda a gente pode rever-se num diagnóstico de PHDA, mas toda a gente tem momentos na vida que procrastina. “A motivação é algo que aparece com o tempo e trabalho.”


  Quais os aspetos da tua vida que sentes mais perturbados por este transtorno, que achas que não se verificariam caso se tratasse apenas de procrastinação?

Como referi anteriormente, nem todas as pessoas apresentam os mesmos sintomas, mas um dos mais comuns é a dificuldade de levar uma tarefa até ao fim. Assim, diria que o facto de começar uma tarefa e passado cinco minutos estar a fazer outra, tem mais a ver com a PHDA do que com a procrastinação. 

A procrastinação, a meu ver, é adiar o começo de uma tarefa (escrever uma entrada do portefólio) para continuar a fazer algo que nos dá prazer (como ver uma série). Uma pessoa sem PHDA procrastina, por exemplo, a ver uma série, enquanto uma pessoa com PHDA procrastina vendo uma série mas em simultâneo ao estar no instagram, a responder a mensagens no whatsapp… nunca se focando numa só coisa de cada vez. 

Para além disso, uma pessoa sem PHDA procrastina em tarefas que não gosta ou nas quais não tem interesse. No entanto, uma pessoa com PHDA procrastina em quase todas!


Como te sentes quando as pessoas dizem ter PHDA por não se conseguirem concentrar?

Sendo o PHDA muito mais conhecido é muitas vezes erroneamente usado, mas ao mesmo tempo há muitas pessoas por diagnosticar. Por isso, o importante é, se necessário, irem a quem, de facto, saiba fazer o diagnóstico.


Para acabar numa boa nota, a todos vocês caros leitores que são apenas procrastinadores e não encontraram uma solução mágica neste artigo, não se esqueçam que, por trás da procrastinação, muitas vezes, reside uma teia de emoções complexas, como o medo do fracasso, a ansiedade, a falta de autoconfiança e, paradoxalmente, o perfeccionismo. O medo de não cumprir as expectativas – sejam elas autoimpostas ou externas – pode paralisar a ação, levando à procrastinação como uma forma de evitar o desconforto emocional. Além disso, a tarefa em si pode parecer tão avassaladora ou aborrecida que procuramos alívio imediato em atividades mais prazerosas ou menos exigentes. Vejamos a procrastinação como um lembrete de nossa humanidade, de nossas falhas e aspirações. Mas sejamos desafiados a encontrar maneiras de superar a inércia, a confrontar nossos medos e a cultivar a disciplina necessária para transformar intenções em ações.



  1. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.



Autores: Maria Monteiro e Margarida Reis

 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Fake It Till You Make It: Desafios na Carreira Médica

junho 07, 2024 0
Fake It Till You Make It: Desafios na Carreira Médica


Ser estudante de medicina é, nos dias que correm, quase um título por si só. Talvez por concretizar as aspirações de tantos que ficaram aquém; talvez porque para o alcançar é preciso sangue, suor e lágrimas que muitos dispensam investir (ou ser “descendente em linha direta de beneméritos insignes ainda vivos”, se isso vos disser alguma coisa). Assim, e como qualquer título que se preze provém do reconhecimento de algo, em nós reconhece-se um perfil gerado pela expectativa social, que a todo o custo se tenta fazer cumprir. 


Para construir a reputação necessária no meio académico, os estudantes mostram, atualmente, recorrer em larga escala ao fake it till you make it - estratégia que tem vindo a crescer em popularidade, sendo o seu êxito validado por profissionais de saúde mental, bem como em várias áreas da investigação. De facto, alguns psicólogos classificam-na como uma forma de terapia de ativação comportamental, método que se tem mostrado muito eficaz na alteração de padrões de comportamento.[1]


O conceito de fake it till you make it refere-se à ideia de projetar autoconfiança, com o intuito de acreditar que se é capaz de alcançar um objetivo para o qual ainda não se tem as habilidades que o exigem.[2] Para além de caracterizar uma forma de pensar, concretiza-se, na prática, por um conjunto de comportamentos que cooperam para construir a imagem exata que queremos apresentar aos olhos dos outros. E, desta forma, trazemos essa versão idealizada para a realidade, um passo de cada vez - demonstrando a influência da componente psicológica no nosso desempenho. É, de uma forma leiga, dizer que nos enganamos a nós próprios.


Já em jovens médicos, este conceito mostra-se ainda mais generalizado, com particular incidência em internos de especialidades cirúrgicas: durante o processo de desenvolvimento de uma “identidade de cirurgião” - que compreende uma postura confiante e assertiva, visando responder à perceção das expectativas externas -  é comum desenvolverem-se mecanismos como o fabrico e/ou omissão de informação, ou mesmo a recusa de ajuda, de forma a evitar ações que criem uma perceção de fraqueza.[3]


Para além disso, a mudança drástica que traz o Ano Comum exponencia ainda mais a sensação de necessidade de integração na exigência do meio médico, mostrando uma postura competente e segura, apesar do mar de expectativas a cumprir. Para entender melhor a perceção de cada parte, falámos com a Cátia Batista e o João Lopes, estudantes do 6º ano, e com a Dra. Inês Lopes, Interna de Ano Comum.


Que tipo de estratégias usaram ou observaram, durante o curso, para afirmar a identidade de “estudante de medicina”?


Cátia Batista - Há pessoas que criam studygrams ou fazem vlogs a estudar e, ao estarem mais conectados com outros estudantes de medicina nas redes sociais, isso acaba também por funcionar como um suporte para elas. Da minha perspetiva, eu acho que vi mais o tentar fazer coisas relacionadas com medicina, mas não tanto com a questão do estudo. Se calhar a estratégia que vou relevar mais é a relação com a parte organizativa: perceber o que está a acontecer no nosso currículo médico, se está bem construído; perceber se a nossa faculdade funciona bem como instituição e se o nosso curso de medicina funciona bem - ou seja, tentar ver mais as coisas a um nível organizativo. Isso também é uma maneira de nos afirmarmos como estudantes de medicina, sermos intervenientes na nossa própria educação. E acho que isso é muito importante.  


João Lopes - Aproveitando exatamente o que a Cátia disse, eu acho que me tornei mais estudante de medicina quanto mais me afastava de ser estudante de medicina. Ou seja, sinto que a minha identidade, o estatuto de estudante de medicina, ficou mais afirmado desde que entrei para o associativismo. Quanto menos eu estudava, quantas mais aulas ou estágios faltava - não por ficar a dormir, mas por fazer parte de uma associação - mais me aproximava da comunidade, quer estudantil, quer aquela à nossa volta. Acabamos por lidar com coisas relacionadas com medicina, e com outras não relacionadas: todas elas me foram tornando o mais próximo de um médico que eu neste momento consigo ser. Não foi propriamente o estudo que fez isso. Então acho que, se não tivesse participado em nenhuma atividade extracurricular, não seria de todo tão rico. Isso também me penalizou porque não aprendi tanto, por assim dizer, mas aprendi o que considero ser mais importante. E o resto vem a seguir. Relativamente a outras estratégias: a tal frase "quanto menos tempo tens, mais tempo tens" é verdadeira - eu observei isso no meu caso. Por isso: estejam bem, façam coisas que gostam, não prescindam de nada - é ir um bocado contra a ideia de que estamos sempre a estudar. Nós temos de ser muito metódicos e sacrificar muita coisa, mas a seu tempo. O que eu fiz menos em medicina foi estudar, pelo menos nos últimos anos, e acho que não vou ser pior médico por causa disso. 


CB - E construir a nossa identidade como médicos, como o João estava a dizer, também é pegar naquilo que nos é querido para a nossa alma, e fazer com que isso nos torne mais ricos como médicos. Se nós gostamos muito de arte, de música, do que quer que seja - a arte também tem uma componente que nos aproxima mais das pessoas e que nos permite ser mais empáticos. E a comunicação em si, também acho que é essencial.

 

Sentem-se confiantes e preparados para o Ano Comum, ou têm algum receio que queiram partilhar?


JL - Acho que isto é um bocado geral. Nós achamos que agora o ano comum vai ser a sério, mas não estamos de todo preparados para nada. Ao mesmo tempo, o feedback que temos tido dos nossos colegas mais velhos é de que é um dos melhores anos do nosso percurso de formação enquanto médicos, e é um dos anos em que vamos aprender mais. Então acho que estou entusiasmado nesse sentido: estou mais ansioso do que nervoso. Não sei o que me espera, só tenho as ideias que criei na minha cabeça do que é o Ano Comum, mas estou ansioso.


CB - Eu acho que partilho um bocadinho do sentimento do João. Se calhar, tenho um bocado de receio à mistura, mas é principalmente ansiedade. Agora que estamos numa altura em que temos de estudar muito, só conseguimos ver a altura em que vamos ser médicos, ganhar dinheiro, exercer a nossa profissão - que tanto tempo demorou até aí chegar. Em termos de preparação, não me sinto assim tão preparada, mas acho que nunca estamos 100% preparados. E os principais receios são mesmo que, por estarmos a lidar com pacientes - apesar de ser Medicina Tutelada - acabamos por estar muito próximos dos mesmos, e que os meus gestos clínicos e as minhas atitudes como médica não sejam as mais adequadas, e causem dano. O maior receio é causar dano. Mas aquilo que nós podemos fazer para controlar isso é prepararmo-nos o máximo possível, e tentarmos dar o melhor de nós enquanto médicos. E aquilo que fomos adquirindo ao longo do curso também pode ajudar nisso.


JL - Para ir um bocado de encontro ao intuito disto: eu acho que o que tivemos mais próximo do Ano Comum foi o estágio de 6º ano, que é excelente. Nomeadamente o de Medicina Interna, que é muito bom para nos preparar para o ano comum. Nós estamos lá alguns meses e de facto começamos a sentir que estamos a fazer o mesmo que um um médico. Às vezes somos nós que vemos os doentes, então de certa forma ganhamos um bocado de responsabilidade e percebemos que se calhar até estamos preparados, só precisamos de aprender mais. Mas isto é transversal a toda a gente: acho que a melhor abordagem é fake it till you make it. Eu tenho tido bons resultados.


CB - E se nós acreditarmos que somos capazes, vamos tornar-nos mais capazes também.


JL - Quanto mais as pessoas acreditarem que estás preparado, mais segurança vão ter em ti. Ou seja: um paciente, quando te vê, não sabe o teu percurso. No ponto de vista dele, tu sabes tanto como um médico, ou deverias saber. Portanto, acho que temos de ter confiança em nós; ou fingir a confiança que não temos, e a partir daí ela constrói-se. 


Qual é a maior expectativa que têm relativamente ao próximo ano?


CB - Eu acho que tenho expectativas altas: que seja o culminar daquilo para que estudei, daquilo para que me preparei; muita expectativa de que o meu raciocínio clínico fique o melhor possível, e que se torne mais rápido. Também a expectativa de poder aprender muito com quem me rodeia, não ter receio de pedir ajuda - isso é uma das coisas que quero levar mais para o Ano Comum. É muito importante sermos confiantes, mas também temos de perceber quando não sabemos isto, quando temos dúvidas sobre aquilo, e perguntar. Uma das expectativas que também tenho é de construir boas relações com os colegas de trabalho, que é muito importante. E também que encontre diferentes formas de ser médica - até agora encontrávamos diferentes identidades de um estudante de medicina - e que encontre o meu "eu" médico, e continue a enriquecer-me, não apenas como médica mas nos outros campos da minha vida. 


JL - Eu vou ser um bocado mais fundamentalista, acho que a maior expectativa que tenho é ver se de facto eu queria mesmo ser médico. Eu sinto que as expectativas se vão cumprir - e, à partida, são tantos anos de formação que acho que já tivemos tempo de perceber se queremos isto ou não, mas nunca vamos perceber mesmo até estarmos lá. Mas se eu perceber que não era isto que eu queria, há muitas outras oportunidades; a medicina é muito vasta, não precisamos de fazer todos o mesmo. E não me posso esquecer, obviamente, da expectativa de receber um ordenado, e transicionar para a idade adulta e para a vida de adulto que todos ambicionamos.

 

Tendo em conta a tua experiência durante este ano, para o que é que sentiste que o curso te preparou melhor? E para o que é que estavas menos preparada?


Inês Lopes - O pior do ano comum, no início, é que já não estás em estágio - tens um sentido de responsabilidade ainda maior. E na Covilhã nós temos bastante estágio. De certa forma, já estás habituado ao ambiente hospitalar, às questões hierárquicas que se colocam, e percebes o papel que deves ter com os outros profissionais de saúde. Ou seja, não acho que para nós o mundo hospitalar seja uma coisa nova, e isso é bom. Acho que o curso, em específico na Covilhã, nos ajuda muito nisso: o seres proativo, saberes as linhas gerais do teu trabalho, e a partir daí seres um bocadinho independente nesse sentido. E como estás habituado a estar no hospital, tens mais à vontade com os mais velhos para os procurar e colocar as tuas dúvidas. Porque não deixa de ser Medicina Tutelada, não sinto que seja uma coisa totalmente nova.

O ano comum é muito dependente dos estágios que tens. Não acho que seja algo para o qual estamos menos preparados, mas é uma situação em que sais da tua zona de conforto, e tens de saber lidar com isso. Acima de tudo, de uma forma geral, tens de ter confiança em ti e no que tu sabes - já és médico, mas também ter humildade para perceber que tens muito pouca experiência, e não ter medo de pedir apoio dos mais velhos, porque é o dever deles. Ou seja, estás sempre um pouco na incerteza, mas eu acho que a maioria das pessoas estão preparadas.


Consegues identificar alguns comportamentos-padrão nos internos que sejam causados por essa pressão?


IL- Acho que onde isso se pode dizer que acontece com mais frequência é em internatos de especialidade. Eu não sinto mesmo pressão. O que eu acho é que no hospital é tudo muito hierarquizado, sem dúvida. Mas uma coisa é trabalhar numa urgência; outra é trabalhar no internamento, que à partida é mais tranquilo. Mesmo assim, há dias em que há menos gente, e tu tens de perceber que as pessoas que têm mais responsabilidade ficam nervosas, e podem falar de forma um bocadinho pior contigo. Em certos casos pode acontecer propositadamente, por estarem num patamar superior ao teu, falarem contigo de um pedestal um bocado inexistente. Mas eu acho que lidar com egos é uma coisa que fazemos desde sempre. 

Enquanto interno de formação geral, o teu papel é mesmo perguntar. Não tens de saber tudo nem de fazer nada sozinho. Mas tens de te proteger a ti, porque dessa forma também estás a proteger os doentes. Não podes deixar que te calquem. Às vezes é uma questão de escolher batalhas: casos específicos que estão a afetar a tua vida profissional, deves sempre discutir com os teus colegas, e com os superiores que podem mudar alguma coisa. 


Enquanto finalista, tinhas alguma expectativa/ideia sobre a profissão que acabou por não corresponder de todo à realidade? 


IL - Na Covilhã tens uma vida muito particular, crias a tua bolha e a tua família. No final do 6º ano eu estava ansiosa por deixar essa vida e começar a trabalhar, mas depois custou-me um bocadinho. Primeiro porque, como sempre quis ser médica, achei que ia acordar todos os dias feliz e contente para ir para o hospital trabalhar. E fiquei um bocado na dúvida: será que é mesmo isto que eu gosto? Mas depois há dias em que estás a aplicar coisas que aprendeste numa pessoa real, e vês como é que tu podes contribuir positivamente para a vida de uma pessoa que está doente. 

Acho que o que custou mais foi a rotina mudar completamente, mas vais criando amizades, e crias formas de colmatar essas coisas. Por outro lado, é um ano que se deve aproveitar da melhor forma que se conseguir: enquanto estamos no hospital, aprender com os mais velhos, e perceber bem como funciona o meio hospitalar e da saúde. Ao mesmo tempo, como é o último ano em que temos muito tempo livre, aproveitar para aprender uma língua, ir para o ginásio, viajar, conhecer novas pessoas. Em conclusão, apesar das minhas expectativas serem um bocadinho diferentes, não está a ser pior ou melhor. Está a ser só diferente. Mas é o ano em que estás a enraizar-te na vida de ser médico. E acho que podemos tirar muitas coisas dele. 


Carolina Troia

1. Bologna, C, “Fake It Till You Make It” Isn’t Just A Cliché. It’s Backed By Science. HuffPost. 2022. https://www.huffpost.com/entry/behavioral-activation-fake-it-til-you-make-it_l_62d7140ae4b0aad58d139763 

2. L Mann, D, Fake It Till You Make It. PubMed Central. 2022;7(1):99-100. https://doi.org/10.1016%2Fj.jacbts.2021.12.004 

3. Patel, P., Martimianakis, M. A., Zilbert, N. R., et al., Fake It ’Til You Make It: Pressures to Measure Up in Surgical Training. Academic Medicine. 2018;93(5):769–774. https://doi.org/10.1097/ACM.0000000000002113